Todas as histórias possíveis antes do jogo passavam obrigatoriamente por uma frase proferida por Cristiano Ronaldo há oito anos, na Cidade do Cabo, na noite em que Portugal foi eliminado do campeonato do mundo pela Espanha. “Perguntem ao Carlos Queiroz”, disse o homem que na altura só tinha uma Bola de Ouro. Hoje, de Saransk a Lisboa, ficámos todos suspensos da resposta do Carlos. Ou do Karma.

O Karma é um termo complexo do budismo e de outras religiões que, no uso popular, foi simplificado para uma espécie de justiça cósmica em que as nossas ações, boas ou más, não passam despercebidas ao universo. Na tradição profana portuguesa temos conceitos equivalentes como o Kassefazem Kassepagam ou o Ka Kalharaz. Há ainda o lema das comunidades marítimas que assegura haver mais marés que marinheiros e a ameaça vaga, espiritualmente consoladora, do “não perdes pela demora”. Todos estes cultos se baseiam na crença de que o universo está mais atento às ofensas que sofremos que nós próprios, que vai registando pacientemente num livrinho de balanço esses agravos e que há de colaborar connosco, ou mesmo sem a nossa contribuição, para retribuir aos nossos inimigos os danos que nos infligiram.

O peso daquelas palavras pairava sobre o espírito de todos, como uma cúpula invisível a tornar o ambiente do jogo particularmente abafado. Era uma péssima altura para que o cosmos se lembrasse de punir Cristiano Ronaldo pela húbris e por se ter limitado a dizer o que a maioria dos seus compatriotas pensou na altura: sim, “perguntem ao Queiroz”. O que aconteceu depois ao treinador, de certa forma reabilitou-o aos olhos dos portugueses. O despedimento pela Federação foi uma manobra vergonhosa, na senda das mais vis e subterrâneas tradições do nosso futebol. Como se não bastasse, Queirós ainda foi arrastado pela ruína do BES, tendo perdido uma parte das poupanças. O estatuto de vítima era preocupante. Analisando os factos, até uma pessoa sem tendência para as teorias da conspiração fica com a mania da perseguição na terceira pessoa, ou seja, desenvolve a mania que uma terceira pessoa, neste caso, Queiroz, está a ser perseguida. Para o adepto que tende a valorizar todos os fatores que possam determinar o curso de um jogo, era óbvio que o universo nunca teria uma oportunidade tão gloriosa para ressarcir Carlos Queirós dos prejuízos causados pela Federação, pelo sistema bancário e por Cristiano Ronaldo.

Foi então sob o signo de um possível ajuste de contas cósmico que os jogadores subiram ao relvado. O jogo começou com William aos comandos da nave, a controlar confortavelmente as manobras, a tal ponto que até os jogadores iranianos pareciam esperar as indicações dele para se movimentarem. Na baliza iraniana o guarda-redes não segurava um cruzamento e chegou a desentender-se com um defesa. Discutiram de um modo muito persa e, pouco depois, já estavam enervados por outro motivo qualquer. A reação dos iranianos a cada bola perdida era de total descontrolo emocional, como se estivessem à beira de um colapso nervoso. Neste período inicial, Portugal teve a virtude de nos fazer ver o Irão tal como é e não do tamanho dos nossos medos: uma equipa abnegada, disciplinada na defesa e com a famosa “intensidade”, mas mediana, com uma estratégia de ataque assente em lances de bola parada e na esperança de um auto-golo. Porém, aos poucos, as coisas começaram a inverter-se. O ponto de viragem terá sido uma cueca de bairro que Adrien Silva levou nas imediações da nossa grande área. Queirós destacou um jogador para atrapalhar William e a missão foi bem sucedida. Portugal insistia nos cruzamentos, mas agora que o guarda-redes já conseguia segurar a bola, era o mesmo que entregá-la ao adversário. O Irão crescia. As nuvens prenunciadoras de uma tempestade kármica adensavam-se. Até que, quase a acabar a primeira parte, Quaresma tirou o coelho da cartola, a trivela ex machina. Além das qualidades futebolísticas, Quaresma revelou inesperados dotes de dramaturgo clássico que proporcionaram a todos os portugueses um intervalo inesperadamente tranquilo.

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