Costumo escrever sobre variados temas, uns mais científicos e de acordo com as minhas especialidades, outros artigos ora sejam mais humanistas (só de acordo com a alma e ‘Vaya con Dios’). Nestes últimos, gosto de pensar que deixo um contributo à sociedade e ao mundo (falante de Português, no mínimo) sobre o que refletir, perceber e evitar. Não sou timoneira dentro de marés, mas tenho noção do ritmo das ondas contemporâneas quando estou dentro de um navio complexo (e quase devoluto) chamado sociedade. Desta vez, menos científica, conto-vos um encontro humanista e cultural que me aconteceu. Não o interpreto, apresento-vos:
– Amor?
Era este o nome de cliente que o motorista de um Uber me endereçava, em tom calmo e harmonioso. Ele só falava Inglês, não compreendeu que aquele ‘nome’ era uma outra forma de eu ser chamada, em casa. Não o nome próprio. Ou seja, quem ‘chamou’ o carro foi o meu marido e no telefone consto como “Amor”. Algo muito comum entre casais e que, nestes casos, se torna hilariante. Reitero, o senhor não percebeu que era hilário dado que apenas comunicou em Inglês. E eu raramente utilizo Uber.
Nesta corrida, estava a regresso de casa, 27 minutos era o tempo. 27 minutos que se convertiam em 27 dias dado o que aconteceu, logo de seguida. Aliás, o dom da imortalidade (só dos divinos) quase me flamejou porque é como viver quase um mês dentro de da metade de uma hora.
Vinha de uma consulta estética (autocuidado, não futilidade) que me “obrigava” a ser moderada com os músculos da testa. Não sei o que fizera com os olhos – na clínica não tivera feito nada aos olhos nem perto deles, nem nunca farei – mas o motorista perguntou se eu estava com dores porque tinha os olhos preocupados. Achei curiosa a forma como associou dor física e preocupação mental. Depois resumiu a: “stress da vida”. Eu como estava tal relaxada a olhar para o trânsito na 2a circular, nem isso me incomodava, porque fazia um sol carinhoso. Sentia-me grata. Uma existência calma. Eu respondi educadamente que estava tudo bem e agradeci. Ele insistiu que era stress e todos sofriam do mesmo cada vez mais e sobretudo em Portugal. E que as pessoas estavam muito doentes da mente e do coração.
Bem, entendi que eu teria de encetar ação ou narrativa, no banco de trás. Surpreendeu-me muito quando me ia falando sobre o que ele sofria em Portugal, referiu-me antes que era da Índia. Tive o cuidado de lho perguntar. E ele não considerou que eu pudesse ser portuguesa, abrandou o ritmo da sua confissão sobre problemas da vida coletiva. Tentei entender que se estava a queixar da triste discriminação racial e étnica. Fui imediata e pouco perspicaz, fui comum ao julgar tal porque somos invadidos por palavras de racismo e xenofobia que atualmente a maioria nem sabe o que significa. Lamentei essa discriminação (usei mesmo este termo, para evitamento de uma ‘demasia’ dos sentidos magoados do motorista) como se eu tivesse de o fazer em nome da alma lusa. E não tenho, não temos? Claro.
Mas, aqui a contrição afinal era outra: continuou em Inglês, ininterrupto, a questionar sobre outra violência, a doméstica em lares portugueses. Perguntou-me:
– Porque acha que isto acontece cada vez mais?
Achei curioso de novo. Ele fez uma análise de quem anda na estrada há dias e dias como se observando algo que costumamos comentar e tentar prevenir seja em ciência, seja como comentadores em televisão. Sou duas dessas ‘pessoas’: a cientista e a comentadora. Notei que de magoado, surgiu ali um mestre. Eu, uma aprendiz num suposto epicentro multicultural (que tanto cultuo).
Respondi o que de facto acho da perspetiva da investigação (evidência) e juntei a questão do “money problem”. E ele aí subiu um pouco o tom simpático para um tom assertivo e parece que fizemos Match. Na opinião dele o problema seria esse precisamente, porque (e explicou) Portugal é tão bonito e tem tanto para oferecer – todavia a tanta oferta surte um efeito de revés – há muita dificuldade em comprar e isso frustra os casais com salários baixos. E transmuta em violência.
Não me pareceu casado, mas sim com uma relação familiar muito bonita e remota. Tem a mãe e os irmãos na Índia. Falou-me que paga 2000 euros por casa em Lisboa, dividindo com 2 colegas. Eu anuí e pedi como que desculpa por esta sevícia portuguesa de salário baixo para a maioria. Ele valorizou muito o país, mas disse que ficava muito emocionado (usou mesmo este adjetivo) quando observava que os portugueses deixavam os idosos trabalhar até tarde, em idade. Ir às compras sozinhos com sacos pesados, andar a conduzir com idade avançada. Viverem em solidão. Sublinhou que a maioria dos acidentes citadinos eram por causa da pouca velocidade e pouca destreza dos condutores mais velhos. E que ele fazia questão de auscultar como tratavam os condutores idosos no local do acidente. Sem ser ele ator de peça da faixa de rodagem. Acha que os filhos portugueses não tratam bem as suas famílias e que na Índia isso é inaceitável. Eu, aqui, tive de defender por dois aspetos: primeiro, a cultura indiana é diferente e moralmente bonita na organização da casa familiar; e há outro fator além de qualquer cultura: há pais e já idosos que violentam os filhos incessantemente e não permitem por eles ser ajudados.
Achei que seria uma afronta ele ouvir tal, mas disse-me, sem me conhecer de lado algum – afinal o meu nome de cliente era só ‘Amor’ – que eu devia perdoar os meus pais e dar um abraço à minha mãe. Mesmo que ela não mostre calma. Ele referiu ‘vai sentir uma calma na sua alma’. De chapuz apareceu este tópico. E que devia agradecer tudo mesmo o quão me tenham eles magoado no passado ou me magoem ainda. Ele não tirava os olhos dos meus e parecia que acelerava, não no carro, mas nas veias do pescoço. Para que a fala não terminasse. Eu estava qual paciente de uma medusa otimista.
No presente referiu-se só à minha mãe. No passado, ao meu pai. Já tínhamos chegado ao destino e ele não me deixou sair sem insistir que eu perdoasse e perguntou-me em jeito só de confirmação de antecedentes humanos:
– Acredita em Deus, certo?
Eu confirmei o credo e é a verdade. E acrescentei que, decerto, eu e ele teríamos diferentes religiões, mas Deus seria o mesmo.
Ele não só não o contradisse. Como insistiu que eu rezasse e pedisse desculpa, mas perdoasse também. E que um dia perceberia que os pais fizeram mais por mim do que algum filho fará por mim no futuro. Usou a expressão ‘slice’ (fatia) de comida: só uma mãe o faz por um filho e não o contrário. E que independentemente de eu ser Doutora ou não, e de quão lutei para chegar ao meu estatuto, devia eu atender sempre a estes aspetos familiares que faziam de mim má ou boa pessoa. Porque sem isso, a luta não importava.
Consegui sair do carro, e ele pediu desculpa pelo tempo. Eu agradeci veementemente, aliás era ele que estava a gastar o tempo e o dinheiro do seu trabalho para este confessionário. Sei que até me curvei em jeito oriental de agradecimento (coisas que trazemos dos saberes das viagens).
Fiquei mais do que pensativa e dei por mim a rezar a terceira oração que realizo diariamente, segui mesmo o conselho. Não que não o faça todos os dias, mas especifiquei só para este assunto.
Porém, querem saber o mais estranho (e muito na vida de cruzamentos sociais não é acaso): se ele nunca me viu, como sabia ele que eu não tenho laços positivos com a minha mãe (a quem pretendo doar um rim, já de manifesto tratado), pois está muito doente? Que não tenho cá o meu pai (partiu para o céu ou algures em 2009)? E que eu tenho uma mágoa enorme com os meus pais? Que eu ainda não tenho filhos? Que eu sou Doutora e cheguei onde cheguei com uma luta incansável?
Fica a reflexão para os leitores com ‘Amor’. Um ativar da humanidade quase perdida nos tempos que correm e vinda dos que ‘nos’ habitam – os imigrantes – para nos tornar mais fortes, mais bonitos. Afinal.