A AR-PA Bienal Ibérica do Património Cultural, evento referência do sector do Património Cultural em Portugal e Espanha, é proveniente da fusão de entidades do sector criadas em Espanha e em Portugal, respectivamente em 1998 e em 2013.

Em excelente iniciativa, dedica a AR-PA o tema do ano de 2025 aos Centros Históricos, e o grandioso evento realiza-se em Sintra no próximo mês de Dezembro, comemorando o 30º aniversário de Sintra como Património Mundial pela UNESCO.

Como sou sintrense do coração, tal encheu-me de alegria, particularmente porque foram ideia, iniciativa e prolongada luta minhas a classificação pioneira da UNESCO como Paisagem Cultural de Sintra, cuja classificação ocorreu a 6 de Dezembro de 1995.

Como esta classificação tanto valorizou Sintra, tanto valorizou Portugal, evoco estes acontecimentos, quase desconhecidos, e completamente esquecidos, o que independentemente da autoria é um inadvertido lapso, sobretudo quando crescentemente, e bem, tanto se tem valorizado a importância do Património Cultural e os seus promotores, tendo eu também sido pioneira na atenção aos Centros Históricos e noutras vertentes patrimoniais, como peço licença para lembrar.

De facto, fez quarenta anos no dia 20 de Agosto de 1984, quando na minha qualidade de directora do Palácio Nacional de Sintra tomei solitariamente a iniciativa, a qual não comuniquei previamente a pessoa alguma, e fiz oficialmente o pedido para Sintra ser classificada pela UNESCO como Património Mundial, endereçando, como então era devido, um ofício (o ofício nº 287/ N.O.15), à minha tutela, o Ministério da Cultura. Note-se que fui directora do Palácio Nacional de Sintra de Junho de 1984 a Janeiro de 1990 e explico essa solidão, hoje em dia impensável, por nunca ter tido para me auxiliar qualquer conservador, nem outro qualquer técnico superior ou simplesmente técnico.

Este ofício, com o meu pedido para serem classificadas como Património Mundial “parte da vila, serra e monumentos”, como especifiquei e escrevi no referido ofício, está sem dúvida na génese da classificação de Sintra como Património Mundial, como aliás tem sido reconhecido em várias instâncias.

Para mim, teria obviamente sido mais natural e fácil o pedido de classificação ter sido apenas da milenar jóia patrimonial que é o fascinante e único a nível mundial Palácio Nacional de Sintra (o meu palácio nacional preferido), o qual eu então dirigia desde semanas antes.

Contudo, eu era desde criança apaixonada pela região de Sintra, pelo que quis alargar em muito o privilégio que é uma classificação pela UNESCO.

Note-se eu estar então perfeitamente ciente de o pedido de classificar “parte da vila, serra e monumentos” ser demasiado abrangente, pois estava bem documentada e informada sobre as classificações como Património Mundial, as quais tinha estudado sobretudo desde o início da década de 1980, quando fui para directora do Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra. mas tinha esperança em que a UNESCO viesse a considerar classificar áreas mais vastas, com monumentos e paisagem.

De facto, tal veio a acontecer em 1992, quando a UNESCO alargou as categorias do Património Mundial e acrescentou a de Paisagem Cultural.

Com imenso gosto, passei anos a lutar arduamente por apoios crescentemente alargados a esta classificação de Sintra pela UNESCO, como se prova em numerosas entrevistas que então dei e em muita outra documentação.

Esta minha iniciativa foi amplamente apoiada por entidades portuguesas, pelos muitos portugueses e estrangeiros, quer ilustres visitantes do palácio, quer prestigiados especialistas de várias áreas que a meu convite participaram no conjunto de iniciativas do programa que criei e intitulei “À Descoberta do Palácio Nacional de Sintra”, o qual durou cerca de cinco anos, e pelo Grupo de Amigos do Palácio Nacional de Sintra, desde logo quando criei esse conjunto de maravilhosos amigos.

Contudo, devo lembrar que, logo desde Agosto de 1984 e durante anos, houve fortíssimas e diversificadas resistências à ideia de classificar Sintra como Património Mundial, até porque tal ia inviabilizar vários projectos, entre os quais apenas menciono agora o da construção de uma piscina no jardim do Palácio Nacional de Sintra, para servir o hotel próximo, o que logo me horrorizou, ironizando eu então se a ideia era colocar pranchas de mergulho para a piscina nas janelas da joia patrimonial que por si só também é a Sala dos Brasões do palácio…

Passado tempo do meu lançamento do projecto de classificar Sintra como Património Mundial, como eu sempre pretendi, foi possível a indispensável colaboração e a organização do processo de candidatura pela Câmara Municipal de Sintra.

Onze anos, três meses e dezassete dias depois do mencionado meu ofício seminal enviado do Palácio Nacional de Sintra em 1984, chorei de alegria quando Sintra foi classificada Património Mundial, no âmbito da categoria “Paisagem Cultural”, no dia 6 de Dezembro de 1995, durante a 19ª Sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO realizada em Berlim, sessão que fui convidada a integrar, mas por motivos pessoais não me foi então possível a deslocação à Alemanha.

Permitam-me explicar os antecedentes deste pedido de classificação de Sintra como Património Mundial, pois sem eles eu nunca teria tido tal ideia.

De facto, desde aluna do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1962-1967), eu era entusiasta de iniciativas da UNESCO, entusiasmo que se acentuou quando na década de 1970 fui eleita para a direcção da Associação Portuguesa de Museologia (APOM), e quando nos inícios de 1980 tive a honra de ter sido nomeada directora do Museu Nacional de Machado de Castro (1980-1984), sendo então este museu de Coimbra o segundo museu estatal mais importante de Portugal, sendo eu uma jovem de 36 anos, e a primeira mulher na sua direcção. Lembro que o museu se situa no coração do centro histórico, sobre o monumental criptopórtico romano, no edifício que fora Paço Episcopal, ao lado do antigo Paço Real, da Universidade, entre a Sé Velha e a Sé Nova, etc.

A propósito de a UNESCO ter considerado 1981 o Ano Internacional de Recuperação das Cidades Históricas, lembrei-me de organizar então no Museu Nacional de Machado de Castro um vasto programa cultural, que já na época diziam ter sido único e pioneiro em quatro aspectos: a nível internacional, quanto à Museologia Social, segundo a própria opinião do especialista mundial Hugues de Varine; a nível de Portugal, quanto ao pedido de classificação de um bem como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, o pedido, que fiz oficialmente em 17 de Março de 1982, de classificação do Centro Histórico de Coimbra (na génese da ulterior classificação), quanto à variedade de assuntos patrimoniais abarcados, e quanto à extensão temporal do programa. Não contando eu com o apoio de qualquer conservador de museu, de início projectei o programa, a que chamei “Coimbra Antiga e a Vivificação dos Centros Históricos”, durar 3 meses, mas acabou por durar 3 anos, tanto entusiasmo e adesão suscitou, em Coimbra, noutras cidades e países.

O Programa “Coimbra Antiga e a Vivificação dos Centros Históricos” contou com a colaboração de numerosos especialistas portugueses e estrangeiros, e iniciativas diversificadas, como exposições, conferências, visitas guiadas, filmes, concursos de fotografias e de desenho infantil, publicações, etc.; remeto os pormenores para as publicações a propósito que de 1981 a 1984 fiz através do museu, não só para o livrinho com o título do programa e a listagem de todas as actividades nele realizadas ao longo desses anos, mas para outros livros com textos de diversos especialistas que colaboraram no referido programa. Dos muitos e notáveis especialistas que colaboraram no Programa, menciono aqui agora apenas os dois portugueses que mais tarde, em anos diferentes, receberam o Prémio Pritzker (o considerado Prémio Nobel da Arquitectura), os Professores Arquitectos Siza Vieira e Souto de Moura.

Foi neste contexto que em 1981 me surgiu a ideia da classificação de Coimbra como Património Mundial, e para a formalização desse pedido, como anotei, o primeiro pedido destes feito em Portugal, contei com o precioso apoio do British Council. De facto, o então director dessa instituição patrocinou a vinda de propósito a Portugal do especialista britânico da UNESCO Professor Arquitecto Donald Insall, o qual fez três conferências no museu, e validou essa minha ideia de classificação pela UNESCO depois de comigo ter percorrido Coimbra.

Há seis anos, na Universidade de Coimbra, nas provas da Tese de Doutoramento intitulada “Candidatura a Património Mundial como operador de desenvolvimento urbano: O caso da Universidade de Coimbra – Alta e Sofia”, da Professora Arquitecta Joana Capela de Campos, aprovada em 2019 com nota máxima, considerou-se a nível do Património Cultural haver em Portugal uma época anterior e outra posterior a esse meu Programa “Coimbra Antiga e a Vivificação dos Centros Históricos”.

Com esta “bagagem” de já larga experiência patrimonial e gosto pelas classificações do Património Mundial da UNESCO, quando em Junho de 1984 tomei posse como directora do Palácio Nacional de Sintra, e perante vários atentados ao Património Cultural e Natural que então presenciei em Sintra, já nem me preocupei em pedir pareceres técnicos a pessoa alguma e foi por isso que dias depois, logo em 20 de Agosto, formalizei pelo referido ofício do Palácio a minha ideia de classificação de Sintra pela UNESCO.

Passados 30 anos de Sintra ser Património Mundial, muitos benefícios houve, mas julgo que se devem, por um lado melhor pensar várias opções entretanto havidas, entre as quais os problemas de trânsito, e por outro lado tomar iniciativas pioneiras que rentabilizem as riquezas naturais de Sintra.

Julgo que continuam actuais algumas sugestões que apresentei entre 1984 e 1990, quando fui directora do Palácio Nacional de Sintra, pelo que agora peço licença para recordar duas. Quanto ao trânsito: fazer parques de estacionamento para autocarros e automóveis perto da estação ferroviária, e recuperar a linha de carro eléctrico que no início do séc. XX ligava a estação ferroviária ao largo do Palácio Nacional de Sintra, transporte este não poluente e que também seria uma recuperação de Património Cultural. O trânsito ficaria mais fluido, no centro da vila, e não só. Circulando designadamente na Volta do Duche, o carro eléctrico evitaria autocarros, limitaria o número de automóveis, facilitaria as deslocações dos residentes e encantaria os turistas.

Quanto às riquezas naturais de Sintra, lembrando as muitas nascentes da tradicionalmente excelente água, sugeri então o seu engarrafamento, e venda, em garrafas com o formato das únicas e emblemáticas chaminés do Palácio Nacional de Sintra.

Parabéns, Sintra!