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Os assinantes do Observador têm acesso antecipado a todos os episódios desta série, já disponíveis em observador.pt. 11h. O cerco está montado. Dali, os terroristas não vão conseguir sair. Mas já não é isso que preocupa o chefe da polícia, responsável pela operação, que acaba de falar ao telefone com um dos assaltantes. Na curta conversa, o homem que falou do outro lado da linha, num português arranhado, não fez exigências nem explicou o porquê da invasão. Deixou apenas um aviso: se a polícia tentar entrar, a embaixada vai explodir. Qualquer que seja a missão do grupo de arménios, uma coisa é certa: não têm problemas em matar os reféns. E se eles próprios tiverem de morrer, também não vão hesitar. Os terroristas continuam a disparar de dentro do edifício. Usam as janelas do primeiro andar e tentam atingir os agentes que fazem o cerco à residência. Os muros da embaixada servem agora de abrigo para dezenas de elementos da PSP, armados com metralhadoras, que vão respondendo ao tiroteio. Não param de chegar reforços. São 11:15. Nas traseiras do edifício estão posicionados elementos do exército e forças policiais à paisana. Até que todos são surpreendidos com a primeira explosão. Ninguém se pode aproximar do edifício. Apesar da explosão que acaba de se ouvir, os agentes que cercam a casa têm ordens para se manterem em posição. Ali mesmo ao lado, na chancelaria da embaixada, 10 funcionários estão refugiados no interior, sem poderem sair. Estão em pânico. Testemunharam tudo desde o início e os tiros que foram disparados da residência partiram os vidros das janelas do rés do chão do edifício onde estão encurralados. Um deles, o encarregado de negócios, tem a mulher e o filho de 17 anos reféns na residência oficial ocupada por quatro homens armados. Cá fora, os agentes estão atentos a todas as movimentações nas janelas, de dedo pronto no gatilho, à espera de ordens para avançar. Mas há um homem que vai desobedecer e decide entrar sozinho na casa. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Episódio quatro: o primeiro andar explodiu.
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Kia. Movement that inspires. 11h45. O encarregado de negócios não aguenta mais. Sem que a polícia saiba, Yurtseven Meçholo pega no telefone da chancelaria e liga para o número da casa. Quem atende é um dos assaltantes. Está à vontade a falar turco, apesar do sotaque carregado, mas passa a chamada a um dos colegas O diplomata implora pela vida da família, mas do outro lado, houve a mesma ameaça que tinha sido feita à polícia no início do ataque. Se alguém se aproximar, o grupo tem bombas suficientes pra fazer explodir todo o edifício. Yurtsev pergunta-lhe o que pretende do assalto. O armênio não responde. Pede-lhe apenas que não volte a telefonar e desliga. Já não há tiros há alguns minutos, mas a calma não dura muito e o comando terrorista volta a atacar. Dividem-se entre as janelas do primeiro andar e o terraço do segundo. E mais uma vez, descarregam as metralhadoras sobre os agentes que cercam o terreno. É a partir desta hora que a polícia começa a conseguir identificar os assaltantes, um a um. São todos muito jovens, incluindo aquele que morreu logo no início da operação. Simon é o mais velho, tem 21 anos. Ara e Sarkis têm 20. E Setrak e Vache, apenas 19. Daqui a algumas horas, as caras deles vão estar em destaque em todos os jornais do país. Chegaram a Lisboa com documentos libaneses pelo aeroporto da Portela. O passaporte falso de Simon está caducado há mais de quatro meses, mas apesar disso, o terrorista conseguiu passar pela segurança sem qualquer tipo de problema. Fizeram reservas em três hotéis diferentes no Estoril, por onde se dividiram. Dois ficaram no Hotel Sibra, onde hoje existe o Vila Galé Estoril. Esta manhã, quando saíram, deixaram toda a bagagem no quarto. Combinaram pagar a estadia e as refeições que foram tomando no restaurante do hotel, apenas no momento do check-out. Fizeram tudo para parecerem turistas normais. Tal como o conflito entre árabes e judeus no Médio Oriente, ao qual Issam Sartawi dedicou a vida toda, a luta entre armênios e turcos não é de agora. É preciso recuar ao início do século XX pra perceber por que estão, em 1983, cinco jovens armênios, armados com explosivos, na embaixada da Turquia em Lisboa. O povo armênio, tradicionalmente cristão, integra o Império Otomano, a maior potência do mundo islâmico. São dois milhões e meio de pessoas que vivem concentradas entre duas áreas: as grandes cidades, como Constantinopla e Esmirna, e as zonas costeiras do Mar Negro, perto de onde fica hoje o atual estado armênio. São tolerados. Vivem como uma espécie de súbditos de segunda categoria e são fortemente reprimidos pelas autoridades. O ano é 1915. A região é agora governada pelos jovens turcos, que derrubaram o regime no início do século e pretendem rejuvenescer o Império Otomano. Querem afastar os povos não muçulmanos. E a comunidade armênia não é exceção. Entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro, com a esperança de recuperar territórios perdidos. Os armênios são enviados pra frente leste pra combater a Rússia. O resultado é um desastre. Os jovens turcos acusam-nos de estarem a colaborar com os russos na frente de batalha. É assinado um decreto de deportação das populações armênias. Têm de sair das zonas onde vivem e deslocar-se pro deserto da Síria. É uma marcha forçada. Centenas de milhares de pessoas caminham dia e noite em condições desumanas. São vítimas de ataques de ladrões e de grupos organizados, com a complacência do governo turco, diz José Pedro Teixeira Fernandes, investigador no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa e especialista na história da Turquia e da Armênia.
Na prática, isto acabou por levar, no mínimo, umas centenas de milhares de armênios que foram dizimados, seja em massacres abertos, seja pela fome, seja pelos maus tratos, seja por não conseguirem aguentar aquelas marchas. Há um pouco de tudo aqui, o valor exato não é conhecido, mas seguramente, se não quisermos usar a expressão genocídio, seguramente foi um massacre em larga escala de um povo.
Não há consenso sobre quantas pessoas morreram, mas acredita-se que, no mínimo, um quarto da população desapareceu durante este período. Até hoje, nenhum governo turco assumiu responsabilidade A deportação continua a ser justificada como uma operação militar estratégica em tempo de guerra. E é precisamente essa recusa que enfurece as populações arménias. E com o passar dos anos, a resposta começa a ser violenta.
Nos anos 70 e 80, por um conjunto de razões complexas, há um reavivar da memória arménia, pelo facto de a Turquia sistematicamente negar e se recusar a admitir qualquer responsabilidade, qualquer memória. Também nisto, houve um pico de incidentes e de episódios, por tentativas de vingar a posteriori um pouco todos esses sofrimentos do povo arménio.
A partir da década de 70, grupos terroristas arménios começam a usar a violência pra tentarem forçar a Turquia a reconhecer a existência de um genocídio. Um pouco por todo o mundo, são registados dezenas de homicídios e ataques com explosivos. O Exército Revolucionário Arménio, que está barricado na embaixada em Lisboa, é um dos grupos mais mortíferos. Está disposto a tudo pra chamar a atenção da opinião pública. Os quatro terroristas estão dentro da residência há mais de uma hora. A confusão faz com que os moradores do habitualmente tranquilo bairro do Restelo saiam à rua. Assustados, muitos escolhem o mesmo destino e rapidamente começa a formar-se uma multidão à porta do Estado-Maior General das Forças Armadas, que fica a 10 minutos a pé do local de onde se ouvem os tiros. Se há sítio onde vão estar seguros, é ali. Através das comunicações rádio, a polícia continua a lançar o alerta a todos os agentes que estejam disponíveis. É preciso mais reforço. O pedido chega à esquadra de São Bento, onde está o agente Manuel Pacheco. Ao contrário do jovem Abílio Pereira, que vai no terceiro dia de trabalho, Manuel Pacheco está quase na idade da reforma, mas não é por isso que deixa de responder ao desafio. Na verdade, até tem uma vantagem que mais ninguém tem na defesa da embaixada: conhece bem o terreno. Tanto ele como a mulher já trabalharam e moraram na residência do embaixador da Turquia em Portugal. Era uma prática comum nesta altura, lembra Abílio Pereira.
Ele e a esposa tinham estado na embaixada, tinham lá feito serviço, estavam lá a tomar conta de não sei quem, e ele tinha conhecimento, conhecia a área. Eu e minha esposa também estivemos a tomar conta de uma velhota com 100 e poucos anos numa residência no Restelo. Na altura, tínhamos essa facilidade. A gente trazia as esposas, se não trabalhassem, e vivíamos ali. Davam-nos um X dinheiro e a gente tomava conta da senhora.
Tal como Abílio Pereira, que nunca chegará a conhecer, Manuel Pacheco faz parte da quarta divisão da PSP. É um homem experiente e acredita que sozinho pode acabar com o sequestro, mesmo que isso implique desobedecer às ordens dos superiores. 11h50. Assim que chega à Avenida das Descobertas no carro-patrulha, afasta-se dos colegas que vieram com ele, dá a volta pelo jardim junto à entrada da embaixada e passa pras traseiras do edifício. Sabe perfeitamente que no rés-do-chão há uma janela por onde é possível entrar.
Eu pensava que aquilo era um assalto normal, com umas pistolinhas normais. Pensava que era um assalto. Nunca pensei que era um atentado daquela natureza. Acho que é o instinto policial. Vamos e vai-se. Neste caso, pensa-se o que acontecesse. Ele não pensou, ele pensava que aquilo era uma coisa banal, que chegava ali com a pistola e que os encostava todos à parede. Ele pensava que era banal.
A partir da janela do rés-do-chão, basta subir as escadas pra chegar ao primeiro andar e surpreender os assaltantes. Durante alguns minutos, não acontece absolutamente nada. A residência do embaixador continua em silêncio, apesar de o agente Manuel Pacheco estar lá dentro. Mas os terroristas tinham sido claros: qualquer aproximação da polícia teria consequências graves. No interior da residência, começa a ouvir-se uma troca de tiros Cá fora, a patrulha que chegou de São Bento nota finalmente a ausência do colega. Junto ao perímetro de segurança, os jornalistas conseguem ouvir os gritos dos agentes da PSP nos rádios que usam para comunicar. Desapareceu o Pacheco! Um minuto depois do meio-dia. Do interior da residência da embaixada, chega o som de uma violenta explosão, muito mais violenta do que a ouvida há cerca de uma hora. Os vidros partem-se em estilhaços, que são projetados e atingem os agentes que fazem o cerco ao edifício à distância de vários metros. Até as cortinas das janelas voam. O primeiro andar está a arder e lá dentro ainda estão dois reféns, os quatro terroristas e agora também o agente Manuel Pacheco. Vários países começam a pedir o reforço das medidas de segurança nas respectivas embaixadas em Lisboa, que receiam ser os próximos alvos. A embaixada do Reino Unido já o tinha feito há alguns dias, depois de dois terroristas arménios terem sido condenados por um atentado à Inglaterra. À porta da representação britânica, na Rua de São Domingos à Lapa, tinha sido montada uma operação stop. Todas as pessoas que ali passavam eram identificadas e revistadas. O governo decide também criar um forte dispositivo de segurança nas embaixadas de França e dos Estados Unidos, os países com as maiores comunidades de imigrantes arménias no mundo. No interior da chancelaria turca, o encarregado de negócios está desesperado. Preocupado com a mulher e o filho, corre para o edifício em frente, a embaixada do Egito, e pede que o governo desse país contacte o governo da Turquia para que saibam que a família dele está a ser feita refém e corre risco de vida. Mas a essa hora, a diplomacia portuguesa já está a funcionar. O Ministério dos Negócios Estrangeiros envia um telex para a embaixada de Portugal, em Ancara, lamenta o sequestro e garante que vai continuar a dar informações sobre tudo o que está a acontecer. Aproveita também para revelar que há já oito meses, desde que o diplomata turco e a mulher foram assassinados em Linda-a-Velha, que a embaixada tem direito a segurança especial. E acrescenta ainda, que há menos de duas semanas, após o massacre no aeroporto de Paris, a segurança foi ainda mais reforçada. Só graças a essas medidas, diz o ministério, é que os assaltantes não conseguiram entrar na chancelaria, o objetivo principal do ataque. Em resposta, a Turquia pede às autoridades portuguesas que façam tudo o que for preciso para pôr fim ao assalto. Já longe de toda a ação, o agente Abílio Pereira está agora no Hospital de São José. No corpo, só ficou uma bala. Tendo em conta a situação, até considera que teve sorte. Levou cinco tiros à queima-roupa da metralhadora de um terrorista e não está em risco de vida. Nenhum órgão vital foi atingido e foi socorrido pela ambulância a tempo de não se esvair em sangue. O impacto das balas não o deixou em agonia, mas talvez seja só o choque a blindá-lo das dores. É o que muitas vezes acontece em casos traumáticos.
Não tenho dor. É uma ferida, mas sem dor. É uma ferida que queima, tanto que eu fui só curado com éter. Nas feridas que eu tinha era com éter. Não metiam nem água oxigenada, nem álcool, nem nada. Só era o éter que me punham nos sítios dos tiros. Porque dor eu não tinha nenhuma.
Depois de uma experiência traumática como esta, ninguém levaria a mal se decidisse entregar o distintivo e tentar outra vida. Mais calma, mais segura, com menos violência. Mas isso nunca lhe passa pela cabeça.
Não, não me arrependi. Tanto não me arrependi que efetué e andei entre pelos dois lados. Não me arrependi. Foi um ato que aconteceu, um ato isolado. Não pensei em desistir, nunca. Nunca pensei em desistir.
Neste momento, o agente Abílio Pereira está sozinho no quarto de hospital Daqui a algumas horas vai passar a contar com um colega de quarto inesperado. Meio-dia e um quarto. Os terroristas chegaram à embaixada há quase duas horas. Há menos de 15 minutos, o primeiro andar da residência, onde os invasores estão barricados, explodiu. É hora de o governo agir. O ministro da Administração Interna, Eduardo Pereira, anuncia que vai ter início a primeira reunião de um novo órgão, o gabinete de crise. Foi criado há pouco tempo, de propósito para este tipo de ocasiões, mas nunca ninguém no governo pensou que fosse acionado tão cedo. É o Primeiro-Ministro Mário Soares quem lidera o encontro. O nome do líder do PS já tinha ficado ligado ao atentado de Issam Sartawi, no Algarve. Na altura, foi muito criticado pelas falhas de segurança no hotel Monte Choro, mas Soares não tinha responsabilidades políticas. Foi só o homem que convidou o dirigente palestiniano para estar presente no Congresso da Internacional Socialista, em Portugal. Agora, três meses depois, Mário Soares é chefe do governo e tem uma oportunidade para mostrar que consegue lidar com situações de alta tensão. Ainda ninguém sabe exatamente o que se passa dentro da casa do embaixador turco, mas as notícias da explosão já chegaram ao Executivo. Terá sobrevivido alguém? Terá sido um rebentamento acidental ou terá explodido uma bomba? À mesa de reuniões, Mário Soares junta o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa Nacional com os ministros da Justiça, da Administração Interna e dos Negócios Estrangeiros. Está também o procurador-geral da República, além dos comandantes-gerais da GNR, PSP e Guarda Fiscal, e os diretores da Polícia Judiciária e do Serviço de Estrangeiros. Estes 11 homens vão ter de encontrar forma de pôr fim ao segundo atentado cometido este ano no país por um grupo terrorista internacional. Decidem chamar uma nova força de segurança. Uma força de elite que ainda não entrou em ação, onde só têm lugar os agentes mais bem preparados da PSP. Quando foi apresentado ao público, o comandante deste grupo anunciou que estes eram homens treinados para agir com eficácia cirúrgica. Serão os últimos a chegar e os primeiros a sair. Logo no recrutamento, só um quarto dos candidatos foram considerados e só os melhores passaram os exigentes testes físicos de seleção. Os escolhidos estão há oito meses em treinos intensivos nos arredores de Lisboa, à espera da primeira oportunidade para entrar em ação. E a oportunidade é agora. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Entram em força, mas entre o fumo e a quantidade de pisos, corredores, portas e espaços, a casa revela-se um verdadeiro labirinto. Ao todo, são mais de 30 divisões. Ao que tudo indica, os atacantes ainda estão no primeiro andar, onde ficam os quartos, as casas de banho e a sala de visitas. Praticamente todas as portas estão fechadas e é preciso inspecionar cada centímetro da casa, sabendo que a qualquer momento os terroristas podem responder. Ou pior, podem ter preparado alguma armadilha. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. O guião e as entrevistas são de Vasco Maldonado Correia. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os podcast plus do Observador têm o apoio da Kia.
