Acabou a aula. Fim de um treino. A sala continuava quente, cheia daquele suor coletivo e a música ainda demasiado alta.
Só conseguia ouvir a minha respiração, ainda meio acelerada. Olhei à minha volta. Não conhecia ninguém. Ainda assim, sentia uma estranha conexão com aquelas pessoas. Éramos completos desconhecidos, mas depois de quase uma hora lado a lado, unidos pelo mesmo esforço, cada gota de suor parecia partilhada. Era como se, por breves instantes, ninguém estivesse completamente sozinho.
E foi durante aqueles cinco minutos finais de alongamentos que comecei a pensar no que realmente me trazia ali quase todos os dias da semana.
Já não era pela estética, ou pelo menos não só. Pensava na performance, sim, queria melhorar, claro, mas também não era isso que me fazia voltar.
Era outra coisa.
Tudo parecia muito menos pesado. Parte dos meus problemas tinham ficado presos às gotas de suor deixadas na bike. Era aquela estranha clareza pós-treino, aquela euforia que me fazia sentir capaz de tudo, ou, pelo menos, que fazia com que tudo parecesse muito menos dramático dentro da minha cabeça. Era isso que me mantinha consistente.
Porque durante aqueles quarenta e cinco minutos, a minha cabeça tinha finalmente parado de fazer barulho.
E parece que não sou a única à procura desse silêncio.
Nos últimos anos, os running clubs começaram a inundar as ruas e as maratonas, antes reservadas aos mais malucos, tornaram-se uma manhã normal de domingo. Basta abrir o Instagram. A cada meia dúzia de stories, aparece uma “easy run” registada no Strava, com um pace de 4:00, ou uma selfie às seis da manhã depois de uma aula de Power Yoga (desta sou guilty). Isto já para não falar da febre do Hyrox.
À primeira vista, parece apenas mais uma tendência. Mas como é que uma geração emocionalmente cansada, constantemente online e, muitas vezes, sem energia para responder a um simples email, começou, de repente, a acordar às cinco da manhã para treinar para maratonas, fazer Ironmans ou entrar em banheiras cheias de gelo?
Passamos grande parte dos nossos dias com o telemóvel colado à mão. Já fazemos scroll quase sem dar por isso, à procura do próximo pico de dopamina rápida: um reel, um like, uma notificação. Tudo chega demasiado depressa, e quase sem esforço. E, ainda assim, chegamos ao fim do dia exaustos sem perceber muito bem porquê.
Talvez a resposta esteja precisamente nesse cansaço. Quando quase tudo à nossa volta é imediato, o desporto funciona ao contrário: obriga-nos a esperar.
O esforço vem primeiro e a recompensa, quando vem, chega depois. Não há como saltar a parte difícil ou acelerar o processo.
O neurocientista Andrew Huberman explica que podemos aprender a associar a recompensa ao próprio esforço, e não apenas ao resultado.1 E, aos poucos, aquilo que custa deixa de ser apenas o obstáculo e passa a fazer parte da razão pela qual voltamos.
Nem todos treinamos pela mesma razão. Há quem treine para melhorar tempos e há quem treine para conseguir respirar mentalmente. Mas, no fundo, talvez procuremos algo parecido: uma forma de recuperar algum equilíbrio quando tudo o resto parece estar a acontecer a um ritmo impossível de acompanhar.
Há também uma honestidade no desporto que começa a ser rara. Num mundo onde quase tudo pode ser editado, filtrado ou construído, o corpo continua a responder a regras antigas. Não aceita filtros nem as mentiras que contamos a nós próprios. Não existe Photoshop para o suor durante uma corrida, nem forma de fingir fôlego ao quilómetro dez de uma maratona. Ou treinaste, ou não treinaste.
Como disse a atleta olímpica Eileen Gu em entrevista, “sports are really honest because you can’t lie to yourself”.2
A parte mais difícil raramente é visível. Ninguém aplaude os treinos feitos em silêncio, os dias em que aparecemos sem motivação ou o esforço acumulado longe de qualquer story ou validação externa. Mas é precisamente aí que se constroi uma parte importante da confiança que temos em nós próprios.
Cada vez que cumprimos algo que prometemos (treinar quando não nos apetece, continuar a aparecer, não desistir a meio), damos ao nosso cérebro uma prova concreta de que somos alguém em quem podemos confiar.
Essa confiança conta sobretudo nos dias em que sentimos que pouco depende de nós. E o desporto, em certa medida, devolve-nos a sensação de controlo. Num treino, os limites são claros: sabemos o que estamos a pedir ao corpo, de onde vem o desconforto e que, se continuarmos, mais cedo ou mais tarde, aquela série acaba.
Se decidires correr quinze quilómetros amanhã, sabes que provavelmente as pernas te vão doer depois. Mas foste tu que escolheste correr. Podes controlar a intensidade, a duração e o momento em que paras.
Há qualquer coisa de reconfortante numa dificuldade que conseguimos compreender.
Há ainda outra coisa que ajuda a explicar a procura pelo desporto em grupo: a vontade, talvez até a urgência, de sentirmos que fazemos parte de alguma coisa.
Os run clubs e as aulas de grupo não nos dão apenas um treino. Dão-nos um lugar onde aparecer e onde, semana após semana, outras pessoas aparecem também. Kelly McGonigal chama a este fenómeno “collective joy”: a ligação que se cria quando várias pessoas se movem ao mesmo ritmo e partilham o mesmo esforço.3
Não é preciso conhecer ninguém para sentir isso. Há algo profundamente humano em ouvir a respiração de quem corre ao nosso lado, repetir os mesmos movimentos ao mesmo tempo e sofrer em conjunto quando o instrutor anuncia que ainda falta “só mais uma repetição”… Ou até naquele olhar silencioso trocado com um completo desconhecido que confirma: “Sim, isto está mesmo a custar aos dois.”
Foi provavelmente por isso que, no final daquela aula, me senti ligada a pessoas que nunca tinha visto. Não sabia os seus nomes, e talvez nunca venha a saber. Mas, durante quarenta e cinco minutos, tínhamos escolhido aparecer no mesmo lugar e continuar.
Claro que isto não significa que o desporto seja uma solução para tudo. O que funciona para mim pode não funcionar para outra pessoa e o exercício físico não substitui acompanhamento psicológico ou clínico quando necessário.
Mas também não precisa de resolver tudo para ser importante.
Pode funcionar como uma espécie de “infraestrutura”. Não elimina aquilo que se passa à nossa volta, mas dá-nos um lugar onde pousar parte desse peso. Uma rotina quando o resto parece desorganizado. Um grupo de desconhecidos com quem partilhamos o esforço, sem precisarmos de prestar explicações. Uma prova de que ainda conseguimos fazer coisas difíceis, e continuar, mesmo quando ninguém está a ver.Há rotinas que não nascem da vaidade, mas da tentativa de manter a cabeça no sítio. E talvez seja por isso que continuamos a voltar.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.