Segundo dados da UNESCO, até ao final do mês de maio, 194 países tinham encerrado as suas escolas, afetando 1,5 bilhões de estudantes em todo o mundo. Assistimos a uma corrida pela aquisição de equipamentos para os alunos mais carenciados e ao acesso massivo a plataformas edtech. De um dia para o outro, os professores tiveram de se reinventar, os alunos de se adaptar e as famílias entraram na sala de aula de uma forma que ninguém imaginava.

Deparamo-nos hoje com uma forma de ensinar e aprender diferente. Por um lado, o ensino virtual mostrou ser a solução para continuar a aprendizagem, com novas formas de partilhar conteúdos, maior interação e respostas quase imediatas. Os estudantes perceberam que conseguem ser mais independentes do que julgavam na aquisição de conhecimento e ter maior liberdade para aprender. Os professores assumiram um novo papel de mediadores e facilitadores de conteúdos.

Por outro lado, esta mudança repentina e não planeada – sem formação, sem estrutura e pouco tempo para preparação – resultou numa experiência difícil. O planeamento semanal chegou por e-mail, as aulas virtuais aconteceram na aplicação Microsoft Teams, Google Meet ou Zoom, alguns vídeos foram publicados através do Facebook Live ou Youtube, as sessões individuais de videochamadas para disciplinas de línguas, por exemplo, realizaram-se pelo WhatsApp e as plataformas moodle centralizaram documentos. Em muitos casos, foi necessário gerir 3 a 4 plataformas em simultâneo para responder a todas as tarefas durante o período de confinamento.

Todos tiveram de aprender a inovar. E o maior esforço foi, sem dúvida, conseguir com que todos acompanhassem. Perante esta crise inesperada, a tecnologia foi a salvação e mudou a sala de aula para sempre. No entanto, tudo teria sido mais eficaz se os professores e os alunos tivessem tido tempo e recursos para se prepararem.

A questão que se coloca agora é: O que podem fazer os responsáveis educativos para preparar o futuro?

Alguns especialistas pedagógicos acreditam que a solução passa por um novo modelo híbrido de educação – o Blended Learning (ou b-learning). Este conceito baseia-se em combinar práticas pedagógicas do ensino presencial com o ensino a distância, com base na utilização de tecnologias adequadas para a sala de aula, sem substituir totalmente o modelo tradicional. Este não é um modelo novo mas poderá ser a realidade num futuro próximo. Para isso, será necessário repensar o modelo educativo, incluir a tecnologia nos programas estratégicos como uma das prioridades e ter visão a médio/longo prazo.

Teremos de envolver toda a comunidade educativa, estudar e identificar as soluções mais adequadas, formar os professores e os alunos para a utilização das ferramentas digitais e, por último, mas não menos importante, incluir as famílias neste processo que, como vimos durante o período de confinamento, têm um papel preponderante no
acompanhamento dos estudantes.

O que vivemos foi o início da mudança na educação. Evoluímos e aprendemos muito. A transformação digital traz novas possibilidades, maior interação e adaptação às diferentes necessidades, quer dos estudantes, quer dos professores. Temos hoje a oportunidade de criar uma escola onde os alunos trabalhem mais em grupo, aprendam por projetos, pesquisem, desenvolvam mais a sua criatividade, o pensamento critico, a comunicação, a liderança e a persistência.

Em síntese, temos a oportunidade de preparar uma forma de ensinar e aprender mais eficaz e eficiente, de fazer o proveito adequado das ferramentas digitais e construir uma nova escola. Porque todas as transformações geracionais começam pela educação.

Susana Teixeira é especialista em estratégia de marketing e transformação digital, empreendedora e política. Eleita “Marketing and Sales Expert 2019” pela Portuguese Women in Tech e mentora da comunidade.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.