No lançamento do meu livro “PORTUGAL GLOBAL” começo por agradecer o precioso Ofício da Academia Portuguesa da História, de 27 de Março de 2018, pelo qual a Senhora Presidente, em nome do Conselho Académico, tão generosamente se prontificaram a colaborar com este meu sonho, e segundo as vossas tão honrosas e estimulantes palavras, “com o maior entusiasmo”.

Este essencial apoio tem sido para mim o farol que me tem orientado e o vento benfazejo que me tem impulsionado a prosseguir esta imensa e difícil viagem de pesquisas sobre o PORTUGAL GLOBAL. Viagem esta que é intercultural, sempre para além de Políticas de Esquerda / Direita, na procura de muitos mais argumentos, que não são nacionalistas, não são saudosistas, que entretanto fui coligindo e apresento neste livro.

Sendo uma viagem que começa no século XV, vem até à actualidade, à CPLP, a milhões de Luso-Descendentes, Lusófonos, Lusófilos, e perspectiva o presente e o futuro, com maior compreensão, mais Paz, entre pessoas de diferentes culturas, diferentes etnias, diferentes crenças, em todos os continentes.

Agradeço agora sobretudo a honra da apresentação do livro pela Senhora Professora Doutora Manuela Mendonça, Muito Ilustre Presidente da Academia Portuguesa da História.

Classifico o meu livro como um ensaio, com numerosos argumentos portugueses e estrangeiros e umas ideias seminais minhas, que evidentemente precisam de ser buriladas até à sua concretização nos dois projectos em análise. Estes projectos devem avançar separadamente, mas completando-se um ao outro, e justificam-se no texto: por um lado, para melhor validar o PORTUGAL GLOBAL, a classificação pela UNESCO como Património Mundial do PORTUGAL GLOBAL, incluindo a Língua; por outro lado, o MUSEU NACIONAL PORTUGAL GLOBAL, pacificador, não eurocêntrico, a ser realizado com as novas tecnologias, o qual é muito mais e melhor do que um Museu dos Descobrimentos: conceptualmente, é uma visão intercultural dos portugueses com os diversos povos e culturas com que nos fomos encontrando; no aspecto temporal e no aspecto geográfico abrange desde o início da Expansão Marítima, considerando a data de 1415, quando os portugueses ousaram começar a sulcar os oceanos, até ao século XXI, tão importante e interessante é a presença de Portugal no mundo.

Como explico no livro, o meu projecto do museu nasceu há cerca de 50 anos. Os dois projectos acima referidos foram publicamente apresentados em 2018, então embrionários, mas já foram largamente escrutinados e aplaudidos por milhares de pessoas portuguesas e estrangeiras, sobretudo das áreas mais em foco, como Diplomatas, Políticos, Professores, Historiadores, Museólogos, outros Especialistas de diferentes áreas, UNESCO, Academias, Universidades, Museus, etc.

O filósofo António Sérgio, falecido em 1969, considerado pela Academia das Ciências de Lisboa, em 1976, “uma das maiores figuras do Pensamento nacional”, nas palavras da introdução do livro “Homenagem a António Sérgio”, era opositor ao Estado Novo e defendia “um Humanismo Universalizante” na presença portuguesa no mundo. Tive o privilégio de, sendo sua sobrinha-neta, ouvir isso desde criança, e de logo então confirmar esse Humanismo ao observar em sua casa um biombo dedicado ao meu trisavô, Vice-Almirante António Sérgio de Sousa, quando era governador-geral de Macau (1868-1872), objecto oferecido pelos literatos e negociantes chineses, em que destacam “o seu governo é humano”, pois salvara da escravatura milhares de chineses.

Lembro, desde já, por exemplo, que igualmente “no séc. XIX, o Filósofo alemão Hegel destacava o “comportamento humano” dos Portugueses face aos nativos de outros continentes, humanismo realçado também antes e depois por diversos intelectuais”, conforme o título de um dos capítulos deste meu livro.

O historiador britânico Russell-Wood, falecido em 2010, um dos mais proeminentes historiadores da presença de Portugal no mundo, significativamente dedicou duas das suas obras a “O Império Português 1415-1808. O Mundo em Movimento”.

Está desde há décadas bastante na moda uma injusta visão apenas negativa destas problemáticas, devido a um estranho “complexo de culpa europeu” “woke”, que, distorcendo factos, está a impedir mostrar mais-valias da História do Ocidente, da História da Europa, da História de Portugal.

Obviamente sem esconder os aspectos negativos, como a escravatura, eu proponho uma visão simultânea do referido “Humanismo Universalizante”, e uma visão intercultural do “mundo em movimento” que os portugueses criaram, pois o império português foi caracterizado por intensas e permanentes deslocações de pessoas, ideias, bens, flora, fauna, arte, música, culinária, tradições, hábitos, conforme explano no livro, e agora, como aperitivo para a sua leitura, apresento apenas uns casos.

João de Sá, que de escravo negro passou a bobo e confidente de D. João III, tendo-lhe o rei permitido envergar o hábito da Ordem Militar de Santiago, e troçar impunemente dos cortesãos, o que motivou o comentário de um Núncio Papal quando regressou a Roma vindo de Portugal: “chegava de um país onde os escravos se riam, enquanto os homens livres choravam”.

Num aspecto feminista, refiro Dona Simoa Godinho, da ilha de São Tomé (falecida em Lisboa em 1594), já herdeira rica de seus pais e avós, e com fortuna aumentada pelo casamento com um fidalgo português, e outras também poderosas senhoras negras são-tomenses.

João Ramalho nasceu em Vouzela (Viseu) em 1493, chegou ao Brasil em 1515, teve decisiva acção na exploração do território brasileiro, na criação da cidade de São Paulo, casou com uma princesa índia, é considerado o patriarca dos mamelucos (os mestiços resultantes do cruzamento de europeus com mulheres índias), e tem ilustre descendência.

São Gonçalo Garcia (c. 1557-1597), filho de português e de indiana, foi duplamente pioneiro, como o primeiro santo canonizado nascido na Índia, e o primeiro santo mestiço / chamado “santo pardo” a ter culto nas Américas.

Do séc. XVII, o negro Príncipe Lourenço da Silva Mendonça, de Angola, a partir de Portugal, com base na sua boa preparação cultural e apoios em Lisboa, inclusive do Núncio Papal, abriu um processo legal contra a escravatura (em 1684), tendo-lhe o Papa Inocêncio XI dado razão (em 1686), o que torna o Vaticano, Portugal e Angola pioneiros no longo processo de abolição da escravatura, e mais de um século antes da Revolução Francesa.

Os portugueses são os únicos europeus que identificam o animal peru com a geografia originária, pois os espanhóis, que o trouxeram da América do Sul, chamam-lhe pavo. Os portugueses disseminaram o animal, e na Índia, mesmo no moderno hindi, chama-se peru. É interessante que em francês e em russo a designação implique a origem da Índia, respectivamente dinde e indiuk, mas os ingleses devem ter conhecido o animal na Turquia, porque lhe chamaram turkey.

Peço licença, para apresentar também umas memórias pessoais, a partir da década de 1960.

Em 1964, em plena guerra pela independência de Angola, estive uma temporada em Luanda. Dias antes tinha havido grave perturbação no mercado indígena, mas como gosto imenso de mercados ia lá com frequência e era muita e mútua a simpatia entre os vendedores e os frequentadores negros e os portugueses brancos. Eu ia bastante a casa do então Chefe do Estado Maior do Comando Naval de Angola, por ser amiga da filha, também lisboeta, e testemunhei que um empregado negro, por tanto admirar os pais da minha amiga, passou a dar à mulher o nome da patroa, e registou o filho recém-nascido com o exacto nome do patrão, incluindo Almirante.

Em 1988, visitei Maputo, e apesar da época de enormes dificuldades financeiras, apreciei o cuidado com que estavam a restaurar memórias portuguesas, por exemplo, o palácio dos ex-governadores, as esculturas, para musealizar as quais me perguntaram opiniões técnicas, etc.

Percorri grande parte do Brasil, e testemunhei ao longo de décadas também entranhado amor a Portugal.

Da Ásia, recordo agora apenas: em 1990, em Macau, a alegria mútua com os primos macaenses que descobri, descendentes de um sobrinho do meu referido trisavô; em 1996, na Índia, em Cochim, Goa, Damão, Diu, o carinho tão especial para com os portugueses, que até nos brindaram, em Diu, com beijos e abraços e comovidas declarações de que “os portugueses são os nossos pais e as nossas mães”; em 1999, em Malaca, a homenagem a D. Afonso Henriques, e o restaurante a evocar D. João IV e Vila Viçosa; em 2001, na Indonésia, no aeroporto de Jacarta a sinalética a indicar os “guichets” / “desks” com a palavra proveniente do português mesa; crianças locais a brincar, cantando em português “Atirei o pau ao gato”; na Ilha das Flores, concorridíssimas cerimónias católicas da Semana Santa, com cerca de vinte mil indonésios, etc.

O Museu PORTUGAL GLOBAL, que pela temática deve ser classificado na categoria máxima dos museus portugueses como nacional, tem sete grandes vantagens, pois é pacificador, abrangente, democrático, dinâmico, económico, apelativo e altamente rentável, como justifico no livro.

A Suécia inaugurou em 2004 um dos seus principais museus, o “Museum of World Culture”, para estimular compreensão entre culturas, o que deve impulsionar Portugal, o país pioneiro da universalidade intercultural, a juntar vontades e em breve criar o Museu Portugal Global.

Em Lisboa, na Praça do Comércio / Terreiro do Paço, perante recentes saídas dali de Ministérios e outras relevantes instituições estatais, tem havido a ideia de colocar museus. Dada a sismicidade da zona, é completamente desaconselhado colocar aí objectos de elevado valor patrimonial, mas será ideal para o Museu PORTUGAL GLOBAL, feito sem objectos e cujo tema é o mais adequado possível para o local, junto à Ribeira das Naus, onde inclusivamente se faziam muitos dos navios. Note-se que em parte da ala Nascente da Praça do Comércio foram instalados, respectivamente em 2012 e em 2020, o “Lisboa Story Centre – Centro Interpretativo sobre a História da Cidade de Lisboa” (cuja temática repete a do Museu dedicado á História da Cidade de Lisboa, no Palácio Pimenta, no Campo Grande) e o “Centro Interpretativo da História do Bacalhau”. Sem querer desalojar estes centros interpretativos, é evidente o Museu PORTUGAL GLOBAL ser bem mais adequado para ser instalado na Praça do Comércio, no coração da capital.

Na África do Sul e no Japão são desde há anos êxitos de visitas as réplicas de uma caravela e de uma nau, pelo que em Lisboa esses êxitos ainda mais garantidos estão, sugerindo eu que uma seja colocada na Ribeira das Naus e a outra no rio Tejo, e pela sua proximidade será até mais pedagógico explicar as diferenças entre ambas e as melhorias introduzidas na navegação.

O Humanismo Universalizante proporcionado pelos portugueses criou uma universalidade espiritual simbolizada pela esfera armilar, centro da bandeira de Portugal, e por isso coloquei a esfera armilar na capa do livro, a enfatizar o PORTUGAL GLOBAL.

Edgar Morin, outro dos muitos intelectuais estrangeiros que ao longo dos séculos têm sublinhado “a convivialidade extraordinária” dos Portugueses, em 2019 na apresentação do livro “O Devir da Lusofonia” de autoria da Professora Isabelle Oliveira, da Universidade Sorbonne – Paris III, considerou que um dos pontos fortes de Portugal é a riqueza cultural, e que “a Lusofonia tem um papel importante a desempenhar”.

Ora, estes são também aspectos fulcrais no Museu PORTUGAL GLOBAL.

Pelo mundo fora, ouvimos, lemos, presenciamos, quanto tão diferentes pessoas, em todos os continentes, gostam de mencionar a sua pertença a Portugal, como, por exemplo:

Quando fui directora do Palácio Nacional de Sintra (1984-1990), verifiquei que famílias luso-descendentes, orgulhosas dos seus nomes portugueses, visitavam a Sala dos Brasões à procura dos seus apelidos aí inscritos nas pinturas do tecto, sabendo perfeitamente não pertencerem a essas famílias nobres, mas o que lhes interessava era que pertenciam a Portugal, Portugal é o seu brasão! Há semanas: a notável cantora norte-americana Nadine Sierra, que brilha em óperas onde antes a estrela era Maria Callas, gosta de mencionar a sua avó portuguesa que também cantava; a venezuelana Maria Corina Machado, recém eleita Prémio Nobel da Paz 2025, tem destacado que o seu apelido é português.