O guineense é, por natureza, um ser bastante optimista. Embora consciente da incapacidade notória e da falta de vontade endémica da CEDEAO em resolver os problemas dos povos da África Ocidental, sempre que é anunciada a vinda a Bissau de uma delegação da organização sub-regional, os filhos da terra de Cabral abandonam, por instantes, o seu “djitu ka tem” (não há como fazer), num renovar de esperança na aparição desse grande espírito todo-poderoso da nossa floresta sagrada, capaz de decidir sobre o bem e o mal.
Sucede que somos reféns da CEDEAO há já quase catorze anos. Em 2012, antes mesmo do arranque da campanha para a segunda volta das eleições presidenciais, ocorreu um golpe militar. A CPLP reagiu com determinação, mas, apesar do seu peso diplomático e geoestratégico e da sua profunda ligação histórica e cultural ao povo guineense, recuou ao primeiro embate com a CEDEAO. Seguiu-se uma transição civil sob os auspícios das Nações Unidas, culminando nas eleições legislativas e presidenciais de 2014. Contudo, o partido vencedor apenas conseguiu governar durante um ano. Não obstante a sua maioria absoluta, foi confrontado com “problemas absolutos”. Uma vez mais, instalava-se o caos, destinado a parasitar o aparelho de Estado e a extrair dividendos.
Em 2018, procurando resolver essa crise, foi assinado o famigerado Acordo de Conacri, sob a égide da CEDEAO, tendo o senhor Augusto Olivais sido apontado, por consenso, para formar e chefiar um governo inclusivo. Chegados a Bissau, quem acabou nomeado primeiro-ministro? Umaro Sissoco Embaló. Foi assim que nos entregámos, voluntariamente, como reféns dessa organização, apelidada (e bem) pelo deputado senegalês Guy Marius Sagna de sindicato de chefes de Estado que apenas protege os seus. Basta recordar a prontidão com que exfiltraram de Bissau o inimigo público número um – o bandido Sissoco -, deixando à sua sorte o Eng.º Domingos Simões Pereira (DSP), sequestrado na pocilga da 2.ª Esquadra de Bissau, sem direito a visitas de advogados, familiares ou amigos.
O sequestro do líder do PAIGC é sintomático da instabilidade crónica que assola o nosso país, em particular, e do marasmo da África, em geral. Sem ser um homem perfeito – quem o é? -, Domingos Simões Pereira é, de longe, o melhor dos políticos no activo na Guiné-Bissau. É um democrata convicto, profundamente fiel ao império da lei. É um homem da paz e um cidadão empenhado em contribuir para a melhoria das condições de vida do povo guineense.
Precisamente por essas qualidades, tornou-se o último reduto de resistência política à ignóbil ditadura sissoquista que conseguiu filtrar e congregar o pior da escória política, militar, intelectual e social da Guiné. Em consequência, Domingos Simões Pereira converteu-se no cidadão mais perseguido desde a independência, no maior pesadelo de Sissoco: o alvo a abater a todo o custo, pois sabem que, com ele ao leme dos destinos da nação, o banditismo de Estado chegaria ao fim.
É de conhecimento público que o Sissoco Embaló é um assumido fora-da-lei e um perito em inventonas.
Fiel ao seu guião da “saga do absurdo” e goradas todas as tentativas de subverter a vontade popular expressa nas urnas no dia 23 de Novembro de 2025, decidiu orquestrar um golpe fora do figurino tradicional: um ataque frontal à democracia, ao povo e aos superiores interesses do país, recorrendo a chefias militares como testas-de-ferro e lançando os seus sicários para semear o caos em Bissau e sequestrar opositores.
Mentiroso compulsivo e dotado de uma esperteza saloia, os três motivos que deu a gaguejar ao seu chefe da Casa Civil da Presidência apenas reforçam uma evidência: Sissoco é o único suspeito, pois alegou-se (i) a descoberta de um depósito de armamento ilegal; (ii) o envolvimento de um conhecido narcotraficante; e (iii) a tentativa, por parte de alguns políticos, de adulterar os resultados eleitorais.
Há, ainda, uma questão central que não foi levantada e que deveria ser objecto de inquérito por parte da CEDEAO, caso se tratasse de uma organização séria: que papel desempenharam as forças anti-putsch da CEDEAO, altamente treinadas e responsáveis pela segurança do Presidente? Estavam de folga ou a beber warga (chá) no quintal do Palácio?
Refugiado no Estado-Maior, na companhia de Biague Na Ntan, outro cobarde, Sissoco, antes de abandonar Bissau, organizou a tomada de posse do seu ex-chefe de Estado-Maior pessoal – figura inexistente no ordenamento jurídico guineense – como Presidente de transição, incumbindo-o de nomear o seu tesoureiro, Ilídio Vieira Té, como primeiro-ministro de mais um governo fantoche. O mesmo padrão repete-se com o pseudo-conselho de transição, composto por narcotraficantes, grunhos, analfabetos, líderes de partidos políticos que nunca elegeram um único deputado, auxiliados por intelectualóides bajuladores e sem carácter. Trata-se de uma coligação que corporiza o mais baixo grau da ignomínia humana, enquanto outra escória – Delfim da Silva, Botche Candé, Fernando Gomes, Bacari Biai e José Carlos Macedo – goza tranquilamente licença sabática.
Com a cumplicidade da CEDEAO e dos países que o acolheram, o foragido Sissoco permanece omnipresente em Bissau. As suas fotografias continuam expostas nas paredes das instituições da República. Com um telefonema, ordenou que o seu tesoureiro lhe enviasse malas contendo cinco milhões de euros, entretanto apreendidos em Lisboa. Bastou um estalar de dedos para que a ignomínia instalada na casa do povo aprovasse, apressadamente, o projecto de revisão constitucional – “sou eu quem manda nisto tudo” – que o próprio havia encomendado à revelia da Lei Magna. Hoje, na Guiné, cada perseguição, cada espancamento, cada sequestro, cada assassinato ostenta a assinatura de Umaro Sissoco Embaló. É caso para fazer inveja ao administrador colonial Guerra Ribeiro.
Fazendo tudo à pressa e por medida, o baixo comando militar anunciou, esta semana, eleições para 6 de Dezembro, desenhadas para permitir que Sissoco se apresente como candidato único, acompanhado por marionetas destinadas a legitimar a farsa eleitoral. Ao mesmo tempo, circula a notícia, ainda por confirmar, de que Sissoco terá regressado a Bissau, escondido no seu refúgio habitual: o Estado-Maior.
E o que fez a CEDEAO? Para uma organização que usou “óculos de madeira” durante quase seis anos de sissoquismo, esperar uma acção resoluta seria o cúmulo da ingenuidade. Esta crise apenas lhes serviu de pretexto para continuar a enrolar-nos a seu bel-prazer. Impõe-se, assim, uma pergunta legítima: quem são os sócios de Sissoco no seio dos dignitários da CEDEAO? Eles sabem, melhor do que ninguém, que a crise da Guiné não é política. O país encontra-se capturado por uma organização criminosa com tentáculos internacionais. É, pois, ilusório acreditar que a CEDEAO rejeitou o programa de transição. Pelo contrário, a CEDEAO respalda os narcomilitares. Age como o professor que, em vez de repreender o aluno traquinas que aterroriza os colegas no recreio, o recompensa com rebuçados e palmadinhas nas costas.
Fala-se numa transição curta e num governo civil inclusivo. Transição para quê e para onde? Novas eleições? Já as houve, com um vencedor à primeira volta. E resultados, para que servem? Transição com quem? Com a escória que Sissoco foi filtrando ao longo destes seis anos? Juntar-se a uma alcateia voraz, jamais!. A proposta da CEDEAO configura, assim, uma negação da democracia e uma afronta aos guineenses, ao consagrar, na prática, a extensão do mandato de Sissoco; aceitá-la seria pactuar com o diabo.
A comunidade internacional, como todos sabemos, vai de mal a pior. A ONU, duramente golpeada, revive o pesadelo da Sociedade das Nações. A CEDEAO revelou-se uma caricatura de si própria. Se respeitasse a sua Carta, e sem recorrer de imediato à força militar, poderia vedar o acesso daquele grupo de bandidos travestidos de governantes ao mercado de capitais da UEMOA, como já sugeriu o Sr. Saïd Larifou, advogado do Presidente eleito Fernando Dias da Costa. O Banco Mundial, ao que consta, prepara-se para fechar a torneira. O Fundo Monetário Internacional deveria seguir o mesmo caminho, intensificando a asfixia financeira aos narco-militares e aos seus salafrários intelectualóides. Da CPLP, infelizmente, pouco se pode esperar: não vai além da suspensão da Guiné, limitando-se a declarações extraídas das sebentas das relações internacionais, velha receita para mascarar a indiferença. Quanto à União Europeia, o Parlamento Europeu, pela voz da eurodeputada Marta Temido, foi claro e firme, tendo o hemiciclo votado, de forma esmagadora, uma resolução que o executivo comunitário poderia executar, impondo sanções a todos os impostores da democracia guineense, reavaliando programas de ajuda e bloqueando os desembolsos relativos ao acordo de pesca assinado, recorde-se, com um governo ilegal.
Guineenses, não podemos permitir que ofusquem a genuína festa de democracia que foram as eleições presidenciais de 23 de Novembro de 2025. O imbróglio do Supremo Tribunal de Justiça atrasou o início da campanha de Fernando Dias da Costa. Ainda assim, com parcos recursos, percorreu grande parte do território nacional, realizando comícios diários, muitas vezes prolongados até à madrugada, com o povo a não arredar pé. Uma verdadeira celebração da democracia que não pode ficar “suma mon di sal na iagu” (como uma mão cheia de sal na água). Chegou o momento de deixarmos de comprar ilusões e de nos libertarmos da armadilha da CEDEAO, que pretende manter-nos como entreposto de interesses obscuros e estância de turismo diplomático. Cabe-nos a nós liderar esta luta, que poderá servir de força motriz para despertar a comunidade internacional do seu torpor.
O que aconteceu no dia 23 de Novembro de 2025 foi o nosso Pindjiguiti-2. Se em 1959 foram os estivadores e marinheiros a dizer basta aos calotes do Sr. Carreira, gerente da Casa Gouveia, em 2025 foi uma organização criminosa, composta por filhos da terra, que traiu o ideal da luta de libertação e amarrou o nosso destino colectivo à Horta da cocaína.
Por esta razão, “luta ka pudi maina” (a nossa luta não pode ser adiada). A emoção é grande, mas deve ser contida para que possamos discutir, com serenidade, os caminhos a seguir. Para sermos consequentes, e sem excluir outras formas de luta, a diáspora deve organizar-se, longe dos holofotes, em fóruns de reflexão destinados a delinear estratégias de combate diplomático, judicial e comunicacional, em estreita articulação com os soldados da democracia no chão pátrio, onde deverão ser levadas a cabo acções coordenadas de desobediência civil e de sabotagem contra o regime teleguiado por Sissoco.
“Mantenhas para quem luta!” (saudações para quem luta)