Estamos carecas de saber que as artes estão, em grande medida, carregadas de política. Não precisamos de ir ouvir Zeca Afonso, ou Sérgio Godinho e as suas obras de intervenção para sermos confrontados com slogans políticos e provocações sociais mais ou menos evidentes. Até o mais tímido dos autores imprime na sua escrita, na sua música, nos seus quadros ou nas suas esculturas um mínimo fragmento de crítica social ou política. Shakespeare fê-lo, Bach fê-lo, Michelangelo fê-lo; Dante, Camões, Goya, Picasso, Bruce Springsteen ou Quim Barreiros também.
Podemos ouvir frequentemente uma ou outra pessoa que defenda que a arte não deve misturar política, e ser neutra. Ouvimos isso frequentemente de algumas pessoas que não concordam com as posições políticas de Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, e a forma como este as imprime na sua arte, o humor. Dizem, não ser imparcial, como se estivessem a avaliar um ofício deontológico como a medicina ou o jornalismo, esquecendo-se de que as artes não se encontram limitadas por nenhum género de deontologia, são isso mesmo, artes. Podemos concordar ou discordar dos pontos de vista políticos ali expressos, e devemos fazê-lo, mas exigir que as artes apenas expressem os nossos pontos de vista seria uma posição totalitária, e exigir que a arte fosse neutra de crítica, seria matar o próprio conceito de arte, de algo que tem o poder de criar impacto, e não indiferença. Porque a indiferença não enche exposições, não enche cinemas, nem vende livros, mas sobretudo, não dá safanões, não gera ideias nem move multidões.
George Orwell, no seu famoso ensaio “Why I write?”, tem uma frase que nos elucida com alguma veemência nesta matéria quando diz que “defender a opinião de que a arte deve estar despida de política é, em si, uma atitude política”.
Na esteira da politização da arte é curioso fazermos o exercício de recuar até às décadas de 70, 80 e 90, e tirarmos o pó aos álbuns de Rock Alternativo e Punk. Bandas como Sex Pistols, Ramones, Rage Against the Machine, Faith No More, Oasis, James ou Green Day eram a vanguarda da contra-cultura com as suas letras críticas, provocativas e escandalosas de som crú, directo e agressivo, guitarras esganiçadas, vozes rasgadas e músicas curtas, numa total rejeição da complexidade técnica do rock tradicional. As letras cantavam contra a ordem social estabelecida, guerras, corrupção, a autoridade opressiva, e defendiam causas sociais prementes, num forte apelo à desobediência, à irreverência intelectual e à disrupção social que rompesse com o conformismo das massas. Mantinham uma atitude de protesto constante, uma recusa das narrativas dos media e das instituições culturais dominantes, plasmando a descrença no futuro, a rebeldia, o sarcasmo e a ironia como armas políticas.
«Vão-se “lixar” (com “ph”) não fazemos o que vocês nos mandam!» era o apogeu da música mais conhecida dos Rage Against the Machine, “Killing in the Name”. Música esta em que três gerações gritaram esta frase – como eu o fiz num concerto de tributo algures em 2012, em Évora, nas traseiras da universidade – como se a voz não fizesse falta no dia seguinte. Estas gerações nascidas entre meados dos anos 60 e mais dos anos 90 faziam parte de todo um movimento global de contra-cultura intelectual, movimento esse que ia buscar muitas das suas causas e narrativas à esquerda, mas que nunca se deixou consumir demasiado pelo seu lado mais extremo, pois havia o comunismo soviético ainda como vacina, que era visto pela maioria como uma força opressiva à qual a contra-cultura se deveria também opor.
“F**k you, I won’t do what you tell me” era uma forma de ser, um movimento indutor de auto-crítica, como todos os movimentos de contra-cultura.
Contra-cultura essa, que hoje vê o seu pêndulo bater do lado oposto. Hoje, a forma de ser «Vão-se “lixar”, não fazemos o que vocês nos mandam!» já não pertence ao lado esquerdo do espectro político. O lado esquerdo entrincheirou-se em tabus e gulags intelectuais, não transformou o mundo da forma que prometeu, e muitos dos seus seguidores não beneficiaram da sua agenda globalista, pelo contrário, viram as suas vidas estagnar ou piorar à medida que outros lhes passavam à frente de forma sentida como injusta e desigual.
Perante o desamparo, e perante uma esquerda cujo foco era defender os seus parcos resultados, em vez de defender estas pessoas e os seus sentimentos de ressentimento e injustiça, aparece uma nova onda de contra-cultura, onda essa que não necessitou de inventar a roda para mover as multidões, limitou-se a pegar na roda abandonada pelo lado oposto, que este considerava obsoleta.
Hoje, o «Vão-se “lixar”, não fazemos o que vocês nos mandam!» pertence a um novo proprietário. Hoje, a rejeição da complexidade, a crítica ao sistema instituído, à guerra, à corrupção, às grandes corporações, à pobreza e demais vícios da sociedade, está à direita. Uma direita que emerge com as antigas narrativas revolucionárias da esquerda acirrada, que apela ao protesto, à recusa dos media e instituições culturais dominantes, plasmando a descrença no futuro, a rebeldia, o sarcasmo e a ironia como armas políticas; num apelo à desobediência civil, à irreverência intelectual e à disrupção social que rompa com o conformismo das massas. Concordemos ou não com ela, esta vaga assumiu o papel abandonado de “movimento indutor de auto-crítica”, como todos os movimentos de contra-cultura, fazendo com que hoje, ouvir Rage Against the Machine nos possa causar sentimentos de confusão, seja para quem seguia a contra-cultura antes, e hoje a rejeita, seja para quem a rejeitava antigamente e hoje a segue.
Talvez a reflexão mais pertinente seja que aquilo que nos deverá inquietar não deverá propriamente ser os que gritam “F**k you, I won’t do what you tell me”, mas sim os que descobrem que já não precisam de o gritar; porque a rebeldia não pertence a um lado fixo da história, esta, enquanto impulso humano, não floresce na coerência ideológica, mas sim na fricção, no desconforto e nos sentimentos de injustiça e abandono. A arte e a sua natureza política continuarão a ser o espelho e o megafone dessas tensões, não residindo o risco em saber em que mãos se encontra a contra-cultura, mas sim, em saber se o grito de rebeldia é para nós uma bússola… Ou um eco.