Há precedentes históricos que se tornam incómodos quando recordados em voz alta. Um deles é o Partido Renovador Democrático. Nascido da órbita do Presidente Ramalho Eanes, o PRD apresentou-se ao eleitorado português como força de equilíbrio, capaz de furar o bipartidarismo nascente entre PS e PSD. Surgiu, dizia-se, para ocupar um espaço vazio. Mas a história tratou de o desmentir: o PRD não substituiu ninguém de forma duradoura – esvaziou-se a si próprio, sugando votos ora a um lado, ora a outro, até desaparecer praticamente sem deixar memória institucional. Seis anos depois da fundação, em 1991, estava extinto enquanto força relevante.
A comparação com o Chega impõe-se agora com uma nitidez quase humilhante para quem ainda acredita no discurso fundador do partido.
O voto contra a reforma laboral, esta sexta-feira, na Assembleia da República, não é um episódio isolado, é a confissão pública de um equívoco que o Chega tenta vender há anos como identidade política. O partido apresenta-se como a direita que finalmente teria coragem de fazer o que o PSD nunca ousou: reformar um mercado de trabalho engessado, devolver competitividade às empresas, romper com décadas de paternalismo laboral de inspiração socialista. E, na hora da verdade, fê-lo ao lado do PCP, do Bloco, do PS e do Livre, travando exatamente a reforma que dizia querer. Não há ziguezague mais revelador do que este: o partido que jura combater a esquerda vota, ponto por ponto, a pauta da esquerda.
A retórica oficial é, como sempre, irrepreensível em forma e vazia em substância. Fala-se de férias, de turnos, de tectos para pensões milionárias, embrulhado em linguagem de defesa do “povo” contra as elites. Mas isto é populismo laboral travestido de soberania popular, a mesma gramática que a CGTP usa há cinquenta anos, agora reciclada por quem promete ser a “direita musculada”. Não existe nenhuma coerência ideológica nesta posição. Existe apenas o cálculo de quem precisa de protagonismo mediático e de uma fatia do eleitorado popular e operário que o PS foi perdendo e que o Chega cobiça sem pudor, mesmo que para isso tenha de trair a própria narrativa fundadora.
É exatamente esta a função que o PRD desempenhou nos anos 80: a de substituir, originalmente, o PS de Mário Soares, drenando insatisfação difusa, populismo de bom senso e desconfiança nas elites partidárias – um espaço político que se revelou rapidamente efémero porque lhe faltava o essencial, uma coluna vertebral ideológica própria. O Chega replica o gesto com instrumentos do século XXI – redes sociais, linguagem antissistema, indignação performativa – mas o resultado parlamentar é idêntico em substância: um partido sem ideologia estável, disposto a vestir a pele que o momento exigir, desde que o saldo seja visibilidade.
A verdade incómoda é esta: o Chega não veio substituir o PSD. Nunca veio. Veio ocupar o espaço que o PS, em refluxo eleitoral e ideológico, foi deixando vago. A direita musculada que prometia disciplina orçamental, liberdade económica e rutura com o estatismo revela-se, ao primeiro teste sério, uma esquerda dissimulada, disposta a hipotecar uma reforma estrutural do mercado de trabalho em troca de aplausos, vindos das galerias, da CGTP.
O PRD, depois de um início meteórico, acabou ao fim de seis anos. Veremos se as comparações ficam pela componente ideológica.