Nos campos de extermínio criados pelo nacional-socialismo alemão, uma imaginação guiada por uma corrupção moral satânica inaudita inventou uma forma de execução perversa. Passava-se o laço à volta do pescoço do condenado, que, para evitar o enforcamento, se via obrigado a manter-se em bicos dos pés, até que a exaustão levasse a melhor. Tombando, o infeliz enforcava-se a si mesmo. A lógica concentracionária exigia a humilhação, a desumanização até ao fim. As suas leis de ferro impunham a degradação total até ao ponto em que a morte surge como libertação. A distorção grotesca da Criação revela-se aqui: o mal que não deve existir suprime-se a si mesmo. Sendo radical, o mal não se redime, não ascende até Deus, afunda-se no abismo da não existência.

Os ataques de 7 de Outubro de 2023, perpetrados pelo Hamas contra Israel, são terroristas numa acepção muito concreta. Não se trata de aterrorizar a população civil ou granjear publicidade para uma causa, no sentido tradicional. Mais, muito mais do que uma operação militar que vitimou deliberadamente civis, os ataques foram um acontecimento criado para efeitos mediáticos, segundo um plano bem definido – e ainda mais bem financiado. É isso que explica a campanha mediática que teve início quando ainda decorria o ataque. O objectivo foi sempre o espectáculo, a repercussão mediática mundial. A escala gigantesca dos meios usados serviu essencialmente para duas coisas.

Em primeiro lugar, levou a uma mudança radical na consciência judaica. Até então considerado um baluarte contra as constantes violências e exacções infligidas aos judeus, Israel perdeu esse estatuto. Não só os habitantes do país se viram privados da defesa que o Estado lhes oferecia, como, entre os judeus da diáspora, o próprio Estado ficou em certa medida deslegitimado. Não se trata de um mero retrocesso para uma situação anterior à criação do Estado de Israel. É muito pior. É a prova de que a ultima ratio nos conflitos humanos falhou. O Estado como possibilidade de protecção armada, capaz de opor violência à violência, revelou-se insuficiente. Uma vez mais, os judeus foram reduzidos à condição de objecto. Com tanta mais força agarravam a sua condição de sujeitos, que o sujeito estatal assegurava – real e simbolicamente – tanto mais inermes e desesperançados se encontram agora. A recaída é mais grave do que a doença. A insegurança existencial daí decorrente não pode ser subestimada quando da avaliação das decisões políticas e militares de Israel, e também dos judeus fora de Israel. Tudo isso constituiu, é preciso reconhecê-lo, uma primeira vitória do Hamas – as placas tectónicas moveram-se e teve início um novo capítulo do martirológio judaico.

Em segundo lugar, prevendo a resposta de Israel, e desejando-a porque era essencial ao plano urdido, levaram a cabo uma inversão total dos valores. Foi travestida em genocídio a disparidade do número de mortos, inevitável numa guerra daquele tipo, para anular o que sobrava do crédito moral de Israel, que se arraigava em grande medida na má consciência ocidental. Agudizada pelo paroxismo nacional-socialista, era essa má consciência que importava desmantelar metodicamente. O cerco linguístico, montado já há muito tempo pela propaganda soviética, árabe e islâmica, foi apertado sem apelação. A prova é inequívoca. Toda e qualquer crítica a Israel chega mais cedo ou mais tarde ao genocídio; todo e qualquer texto jornalístico crítico de Israel chega mais cedo ou mais tarde a uma referência ao nacional-socialismo. Entre todas as chacinas e mortandades da história, a unanimidade, voluntária ou involuntária, faz-se com base na comparação com o nazismo. Essa alquimia nefanda – outra vitória do Hamas – permitiu-lhe dois ganhos de causa. Neutralizou na esfera pública os seus ataques, por um lado, e apresentou a acção de Israel – o putativo genocídio – como o culminar do seu passado – o sionismo, que levou ao regresso de Israel à sua terra – e futuro inevitável, caso não seja impedido por forças externas. Por outras palavras, homogeneizou o passado, o presente e o futuro de Israel, essencializando-o como o mal por excelência. Foi esse dilúvio de propaganda e de acções cientificamente planeadas, organizadas e levadas a cabo que encontrou um eco retumbante na Europa e no Ocidente, mas não só. O Hamas conseguiu conquistar o espaço noticioso pela sua própria actividade e também contando com o efeito de contágio que a esquerda muito em particular, mas também e até algum cristianismo, de esquerda e de direita. Tudo isso com o concurso precioso das Nações Unidas, cujo historial anti-semita é longo e se prolongou com um brilho muito próprio por acção do seu Secretário-Geral cessante, António Guterres. Nesse contágio, revelou todo o seu perigo, para quem ainda tivesse dúvidas, a bomba demográfica que são hoje as segundas gerações de imigrantes islâmicos. Nada de novo. A tese tem a devida paternidade leninista. Afirmava o ditador soviético – no seu artigo de 4 de Março de 1923, intitulado É Melhor Menos, mas Melhor, referindo-se ao conflito com o Ocidente imperialista – «O desenlace na luta depende, em última análise, do facto de que a Rússia, a Índia, a China, etc., constituem a gigantesca maioria da população.» É o que se vê muito recentemente no Green Party inglês, no Die Linke alemão e respetiva vitória em Berlim ou na France Insoumise em França e na sua infiltração nos protestos estudantis. As consequências fazem sentir-se na própria Comissão Europeia, basta atender às declarações da comissária da Bélgica, Hadja Lahbib, para quem não são necessárias decisões judiciais (em Portugal, o sítio da Presidência da República não assinala o terceiro aniversário do 7 de Outubro). Esse contágio foi ainda facilitado pela alienação social de vastas camadas das populações ocidentais, passivas e atreitas a uma autofobia e a uma xenomania específicas. Essa alienação reside precisamente no individualismo negativo que se afirma no vazio da generalidade abstracta do que não existe, somente possível numa sociedade com um elevado nível de bem-estar material desresponsabilizante. Mas tudo isso foi devidamente calculado pelos organizadores do ataque do 7 de Outubro de 2023. Nada ficou entregue ao acaso. O objectivo do Hamas é criar as condições internacionais que impossibilitem que Israel continue a existir, quebrando-lhe a resistência interior. Querem-lhe pôr um laço ao pescoço, como os seus antepassados nazis, para que, impossibilitado de continuar de pé, Israel caia e se enforque a si mesmo. Para já é só isso que lhes importa. A desmoralização, porém, foi conseguida. Depois tratarão do resto.