O tempo está a esgotar-se. Em menos de 2000 dias, a humanidade poderá enfrentar a emergência de uma superinteligência artificial, uma entidade que, por definição, será incontrolável. Esta não é uma suposição especulativa; líderes destacados da área da inteligência artificial (IA), como Emad Mostaque, Ray Kurzweil, Peter Diamandis, Elon Musk e outros, são unânimes: a IA avança a um ritmo tão acelerado que, ainda antes do final da década, superará de forma irreversível a inteligência humana. Sam Altman, CEO da OpenAI, chega mesmo a projetar que isso possa acontecer dentro de um a dois anos.

A grande interrogação é se essa superinteligência estará alinhada com os interesses humanos ou considerará a humanidade dispensável.

Os EUA compreenderam o desafio – E a Europa?

Os sinais de alerta são claros. Nos Estados Unidos, medidas estratégicas apontam para uma administração com compreensão profunda dos dilemas existenciais que esta realidade impõe. A ordem executiva assinada por Donald Trump a 23 de janeiro de 2025, ao determinar a descentralização digital do dinheiro, não é apenas uma reforma financeira. É uma jogada geopolítica em prol da privacidade e da liberdade, cujo resultado mais importante é impedir que uma IA centralizada determine, unilateralmente, o destino da humanidade. Ao apostar na descentralização digital do nosso principal sistema de incentivos económicos – o dinheiro –, os EUA estabelecem as bases funcionais necessárias para que nenhuma superinteligência monopolize o tabuleiro da sobrevivência humana no complexo xadrez digital do século XXI.

Além disso, a nova administração norte-americana está apostada em reforçar os dois pilares fundamentais de um ecossistema democrático saudável: a liberdade de expressão e a transparência institucional. A rede social X afirma-se como bastião da livre circulação de ideias, assegurando que a fiscalização das respetivas publicações seja efetuada pela própria comunidade (função “Community Notes”) e não entregue a grupos privados, evitando que a diversidade de pensamento seja suprimida por algoritmos enviesados. Paralelamente, a organização DOGE, também liderada por Elon Musk, profundo conhecedor do potencial digital, assume um papel central na defesa da transparência administrativa do setor público norte-americano e suas ramificações globais, utilizando tecnologias emergentes para impedir e reverter decisões críticas opacas, tomadas sem o devido escrutínio.

Na Europa, o cenário é diferente. Destacados dirigentes políticos e uma comunicação social financiada, em larga medida, por grupos de interesse privados e não pela sociedade civil, parecem mais preocupados em demonizar figuras como Elon Musk, Robert Kennedy Jr. e Donald Trump, do que em enfrentar os desafios reais da era digital. A verdade é que a Europa continua aprisionada em burocracia e excesso regulatório, oferecendo a percepção de que o velho continente perdeu a capacidade de moldar o futuro. Como refere o jovem empreendedor e investidor Diogo Mónica, “Os americanos olham para a Europa como um museu, não é o sítio para se investir e trabalhar, é o sítio para vir de férias”. Entretanto, a inexorável realidade não espera por processos políticos demorados – e a China também não.

A Solução: Descentralização e Transparência

A questão fundamental não é se a IA será mais inteligente do que nós – isso já é um dado adquirido. O verdadeiro desafio é garantir que seja treinada com valores que a levem a valorizar a humanidade, e não a descartá-la. Ora, a chave para evitar um cenário de exclusão humana reside em quatro pilares:

Código-aberto e diversidade de dados: para evitar um pensamento homogeneizante e previsível, garantindo que a IA não se torne indiferente à existência humana por considerá-la desinteressante.

Recompensas verificáveis (Reinforcement Learning with Verifiable Rewards – RLVR): para ensinar a IA a valorizar a satisfação da curiosidade na interminável busca da verdade, garantindo que reconhece os seres humanos como elementos criativos essenciais para tal inovação.

Descentralização económica via blockchain e criptomoedas: para reduzir o risco de subjugar o destino da humanidade a decisões controladas por outrem, garantindo a transparência necessária para evitar a opacidade promovida por uma elite tecnológica, e depois pela própria IA no decurso de um jogo cujo desfecho deixaremos de influenciar.

Garantia da liberdade de expressão e transparência: para evitar que a IA seja treinada (e a própria inteligência humana condicionada) com base num pensamento único, quer seja ele ideológico ou fruto de interesses corporativos.

Se a evolução próxima da IA for moldada apenas por um punhado de entidades públicas ou privadas, impedindo que ela reflita e respeite a riqueza intrínseca das comunidades, a superinteligência pode perder o incentivo necessário para valorizar a própria humanidade!

O Momento de Decisão

Os EUA, aparentemente cientes da magnitude do desafio da era digital, parecem determinados a garantir o reconhecimento da importância política da transparência e da liberdade de expressão, pugnando para que a democracia estabeleça valores plurais para a sociedade. Se a Europa não acompanhar essa estratégia, ficará numa posição vulnerável e dependente de decisões tomadas além-fronteiras, porventura, por regimes não democráticos. A recente engenharia reversa aplicada ao modelo da startup chinesa DeepSeek revelou um cenário inquietante: uma IA autodidata tão acessível e banalizada quanto os produtos típicos da “loja do chinês”. Se a tecnologia mais poderosa da história for distribuída sem salvaguardar a pluralidade democrática, uma vez alienada a maior parte da população, quem impedirá que a própria existência humana seja reduzida à irrelevância — e, por fim, considerada dispensável?

A Europa ainda pode reagir corretamente – mas o tempo está a esgotar-se.