No quarto trimestre de 2018, 25,5% dos 349,1 mil desempregados tinham algum tipo de diploma de ensino superior completo, ou seja, cerca de 89 mil desempregados eram licenciados.

Acredito que todos os pais se preocupam em educar crianças para serem bons adultos. Também nos deve preocupar que consigam viver, caso queiram, em Portugal com um nível de vida aceitável.

Mas num mundo onde as fronteiras e os horários deixam de fazer sentido, como devemos educar os nossos filhos? Será que faz sentido que o meu filho esteja no 11º ano, no Curso de Ciências Socioeconómicas a aprender o “Sermão de Santo António aos Peixes”? Qual é a aplicação prática no mundo do trabalho?

Temos a sexta língua mais falada no mundo, capacidade de trabalho e uma excelente situação geográfica, ponte para vários pontos do planeta. É importante, mas não é crucial. O que temos de ter, é uma sociedade que em vez de se ver na cauda seja do que for, se vê na cabeça.

Provavelmente, amanhã na Europa irá existir maior precariedade nos empregos. Não tem de ser mau. Pode até ser bastante libertador. Se soubéssemos que iríamos ganhar o mesmo, ou até um pouco mais, e fazer o horário que mais nos conviesse, sem ter de aturar um patrão ou um chefe, não preferíamos trabalhar para nós próprios? O que nos impede de prosseguir este caminho é muitas vezes o estigma da sociedade.

Uma professora de línguas, mãe de dois filhos, até há pouco tempo estava dependente de uma escola, ganhando um valor pela quantidade de aulas que dava. Hoje pode ganhar dinheiro ensinando vários alunos não presenciais, indiferentemente das horas do dia, da origem ou disponibilidade do aluno. Basta usar uma plataforma como a Udemy ou mesmo produzir um tutorial para colocar no YouTube.

Podemos recomeçar a nossa carreira, e em vez de estudar 3 anos para obter uma licenciatura, sem garantias de ter um emprego, podemos antes optar pelas propostas para estudar 14 semanas para ser um programador, um especialista em UX ou um data scientist, com mais de 80% de garantias de ter um emprego a ganhar o mesmo que um licenciado.

A educação que recebemos, entre várias coisas, serve para termos um emprego, uma profissão. A educação é fundamental para requalificar quem está no Estado ou em organizações privadas, para que tenham um futuro, ou para educar os que ainda não trabalham.

Se as profissões estão a mudar, não devíamos alterar o currículo escolar e a forma de ensinar?

Será que estamos a educar para o futuro, ou estamos a educar o que o que os professores aprenderam no passado?

Adaptar a educação a realidade

É obvio que há vantagem da rapidez em obter conhecimento quando tomamos decisões, tal como fez a menina Tily Smith, uma inglesa de 10 anos, que salvou os seus pais, a irmã de sete anos e vários turistas na praia de Maikhao, Phuket na Tailândia, quando se lembrou da lição do seu professor de geografia sobre terremotos e tsunamis e avisou os seus pais mal o mar começou a recuar de repente.

Mas e se alguém menos educado observasse o que se estava a acontecer naquele dia e procurasse no Google, conseguisse perceber o que se estava a passar e avisasse os demais, será que não teria o mesmo resultado?

O que importa é que exista um raciocínio perante um facto. Se esse facto é algo cuja compreensão se sabe de antes ou se aprende no momento não parece tão relevante como a promoção da curiosidade, do gosto em raciocinar, do saber procurar e validar fontes. Para quê “obrigar” alguém a decorar, quando hoje podemos encontrar a informação que queremos instantaneamente online?

Seria melhor que a educação fosse personalizada e de acordo com cada um de nós. Não é isso mesmo que fazemos mal deixamos o ensino tradicional? Passar o resto da vida a educar-nos de acordo com os nossos interesses e com a evolução que queremos ter. Para personalizar o ensino, temos de passar a usar dispositivos móveis e uma plataforma digital, com inteligência artificial e algoritmos adaptativos. É o que já faz qualquer miúdo de tenra idade, quando está no smartphone da mãe a ver vídeos ou a jogar. Com certeza que há empresas dispostas a serem parceiros do Estado para construir esta nova forma de leccionar, sem que isto signifique um custo estratosférico para o erário público. Até podemos ser um piloto e caso de estudo, para mercados maiores e mais rentáveis.

Devemos fomentar a experimentação, colocando aos miúdos problemas que possam resolver. Por exemplo, dando-lhes um computador muito reduzido (um Raspberry Pi ou um Arduíno) que lhes permite criar soluções de computação ou robótica. E porque não usar metodologias criativas, como design thinking, construções com método escutista, disseminar hortas escolares e favorecer a prática de artes?

Porque é que têm de existir testes e exames? Todos aprendemos a jogar ou a brincar. Porque não fazer da educação um jogo, onde a criança tem níveis para ultrapassar. Um sistema gamificado, que envolve as crianças para além das horas em que estão na escola – muitas vezes desejosas de sair dali para fora.

Talvez fosse mais fácil que parte dos professores trabalhassem de casa, em plataformas online, em vez de andarem sempre a ter de migrar dentro do nosso país.

Não se fará esta mudança num ano escolar, mas quem sabe daqui a dez anos está feita.

E é claro que tem de ser o Estado a ter a coragem de mudar. O governo deve ter como objectivo criar as condições para sermos 15 milhões de portugueses de todas as idades a viver felizes no nosso país em 2050, em vez dos 9 milhões e picos que está previsto.  Educar para trabalhar é claramente uma prioridade.