No início da vida de cada startup há uma escolha, muitas vezes implícita, que determina significativamente o futuro da empresa, o caminho a percorrer. Perseguir o crescimento ou a sustentabilidade?
O mais lógico, à primeira vista, é focar a empresa em crescimento. Afinal, parece ser o caminho mais óbvio para que a empresa se transforme num unicórnio, com capacidade de competir a nível global. Este é de facto o conselho dado pela maior parte dos investidores. Uma outra hipótese é focar a empresa em ser rentável. Isto significa ter como primeiro objectivo ser capaz de pagar os salários dos seus empregados, dar lucro, e garantir que a empresa não morre por falta de acesso a capital de risco.
A segunda opção é aplicável sobretudo a empresas que podem ser rentáveis a curto prazo, tipicamente startups B2B, SaaS ou com um modelo de negócio concreto. Se for essencial ter efeitos de rede para se crescer, por exemplo criar uma nova rede social, a monetização acontece normalmente mais tarde e nesse caso o único caminho é mesmo o do crescimento.
A decisão não é linear. Em ecossistemas onde o acesso ao capital é fácil, faz sentido focar a empresa em crescimento, usando o acesso a capital como combustível para impulsionar esse crescimento. Se, por outro lado, o acesso a capital é mais difícil, faz sentido tornar a empresa rentável o mais rápido possível, de modo a que a sobrevivência da empresa não dependa de acesso a capital de risco.
Hoje, vivem-se em Lisboa tempos fantásticos a nível de financiamento seed. Temos felizmente fundos de investimento públicos e privados, business angels, aceleradoras e incubadoras numa dimensão sem precedentes. Apesar de haver sempre espaço para melhorar, podemos dizer que nunca foi tão fácil conseguir investimento seed em Lisboa.
A verdadeira escolha começa após esse investimento inicial. Ao focar a empresa no crescimento, uma startup está a comprometer-se a levantar uma ronda de investimento Series A antes que o dinheiro acabe, tipicamente um ou dois anos após levantar a ronda seed. Aquilo que as startups lisboetas muitas vezes não percebem é o quão importante será a proximidade física ao investidor que lidera uma Series A. É esse o problema central desta equação, pois vivemos num mercado injusto. Uma startup de Lisboa tem um problema adicional pela distância a que se encontra dos hubs de startups, nomeadamente de Londres ou São Francisco.
Aquilo que um investidor pede a uma startup que está “no seu quintal”, pede três vezes mais a outras. Numa fase em que tipicamente as empresas estão a levantar uma Series A ainda há por vezes muitas dúvidas a resolver, seja em relação ao modelo de negócio, seja em relação à tecnologia ou mesmo ao mercado a atacar. Isto é normal, mas implica que temos de ser conscientes com as escolhas que estamos a fazer, mesmo que não o saibamos no momento.
A distância amplifica a dúvida. E é normal que assim seja, pois quanto mais longe está a empresa do investidor, tipicamente, mais dificuldade o investidor tem de intervir e ajudar directamente a startup. É completamente diferente poder passar uma manhã por semana com a equipa a planear uma estratégia de “go to market”, marcar almoços e fazer intro casuais a ter de planear tudo com 3 semanas de antecedência. Não há substituto, por enquanto, para a capacidade que o acaso tem de proporcionar oportunidades. E este acaso depende da proximidade física.
Após um investimento seed, uma startup Lisboeta tem duas opções: ou muda a gestão da empresa para um destes hubs, particularmente o CEO, ou foca-se em ser rentável. Pode parecer que é possível manter o melhor de dois mundos, mas se olharmos para as startups que no último ano levantaram rondas Series A, quase todas elas seguiram o modelo “israelita”, ou seja, o CEO estava de facto já num dos hubs. É importante dizer que há imenso valor em ter um front office num dos hubs actuais. Ter presença em Nova Iorque ou em São Francisco é um atalho para o resto da aldeia global e que pode ser essencial na criação de uma rede de clientes.
A longo prazo, se queremos que Lisboa se torne um hub de startups, isso só será possível se uma startup não tiver de sair de Lisboa para se capitalizar, sobretudo em rondas mais avançadas. O que significa que temos de conseguir que startups lisboetas consigam fazer rondas de series A em Lisboa, com a equipa em Lisboa. E isso só é possível se a empresa for economicamente tão forte que não precise de dinheiro para sobreviver, e se, para um investidor, não investir nesta empresa for perder um negócio fantástico. Não há melhor afrodisíaco para uma startup do que não precisar de ajuda para chegar à terra dos unicórnios. Quando isso acontece não há investidor que não queira investir.
Desde o início do Y-Combinator que o conselho que nos dão é “deem lucro assim que possível”. Fazer dinheiro é um bom indicador de que estamos a fazer alguma coisa que o mercado quer, torna-nos independentes e imunes aos ciclos de investimento e é saudável para a empresa. É um conselho dado por ex-fundadores de empresas de sucesso, que já passaram por muitas guerras e viram como é importante ter um bom negócio. Isto é válido em todos os lados. Todos os investidores querem investir num bom negócio, mas isso é ainda mais válido para uma startup que esteja em Lisboa.
Porque ao ter o centro nevrálgico da startup em Lisboa faz com que a equipa cresça aqui, que as contratações de lideres de Marketing e vendas sejam feitas aqui, que isso gere massa crítica para que essas pessoas se mantenham cá e para que o ecossistema funcione num ciclo virtuoso. E quanto mais houver massa crítica em Lisboa, mais investidores estão dispostos a investir cá, o que vai fazer com que após uma exit bem sucedida, haja pessoas com capital e conhecimento para reinvestir em Lisboa. O que vai fazer com que esta escolha seja menos crítica e as startups de Lisboa se possam dar ao luxo de se focarem em crescimento em vez de serem rentáveis. O que não é o caso hoje.
Como Paul Graham costuma dizer, “be cockroaches”. Pode parecer contra intuitivo, mas as baratas são praticamente indestrutíveis. Sobrevivem até a bombas nucleares. A melhor maneira de uma startup se tornar indestrutível é dar lucro. Uma vez tendo lucro, tudo o resto será mais fácil.
Vasco Pedro é fundador e CEO da Unbabel