Em 2017, a União Astronómica Internacional confirmou a passagem do primeiro objecto interstelar (um objecto celeste que não está preso à gravidade do Sol e viaja livremente pelo Espaço, tendo uma velocidade e órbita hiperbólica, ou seja, demasiado elevada; têm origem fora do nosso Sistema Solar, passando apenas uma vez pelo mesmo) pelo Sistema Solar.

Este objecto foi nomeado 1I/Oumuamua, e a sua descoberta foi revolucionária e confusa. As suas características não eram as esperadas pelos cientistas, tendo uma forma alongada, não tinha uma cauda visível (formada devido ao calor do Sol, sendo liberto gelo, gás e poeiras, empurrados para trás do objecto pelo vento e radiação solar) e a sua composição era diferente da dos cometas do Sistema Solar.

Em 2019, o astrónomo amador Gennady Borisov detectou o segundo objecto interstelar, conhecido como 2I/Borisov, sendo as suas características típicas de um cometa.

A 1 de Julho de 20205, o observatório ATLAS, no Chile, descobriu um terceiro objecto interstelar, o 3I/Atlas. A sua maior aproximação ao Sol acontecerá no fim de Outubro e à Terra em Novembro. Têm uma composição única, com dióxido de carbono, níquel e gelo. Este objecto permite estudar, pela primeira vez, o material de outro sistema estelar. Mas este objecto está a gerar alguma polémica.

Avi Loeb é um físico teórico na área da astrofísica e cosmologia e professor universitário na Universidade de Harvard. Quando o primeiro objecto interstelar, 1I/Oumuamua, foi descoberto, e após a sua observação, Loeb argumentou que este objecto acelerou de forma inesperada na sua trajectória, como se tivesse sido impulsionado. É normal haver uma aceleração de um objecto estelar, devido à libertação de gases e poeira à medida que se aproxima do Sol, ocorrendo uma propulsão natural. Mas o Oumuamua não exibia qualquer cauda ou gases. Loeb argumentou que, devido à ausência de cauda, a pressão da radiação solar poderia ser o causador da sua aceleração.

O formato de Oumuamua também foi alvo de especulação. Loeb afirmou que o formato não era natural, sendo o seu formato em forma de “charuto” incomum, ao invés de um formato mais plano e largo, tendo em consideração as suas propriedades de aceleração e o reflexo de luz.

Para além disso, e ao contrário dos outros cometas, este objecto não exibia cauda de gás ou poeira, sugerindo de que se tratava de um objecto rochoso, embora a sua aceleração fosse contraditória a esta teoria. Oumuamua era, também, extremamente brilhante para o seu tamanho, levantando a possibilidade de uma superfície bastante reflexível, até metálica, apoiando a suposição de que, desta forma, a sua aceleração seria impulsionada pela radiação solar.

Com base nestes argumentos, Loeb propôs que este objecto seria uma vela solar, uma estrutura artificial que utilizava a pressão da luz das estrelas como propulsão.

Com o descobrimento do 3I/Atlas, Loeb apontou a composição química estranha do objecto, com uma elevada concentração de dióxido de carbono e um espectro avermelhado, sem vestígios de água (o esperado num cometa), a presença de níquel sem ferro, assim como, o diâmetro excessivo do seu núcleo e a sua órbita estranhamente coincidente com os planos orbitais da Terra, Vénus, Marte e Júpiter como argumentos da possibilidade de ser, novamente, um objecto artificial.

Para além disto, Loeb referiu que o 3I/Atlas não tem uma aceleração como o 1I/Oumuamua, sendo possível que a sua aceleração seja através de um motor interno.

Loeb afirma que este objecto foi colocado no nosso Sistema Solar por uma civilização mais avançada para sondar a nossa inteligência. O objecto ficará inacessível para os telescópios durante a maioria do mês de Outubro, visto que vai passar por trás do Sol, sendo que, mesmo quando o cometa atingir o seu ponto mais próximo do Sol (periélio), a sua observação será impossível.

Para além disso foi confirmada a passagem de 7 cometas pelo Sistema Solar desde Julho até o final de 2025, nomeadamente o C/2022 Panstarrs, o 240P/NEAT, o C/2025 R2 Swan, o 3I/Atlas, o Atlas K1, o C/2025 A6 Lemmon e o 414P/Stereo. Este evento é extremamente raro e sem precedentes, sendo que, usualmente, há não mais de 4 cometas a passarem num espaço de tempo tão curto.

A comunidade cientifica está a ser confrontada com novos fenómenos e, até novos tipos de objectos que diferem do expectável.

Pessoalmente, penso que 3I/Atlas é meramente um cometa com uma composição diferente da usual, visto ter cerca de 7 mil milhões de anos e de originar de um sistema totalmente diferente do Sistema Solar. Mas, vamos supor que Avi Loeb tem razão e o objecto interstelar é realmente artificial, o que significaria isso para a Humanidade?

Ouvi algures que tememos a existência de vida extraterrestre porque tememos que nos tratem da mesma forma como tratamos toda as outras espécies do planeta. Como iria a humanidade reagir caso fosse confrontada com a existência de vida extraterrestre inteligente?

Caso as intenções desta vida extraterrestre fosse hostil, será que nos iríamos unir, colocando de lado todo o ódio, preconceito, diferenças e lutar contra um inimigo comum? Será que a única forma de colocarmos de lado o preconceito, as diferenças e o ódio que nutrimos uns pelos outros será um evento tão devastador e extremo? E o que aconteceria após essa ameaça desaparecer? Iríamos aprender que somos todos iguais, a mesma espécie e que todas as nossas diferenças são irrelevantes e sem sentido ou voltaríamos ao mesmo, até o ponto em que nos encontramos no momento, onde a tensão, a divisão, o ódio e a violência estão tão extremadas, quase no ponto de ruptura?

Caso as intenções desta vida extraterrestre for benigna e forem menos inteligentes que o ser humano, o que aconteceria? Iríamos sentir-nos superiores, testar e usar esta nova espécie como fazemos todas as outras, com crueldade e para o nosso benefício?

E se forem benignos e mais inteligentes e tecnologicamente superiores ao Ser Humano, o que aconteceria? Aprenderíamos com eles a nível espiritual, tecnológico, e de todas as outras formas que permitissem e ultrapassar todo o horror que infligimos uns aos outros, ao planeta, às outras espécies ou aprender o máximo que pudéssemos até não precisarmos mais desta nova espécie e erradicá-la, absorvendo o seu conhecimento e tecnologia, para o benefício de alguns e em detrimento de todos os outros?

Talvez um dia estas questões sejam respondidas, talvez não, mas, por enquanto, talvez devêssemos parar e pensar no que estamos a fazer a este planeta, a uns aos outros e nos questionarmos se o caminho que agora caminhamos vale mesmo a pena. Talvez ainda tenhamos tempo de voltar atrás e escolher um caminho melhor.