Nas últimas semanas, Portugal confrontou-se com relatos devastadores: agressões sexuais em grupo entre adolescentes, partilha não consensual de vídeos íntimos, imagens de jovens universitárias a circular em grupos de mensagens com milhares de membros. O caso de Loures, a denúncia na FEUP, os 70 mil membros num grupo de Telegram onde se traficavam imagens roubadas — são apenas os mais recentes capítulos de uma realidade que está longe de ser nova.

Segundo a APAV, só em 2023 foram registados 1.760 crimes sexuais contra crianças e jovens, um aumento de quase 30% face a 2022. Dados da DECO Jovem revelam que 37% dos jovens portugueses já receberam imagens íntimas sem consentimento, e 8% admitiram tê-las partilhado. A Convenção de Istambul, assinada por Portugal, recomenda que os crimes de violência sexual sejam tratados como crimes públicos. No entanto, em pleno 2025, a violação em Portugal continua a ser um crime semipúblico — só avança se a vítima apresentar queixa, exceto em situações muito específicas.

Estamos perante um sistema que não protege. Que deixa milhares de vítimas sem resposta. Que permite que vídeos de agressões tenham 32 mil visualizações sem que o algoritmo ou a indignação coletiva travem essa propagação. Um sistema que não ensina aos jovens o que é consentimento, dignidade, ética digital.

Mas também estamos perante uma sociedade que começa, finalmente, a levantar a voz.

O que está em causa não são só “casos isolados”. É a banalização da violência sexual. E a responsabilidade é de todos: política, educativa, cultural.

O Governo tem de agir — e já devia ter agido. É urgente tornar a violação um crime público, em linha com a Convenção de Istambul. A educação sexual nas escolas tem de ser reformulada e tornada obrigatória, transversal e prática — com espaço para falar de relações, de respeito, de limites e de empatia. A cidadania digital tem de estar nos currículos. A internet é hoje território da vida dos jovens — e também da sua violência.

Mas o Estado não está sozinho neste desafio.

As organizações da sociedade civil têm um papel transformador. Há projetos no terreno que provam que é possível capacitar os jovens para serem agentes de mudança — e não meros espectadores da violência. Movimentos como o “Não Partilhes”, campanhas de jovens ativistas, projetos que trabalham com escolas, comunidades e famílias, mostram que a educação para a cidadania não se faz só com leis. Faz-se com escuta, empatia, exemplo. Faz-se de dentro para fora.

Na manifestação de 5 de abril, ouviu-se bem alto: “O silêncio protege os agressores.” Mas também ouvimos algo mais poderoso: “Nós somos a mudança.” E somos mesmo.

Enquanto cidadãos, temos a responsabilidade de recusar assistir ou partilhar conteúdos íntimos não consensuais, denunciar sempre que possível, e conversar com os nossos filhos, irmãos ou alunos sobre respeito e limites. Enquanto educadores, técnicos ou organizações, cabe-nos criar espaços seguros de diálogo, trabalhar com as escolas desde o pré-escolar ao secundário e apostar em metodologias participativas que deem voz aos jovens e os responsabilizem. E enquanto país, temos o dever de alinhar a lei com os direitos humanos e com a realidade atual, proteger as vítimas sem as obrigar a carregar sozinhas o peso da justiça, e garantir financiamento estável e estruturado para projetos de prevenção e educação.

Não é só sobre punir. É sobre prevenir. Não é só sobre mudar a lei. É sobre mudar mentalidades.

E, sim, vai levar tempo. Mas cada voz conta. Cada ação conta.

E se “partilhar” tem sido usado como arma, também pode ser usado como resistência. Partilhem mensagens de esperança. De empatia. De consciência. Partilhem projetos que cuidam, protegem e transformam. Partilhem o compromisso de que este país vai, finalmente, deixar de falhar às suas vítimas.