A palavra «sustentabilidade» tornou-se omnipresente no discurso público. Aparece em estratégias nacionais, candidaturas a fundos, relatórios ambientais e campanhas institucionais. No entanto, quando descemos ao território, a distância entre o discurso e a realidade é evidente. Em muitos casos, sustentabilidade é tratada como sinónimo de conservação passiva. Protege-se afastando pessoas. Preserva-se retirando actividade. E o resultado é uma paisagem que parece intacta no papel, mas que, na prática, está em declínio.
Conservar não significa excluir actividade humana. Nunca significou. As paisagens que hoje valorizamos como «naturais» são, na maioria dos casos, paisagens moldadas por séculos de gestão humana contínua. Agricultura, pastorícia, maneio florestal e gestão da água criaram sistemas complexos, resilientes e produtivos. Quando essas actividades desapareceram, não ficou natureza intocada. Ficou abandono.
O abandono rural não é neutro do ponto de vista ecológico. Um território sem gestão acumula biomassa, perde diversidade funcional, degrada solos e torna-se mais vulnerável a incêndios, erosão e colapso hidrológico. A ausência de pessoas não devolve equilíbrio. Retira-o.
Apesar disso, continua a existir uma narrativa persistente que opõe produção e conservação, como se produzir fosse, por definição, degradar. Esta visão simplista ignora uma realidade fundamental: não é a produção que destrói os ecossistemas; é o mau desenho da produção. Sistemas produtivos mal adaptados ao território esgotam recursos. Sistemas bem planeados fazem exactamente o contrário.
O planeamento regenerativo parte desta distinção essencial. Não propõe produzir mais à custa do território, mas produzir com o território. Trabalha com os processos ecológicos em vez de os contrariar. Integra água, solo, biodiversidade e economia local numa lógica de sistema.
Uma paisagem produtiva bem desenhada é uma paisagem viva. Solos com matéria orgânica activa, cobertos vegetais permanentes, diversidade estrutural e infiltração de água criam resiliência ecológica. Ao mesmo tempo, permitem rendimento, trabalho e presença humana continuada. Esta presença é, em si mesma, um factor de estabilidade territorial.
Quando afastamos a produção, afastamos também a capacidade de cuidar. Um território sem economia não tem gestão. Um território sem gestão degrada-se. E essa degradação é depois tratada como um problema «ambiental», quando na realidade é o resultado de uma decisão política e técnica.
A sustentabilidade real não é contemplativa. Não se alcança apenas com zonas interditas, mapas de protecção e relatórios bem intencionados. Constrói-se no dia-a-dia do território, através de decisões práticas sobre como se produz alimentos, como se gere água, como se mantém o solo vivo e como se cria valor económico sem destruir capital ecológico.
O planeamento regenerativo demonstra, no terreno, que produção e regeneração não são opostos. São complementares. Sistemas agroecológicos, agroflorestais e silvo-pastoris bem
desenhados aumentam biodiversidade, melhoram ciclos hidrológicos e reduzem risco de incêndio, enquanto geram rendimento. Não como promessa futura, mas como resultado observável. E capturam carbono ao melhorar o solo e este, por sua vez, melhora o coberto vegetal que captura C02 e fixa-o no solo.
Isto exige uma mudança de paradigma. Em vez de perguntar «como limitar o impacto da actividade humana?», a pergunta passa a ser «como desenhar actividade humana que fortaleça os ecossistemas?». A diferença é profunda. No primeiro caso, a natureza é vista como algo frágil que precisa de ser isolado. No segundo, é vista como um sistema dinâmico que pode ser reforçado através de interacções bem desenhadas.
Portugal tem condições excepcionais para liderar este caminho. Clima, diversidade de paisagens, conhecimento tradicional e uma nova geração de técnicos e produtores preparados para trabalhar de forma integrada. O que falta, muitas vezes, é enquadramento institucional e político que reconheça que sustentabilidade sem produção é apenas paisagem decorativa.
Paisagens decorativas podem ser bonitas em fotografias aéreas. Mas não fixam pessoas, não mantêm economias locais e não resistem a choques climáticos. Paisagens funcionais, essas sim, produzem alimento, água, biodiversidade e estabilidade social.
Continuar a promover modelos que afastam actividade humana em nome da conservação é perpetuar o abandono e a degradação que depois se tenta corrigir com medidas de emergência. É um ciclo conhecido e dispendioso.
A alternativa existe e está a ser aplicada. Chama-se planeamento regenerativo. Não é uma ideologia, nem uma moda. É uma abordagem técnica, baseada em leitura de território, ciência ecológica e experiência prática. O seu objectivo não é romantizar o rural, mas torná-lo viável, produtivo e resiliente para o século XXI.
Se queremos falar seriamente de sustentabilidade agrícola e ecológica, temos de aceitar uma ideia simples: sem produção bem desenhada não há sustentabilidade. Há apenas paisagens bonitas, vazias e frágeis. E essas, mais cedo ou mais tarde, colapsam.