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Os assinantes do Observador têm acesso antecipado a todos os episódios desta série, já disponíveis em observador.pt. Meio-dia e 20. O primeiro andar da residência do embaixador está a arder. Apesar do incêndio, e depois de mais de uma hora de tiroteio, a explosão que se ouviu há cerca de 20 minutos no Restelo traz uma novidade ao assalto à embaixada. O silêncio. Toda a operação está em standby. O fumo continua a sair pelas janelas, mas até que cheguem novas ordens, ninguém está autorizado a entrar. O agente Manuel Pacheco, o único que o fez à revelia, não voltou. Talvez até tenha sido ele a provocar a explosão. Os bombeiros são chamados ao local, mas nem eles têm autorização para avançar. Por razões de segurança, não podem apagar o fogo. A PSP diz que a situação continua demasiado perigosa e incerta. Apesar da violência da explosão, nada garante que os terroristas não tenham sobrevivido. E se os arménios deixaram alguma coisa clara, foi que não iriam tolerar qualquer intervenção policial. Mesmo que os bombeiros não tragam armas, os terroristas podem reagir. Por isso mesmo, a polícia avisa que não se responsabiliza se alguém ultrapassar o cordão de segurança. Os bombeiros fecham as torneiras do fornecimento de gás por precaução. O aquecimento da casa é feito a gasóleo e na cave estão centenas de litros de combustível. Se as chamas lá chegarem, os efeitos podem ser devastadores. Por muito que os tiros tenham parado, cá fora continua a ser muito difícil manter a calma, sobretudo para Yurtsev Metshiolu. A mulher e o filho continuam reféns no meio das chamas. E o encarregado de negócios turco não vê ninguém a tomar medidas para os salvar. Impaciente, decide agir. Convence um dos comissários da PSP a emprestar-lhe um colete à prova de balas e juntos correm para a residência. Usam as escadas de serviço para tentar entrar no edifício, mas as chamas são demasiado fortes. São obrigados a voltar para trás. À saída, o diplomata escorrega e tem de ser socorrido. Fica com queimaduras na cabeça e no braço e uma entorse no pé. Foi uma tentativa desesperada, mas pelo menos acabou com o impasse. Finalmente, a polícia vai começar a preparar um plano para resgatar os reféns. As autoridades têm a embaixada cercada e também já sabem quem são os terroristas, mas isso não lhes serve de muito. Aquilo que está a acontecer dentro da residência continua a ser um mistério. Nos telhados dos três edifícios que rodeiam a residência, há elementos da PSP em posição a tentar detetar movimento no interior, mas a visibilidade continua a ser muito limitada. Se a polícia tem a certeza de alguma coisa, é que por mais reforços que cheguem, os arménios não vão sair do edifício. Os reféns funcionam como garantia de segurança. Torna-se cada vez mais evidente que só há uma forma de acabar com o sequestro e salvar a família do encarregado de negócios turco. Vai ser preciso entrar na residência do embaixador. Há uma boa e uma má notícia. A má: os agentes que ali estão a fazer o cerco não estão habilitados para uma operação desse género. Não foram treinados para enfrentar grupos terroristas. A boa: numa quinta em Belas, a poucos quilómetros do Restelo, há um grupo de agentes de elite que estão há oito meses a treinar para intervir em cenários como este. Hoje, estes homens vão finalmente entrar em ação e só trazem uma ordem Têm de abater os terroristas. 1983, Portugal à queima-roupa. É uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Episódio cinco: a primeira missão da Super Polícia.
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Esta não foi a manhã de quarta-feira que o comissário João Aires tinha planeado. Quando os terroristas chegaram à Avenida das Descobertas, às 10h30 da manhã, o comissário até andava por perto, no Parque de Monsanto. Como de costume, estava a dar uma das aulas de educação física, que fazem parte da formação de rotina dos agentes da seção de segurança pessoal da PSP. Mas, ao contrário do que era habitual, estava preocupado. Os eventos do dia anterior ainda não lhe tinham saído da cabeça. Foi para ele que o agente Túlio Rosado ligou a avisar da passagem de um carro suspeito na Embaixada da Turquia. Por isso mesmo, logo ao início da manhã, antes de se pôr a caminho de Monsanto, o comissário Aires foi à embaixada pedir ao agente que se mantivesse especialmente atento durante o dia. Quando na rádio começou a soar o sinal de alarme, meteu-se logo no carro com vários outros agentes da PSP que participavam na aula de desporto e foi pra embaixada. Ainda não era meio-dia quando tomou conta das operações. 12h40. Há reféns em risco há quase duas horas e há mais de 30 minutos que os tiros pararam depois daquela grande explosão. O comissário não conhece a posição dos terroristas, mas decide que não há mais tempo a perder. Ele próprio vai entrar no edifício. Mas não vai sozinho. Alguns dos polícias que o acompanham desde Monsanto, seguem-no para o interior da residência. Estão todos vestidos à civil. Entram pelo rés do chão e, em silêncio, por entre o fumo e as chamas, começam a subir as escadas. No primeiro andar, encontram o filho do encarregado de negócios, que está caído no chão. Mas percebem rapidamente: está vivo. Minutos depois, o rapaz de 17 anos está a sair pela porta do edifício, a coxear, apoiado pelos agentes. Um dos reféns está a salvo, mas ainda falta resgatar a mulher do diplomata. Voltam a entrar. Quanto mais avançam no primeiro andar, menos visibilidade têm. A qualquer segundo, podem ser atacados pelos arménios. A qualquer momento, podem ser alvejados. Mas não acontece nada. Finalmente, encontram Jaidémeciolo. A mulher do encarregado de negócios também está deitada no chão, mas ao contrário do filho, não consegue levantar-se. Está gravemente ferida. Cá fora, e apesar de terem interditado a avenida, a polícia tem dificuldades para impedir os mais curiosos de espreitar para o que está a acontecer na embaixada. Entre eles, está um fotógrafo, que consegue escapar ao cordão de segurança e encontra uma posição privilegiada, em cima de um muro, para registrar tudo o que está a acontecer no edifício. É ele um dos primeiros a ver o comissário Aires a sair de dentro da casa, enquanto carrega às costas a mulher do encarregado de negócios. Mãe e filho foram retirados com sucesso. Só ainda não há sinal do agente Manuel Pacheco, nem dos quatro terroristas. Mas a situação dentro do edifício é demasiado perigosa. O grupo não vai voltar a entrar para os procurar. 13h. Passam duas horas e meia desde o início do assalto. A residência continua a arder. Os bombeiros ainda não foram autorizados a aproximar-se do edifício. Em São Bento, o primeiro-ministro Mário Soares continua reunido com o gabinete de crise. A Turquia já pediu às autoridades portuguesas que façam o que for preciso para resolver a situação. Passou demasiado tempo e é preciso agir. 13h15. O ministro da Administração Interna, Eduardo Pereira, aproxima-se dos jornalistas, mas não vem fazer uma declaração. Tem um pedido especial. Até pode revelar o que se vai passar a seguir, mas quer a colaboração da comunicação social para ajudar a travar o assalto. Lembra os jornalistas que um dos terroristas fala português e que o grupo pode estar a acompanhar a cobertura noticiosa do ataque. Por isso, devem gerir as novidades que vão passando ao público para não dar uma vantagem estratégica aos atacantes. Os jornalistas concordam. Com a promessa de que vão esperar para divulgar a informação, Eduardo Pereira revela-lhes que o gabinete crise já decidiu o que fazer. Vai enviar pro terreno o recém-criado grupo de operações especiais da PSP.
Não mexe! Vê lá se está mais alguém escondido. Vê lá! Quieto!
Os gritos de ordem que ouvimos fazem parte de uma peça da RTP em que são relatados os treinos intensos que naquela altura acontecem praticamente todos os dias na Quinta das Águas Livres, em Belas. É lá o quartel-general do grupo de operações especiais, o GOE, como lhe costumam chamar. Há oito meses que treinam para entrar em ação. Para isso, contaram com a ajuda de instrutores das forças de elite do exército britânico. São poucos, porque este grupo tem de atuar de forma coesa. Ao todo, não chegam a 40 homens. Para serem aceites, tiveram de provar que conseguiam manter o sangue frio em situações de máximo risco. São considerados uma super polícia. Tanto sabem combater em espaços pequenos, como conseguem acertar em alvos a mais de 500 m de distância e dispõem de armamento altamente sofisticado. O grupo está preparado para casos de sequestro e assalto a edifícios, como o que está a acontecer na embaixada da Turquia. E para muito mais, lembra Ângelo Correia, que foi ministro da Administração Interna quando o GOE se estava a formar.
Os GOE era um grupo de polícias com uma grande formação especial para atacar a força, terrorismos praticados em autocarros, aviões, veículos, casas, outros locais. Portanto, eram grupos treinados para depois, quando o terrorismo se estabelecesse, digamos, emergisse e aparecesse na prática de atos, irem controlá-los e combatê-los.
O GOE responde ao comandante-geral da PSP, mas na prática só pode ser acionado com a autorização do governo. Quando isso acontece, sublinha o coronel Francisco Rodrigues, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, o OSCOT, é porque a situação atingiu o maior nível de gravidade possível.
O GOE, como qualquer estrutura antiterrorista, vou designar como antiterrorista, para além de combater a alta criminalidade violenta, grave, etc. Mas é criada principalmente, ou foram criadas exatamente para combater o terrorismo, que era e pode continuar a ser equacionada como a situação mais grave à segurança de um país, foi criada, treina e preparada exatamente para poder resolver este tipo de situações. Situações, inicialmente, de terrorismo, portanto, resolver situações de terrorismo e de alta criminalidade violenta grave.
13h30. O grupo de operações especiais chega ao Restelo, mas não vai diretamente pra avenida das Descobertas. Os elementos fazem a concentração à frente do Estádio do Belenenses. É ali que recebem as ordens pro ataque. São divididos em dois grupos. Um ficará responsável pela chancelaria, o outro vai entrar na residência E alguns homens vão ficar de parte para servirem de atiradores furtivos nos telhados dos edifícios vizinhos. Neste tipo de situações, só há uma opção: disparar para matar. A imprensa garante até que foi essa a ordem direta de Mário Soares. Terá dito ao GOI para atirar à vista. Mas oficialmente a informação nunca foi confirmada pelo governo. 1 hora e 34 minutos. As centenas de polícias que até aqui asseguraram o perímetro de segurança da embaixada, assistem à entrada em cena do primeiro grupo de elementos do GOI. Dois jipes chegam a acelerar, com 12 homens prontos a saltar a qualquer momento. Vêm vestidos com uniformes camuflados e coletes à prova de bala e trazem as caras cobertas com gorros de lã preta. Só os olhos são visíveis. Começam imediatamente a ocupar posições à volta da residência, que ainda está a arder. 1:39. O primeiro grupo entra dentro da casa. A cada porta que abrem, atiram granadas flash bang. Explosivos sonoros desenhados para desorientar o inimigo. Entram em força, mas entre o fumo e a quantidade de pisos, corredores, portas e espaços, a casa revela-se um verdadeiro labirinto. Ao todo, são mais de 30 divisões. Ao que tudo indica, os atacantes ainda estão no primeiro andar, onde ficam os quartos, as casas de banho e a sala de visitas. Praticamente todas as portas estão fechadas e é preciso inspecionar cada centímetro da casa. Sabendo que a qualquer momento os terroristas podem responder. Ou pior, podem ter preparado alguma armadilha. 1:45. Chegam à embaixada mais agentes do GOI. Também entram imediatamente na casa e vêm equipados com máscaras antigás. Até cá fora, ouve os disparos das metralhadoras e as granadas a rebentar. Umas a seguir às outras. O GOI inspeciona, andar a andar, divisão a divisão, da subcave até ao telhado. Não há sinal dos terroristas, nem de mais ninguém no interior da residência do embaixador. Duas horas e nove minutos. Os elementos que estão no topo do edifício voltam a descer para uma última ronda. Suspeitam de que os assaltantes possam estar escondidos na cave. Mas não estão. Quando chegam ao primeiro andar, os homens percebem finalmente o que aconteceu. Entre as chamas e o fumo, que entretanto começou a dissipar-se, conseguem distinguir cinco corpos. Os terroristas estão mortos. Na primeira vez que foi chamado a atuar, o grupo de operações especiais esteve a lutar sozinho durante meia hora. Os cadáveres estão totalmente carbonizados, irreconhecíveis. Dos cinco corpos, só um não é de um terrorista. É de Manuel Pacheco, o primeiro polícia a entrar na embaixada desobedecendo às ordens do comando da PSP. Não se sabe ao certo o que pode ter acontecido, mas o mais provável é que a explosão na residência, que aconteceu há mais de duas horas, tenha sido causada pela intervenção solitária do agente. São 2:15. O grupo de operações especiais declara oficialmente o fim do assalto à embaixada da Turquia. A brigada de minas e armadilhas inspeciona a casa e os dois carros deixados pelos terroristas. Os bombeiros recebem finalmente autorização pra apagar o incêndio. E tão depressa como chegaram, os elementos do GOI abandonam o local Comprometido pelo primeiro comandante do grupo, quando apresentou a nova força ao país, foram mesmo os últimos a chegar e os primeiros a sair. Quatro da tarde, residência oficial do primeiro-ministro. Mário Soares e os restantes membros do gabinete de crise abandonam São Bento. Fica apenas o ministro da Administração Interna para apresentar as conclusões do encontro aos jornalistas.
Um grupo de terroristas arménios tentou assaltar a embaixada da Turquia em Lisboa, não o tendo conseguido, e refugiando-se na residência do conselheiro da embaixada, onde se encontravam sua esposa e um filho. Um elemento da PSP foi ferido e um terrorista foi morto durante o assalto frustrado à embaixada.
Eduardo Pereira leu o comunicado redigido no final da reunião do gabinete de crise e elogia a eficiência da resposta das autoridades portuguesas. Explica ainda que no dia anterior já tinha sido avisado da passagem de um carro suspeito pela embaixada e garante ter tomado as medidas necessárias. O governo não hesita em considerar a operação um sucesso, mas nem todos concordam. A imprensa questiona porque não foram enviados mais reforços para proteger a embaixada. E o próprio encarregado de negócios turco queixa-se de que a polícia chegou tarde ao local e sem capacidade para dar uma resposta eficaz. Diz que os agentes da PSP vieram armados com pistolas para combater metralhadoras. E quanto à intervenção do GOI, mais de 40 anos depois, o social-democrata Ângelo Correia considera que até mesmo essa força de elite ainda estava numa fase demasiado prematura para responder a este tipo de ataques.
Notou-se uma coisa óbvia: a impreparação, a virgindade, se quiser, dessa ação era tão manifesta que levou mais algum tempo a readaptar-se, a regenerar, a requalificar, a reanalisar os métodos e as táticas, e no meio disso tudo, a operação foi o início de um processo longo que capacitou Portugal nessa área.
Nas conclusões que apresenta aos jornalistas, o ministro da Administração Interna anuncia também que o governo quer fazer uma reforma na organização das polícias. É o segundo atentado terrorista internacional no país em pouco mais de três meses, depois do assassinato de Issam Sartawi, no Algarve. Primeiro, os palestinianos do grupo Abu Nidal. Agora, o Exército Revolucionário da Arménia. Além das fragilidades de segurança, Portugal também não tem um serviço de informações com capacidade para prever e prevenir estas ameaças. E essa falha estava relacionada com a memória do Estado Novo, diz Ângelo Correia.
Estivemos muitos anos sem ter serviços de intelligence ou serviços de informações, porque essa era a função da PIDE. Só que a PIDE fazia isso, mas não fazia isso só. Um órgão de intelligence, de informações, não prende ninguém, não tem poderes de prisão, não tem poder de detenção, mas já tem uma polícia e a PIDE tinha esse poder. Ou seja, associava a ideia do intelligence com a ideia da polícia de natureza política. Era por essa razão que isso contaminava a visão global que se tinha a ter das informações.
O próprio Mário Soares é um dos mais resistentes à ideia. E pelas mesmas razões, diz António Campos, braço direito do então primeiro-ministro e fundador do Partido Socialista.
O Mário Soares não tinha essa cultura, nem nós. Nós tínhamos uma certa aversão às forças, a tudo que fosse força. Tínhamos sido, no fim de contas, vítimas da força. Ele tinha passado mais de metade da sua vida como vítima das forças repressivas. Não era o Salazar que aguentava a ditadura, nem o Marcelo, era o exército e as forças policiais.
Mas agora, passados nove anos do 25 de abril, e com ações terroristas em Portugal, vai ter de ser encontrada uma solução. À porta da embaixada, a mulher do encarregado de negócios turco é posta rapidamente numa ambulância. Está gravemente ferida. Tem de ir já para o Hospital de São José, que fica a oito quilómetros de distância. A ambulância arranca. Mas Jaide morre durante o caminho. O filho Atasay é levado para o mesmo hospital. Tem poucas memórias do que aconteceu. Foi baleado num pé logo no início do sequestro e desmaiou. Nem a explosão o fez recuperar os sentidos. Quando despertou, já a polícia estava dentro do edifício. No hospital, acaba por partilhar quarto com outra das vítimas do atentado. Abílio Pereira, o agente da PSP baleado à porta da embaixada logo nos primeiros minutos do ataque. Como o Atasay não fala português e o agente da PSP não fala inglês, não há comunicação entre eles. O encarregado de negócios ordenou que nada fosse dito ao filho sobre a morte da mãe. O jovem é operado ao pé e tem alta rapidamente. E só quando chega à casa é que o pai lhe conta tudo o que aconteceu. Já Abílio Pereira passa um mês no hospital. Quando sai, volta diretamente para o terreno, sem receber qualquer tipo de apoio psicológico.
Nessa altura não havia nada. "Nessa altura não vais trabalhar e mais nada. Isso é impressão tua. Se passa isso na cabeça, se passa, isso não é nada." Antigamente não era como é agora, completamente diferente.
Volta à quarta divisão da PSP. Passa os primeiros meses em estresse constante, sempre com receio do que poderá acontecer. Quarenta e dois anos depois, já em pré-reforma, diz que o tempo lhe foi curando os medos. E continua a acreditar que se naquela manhã não tivesse parado em frente à embaixada da Turquia, o ataque teria sido muito mais mortífero.
Porque se não sou eu a levar os tiros, morria toda a gente. Ninguém se safava. Se não fosse o alerta do carteiro, os tiros cá fora, a introdução deles na própria residência, se eles quisessem, é tudo.
Em 1983, seis terroristas internacionais atacaram em Portugal. Os cinco que executaram o atentado à embaixada da Turquia morreram. Mas o assassino de Issam Sartawi, o dirigente da OLP morto a sangue frio no Hotel Monte Choro, ainda está vivo. E agora, em janeiro de 1984, vai começar a ser julgado. Al-Awad está detido há oito meses. Este não é o verdadeiro nome dele, é apenas o que consta do passaporte falso apreendido pela polícia. Mas o militante do grupo Abu Nidal continua a não querer revelar a identidade. Para as autoridades, as sessões em tribunal não passam de uma mera formalidade. Afinal, o jovem palestiniano já confessou o crime e até aceitou fazer uma reconstituição e guiar a polícia passo a passo pelo caminho que percorreu na fuga do hotel. O caso não podia parecer mais simples, até que o primeiro dia de julgamento vem mudar tudo. Al-Awad nunca vai ser condenado. E vai desaparecer de Portugal sem deixar rastro. Mas essa é uma história para o último episódio. No último episódio. Durante meses, o arguido apresentou-se como Yusif Al-Awad, mesmo quando já estava provado que o passaporte com que tinha entrado em Portugal era falso. De acordo com esse documento, tinha nascido em Marrocos, era comerciante e tinha 26 anos. Tudo isto era mentira. O próprio arguido assumia. Mas até aqui nunca tinha revelado o verdadeiro nome. Chegou a dizer que não queria que a mãe descobrisse o que andava a fazer. Esta manhã, decide mudar de ideias. "1983: Portugal à Queima Roupa" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Vitória Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. O guião e as entrevistas são de Vasco Maldonado Correia. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast plus do Observador. É mais do que um podcast. Os podcast plus do Observador têm o apoio da Kia.
