Durante muito tempo, ao longo do reinado de António Costa como Primeiro-Ministro de Portugal, se ironizou com a expressão “Vem aí o diabo”, expressão proferida por Pedro Passos Coelho em meados de 2016, referindo-se à possível degradação económica que se previa fruto das políticas do Governo da “geringonça”. Poderá discutir-se – e a opinião dependerá sempre do quadrante político-ideológico em que cada um se localizar – se o diabo realmente veio ou não. Contudo, num país não muito longe de Portugal, um certo diabo não só surgiu, como alguém lhe vendeu a alma.

Terminou a novela da investidura do Governo em Espanha, tendo o líder do PSOE, Pedro Sánchez, conseguido angariar os apoios suficientes para aprovar o seu Governo, mesmo tendo ficado atrás do PP de Feijóo nas eleições gerais de julho. E Sánchez manteve, no fundo, a fórmula governativa que tinha na anterior legislatura: uma espécie de moscambilha em que vai buscar o apoio da extrema-esquerda e de partidos independentistas; uma solução que, segundo as palavras do Presidente do Governo espanhol, se apresenta como sendo progressista – mas que inclui partidos independentistas de matriz conservadora.

No entanto, o diabo veio, uma vez que, para que isto fosse possível, vem aí a tão famosa lei da amnistia para os independentistas catalães, estando ainda a pairar a possibilidade de se realizar, durante a legislatura, o referendo para a independência da região. Ou seja, Sánchez, para se manter no poder, meteu os princípios de unidade nacional e o respeito pela Constituição “na gaveta”, ficando completamente às claras uma postura de autêntico “vale tudo”, sem qualquer tipo de peso na consciência, nem sequer de poder colocar-se numa situação de mentir ao juramento de tomada de posse, no qual, em compromisso de honra – se é que esta ainda valerá de algo nos dias de hoje –, diz preservar e zelar pela norma fundamental do Estado.

Evidentemente que uma situação destas, fruto das particularidades políticas do nosso país vizinho, nunca seria completamente espelhada em Portugal. Mas a postura do líder do PSOE é de longe mais condenável, para dizer o mínimo, do que aquela que António Costa tomou em 2015, quando derrubou o muro com a extrema-esquerda.

Ainda assim, há alertas a fazer e lições a retirar deste tipo de atitudes. Uma delas, que devia de ser óbvia, é a de que não vale tudo para manter o poder; existem limites, nomeadamente a norma maior de um ordenamento jurídico, que devem ser respeitados no contexto do Estado de Direito democrático. É que, a partir do momento em se perdem checks and balances, esse conceito deixa de existir e passamos a cair em sistemas políticos distintos do democrático. A outra, e que serve também para Portugal, é a de que nunca se deve confundir uma maioria aritmética com uma maioria política. Os valores devem ser mais importantes do que o mero poder; um projeto de poder não é nada sem um projeto político; nem sempre 50% +1 é razão para avançar, sob o risco de o passo seguinte ser o abismo.

Em política há que manter os valores, aquilo em que acreditamos, e não ceder à tentação do poder e dos projetos pessoais de alguns. É que, na hora da verdade, se não forem os políticos a acreditar nos próprios valores e ideais, quem é que acreditará?