A investigação científica na área do cancro apresenta uma narrativa repleta de avanços e recuos onde, nas últimas décadas, os progressos são incontestáveis, permitido uma mudança fundamental de paradigma.
A forma como encaramos um diagnóstico de cancro tem vindo a evoluir de uma doença potencialmente fatal, cujo foco era a sobrevivência, para uma integração de cuidados onde dimensões como a qualidade de vida e as preferências do doente são consideradas na decisão clínica. Para tal têm contribuído as campanhas de promoção para a saúde, que incidem sobre a adoção de estilos de vida saudáveis e rastreios precoces, assim como os avanços na inovação clínica e a existência de opções de tratamento cada vez mais avançadas e personalizadas, traduzindo-se numa esperança renovada para os doentes e suas famílias.
É inequívoco o impacto da investigação pré-clínica e clínica, nos avanços dos cuidados de saúde, nomeadamente através dos ensaios clínicos, que permitem aos doentes e aos profissionais de saúde acederem a terapêuticas potencialmente inovadoras vários anos antes da sua aprovação de introdução no mercado. Os ensaios clínicos são o padrão de referência da medicina baseada na evidência, tendo um papel fundamental não só na determinação da eficácia e segurança de novas terapêuticas, mas também gerando valor económico para os sistemas de saúde. Ainda assim, os números da EFPIA – Federação Europeia das Associações da Indústria Farmacêutica confirmam uma redução na participação de centros europeus nos ensaios clínicos, a qual passou de 25% em 2013 para 12% em 2023. Isto traduz-se numa redução de 60.000 oportunidades de tratamento para doentes em território europeu.
Em Portugal, nos primeiros três meses deste ano, os dados da APIFARMA dão conta de 565 ensaios ativos, dos quais 44% são na área da oncologia. O número de novos estudos clínicos entre 2023 e 2024 manteve-se estável (203 e 198, respetivamente), sendo que no primeiro semestre deste ano já foram submetidos 115 pedidos (93 aprovados), destacando-se a oncologia como a principal área terapêutica com 38 pedidos, segundo dados do INFARMED. Estes números refletem o reconhecimento por parte das autoridades de saúde da importância dos ensaios clínicos, reforçando o potencial de Portugal como país atrativo para a realização de investigação clínica em contexto europeu.
Esta competência é amplamente reconhecida, particularmente no que se refere aos recursos humanos e à excelência de muitos centros de investigação, no entanto ainda estamos longe de assumir uma posição de liderança na Europa. Segundo o relatório “Avaliação do Ecossistema de Estudos Clínicos na Europa” da EFPIA, publicado em outubro de 2024, Portugal encontra-se atrás de vários países europeus em número de ensaios clínicos per capita (no 17º lugar do Espaço económico Europeu), situação que se deve principalmente à burocracia excessiva e aos atrasos processuais inerentes às complexidades de cada centro de investigação. Os obstáculos incluem processos contratuais morosos, baseados em modelos que variam entre instituições e geram ineficiências no sistema, equipas de estudo subdimensionadas para o número de solicitações e a dificuldade na partilha dos dados gerados pelos hospitais, que impedem a comunicação eficaz entre instituições e para os restantes parceiros da saúde, como a Indústria Farmacêutica.
Apesar do regulamento europeu da investigação clínica ser um importante passo na harmonização do processo de submissão e aprovação de estudos também em Portugal, algumas limitações só poderão ser ultrapassadas com um esforço concertado nacional. Medidas importantes já identificadas e discutidas, tais como o cumprimento dos prazos de aprovação, a padronização dos modelos contratuais que agilizaria a abertura de centros nacionais, a criação de unidades de investigação financeiramente autónomas com independência na gestão dos seus recursos humanos e a utilização de plataformas interoperáveis e registos oncológicos em tempo real, que permitam localizar rapidamente doentes elegíveis e alimentar estudos com dados de vida real. É ainda fundamental a valorização das atividades de investigação nas carreiras clínicas, o que passa quer pela atribuição de horas dedicadas a esta atividade, assim como a progressão na carreira.
Numa era em que a evolução tecnológica tem expandido continuamente as fronteiras da ciência, a aposta na investigação clínica deve ser coordenada e estratégica. Ferramentas como a inteligência artificial (IA), big data e outras tecnologias emergentes têm confirmado o seu potencial de reduzir o tempo desde a identificação do alvo terapêutico e do desenho da molécula até à sua aprovação, aumentando significativamente a rapidez no acesso aos doentes, de tratamentos inovadores. Atualmente as ferramentas de IA já nos permitem analisar grandes volumes de dados de modo a identificar os perfis de doentes mais adequados para determinados estudos, aumentando a relevância das amostras. Além disso, a IA permite-nos otimizar o desenho dos ensaios clínicos, realizar a triagem de milhares de candidatos, e monitorizar a adesão à terapêutica em tempo real. A incorporação destas tecnologias no desenvolvimento clínico representa um novo paradigma que permitirá alcançar melhores resultados para os doentes de forma mais rápida e eficiente. Isto reveste-se de particular interesse na área de oncologia devido à agressividade e natureza órfã de alguns tipos de cancro e à falta de alternativas terapêuticas.
A indústria farmacêutica é a principal promotora de ensaios clínicos, assumindo um compromisso de colaboração e investimento contínuo. Mas é imperativo que os decisores olhem para este tema, encontrem formas de otimizar processos e que reconheçam os benefícios da investigação clínica não só para a saúde da população, mas também como mecanismo de geração de valor económico e social. Só assim podemos garantir a sustentabilidade de colaborações entre os diferentes parceiros e elevar o potencial de Portugal no panorama internacional.
Quando esta transformação se concretizar, o próximo Dia Mundial da Investigação em Cancro celebrará não apenas as potencialidades dos ensaios clínicos, mas também as políticas visionárias que posicionam os doentes portugueses na vanguarda da inovação oncológica.