Há um momento na política portuguesa em que o desconforto deixa de ser apenas um estado de espírito e passa a ser um espetáculo público. É mais ou menos aí que estamos quando vemos deputados e altos dirigentes do PSD, de sorriso preso e aplauso mecânico, a correr para o abraço de Luís Marques Mendes, como se estivessem a cumprir uma coreografia ensaiada à pressa nos bastidores de um congresso mal iluminado.

O apoio surge, dizem-nos, por “sentido de responsabilidade”, essa expressão elástica que tanto serve para justificar abstenções como para explicar entusiasmos que ninguém consegue localizar com precisão. A verdade é que o apoio a Marques Mendes tem menos de convicção e mais de reflexo condicionado. É o gesto automático de quem confunde antiguidade com força, presença televisiva com tração política, e comentário persistente com liderança mobilizadora.

Marques Mendes é, sem dúvida, uma figura conhecida. Tão conhecida que já faz parte da paisagem, como uma rotunda mal sinalizada ou um painel de comentários em horário nobre. O problema é que notoriedade não é sinónimo de viabilidade, e muito menos de capacidade para agregar um eleitorado que anda inquieto, fragmentado e cada vez menos impressionável com currículos de arquivo.

É aqui que o constrangimento se torna evidente. Enquanto os deputados do PSD alinham em apoios que soam a dever institucional, a realidade política aponta noutra direção. João Cotrim Figueiredo, com um percurso mais curto mas incomparavelmente mais incisivo, representa hoje uma candidatura com verdadeira densidade política. Não porque seja consensual — longe disso — mas porque é clara, coerente e, acima de tudo, competitiva.

Cotrim Figueiredo fala para um país que já não tem paciência para meias-palavras nem para líderes que passam mais tempo a explicar o passado do que a desenhar o futuro. Tem uma base eleitoral identificável, uma narrativa reconhecível e uma capacidade rara de polarizar sem se dissolver em generalidades. Goste-se ou não do seu liberalismo assumido, há ali uma proposta que mexe, que provoca reação, que obriga os adversários a sair do piloto automático.

O PSD, porém, parece preso num dilema auto-imposto: sabe que precisa de frescura, mas continua a servir requentados. E fá-lo com aquele ar de quem pede desculpa antes mesmo de abrir a boca. Os apoios a Marques Mendes são, nesse sentido, menos um ato de fé e mais uma declaração de medo — medo de arriscar, medo de perder o controlo, medo de admitir que não apenas o centro-direita já não cabe apenas dentro das paredes do partido, como nem os próprios candidatos do partido fazem parede aos seus militantes ou ao seu eleitorado.

Há também um lado quase cómico em tudo isto. Ver políticos aparentemente experientes a comportarem-se como figurantes numa peça que já ninguém leva muito a sério tem um quê de teatro de revista. Falta-lhes convicção, sobra-lhes cálculo. E o público percebe. Percebe sempre.

No fim, a questão não é se Marques Mendes merece respeito — merece-o, como quase todos os veteranos da vida política. A questão é se representa a candidatura mais forte. E aí, por mais aplausos ensaiados que se ouçam, a resposta parece cada vez mais óbvia. João Cotrim Figueiredo não é apenas uma alternativa; é o incómodo que revela a fragilidade do apoio que hoje se finge entusiasmo no PSD.