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Está na hora de embarcarmos em mais uma viagem pelos cinco continentes, programa de análise da atualidade internacional com a assinatura do historiador Bruno Cardoso Reis. Bom dia, Bruno.

Olá, obrigado.

Alguns ouvintes queixam-se de que falamos muito de Trump, se calhar há boas razões para isso, mas hoje vamos olhar para algumas grandes tendências globais associadas aos temas que todos os dias irrompem em casa adentro de cada um de nós, através da televisão, rádios e jornais. Sugeres que comecemos por abordar o impacto económico global da guerra contra o Irão e que implicações pode ter a prazo. Há motivos para recearmos?

Para começar, eu percebo que de vez em quando haja comentários no sentido de dizer: "Falamos demasiado do Trump." É importante, em nossa defesa, dizer que ele é o pôr-se muito a jeito, vamos dizer assim, quer pelo estilo de fazer política, quer por ser, sobretudo, o presidente dos Estados Unidos. Ou seja, é difícil ignorar uma ameaça, uma promessa, uma declaração de alguém que, de facto, tem, sobretudo no campo da política externa, na política interna até está um pouco mais condicionado, embora ele aí também não se deixe condicionar muito, mas no campo da política externa, da política de defesa, realmente tem um enorme poder e é difícil ignorar isso. Mas é verdade que às vezes podemos deixar-nos distrair por toda esta enxurrada de declarações, de polémicas, etc., e não dar tanta atenção a aspectos mais estruturais, mais de fundo, a grandes tendências. Como dizias, hoje a ideia, o desafio é tentar fazer isso. Em relação ao conflito que envolve o Irão e que se estendeu basicamente a todo o Médio Oriente, uma das estratégias do Irão foi exatamente o que nós chamamos uma escalada horizontal, ou seja, alargar o mais possível o conflito para aumentar ou distribuir os custos por múltiplos países vizinhos e também aumentar muito o impacto na economia global. Nesse sentido, eu acho que o Irão teve algum sucesso e acho que esse sucesso realmente tem implicações a prazo e tem implicações para além desta região. Uma das coisas centrais é chamar a atenção novamente para a importância da geografia destes pontos de estrangulamento na geoeconomia global, que está muito assente no transporte marítimo. À volta de 80% dos bens do comércio global são transportados por via marítima. Mesmo na Europa, que obviamente é um continente muito mais integrado e que tem excelentes comunicações rodoviárias, ferroviárias, etc. Portugal, eventualmente na parte ferroviária menos, mas mesmo aí 60% do comércio europeu é feito também por via marítima. Esse é um aspeto, não por acaso começamos a ver, por exemplo, especulações de que poderíamos ver também a tentativa de algum sistema de controle e até de cobrança de peagem, aquilo que o Irão está a declarar que quer fazer em Ormuz, por exemplo, no Estreito de Malaca. O ministro das Finanças da Indonésia veio falar nisso, o ministro dos Negócios Estrangeiros veio falar nisso, depois foram obrigados a desmentir, o presidente dizer que não estava realmente a pensar nisso. Esse é um ponto. Como consequência disso, e tendo em conta também a importância central do Golfo Pérsico na questão do mercado global de energia, em particular do gás, do petróleo, 25% gás, 20% petróleo, no gás ainda eventualmente com mais peso, porque ainda é mais complicado contornar o Estreito de Ormuz. Também aí há um impacto importante. Colocaste esta questão, que eu acho que as pessoas estão a colocar, que é: mas será que vamos ter realmente uma crise energética, não apenas nos preços, não apenas na inflação de preços, mas em termos de abastecimento, de necessidade de racionamento, falta de combustível? Eu diria que nós já estamos um pouco a viver isso. Ou melhor, nós não, mas há países que já estão a viver isso. Já falamos aqui um pouco disso, países na Ásia ou em África, com menos recursos ou mais dependentes do abastecimento a partir do Golfo Pérsico. Estamos a falar, no caso, por exemplo, de um país como a Coreia do Sul, 75% de dependência do petróleo que vem do Estreito de Ormuz, que tem de passar pelo Estreito. Aí realmente já há mais racionamentos, já há mais constrangimentos, sobretudo os países mais pobres de África também, que têm menos possibilidades econômicas de comprar mais caro e buscar onde for preciso pagar mais. Para já, isso ainda não nos atingiu muito, com exceção, eventualmente, do combustível para os aviões comerciais. Aí a questão parece ser um pouco mais complicada. Mas tudo isso aponta para necessidades de resposta que também vão ter implicações a prazo. O Financial Times costuma estar bem informado sobre estas questões, nomeadamente económicas, por exemplo, diz que os países do Golfo estão todos eles ativamente a preparar planos de investimento para contornar o Estreito de Ormuz, ou seja, a Arábia Saudita, por exemplo, provavelmente duplicar a capacidade do seu oleoduto leste-oeste, que vai até ao Porto de Yanbu, no Mar Vermelho, que já quadriplicou a quantidade de petróleo que passa por lá. A Arábia Saudita já tinha esse oleoduto com muita capacidade sobrante, que é algo que um país com muito dinheiro consegue fazer e com alguma visão estratégica, mas eles põem-se em hipótese de fazer ainda um outro oleoduto. O Qatar, por exemplo, que não tem possibilidade de escoar o gás, a não ser por via marítima, através do Estreito, está a pensar fazer gasodutos através da Arábia Saudita até ao Mar Vermelho, até ao Egito, eventualmente outros através do Iraque, do Kuwait até à Turquia, até ao Mediterrâneo. Realmente isso é o tipo deOpções que vamos ver aqui, certamente, onde há muito dinheiro, isto vai custar milhares de milhões, mas para estes países não é muito importante. É muito mais importante garantir a possibilidade de continuarem a ser exportadores e ter todo o retorno financeiro que isso traz. Mas noutras regiões, provavelmente vamos ver estratégias desse tipo. A China, por exemplo, que tem sempre uma visão estratégica de longo prazo, está ativamente a procurar criar alternativas rodoviárias, ferroviárias, através da Birmânia, através do Paquistão, investir em portos na Birmânia, no Paquistão, Gwadar, por exemplo, que já falámos aqui, para contornar o estreito de Malaca, para contornar a zona do Sri Lanka. Mas, sobretudo, o estreito de Malaca é um grande estrangulamento. À volta de 70% do comércio chinês passa por aí, de exportação ou de importações de energia ou do que for. Isso é uma tendência que vamos ver a nível global e também ao nível dos países consumidores, duas estratégias de mais reservas, portanto, criar depósitos com mais capacidade, por exemplo, para ter jet fuel, obrigar os aeroportos, por exemplo, a reforçar as suas capacidades, etc. E procurar diversificar e ter em conta a dimensão geopolítica ou risco geopolítico nessa diversificação. Por exemplo, Portugal está ativamente, aparentemente, a reforçar as compras de petróleo ao Brasil, mas por exemplo, aqui no Atlântico, uma boa notícia é que a Guiana, que também temos falado várias vezes, tornou-se um grande produtor de petróleo nos últimos quatro ou cinco anos e é também mais uma vez uma alternativa. Na Ásia, vemos, por exemplo, os países a procurarem comprar no Brasil ou na Guiana, mas também a procurarem comprar, por exemplo, no Brunei, que é um produtor mais local na Ásia Oriental. Mas tudo isto, em última análise, o que significa é que vamos ter realmente um mundo em que a dimensão de risco geopolítico vai pesar muito mais nas decisões econômicas, e isso tem um custo. O que ainda não conseguimos saber é que custo é que irá ter. Num cenário pior, de que isto aqui se prolongue muito, porque estas alternativas não são instantâneas, obviamente demoram alguns anos a construir, mesmo que seja num ritmo muito acelerado. Mas aí podemos ter um cenário de escassez de combustível, com impacto tremendo na economia global, de produtos derivados, coisas como luvas para os hospitais ou a parte do fertilizante que se fala muito, e um cenário de estagflação, ou seja, de inflação muito elevada e recessão econômica, que foi o cenário que vimos noutros choques petrolíferos, que até foram menos sérios em termos da quantidade de petróleo que foi retirada do mercado, por exemplo, em 73 ou em 79. Esse cenário mais grave existe, mas mesmo no cenário mais otimista, parece-me evidente que vamos ter aqui uma economia mais cara, onde tem de haver mais investimento para ter alguma segurança, alguma redundância, algumas reservas, ter uma série de mecanismos para atenuar este tipo de choques num mundo que realmente está muito mais propenso a conflitos armados e onde se percebe que mesmo um ator militar com limitações, como o Irão, por exemplo, comparado com os Estados Unidos, consegue com alguma facilidade causar enormes perturbações na economia global. Nós realmente vivemos aqui décadas excepcionais do ponto de vista da paz e da segurança e dos retornos que isso tem em termos econômicos, mas agora vamos pagar o preço de um mundo muito mais conflituoso.

Da guerra no Oriente Médio para o conflito no leste da Europa, um conflito armado entre Rússia e Ucrânia que tem revelado um peso crescente dos drones. Uma guerra dos robôs, é a expressão que usas, Bruno. Entrámos numa nova era dos conflitos armados? Que implicações?

Sim, acho que claramente já estamos numa nova era, mas ainda há muita coisa nova para acontecer. Estamos, se quisermos, no início dessa mudança, mas, por exemplo, a Ucrânia, foi o próprio presidente Zelensky que deu conta que agora em abril, pela primeira vez, uma posição militar russa rendeu-se apenas a drones e a robôs. Não havia tropa ucraniana, no sentido de soldados de carne e osso, a atacar essa posição. Realmente nós já vemos combates entre drones, já vemos um campo de batalha extraordinariamente condicionado por isso, na Ucrânia e também no caso do Irão. Temos este dado fundamental que é os drones terem esta enorme vantagem, que são grandes niveladores de poder, ou seja, são muito fáceis de produzir em grande quantidade, de forma muito barata, em termos relativos, nada é barato numa guerra, mas estamos a falar de drones que às vezes custam 4, 5 mil dólares, drones armados custam 10, 20 mil dólares. Isto quando os sistemas de interceção antiaérea, muitas vezes têm intercetores que cada um deles, cada míssil custa 500 mil, 1 milhão, 3 milhões de dólares, que são produzidos às dezenas por mês, enquanto que os drones podem ser produzidos aos milhares por mês, com custos muito mais baixos. De facto, temos aqui este dado novo já a nível das lições aprendidas destes dois conflitos. Realmente a centralidade dos drones, a Ucrânia já há algum tempo criou, aliás, um novo ramo, a par da Força Aérea e da Marinha do Exército, tem um ramo só dedicado aos drones e à guerra eletrônica de um modo geral. E como eu dizia, isto está a começar. Para já, temos visto, sobretudo, o protagonismo de drones aéreos em grande quantidade, alguns drones navais, mas a Ucrânia cada vez mais está a usar drones terrestres também. É importante sublinhar que isto não são sistemas autônomos, não são ainda, propriamente falando, robôs, porque são sistemas que são remotamente pilotados, não está lá uma pessoa, mas está à distância, às vezes de bastantes quilômetros, mas está alguém a controlar esse meio militarMas já temos alguns temas que são automáticos, onde há uma dimensão de inteligência artificial, pelo menos na fase final. Por exemplo, o drone é direcionado para atacar um determinado alvo na parte final para evitar interferências, etc. Ele tem autonomia para atingir da melhor maneira esse alvo. Ou sistemas também de defesa ativa, por exemplo, os carros de combate para conseguirem sobreviver minimamente neste contexto, têm sistemas automáticos de defesa que detectam automaticamente uma ameaça, um drone, um morteiro, e automaticamente interceptam sem necessidade de uma intervenção humana, a não ser para ativar o sistema. Obviamente, esses sistemas só são ativados num contexto de teatro de guerra. E já temos também a inteligência artificial muito envolvida. Por exemplo, no caso do Irão, temos notícias muito seguras disso. Os Estados Unidos atingiram à volta de 17 mil alvos nesta campanha. Isso é centenas de vezes mais do que teria sido possível sem utilizar a inteligência artificial para analisar toda a informação, toda a "intelligence", e depois a aquisição de alvos. Tudo isto coloca grandes desafios. Eu focava-me em pelo menos dois. Um é desafios éticos, legais, ou seja, como é que se evita aqui uma espécie de corrida desenfreada para estas novas tecnologias, em que, à partida, por exemplo, pode ser muito mais eficaz militarmente esses sistemas plenamente autônomos, realmente robôs a combater robôs. Como é que se garante que, de fato, esses sistemas não se descontrolam, não é? Tipo o cenário "Terminator", ou mesmo que não vamos por aí, eles não querem acabar com a humanidade, mas que simplesmente tomem decisões que coloquem em risco vidas civis, etc. Como é que se garante realmente esse controle, o respeito pelas regras? Embora também é importante dizer que este debate não é assim tão simples, ou seja, há autores que defendem que há vantagens no modelo mais autônomo, no sentido que o cansaço, o erro humano, fatores como preconceitos, raiva, etc., todas aquelas coisas que são muito humanas, também podem levar a crimes de guerra, também podem levar a erros. E esse tipo de tecnologia, à partida, não se cansa e não seria suscetível, pelo menos desse tipo de erros. Mas há essa questão. E depois há uma questão também importante, por exemplo, pra um país como Portugal, que é as implicações disto em termos de compras de novo equipamento, de aquisição de novo armamento. Todos os países estão a investir muito mais em defesa, pelas razões que já referimos antes. Estamos num mundo muito mais perigoso, muito mais conflituoso. O ano com mais conflitos desde a Segunda Guerra Mundial foi 2024. Ainda não temos números consolidados para 2025, mas é provável que a tendência se mantenha. Aí é fundamental perceber: vamos comprar plataformas tradicionais, grandes navios, aviões de combate tradicionais, que são em muitos casos muito vulneráveis a estes sistemas, vamos comprá-los, mas com sistemas já adaptados, com sistemas de defesa ativa que sejam capazes de evitar que sejam vulneráveis, por exemplo, a drones, a meios muito mais básicos. Isso implica, por exemplo, ter sistemas de interceção muito mais eficazes e muito mais baratos. Não podemos ter mísseis a custar 1 milhão de dólares a interceptar drones. Centenas de drones, potencialmente, custam 10 ou 20 mil, até porque os navios têm capacidade limitada em termos de munições a bordo, por exemplo. Mas isto tem grandes implicações e temos de comprar muito mais drones, isso a mim parece-me evidente, inclusive drones armados. Para um país como Portugal, isso é um grande nivelador de poder em relação a potências muito mais fortes. Mas que combinação fazer aqui entre estes meios novos, meios mais tradicionais que têm de ser adaptados. Isso é um problema para todos os Estados, inclusive também para um país como Portugal.

Ainda temos aqui mais dois minutos. Continuemos a falar da Rússia e da influência de Moscovo no continente africano, muito em particular através do grupo paramilitar Africa Corps, formado por mercenários. No caso do Mali, as coisas não estão a correr particularmente bem. Que balanço desta ação da Rússia em África?

Realmente, no Mali, as coisas não estão a correr nada bem. Tivemos nas últimas semanas um ataque coordenado a todas as grandes cidades do país, inclusive à própria capital, inclusive ao bairro militar, a grande base militar na capital Bamako, onde é morto o ministro da Defesa, o ministro Câmara, que foi o grande promotor da aproximação da junta militar que toma o poder em 2020, 2021, num golpe, e que foi o grande promotor do afastamento da França, dos países europeus, dos países ocidentais, e a aproximação à Rússia, a aposta nestes mercenários russos. Portanto, foi morto. O presidente Goita, o general Goita, foi obrigado a assumir também o Ministério da Defesa, ou porque ninguém queria assumir o cargo, que era potencialmente fatal, ou porque ele próprio tinha medo que alguém assumisse e eventualmente desse um golpe, tendo em conta estas perdas. Perderam o controle da principal cidade do Nordeste, Kidal, que os russos basicamente abandonaram, chegaram a um acordo com os jihadistas, saíram, deixaram lá as tropas do Mali para serem aprisionadas. Realmente, do ponto de vista da eficácia militar, o balanço é péssimo. Do ponto de vista do apoio aos regimes militares, é realmente uma aposta de sucesso, inclusive eles vieram se gabar nos últimos dias que impediram um golpe, uma tentativa de golpe contra a junta do Mali. Eu diria que isto valida aqueles avisos clássicos do Maquiavel, no "Príncipe", sobre a questão dos mercenários , de estar excessivamente ou inteiramente dependente de mercenáriosRealmente, os mercenários tendem a não ser muito leais, a não ser à questão do dinheiro. E apesar de tudo, o dinheiro não paga tudo e em circunstâncias mais difíceis, em muitos casos, acabam por optar por desertar, por chegar a um acordo com quem está a vencer e evitar perdas maiores. Isso já era assim na Itália do Renascimento, também é assim na África Ocidental ou no Sahel com este grupo Africa Corps. Vale a pena, já agora, só para terminar, sublinhar que o Africa Corps é a reencarnação do Grupo Wagner, depois daqueles episódios em 2023. Em 2025, basicamente, o que restava do Grupo Wagner na África é substituído por este Africa Corps. O que é extraordinário é que eles mantêm o tema nazi e ainda o deixam mais claro. Africa Corps, para quem não sabe, era o nome das tropas nazistas que ajudaram na Itália, na Líbia, na Tunísia, portanto, na África do Norte, com o general Rommel. É realmente extraordinário como muita gente que tem simpatia por Putin no Ocidente está muito preocupada com o nazismo na Ucrânia, que é dirigido por um presidente judeu, mas aparentemente não se preocupa nada com a Rússia ter declaradamente um grupo armado cujo nome é uma homenagem às tropas nazistas na África durante a Segunda Guerra Mundial.

E é com este movimento de mercenários em África que terminamos a primeira parte de Cinco Continentes, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Voltamos já daqui a pouco para falar de riscos ambientais e políticos que decorrem das alterações climáticas. Estamos de volta para a segunda parte do Cinco Continentes, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, têm surgido notícias sobre o impacto da mudança climática, desde o megatsunami no Alasca há um ano, ao enfraquecimento da Corrente do Golfo, entre outros fenômenos. Uma das zonas mais afetadas é o Ártico e queria também falar, a este pretexto, do Conselho do Ártico. Que organismo é este e como é que tem funcionado?

Sim, realmente têm surgido muitas notícias sobre esta dimensão de crise ambiental. E o que é importante sempre sublinhar é que a maior parte dos cientistas dizem, e obviamente um consenso absoluto nunca existe na ciência, e também não é assim que se gere risco, não vamos esperar que todos os cientistas concordem com alguma coisa, algo que nunca aconteceu, nem deve acontecer, é bom que haja discussão. Parte-se de uma posição relativamente consensual e que tenha, aparentemente, uma boa base factual para gerir o risco. Mas aquilo que a generalidade dos cientistas diz em relação ao problema das alterações climáticas, da crise climática, do aquecimento global, o grande problema não é bem o aquecimento em si, porque as pessoas podem dizer: "Mas então mais um ou dois ou três graus, ainda por cima no Ártico, onde até está bastante frio". Eu tinha, aliás, um amigo norueguês no tempo em que estava a fazer o doutoramento, que tinha uma T-shirt para irritar os mais politicamente corretos, que era: "O mundo está a aquecer, eu sou da Noruega, por que é que eu me hei de chatear com isso?". À partida, é uma coisa boa. Mas o problema aí é que toda a vida no Ártico foi organizada com base num determinado clima padrão e quando isso se altera, tem implicações muito disruptivas. E depois temos estes eventos extremos, que são realmente o que coloca mais preocupação. Vemos a questão dos incêndios, por exemplo, na Europa do Sul, mas na Sibéria, na Rússia também. Ou esta questão do tsunami no Alasca, é o resultado da erosão dos glaciares, etc. Provocado pelos glaciares, há uma parte de uma montanha que cai. Felizmente, é uma zona muito remota do Alasca, portanto, não resultou em mortes, mas potencialmente podia ter resultado. É um tsunami colossal, uma onda com centenas de metros. Tudo isto realmente chama a atenção para o fato de que uma das regiões onde o aquecimento global terá um impacto mais disruptivo será exatamente esta zona. É uma zona que é adjacente a zonas que nos importam muito, é o extremo norte do Atlântico, se quisermos. E tem grandes implicações para algo que é muito importante para os portugueses, que é o bacalhau, por exemplo. Uma das questões que aqui está a ser colocada é a questão do impacto destas mudanças nos estoques de peixes. E depois temos uma outra dimensão muito importante a sobrepor-se a isto, que é a dimensão geopolítica de conflito entre potências. Este Conselho do Ártico é uma organização intergovernamental que é criada no pós-Guerra Fria, em 1996, Declaração de Ottawa. Reúne todos os Estados desta região do Ártico, desde os Estados Unidos e o Canadá até à Rússia, passando pela Finlândia, pela Noruega, pela Dinamarca, muito por via da Gronelândia. Aliás, é a Dinamarca que tem agora a presidência rotativa, portanto, a cada dois anos, um Estado vai assumindo essa presidência rotativa. É agora a Dinamarca que tem e, na verdade, delega esse papel no ministro dos Negócios Estrangeiros do governo autónomo da Gronelândia. Mas obviamente, isso coloca problemas, ou seja, a presidência anterior foi da Noruega, 2024 a 2026 ou 2024 a 2025. A Noruega retomou realmente o funcionamento do Conselho, insistindo neste ponto que está presente desde o início, que é: isto não é para discutir questões militares ou de geopolítica, é sobretudo questões ambientais, questões económicas, questões de segurança marítima, no sentido de, por exemplo, busca e salvamento, etc. No fundo, a ideia de que é uma região onde os perigos são tão grandes, onde é tão difícil sobreviver, que é importante que haja cooperação de todos para garantir isso. E até há muito esta ideia, que levou à criação do Conselho, uma espécie de exceção do Ártico. O Ártico estaria salvaguardado dos conflitos geopolíticos, das disputas entre grandes potências, etc. Agora, a verdade é queParcialmente isso pode ser assim, mas não é inteiramente assim. A verdade é que entre 2022 e 2024 o Conselho esteve suspenso, não funcionou, porque era a Rússia ainda por cima a presidir e entretanto invade a Ucrânia em fevereiro de 2022. Depois é decidido por iniciativa da Noruega, com a concordância dos demais, realmente retomar os trabalhos nestas dimensões de gestão do risco ambiental, por exemplo, questões de pescas. Agora com a Dinamarca, temos este dado novo que é a questão da Gronelândia e em que o conflito é entre duas potências do Ártico, os Estados Unidos e a Dinamarca, supostamente até aliados. Portanto, nem sequer é a Rússia que está aqui a aparecer no papel de agressor potencial, são os Estados Unidos. No fundo, põe-se essa questão, até que ponto o Conselho conseguirá continuar a funcionar ou não. Outra questão, voltando e terminando com a questão do bacalhau, que talvez seja a que nos interesse aqui mais. Por exemplo, há um acordo bilateral, mas que também faz parte destes acordos mais amplos entre a Noruega e a Rússia para gerir os toques de bacalhau. O bacalhau da Noruega, na verdade, é uma espécie de bacalhau russo-norueguês, porque o peixe oscila. Obviamente, o mar não tem fronteiras para o peixe. A Noruega faz fronteira com a Rússia no extremo norte e o peixe sai de entre uma zona e outra e há acordos para permitir a pesca, quer de noruegueses, quer de russos, de acordo com determinadas cotas, mas no fundo, evitar uma pesca que interfira com esses ciclos naturais do bacalhau. São 2000 milhões, por exemplo, para a Noruega, o bacalhau da Noruega. E isso agora está a ser posto em questão. Há países que criticam, no fundo, essa cooperação entre a Noruega e a Rússia, o facto de permitir o acesso de certos navios russos. Será que estão só a pescar ou que também estão a espiar? A Noruega tem defendido isto com a questão da necessidade ambiental de gestão de estoques, com a possibilidade de haver algum controle, alguma monitorização, de acordo com os termos desse acordo. Mas realmente tudo isso mostra como o mundo mais conflituoso levanta todo tipo de problemas, põe em causa todo tipo de expectativas, inclusive, eventualmente, até a nossa possibilidade de comprar a preços razoáveis bacalhau da Noruega para as nossas mesas.

E como não falar de Donald Trump? É também um tema que se liga às consequências das alterações climáticas, as migrações. Surgiu há pouco o novo relatório da Organização Internacional para as Migrações. Quais são, Bruna, as grandes tendências? Isto também a propósito da crise migratória e do nativismo na África do Sul, ao ponto da Nigéria se oferecer para retirar cidadãos deste país vítimas de ataques xenófobos.

Sim, realmente a Organização Internacional das Migrações publicou o seu relatório anual, que é sobretudo ainda focado em 2024, porque em muitos casos é difícil consolidar dados logo para 2025. No fundo, o relatório insiste que o volume de migração, no sentido amplo, inclui refugiados, inclui migrantes econômicos, ainda é apenas, é assim que eles põem a questão, à volta de 300 milhões para 2024. Isso representa apenas 3,7, portanto 4%, se quisermos, da população mundial. É um número, dizem eles, relativamente reduzido, tendo em conta o enorme impacto que isso está a ter na política a nível global e já vamos ao caso da África do Sul. Mas a verdade também é que vale a pena sublinhar que são bastante mais do que eram, por exemplo, aqui há umas décadas atrás. Em 1970, estávamos a falar de 80 milhões. A tendência tem sido realmente de crescimento, de crescimento relativamente sustentado. Obviamente, se tivermos mais conflitos armados, se tivermos mais insegurança, se tivermos mais eventos climáticos extremos, mais catástrofes, vamos ter mais deslocados. À partida, as pessoas preferem sempre deslocar-se no interior do próprio país e essa tendência também se mantém, mas em muitos casos isso não é possível e acabamos por ter realmente fenómenos migratórios transnacionais. Essa tendência, aparentemente, veio para ficar e para se acentuar. E realmente o impacto político que isso tem, o surgimento de movimentos nativistas, é bastante claro. Tem muito a ver com o facto desta imigração, destes movimentos migratórios serem também muito assimétricos, ou seja, tendem a concentrar-se em determinados países que são vistos como mais ricos, mais prósperos. Obviamente, os migrantes podem estar a fugir da insegurança, mas não quer dizer que vão para qualquer país a seguir. As pessoas estão informadas, têm telemóveis e procuram, de forma compreensível, ir para sítios onde pensam que terão um futuro não só mais seguro, mas também mais próspero, onde muitas vezes também têm redes já. Este fenómeno também da imigração que se vai reforçando a si própria, o efeito de chamamento. E isso acontece na Europa e, no caso da Europa, por exemplo, muito mais em Espanha do que em Portugal ou muito mais na Alemanha do que em países mais pobres na Europa. No caso de África, por exemplo, acontece muito em relação à África do Sul. E aí realmente tem havido nos últimos anos, mas nomeadamente também nos últimos meses, novamente um acentuar de manifestações, de ameaças, de assassinatos. Há, por exemplo, neste momento, uma crise entre a Nigéria, o mais populoso país africano, e a África do Sul, porque foram mortos dois nigerianos no quadro destas manifestações nativistas extremamente violentas, extremamente ameaçadoras. O próprio rei zulu, a África do Sul é uma república, mas como nós já falámos aqui algumas vezes, em muitos destes Estados africanos continuam a existir as monarquias tradicionais e têm alguma importância simbólica, alguma influência políticaO mais importante desses monarcas tradicionais na África do Sul é o Rei Zulu, que fez um discurso há poucos meses atrás apoiando a expulsão de imigrantes estrangeiros. Isto tem grandes implicações, por exemplo, pra um país como Moçambique. Eu fui às África do Sul e a Moçambique aqui há dois anos e inclusive pude verificar, através do testemunho dos moçambicanos, que eles realmente se queixavam muito deste fenômeno crescente de racismo, de ameaças, de algum mau trato. Um empresário moçambicano, por exemplo, que estava a atravessar a fronteira enquanto estávamos na fila à espera — uma das queixas dos moçambicanos também é que eles passam horas nas filas porque não há funcionários suficientes na fronteira — queixava-se que ele tinha ido comprar algum material pra sua quinta e lhe tinham exigido uma licença de criação de gado na África do Sul. Obviamente, ele disse: "Mas eu crio gado é em Moçambique, estou aqui é pra comprar caixas", mas simplesmente para extrair dinheiro. Há realmente essas queixas e é interessante perceber que esse fenômeno existe na Europa, mas não é exclusivo da Europa, existe em África, existe na América do Sul. Neste momento, e pra terminar, o país com mais migrantes é a Venezuela, o que é extraordinário. É um país onde não há um conflito armado, mas que com o regime populista chavista ficou completamente destruída a sua economia, que tornou-se do país mais rico em termos de recursos, o segundo mais rico per capita na América do Sul, no país mais pobre. Temos à volta de sete milhões de deslocados venezuelanos, muitos deles luso-venezuelanos também aqui em Portugal, na Madeira, etc. Mas a maior parte na América do Sul, dois milhões na Colômbia, 600 mil no Brasil. No Chile, nas eleições deste ano, uma das questões foi precisamente o excesso de imigrantes e a ideia de que era importante promover o seu regresso, ainda que seja importante dizer que, apesar de tudo, os venezuelanos e o seu tratamento na América do Sul parece ser um caso de algum sucesso em termos de algum acolhimento, alguma disponibilidade para acolher, para dar oportunidades econômicas. Não quer dizer que não haja algumas tensões, como eu referi, no Chile isso apareceu, mas mesmo aí, este fenômeno de migração latina pra outros países latinos não parece ser dos casos piores a nível do que está a acontecer nestas dinâmicas migratórias.

Vamos agora ao país em destaque esta semana, e esta semana é a Coreia do Norte, que retirou da Constituição o objetivo de reunificação com a Coreia do Sul. Uma boa ou má notícia?

Eu acho que os próprios especialistas na Coreia, que eu fui procurar consultar, alguns colegas que vou seguindo, também não têm bem a certeza. Ou seja, à partida, poder-se-ia dizer que talvez sim, porque é importante recordar, às vezes temos falado isso aqui quando falamos de como é que vai terminar a guerra na Ucrânia, como é que vai terminar a guerra no Irão, a questão de há sempre uma paz. Não há sempre uma paz, às vezes há um cessar-fogo, se tivermos sorte, se a guerra não se eternizar, mas há um cessar-fogo que assim se vai eternizando, mas sem se chegar a um acordo final e sempre com grandes tensões, com grande nível de militarização. O exemplo que eu costumo dar é exatamente a Coreia. Tivemos uma guerra entre a Coreia do Norte e Coreia do Sul, se quisermos, uma tentativa de, pela força, reunificar a Coreia, por iniciativa da Coreia do Norte, mas isso é travado pelos aliados da Coreia do Sul, os Estados Unidos e outros. Mas, na verdade, chega-se ali a um certo impasse e estabelece-se esse cessar-fogo, que ainda continua. Formalmente, a Coreia do Norte e Coreia do Sul estão em guerra desde 1953, embora felizmente não em uma guerra ativa. Poder-se-ia dizer: "Bem, isto quer dizer que, de alguma forma, a Coreia do Norte reconhece que existe a Coreia do Sul, não vai tentar uma reunificação pela força". É possível essa interpretação, mas a verdade também é que isto vai de par com o fato de a Coreia do Norte ter declarado a Coreia do Sul o seu inimigo eterno e principal em 2023, de ter realizado quatro ensaios com mísseis neste mês de abril, foi o máximo, foi o mês com mais ensaios. Nada disto parece sinalizar uma pacificação ou uma mudança da postura da Coreia do Norte, que realmente é um país fascinante. Vale a pena referir aqui alguns dados: é uma ditadura totalitária, é o país mais fechado do mundo, o regime mais repressivo. As pessoas são condenadas à morte por ver séries da Coreia do Sul. É um país extremamente militarizado, as pessoas passam fome. Tivemos episódios de fome em que morreram milhões, mas o essencial do orçamento é gasto no programa nuclear. A Coreia do Norte conseguiu desenvolver um programa nuclear com sucesso, ao contrário do Irão, que terá à volta talvez de 40 ogivas. Há aqui um dado que vale a pena referir, que é a Coreia do Norte tem à volta de 25 milhões de pessoas, a Coreia do Sul tem 50 milhões. São países mais ou menos do tamanho de Portugal, a Coreia do Norte um pouco maior, 120 mil km², a Coreia do Sul à volta de 100 mil, Portugal tem 90 mil km². A Coreia do Sul é um caso de extraordinário sucesso econômico, era um país mais pobre do que Portugal, hoje em dia é um país substancialmente mais rico, é talvez a 13ª, 14ª economia mais rica do mundo. Tem uma economia que é 40 vezes o tamanho da economia da Coreia do Norte. Em termos militares, a Coreia do Norte, com metade da população, com uma economia 40 vezes mais pequena, tem o quarto maior exército do mundo, tem quase tantos efetivos como os Estados Unidos, tem à volta de 1,3 milhões, os Estados Unidos têm à volta de 1,31 milhão 328 mil, no caso dos Estados Unidos, 1 milhão 320 mil, talvez, na Coreia do Norte. Só são ultrapassados pela China e pela Índia, que são de longe os países mais populosos. A Índia tem a volta de 1 milhão e 400 mil soldados, a China a volta de 2 milhões de soldados. Isto diz bem da militarização da Coreia do Norte, quais são as prioridades em termos da natureza do regime. Isso realmente faz-nos duvidar que a Coreia do Norte, com esta mudança na sua Constituição, esteja mesmo disposta.

O que é que motivou esta mudança?

Eu penso que é consagrar o estado de coisas que existe. Se quiseres que eu seja claro, eu tenho receio que isto não seja realmente um sinal de maior pacificação. No fundo, uma interpretação possível é, se apesar de tudo, o objetivo era a reunificação, então à partida, uma postura muito agressiva em relação à Coreia do Sul não fazia sentido, porque somos todos coreanos, então como é que vamos estar a ameaçar matar grande número de sul-coreanos que são também nossos compatriotas, somos todos coreanos. Eu tenho receio que possa eventualmente ser um sinal nesse sentido. Outra possibilidade é simplesmente deixar claro que a dimensão negocial com a Coreia do Norte não é uma prioridade. Pode não ser um sinal de uma postura assim tão mais agressiva, mas pelo menos de que essa dimensão negocial não é o mais importante e procurar consolidar esta ideia de que o regime está para durar, está para ficar. Não é preciso fazer cedências também para qualquer esforço de reunificação. Há muitos rumores de que o atual líder da Coreia do Norte, que faz parte desta dinastia, desta família Kim, que se tem eternizado no poder basicamente desde 1948, que ele estará a preparar a sua filha para o suceder. Nós tivemos até agora avô, pai, filho. Três gerações da família Kim a governar a Coreia do Norte. Tivemos obviamente o Kim Il-sung, Kim Jong-il e agora o Kim Jong-un. É também este dado extraordinário, que é uma ditadura comunista, um regime comunista, completa estatização da economia, etc. Mas é ao mesmo tempo uma espécie de monarquia absoluta, uma dinastia. O fundador da Coreia do Norte, Kim Jong-il, foi declarado presidente eterno. A Coreia do Norte é formalmente presidida por alguém que já morreu em 1994. Temos também esse dado paradoxal, extraordinário, de uma república dinástica, de uma república comunista, de um regime comunista que é ao mesmo tempo uma espécie de monarquia absoluta, como eu digo, extremamente repressivo. Mas isso também mostra que todos podemos ser formalmente democratas, mas dentro desse formalismo democrático, porque eles dão-se ao trabalho de organizar eleições que ganham sempre com 99,9% e explicam que 1% tem a ver com funcionários que estão no estrangeiro e que não podem votar, etc. Mas dentro desse formalismo democrático, há espaço para regimes extraordinariamente repressivos, extraordinariamente opressivos, e em que claramente a prioridade é esta pequena elite se manter no poder. Em relação a esta mudança, a minha impressão é realmente isso, é que tem, sobretudo, a ver com um esforço para consolidar a mensagem de que a Coreia do Norte é um Estado que veio para durar, não é uma coisa que seja temporária, à espera de uma reunificação com o Sul.

E é com a Coreia do Norte que fechamos a edição desta semana de "Cinco Continentes". Já sabe, se tiver perguntas, dúvidas, sugestões, pode escrever-nos através do e-mail ouvinte@observador.pt. Pode também enviar-nos mensagem através do WhatsApp 910 002 41 85. "Cinco Continentes", está de regresso na próxima semana, sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis.