Quando uma explosão acidentada em Paris fez nascer uma estranha criatura, os habitantes apavorados estavam longe de imaginar que esse “monstro” era um ser humilde, dócil e dotado de um talento artístico que deixou o público em êxtase num cabaret da cidade: o seu pezinho de dança parecia desafiar o dedilhar da guitarra.

Caro(a) leitor(a), não se deixe entusiasmar muito. O Monstro de Paris é um personagem ficcionado do filme francês Un Monstre à Paris. No entanto, vou falar-lhe de um monstro real, de carne e osso, o Monstro de Bissau, Umaro Sissoco Embaló (Sissoco).

Por ter sido um aluno cabuloso, um ser sem exemplaridade moral e ética, sempre se sentiu desprezado. Ganhou o cognome de “dubriadu” (desenrascado), o que, para um nulo, constituía a sua maior força, o seu maior talento. Assim, não foi pelo currículo que foi nomeado primeiro-ministro, contra a vontade popular expressa nas urnas, a fim de conhecer os cantos à casa do poder. Na corrida para a presidência da República, não é difícil imaginar a euforia dos militantes e simpatizantes do PAIGC quando viram o seu nome aparecer como segundo candidato mais votado na primeira volta. Era o adversário ideal para a segunda volta, que não passaria de uma passeata dominical que, afinal, se transformou no seu maior pesadelo. O Monstro de Bissau lograra congregar à sua volta todos os outros candidatos do top 5, numa coligação apelidada (e bem) de negativa, para uma vitória ainda hoje indigesta para muitos.

Ainda durante o seu tempo na chefia do governo e no calor da disputa eleitoral, o lobo seguia disfarçado em pele de cordeiro. Contudo, a farsa estava cada vez mais mal costurada, com rasgões e buracos discretos, visíveis a quem ousasse olhar além da aparência, para enxergar traços da verdadeira natureza por detrás da encenação. Uns queixumes religiosos e tribais para se sentir amado, porque um ego desmedido requer amparo. Umas ameaças a quem lhe fazia frente, para afirmar a autoridade que não possui.

Assim que tomou posse como presidente, à margem das leis da República, Sissoco decidiu livrar-se do disfarce e assumir o seu verdadeiro carácter: um monstro narcisista obsessivo, sádico, fora-da-lei, parasita, mentiroso compulsivo, complexado, alimentado por prepotência e ilusões de grandeza.

Movido pelo seu complexo de inferioridade, começou por desvalorizar a nossa história colectiva de que muito nos orgulhamos, rebaixando a figura do pai fundador Amílcar Lopes Cabral, tentando sem sucesso ressuscitar personagens de má memória para os guineenses. E como se não bastasse, num gesto para agradar às chefias militares, o seu braço armado, Sissoco, decidiu mudar a data da celebração da nossa independência de 24 de setembro para o dia 16 de novembro, justificando que foram os militares que deram a independência à Guiné-Bissau. O que fazer de um eterno ignorante?!

Não percebendo patavina do que é a República, apoiado pela chefia castrense, decidiu assumir-se como um fora-da-lei, desobedecendo acórdãos judiciais. Mandou a sua milícia correr com o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, desmantelou, à coronhada, o parlamento, infiltrou e implodiu o PRS e o MADEM-G15, a terceira e segunda maior força política do país, respectivamente, para consolidar o poder absoluto de terror na terra de Cabral.

O Monstro de Bissau diz-se muçulmano, mas, na verdade, não passa de um satanás que utiliza a religião para os seus fins políticos: almejar votos. As suas práticas estão nas antípodas do perfil de um pregador de Alá, e garantem-lhe um cartão Gold para, na sua viagem última, poder frequentar os clubes VIP do inferno.

O Monstro de Bissau instalou uma organização de tráfico de droga em escala industrial, com laisser-passer para aviões transportando cocaína aterrarem no aeroporto internacional do país em plena luz do dia. Alguém conhece um chefe de Estado que se diz ser menos sério do que o proprietário do avião misterioso que ainda apanha poeira no aeroporto de Bissau? Um presidente da República que se irrita com a apreensão de 2,6 toneladas de droga? Um presidente da República interrogado pela DEA (Administração de Repressão às Drogas dos EUA)? Só o Monstro de Bissau.

O Monstro de Bissau é um homem casado, com filhos, mas organiza e filma orgias no palácio com meninas que, nos tempos de liceu, estavam fora do seu alcance. Afinal, o poder faz mais do que corromper.

O Monstro de Bissau manda raptar, sequestrar, espancar deputados e outros cidadãos, e incendiar suas casas; manda vandalizar rádios privadas. E, num sadismo digno da série televisiva Mentes Criminosas, recebe vídeos de tortura das suas vítimas para se extasiar! Momentos depois, questionado pelos jornalistas sobre mais um acto de violência contra cidadãos, o Monstro responde, desalmado: “Foi um acto isolado”.

Quando um jornalista lhe pediu que se pronunciasse sobre a morte de Papa Fanhe, um jovem detido arbitrariamente numa prisão insalubre, na sequência da inventona de 1 de fevereiro de 2022, e que teve complicações de saúde que levaram à sua morte, o Monstro de Bissau, com a sua maldade característica, respondeu assim: “Disseste que morreu, certo? Não foi morto, correcto? Então, que tenha um canto na glória, se merecer.”

Alguns sicários, para impressionar o Monstro, até se permitem, em excesso de zelo, cometer arbitrariedades que invariavelmente passam incólumes, não fosse essa a tradição no reino da impunidade, onde o Monstro, quando questionado, retorque com um “acto isolado”.

E enquanto o suposto Monstro de Paris adora o rio Sena, dedicando-lhe notas musicais em noites de estrelas, o Monstro real de Bissau usa o rio Mansoa para deitar corpos embrulhados com arame farpado. Uma das suas recentes vítimas foi Tana Bari, um jovem em tenra idade, que foi um dedicado operacional da esquadrilha do terror. O Monstro de Bissau é o suspeito principal do assassinato bárbaro, porque, como o próprio confirmou, é autêntico o áudio posto a circular nas redes sociais em que, dias antes, com a sua conversa fiada e mofina, convenceu o miúdo a regressar a Bissau.

Se o corpo de Tana deu à margem do rio, quantas vítimas (tidas por desaparecidas) não terão tido o seu destino sentenciado no serpenteado dos rios da nossa terra, sem que os familiares pudessem confirmar a morte e organizar cerimónias fúnebres? O irmão mais velho de Tana, Tcherninho, antigo chefe de segurança da presidência, ainda está vivo, porque foi avisado a tempo de ir refugiar-se no Estado-Maior.

O Monstro é tão macabro que, depois de consumar uma tragédia, muda de registo para solenidades que até fazem duvidar o mais convicto dos críticos! O diabo é exímio na arte de metamorfoses espontâneas. Enquanto a família enlutada chora o seu defunto que não teve o direito de sepultar, o Monstro organizou um almoço com os antigos professores do liceu a quem implorava nota mínima para passar, com a promessa de discutir a política educativa quando for reeleito.

Enquanto escrevo estas linhas, ponho-me a pensar o que diria Frantz Fanon deste fenómeno!

O Monstro de Bissau mente como respira, compulsivamente. Na nossa adolescência, ouvi tanta gente proferir essa frase a seu respeito: “Esse indivíduo, a única coisa que podes acreditar nas suas palavras, é quando te diz que a sua mãe é uma mulher.” De facto, para entender o sentido das suas palavras, deve-se invertê-las, sobretudo as de auto-elogio e aquelas que aparentam exprimir boas acções, bondade. Seria uma anomalia psicanalítica enxergar no monstro acções genuínas de candura, de fazer bem ao seu semelhante sem contrapartidas, sem coagir, sem eliminar quem sabe muito, sem criar dependência no medo. Sendo o maior divisionista da Guiné, apresenta-se como “presidente da concórdia nacional”; Lidera um bando de corruptos e traficantes de droga em escala industrial, mas ousa afirma-se como um “implacável contra a corrupção e o tráfico de drogas”. O bandido do Supremo decide a mando dele contra a Constituição da República, o Monstro lava as suas mãos com um “A decisão é do Supremo”. Ele é o maior perturbador da ordem na Guiné, mas ainda assim, é capaz de vociferar um “Não admito desordem neste país”. Sendo dos pseudo-políticos do mais baixo nível da Guiné, gaba-se de peito feito: “Os políticos da Guiné não têm o meu nível”. Quando insinua que “Há gente a fazer teatro”, haverá teatro mais deplorável que as aparições públicas de Sissoco? “Coloquei o país no concerto das nações”, reivindica o Monstro, o eterno ignorante que confunde viagens pessoais com relevância internacional, a condescendência dos seus interlocutores com apreço. A Guiné sempre fez parte do concerto das nações.

Para o Monstro e o seu esquadrão, o desenvolvimento define-se com tapar buracos e pintar o chão vermelho com alcatrão a custo por quilómetro quase seis vezes superior ao que é praticado na sub-região. Ressabiado, mandou agredir Luís Vaz Martins, o advogado que denunciou a autêntica máquina de lavar dinheiro, com alcatrão! Para eles, hospitais sem paracetamol nem cama para pacientes, ou laboratórios sem reagentes são um problema júnior, assim como os jovens cujo futuro está decretado pela falta de escola, pela proliferação de casinos e consumo desenfreado de cocaína. Como diz o Lagartixa, foi o negócio do tabaco de Irão que nos trouxe essa sarna difícil de coçar!

O Monstro é exímio na arte de ludibriar, mas é mesquinho, impudorado, sem pergaminhos para chefiar a mais pacata sub-secção de um serviço público qualquer. A ser contratado por erro de casting, teria sido despedido por má conduta. O absurdo, é a sua ‘raison d’être”.

O Monstro tenta, a todo o custo, escapar à mediocridade, mas tal intento é inglório, porque a dita maldição é intrínseca ao seu próprio ser. Desenvolve então um ódio visceral contra quem se esforça para ser gente de bem. Ainda assim, mormente o seu manifesto complexo de inferioridade, alicia letrados em quem enxerga falta de carácter, para conferir alguma erudição, com aromas de bacalhau, à sua propaganda fútil, aos seus formalismos de actos inconstitucionais.

Sem um pingo de amor à pátria, cujo nome usa e abusa à exaustão para somente irrigar o seu ego, o Monstro de Bissau compra a preço de ouro centenas de horas de voo para as suas negociatas em lugares pouco recomendados, levando nessas passagens aéreas algumas “frutas” para argoladas rápidas em suites presidenciais. Na sua ilusão de grandeza, implora para fazer escala em destinos mais nobres. Assim, as suas idas a Moscovo, onde quando comunica prefere o francês de fuka n’djai (roupa em segunda mão) à nossa língua oficial – o português – permitem-lhe, sobretudo, abrir canais para estabelecer relações perigosas na Chechénia, Tartaristão e outros tãos.

Com o seu jeito manipulador de bom rapaz, conseguiu enganar Marcelo e Costa, mas se o professor conseguiu descodificar as trampas do aluno, afastando-se, o Costa faz de conta. Montenegro prefere vê-lo ao longe, delegando no Rangel a praxe diplomática. Ressentido, mandou atacar o jornalista da RTP, antes de expulsar todos os orgãos de informação lusos. Com a decadência do neocolonialismo francês em África, jogou-se às mãos de Macron como marioneta de serviço a troco de umas ajudas orçamentais e passagens regulares ao Palácio do Eliseu para irrigar o seu ego e sentir-se como um grande no meio das grandes.

Na famigerada cimeira de Washington com Donald Trump, o Monstro de Bissau e os seus quatro camaradas fizeram figura horrenda de intermediários a pedir emprego a um mercador de escravos, o que põe em evidência a falta de dignidade das lideranças africanas.

Vai a palcos internacionais, como a Assembleia Geral da ONU, soletrar discursos fúteis, arranjar encontros bilaterais para discutir cooperação fictícia com o único intuito de inundar as telas das redes sociais.

Quando aterra em Bissau, apressa-se a falar a jornalistas que até tremem a fazer perguntas, exibindo um cartaz só disponível no seu imaginário, com a imagem de “um leão de juba farta”, quando todos sabemos que ele é um gatinho protegido por homens armados.

No rescaldo da última cimeira (da vergonha) da CPLP, o Monstro de Bissau e seus apaniguados gritaram vitória diplomática. É preciso ser mesmo obsessivo para reclamar sucesso no mero acto de reunir, na mesma sala, alguns líderes de uma organização já desvinculada dos seus princípios e valores fundacionais – e que agora parece disputar com a CEDEAO o troféu do patinho mais feio.

Fico perplexo ao ver Ramos Horta, outrora artífice da restauração da ordem constitucional na Guiné, a partilhar um banquete com um ditador que está a destruir todo o edifício do Estado de Direito democrático do país. Deixa-me triste ver José Maria Neves, um democrata, chefe de Estado em cujo país a única alternativa à democracia é… a própria democracia, cortar o bolo a duas mãos com o Monstro, no coração da Topografia do Terror, em Bissau.

Sim, leu bem, Topografia do Terror. Este verão, estive em Berlim, onde pude visitar e percorrer a resenha histórica da Topografia do Terror, onde funcionaram os quartéis-generais da Gestapo, SS e SD. Foi arrepiante constatar similitudes gritantes da ditadura Sissoquista com os vestígios do horror do Terceiro Reich. A nomeação de Adolf Hitler como chanceler da Alemanha, em 30 de janeiro de 1933, marcou o primeiro passo rumo ao totalitarismo, arruinando o Estado de Direito democrático, sem formalmente romperem a Constituição A seguir, foi o Decreto do Incêndio do Reichstag e o Enabling Act que ajudaram a consolidar o regime nazi, cujos horrores estão bem documentados.

Não estou, obviamente, a sugerir que Sissoco tenha ambições expansionistas. Antes, pelo contrário, na medida em que o seu ego se mantenha irrigado e, para a nossa desgraça, além de abafar a nossa história e destruir a nossa identidade, não hesitará em vender a terra que a todos nos pertence, sem nos sobrar a lamaceira de Bessasma, onde um dia poderíamos contemplar o monstro à deriva no alto mar, num acto isolado a epilogar a aventura de um ser que ama muito a sua verdadeira pátria: o seu ego.

Por mais que custe aceitar a exclusão dessas eleições da maior plataforma partidária e do seu candidato presidencial, este plebiscito é uma bênção, a derradeira oportunidade para resgatar a nossa Guiné, num acto de segunda independência. Por isso mesmo, caro concidadão eleitor, no dia 23 de Novembro, quando tiveres um pedaço de papel e uma caneta, terás de fazer a escolha da tua vida: as trevas ou a luz. Terás de decidir se pretendes entregar o nosso destino colectivo ao Monstro e seus salafrários (Braima Camará, Nuno Nabian, Botche Candé, Satu Camará, José Carlos Macedo, Ilídio Vieira, Bacari Biai, Delfim da Silva, Carlos Pinto Pereira…), ou então — e parafraseando o meu mais velho — seguir o Sol maior que nos trará Dias iluminados, onde, respirando liberdade e justiça, e de mãos dadas (ninguém nos separa), desafiaremos o fatalismo de “povo rico na miséria”, e escreveremos a mais linda historia de desenvolvimento deste século.  Vota 4, pa nô terra (pela Guiné)!