Ao decidir acabar com um projeto educativo de sucesso como o foi a EB123/PE do Curral das Freiras, o governo regional da Madeira decidiu que a inovação e a modernidade não são o caminho escolhido. Sem explicar os motivos da extinção, mas quem acompanhou o processo sabe quais são as verdadeiras intenções. O governo regional descredibilizou a escola pública, tornando-a dispensável, pois é demasiado cara, tem problemas insanáveis e por vezes pessoas incontroláveis, numa clara estratégia de tentar desmerecer o seu papel social e desvalorizar a sua missão.

Custo de oportunidade é um conceito económico que significa, grosso modo, aquilo que estamos a abdicar para ter aquilo que temos agora. Digo-vos, um sistema educativo aquém das suas inúmeras potencialidades tem um custo de oportunidade elevadíssimo. Perdemos muito por não oferecer ferramentas de sucesso aos alunos, perdemos por não fazer os alunos acreditarem no seu talento e perdemos por não superar as mentalidades que não escapam ao local, ou seja, que não são capazes de tirar pleno proveito de um mundo tecnológico, digital e globalizado. Por outro lado, uma mentalidade chauvinista e revanchista nos lugares de topo cria custos invisíveis que vão desde o stress ao burnout. Tenho uma profunda preocupação com o nosso futuro coletivo e pela nossa crónica dificuldade de criar capital social, do modo como sistematicamente dificultamos o sucesso do talento “sem pedigree” na Região Autónoma da Madeira (RAM).

Afirmam diferentes especialistas que “as hipóteses de os jovens terem uma carreira de sucesso dependem fortemente das suas origens socioeconómicas e do capital humano dos pais”. Diz a Constituição da República que o Estado deve garantir a existência de uma rede pública de estabelecimentos de ensino livre e de qualidade, que sirva as necessidades e os interesses das populações, assegurando a igualdade de oportunidades e o progresso social, sem exclusões. O atual sistema de ensino não potencia a existência da escola enquanto elevador social. Urge reativá-lo para que não continuemos a perder gerações.

Existem muitos professores na RAM que são verdadeiramente excecionais, muitos são cultos e têm um profundo e sistemático conhecimento das matérias que lecionam. Porque será que este talento não se traduz em resultados objetivos como os testes PISA e outros indicadores de sucesso educativo demonstram? Porque será que estamos distantes de colocar sistematicamente alunos nas faculdades de topo do país e da Europa? Podem sugerir sardonicamente que estou a ser demasiado ambicioso, mas confesso que gostava de ver mais madeirenses nas melhores universidades do continente europeu, confesso que gostaria de ver a nossa região como um exemplo de excelência não só no âmbito nacional como internacional. É ambicioso, é verdade, mas esta ambição não é vã, prende-se exclusivamente com os alunos que já encontrei. Temos uma juventude de talento. Muitos acreditam que a nossa juventude perdeu valores face aos seus progenitores, não acredito nisso. Vejo que muitos alunos têm enormes dificuldades em singrar, aliás, vejo que a minha geração teve muito mais oportunidades que as gerações atuais. Também no campo da esperança, a minha geração foi muito mais favorecida.

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