Mundial 2018

A última lição de francês /premium

Autor
  • Bruno Vieira Amaral
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Depois da final perdida para Portugal, Deschamps desligou o software emocional da França. Foi por essa razão que, ao longo do Mundial, sempre pareceu a equipa mais sólida, mais fiável.

Durante quase uma semana os franceses fizeram conferências de imprensa não para serem ouvidos pelos jornalistas ou pelos adeptos, mas por Deus, o destino, o acaso, quem quer que seja o responsável por tecer os fios das vidas humanas: “Nós aprendemos a lição. Não seremos sobranceiros. Respeitaremos o adversário. Os jogos ganham-se em campo”, etc, etc, etc. Depois da tragédia de Paris, em que o universo serviu-se de um tal Éder para ensinar uma lição a toda a gente, incluindo os portugueses, ninguém na equipa francesa queria voltar a passar por uma situação semelhante. Estavam dispostos a tudo, até a um acto público de contrição muito contrário ao espírito da “grandeur”.

Diz-se que quando Voltaire estava a morrer os padres pediram-lhe que renunciasse a Satanás, ao que o escritor e filósofo terá respondido: “Não é hora de fazer novos inimigos.” Voltaire toda a vida combateu o pensamento supersticioso. Porém, se os jogadores franceses aprenderam dele alguma lição foi a de evitar fazer novos inimigos em momentos inoportunos. Pelo sim, pelo não, antes que o destino lhes pregasse outra partida, içaram a bandeira branca e pediram tréguas ao karma.

O karma, sempre atento às acções humanas, presenteou-os liberalmente na primeira parte: um auto-golo e um penálti, vá, generoso. Num Mundial em que foi batido o recorde de auto-golos seria quase criminoso que na final não houvesse um. O feliz contemplado foi Mandzukic. Logo ali se soube que ele haveria de marcar um golo porque, diz o senso comum, quem marca auto-golo depois é compensado com um golo na baliza certa. Perisic empatou o jogo, mas como o que Deus dá, Deus tira, foi o mesmo Perisic que levou com a bola no braço depois de um canto. Alertado pelo VAR, Néstor Pitana correu para o ecrã e, depois de muita câmara lenta, veio em passo de corrida com a decisão inapelável. Griezmann, frio como o inverno siberiano, facturou. Ao intervalo, a França tinha feito um remate e dois golos, numa taxa de aproveitamento de 200%.

E a Croácia? A Croácia entrou com brio, de peito aberto, a cair em cima dos franceses, pelos flancos e com toda a alma, numa notável ilustração do espírito guerreiro de Tomislav, primeiro rei dos croatas. O problema é que a França estava preparada para aguentar os embates sem se desorganizar táctica e espiritualmente. Excepto por umas tentativas kaiserianas de Umtiti sair com a bola dominada, não havia sinais de instabilidade. Nem sequer havia sinais de emoções. Depois da final perdida para Portugal, Deschamps desligou o software emocional da França. Foi por essa razão que, ao longo do Mundial, sempre pareceu a equipa mais sólida, mais fiável. Raras vezes entusiasmantes (a excepção foi o jogo com a Argentina), quase nunca espectaculares (a excepção, claro, foi Mbappé), mas com aquela solidez férrea indispensável aos campeões, aquela fiabilidade que pode não chegar aos 220 km/h, mas que nunca se despista.

Didier Deschamps construiu máquina à sua imagem. Não se importou de atirar borda fora 14 dos jogadores que estiveram no Euro, não teve problemas em abdicar de talentos como Martial e Lacazette, para atingir um único objectivo: construir uma máquina que, acima de tudo, lhe desse garantias de não se despistar. Mas também uma máquina adaptável às características do adversário, capaz de encontrar a cada momento a resposta certa às diferentes questões que lhe foram sendo colocadas. Foi assim que ganhou a equipas tão diferentes como a Bélgica e o Uruguai, a Argentina e a Croácia. Neste sentido, a selecção gaulesa é uma equipa reactiva. Depois de tanto se falar do efeito Guardiola, eis que o Mundial é conquistado por uma equipa mourinhista, uma equipa de que Simeone se orgulharia. Aliás, um dos feitos de Deschamps mais destacados pela crítica foi a domesticação de Pogba, convertido num discípulo abnegado da disciplina, coisa que nem o próprio Mourinho conseguiu fazer até agora. Outros exemplos da filosofia do treinador francês foram o papel fundamental de N’Golo Kanté e a confiança absoluta num avançado que acabou o Mundial com um remate à baliza, Olivier Giroud.

Como escreveu Jorge Valdano, a França é um produto do seu treinador, em que o talento que existe tem de obedecer a uma ordem superior, enquanto a Croácia é um produto dos seus jogadores. Sabendo a opinião do antigo avançado argentino sobre as equipas de Mourinho e Rafa Benítez, não se pode dizer que seja um elogio, embora Deschamps, o terceiro homem a conquistar o Mundial como jogador e treinador, não deva estar muito abalado pela opinião de Valdano.

Na segunda parte, beneficiando dos riscos dos croatas e impulsionada pela entrada de Nzonzi, a França ameaçou golear. Pogba, Griezmann e Mbappé corriam como os ventos saídos do saco de Éolo e a Croácia, pela primeira vez neste Mundial, parecia uma equipa derrotada e sem ânimo. O monumental frango de Lloris, que ofereceu assim a Luva de Ouro a Courtois, evitou o que seria uma humilhação escusada e injusta para uma Croácia corajosa, uma selecção com tanto futebol quanto a França, mas menos equipa e menos treinador.

No final – na final – venceu o melhor. Fosse sempre assim.

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