No poema épico Odisseia, Homero narra as venturas e desventuras do regresso de Ulisses a Ítaca. Entre o fim da guerra de Tróia e a chegada a casa decorrem 10 anos. Durante esse tempo, os acontecimentos provam a justeza do epíteto formular de Ulisses: o de muitos recursos. As aventuras do herói mostram o conjunto de meios que lhe permitem sair-se bem das mais diversas situações. A simples referência à quantidade implica desde logo uma escolha reflectida: qual desses recursos se adapta melhor ao caso concreto, ao problema que tem de resolver?
O processo de ponderação apenas é possível mediante a inibição da reacção. Ulisses não se entrega ao momento, não se dá à coisa, refreia os seus ardores. E é assim, de cabeça fria, que consegue levar a sua avante pela astúcia. O distanciamento do herói é total; até de si desconfia, reconhece a sua fraqueza e por isso está também em condições de a dominar. É o que se passa no episódio das Sereias, em que, prevendo que não resistirá ao seu canto e não querendo prescindir da experiência de as ouvir, ordena aos marinheiros que o amarrem ao mastro do navio. Frui das melodias encantatórias, sem sucumbir ao feitiço destrutivo. Afinal, as Sereias servem-se em certa medida das mesmas armas de Ulisses – simulam uma coisa para obter outra.
Muitos episódios mostram a reflexão de Ulisses em estado puro, isto é, ponderando a melhor saída para uma situação objetiva, é o caso do encontro com ciclope Polifemo: como lutar com um ser desmesuradamente grande? Como mover a rocha que tapa a saída da gruta onde aquele habita, a qual, segundo Homero, nem 22 carros de quatro rodas conseguiriam mover? Já o encontro com as Sereias aponta antes para o elemento subjectivo, passional; os próprios ímpetos da singularidade estão sob suspeita: os seus efeitos deletérios são controlados com rigor. Ulisses nem a si mesmo cede. E assim acontece nos episódios em que os dois aspectos se entretecem como no reconhecimento do cão Argos, ou nos encontros com a mulher Penélope. Diz-nos o poeta que Ulisses, reconhecendo Argos alquebrado e moribundo, verte uma lágrima que dissimula para não se dar a conhecer e assim trair o plano das suas acções, e do mesmo autodomínio dá prova nas várias entrevistas com Penélope.
E, no entanto, dois episódio há que contrariam tudo isso. Trata-se do banquete no país dos Feaces. Quando o rei desse pequeno povo pede ao aedo que cante os feitos da guerra de Tróia, Ulisses, o homem que muito sofreu, diz o poeta, chora, oculto pela capa que puxa sobre a cabeça. Agora em segurança, são as recordações que irrompem no presente, trazendo a memória das agruras passadas, as causadoras das lágrimas. O presente justifica os sofrimentos passados, mas nunca inteiramente. Alguma coisa fica lá atrás, perdida para sempre, mas que, rememorada, comove. Também no encontro com Telémaco chora Ulisses copiosamente. Quando o herói parte para a guerra, no entanto, o filho é ainda pequeno, Ulisses pouco conviveu com ele; 20 anos depois é um desconhecido. Mas nem por isso deixa de o guiar no regresso ao lar – Telémaco é o futuro. O sentido que o presente da decisão abre está entre o sofrimento passado e a esperança do futuro.
O autodomínio de Ulisses consiste em fazer o que é necessário; a cabeça fria é a medida da responsabilidade. Quando se amputa aos sujeitos a história, que é a sua casa, apresentando-a como uma história de crimes, a história do que não deveria ter sido (e quem diz a história, diz também a língua que lhe é consubstancial), os sofrimentos ficam esbulhados do seu sentido, e a esperança no que se pode deixar a quem vem torna-se outra traição a uma instância exterior e não reconhecida, pela qual, precisamente, não se sofreu com a finalidade de criar, é impossível que se dê uma reconciliação. Desprovidos de um horizonte mais vasto, os particulares ficam impossibilitados de sentir o sentido. Essa aparente falta de sentimento assinala, porém, que o presente se isola radicalmente, que se cortam os fios que o ligam ao passado e ao futuro; que os particulares ficam expostos a todas as forças, como a poeira é levada pelo vento. Aqueles que escarnecem das cicatrizes nunca foram feridos e não compreendem que, devido àquela insegurança radical, talvez haja quem, como Ulisses, chore em silêncio e de cabeça coberta, mas agora de raiva, e talvez haja também quem se entregue àqueles que lhe oferecem o sucedâneo de uma história. De plástico, que é mais barato.