Se eu pudesse pedir ao tempo, não lhe pedia que voltasse atrás. Pedia que tivesse mais piedade. Que abrandasse só um bocadinho. Que se deixasse ficar mais tempo nos domingos vagarosos em casa dos avós, no cheiro do arroz de cabidela a sair da cozinha, no café da manhã com manteiga a derreter no pão ainda quente, no tilintar das chávenas e no aconchego do colo que não se apressa.
Se eu pudesse pedir ao tempo, pedia mais dessas pessoas que sabiam viver sem ecrãs, mas com a alma cheia. Gente que não precisava de mostrar fotografias para se sentir vista. Gente que não precisava de dizer que amava — porque amava nos gestos. Nos olhos. No prato posto à nossa frente. Na mantinha dobrada no sofá. No casaco que punham em cima dos nossos ombros, sem uma palavra.
A minha avó Rosa ainda se pinta com baton vermelho. Não é para ninguém ver. É para ela. Porque aprendeu, com a vida, que mesmo nos dias cinzentos é preciso encarar o mundo com firmeza e uma pontinha de vaidade digna. Gosta de se arranjar como quem escolhe viver com graça. Era pessoa de café com amigas, de missa na Sé, de dar dois dedos de conversa sem pressa. Mulher das pessoas. Com um coração no sítio certo e uma maneira simples de estar — daquelas que não impõe, mas marca.
O meu avô António foi-se cedo demais. Era um homem do caraças. Daqueles que já se veem pouco. Tinha sabedoria nas mãos e silêncio nos olhos. Ouvia muito, falava pouco, e quando falava era para dizer o que ficava. Ensinou-me a ler, sim. Mas ensinou-me, mais do que isso, a entender o mundo com olhos atentos e coração aberto. Dizia-me sempre, com uma calma que ainda me embala:
“Na agitação da vida, não percas o rumo. Saber para onde vais é mais importante do que ir depressa.”
E talvez nos falte isso hoje: rumo.
Falta-nos quem nos ponha a mão no ombro e diga: “Tem calma, vais lá.”
Falta-nos quem saiba que as respostas não estão no ecrã, mas no tempo partilhado, na escuta, na espera.
Falta-nos gente que fale baixo, mas nos diga tudo.
Estamos a perder essa gente. Devagarinho, mas estamos.
Vai-se a geração que sabia fazer render o pouco, que sabia o valor do pão e da palavra. Vai-se o jeito de viver com pouco barulho e muita alma. Vai-se a ternura de quem esperava o carteiro com paciência, de quem sabia os dias da semana pelas sopas e pelos programas da rádio. Vai-se essa nobreza de espírito que não fazia alarde de nada, mas fazia tudo com cuidado.
Talvez nasçam corações novos — claro que sim — mas falta-lhes essa simplicidade de raiz, esse saber leve e profundo. Os avós não prometiam o céu — davam-nos chão. E com esse chão, faziam-nos crescer. Mostraram-nos que a vida é feita de pequenos gestos, de mesas cheias e de ausências que, um dia, deixam um silêncio que nunca mais se preenche.
Se eu pudesse pedir ao tempo, pedia mais avós.
Mais dessas pessoas que sabem cuidar sem invadir.
Que nos sabem ver por dentro.
Que dizem pouco, mas estão sempre.
Que nos aquecem com uma chávena de chá e uma história contada pela centésima vez. E ainda assim, escutamo-la como se fosse nova.
Se eu pudesse pedir ao tempo, pedia que não levasse tudo. Que deixasse em nós o que eles nos deixaram. Que nos tornasse capazes de continuar a sua ternura, a sua firmeza, a sua lucidez.
Porque os avós deviam ser eternos.
E como não são, sejamos nós eternos quando os lembramos.
No gesto com que viramos o arroz. No avental que voltamos a usar. Na receita que tentamos fazer. No modo como escutamos alguém que só quer ser escutado.
Se eu pudesse pedir ao tempo, pedia isso.
E se não for pedir muito… pedia que nunca deixássemos de sentir falta deles.
Porque é nessa falta que vive o amor mais puro que alguma vez conhecemos.
E, se não for pedir muito, pedia que ele nos esperasse.
Que não levasse tudo. Que deixasse ficar, em nós, o que de melhor essas pessoas nos deixaram.
Porque talvez, só talvez, ainda haja esperança se conseguirmos lembrar-nos — e parecer-nos — com eles.