Há uma nova regra na política portuguesa que ninguém escreveu, mas que começa a ser difícil não notar: antes de discutir uma proposta, convém primeiro olhar para o logótipo no canto da folha.

O CHEGA levou ao Parlamento duas medidas simples de perceber: IVA Zero num cabaz de bens alimentares essenciais e redução temporária do IVA dos combustíveis de 23% para 13%. Ambas foram chumbadas. PSD, PS e CDS-PP votaram contra.

Podemos discutir custos, prazos e modelos. Devemos fazê-lo. O curioso começa quando descobrimos que o próprio PS apresentou uma resolução que também defendia, embora com condições e calendário diferentes, a redução temporária do IVA dos combustíveis para 13% e a isenção temporária de IVA num cabaz alimentar. Ainda assim, votou contra os projetos do CHEGA. Resultado? Chumbo para todos. Alívio para ninguém.

É a política portuguesa no seu esplendor: discutimos durante horas quem fica com os louros e, no fim, o português fica com a fatura.

Para quem conta os euros antes de chegar à caixa do supermercado, pouco interessa se a proposta nasceu à esquerda, à direita ou no corredor do meio da Assembleia da República. Quem abastece o carro também não pergunta ao combustível em quem votou. Quer pagar menos.

PS e PSD têm todo o direito de considerar as propostas do CHEGA erradas. Mas então expliquem onde estão erradas, apresentem alternativas e encontrem uma solução. Porque, quando existem propostas com objetivos semelhantes e ninguém consegue entender-se, torna-se legítimo perguntar se estamos perante divergências verdadeiramente insanáveis ou simplesmente perante uma política demasiado ocupada consigo própria.

E a pergunta incómoda é esta: se exatamente a mesma proposta tivesse outro logótipo no cabeçalho, teria exatamente o mesmo voto?

Nenhum partido tem de gostar do CHEGA. O CHEGA também não tem de gostar dos outros.

Mas os deputados não foram eleitos para gostarem uns dos outros. Foram eleitos para servir os portugueses.

Quando a autoria de uma proposta parece importar mais do que encontrar uma solução, talvez o problema já não esteja no preço dos combustíveis nem no IVA dos alimentos.

Está no preço que os portugueses pagam por uma política feita de egos, trincheiras e contas por ajustar.