Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Damos início à nossa viagem semanal pelos temas que estão a marcar a atualidade e a geopolítica internacional, novo episódio do "Cinco Continentes". Eu sou o João Costa e Silva, estou com o historiador Bruno Cardoso Reis, ainda que à distância. Bruno, sê muito bem-vindo. Como é que foi essa tua semana?

Olá, obrigado. Correu tudo bem e estou aqui a fazer, a partir do Alentejo, a emissão, portanto é uma paisagem agradável.

Nessa parte eu fico com inveja, confesso. Ainda por cima o tempo aqui em Lisboa não está assim de feição.

Mas tiveste férias a semana passada.

Essa aí era a desculpa. É verdade. Estamos aqui numa brincadeira, mas isto é tudo saudável.

Brincadeira amigável.

Exato, claro. Temos aqui vários temas em cima da mesa, dar destaque aos nossos ouvintes que vamos falar na segunda parte do Brasil, que é o país em destaque esta semana, muito por força das eleições que vão acontecer este domingo. Mas começamos na Rússia. Vladimir Putin voltou a subir o tom e alertou a NATO para uma eventual resposta nuclear devido a um alegado plano de bloqueio à enclave de Kaliningrado. Entretanto, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, negou que a NATO ameace essa região russa e esteve com o primeiro-ministro da Lituânia para falar sobre a defesa antiaérea. Eu pergunto, Bruno, se este abate do drone russo na Lituânia e a retórica nuclear sobre Kaliningrado mostram que a Rússia está a testar, e nós já falámos disto no "Cinco Continentes", a determinação e os limites da NATO, se podemos realmente interpretar desta forma.

Sim, é exatamente isso. Ou seja, há realmente aqui um escalar destas ameaças russas, ameaças retóricas, mas também ações concretas, toda a questão da guerra híbrida, da guerra na zona cinzenta que temos falado e às vezes já não tão cinzenta assim, como é esta questão de, por exemplo, um helicóptero que entrou um pouco por território polaco, precisamente nesta zona de Kaliningrado, um helicóptero russo ou uns aviões militares russos também na zona do Báltico. E depois temos, de facto, estas coisas mais difíceis de atribuir direto à Rússia, mas que todos os sinais apontam, são demasiadas coincidências para serem outra coisa. Agora, o que esta resposta de Putin também mostra é que há vulnerabilidades também do lado russo. Ou seja, é verdade que há vulnerabilidades do lado da NATO, os países bálticos são vulneráveis, são até mais vulneráveis do que a Ucrânia, por si só seriam muitíssimo mais pela sua geografia, pela sua pequena dimensão, mas a Rússia também tem vulnerabilidades e Kaliningrado, evidentemente, é uma vulnerabilidade, é uma exclave. Já agora, também remeto para uma outra questão, que é todo o argumentário pseudohistórico, por exemplo, em relação à Crimeia ou Donbass da Rússia. Esses territórios foram ocupados pela Rússia no final do século XVIII. Desde quando Kaliningrado é russo? Desde 1945. Kaliningrado, na verdade, é Königsberg, é a capital histórica da Prússia, do Reino da Prússia, a cidade dos reis em alemão. Era a cidade natal do Kant, por exemplo, do grande filósofo alemão Immanuel Kant. Fazendo aqui este parêntese histórico, se os argumentos da história é que são decisivos para atribuir territórios, então Kaliningrado não devia ser russo, devia ser alemão. Isto também mostra que há estas vulnerabilidades do lado russo. Obviamente, isto é um território descontínuo, que está separado, que está ali no meio do Báltico, com fronteiras com a Polônia e com a Lituânia, que está separado do resto do território russo por centenas de quilómetros. Acho que isto mostra que a Rússia realmente reconhece essas vulnerabilidades. A ameaça é para levar a sério. É para levar um pouquinho mais a sério do que quando são aqueles propagandistas do costume, que não há semana em que não ameacem uma capital europeia com armas nucleares, inclusive algumas vezes Lisboa. Mas apesar de tudo, se virmos com atenção, Putin ele próprio já começa a qualificar as coisas. Diz que tudo estará em cima da mesa para defender Kaliningrado, todo o tipo de armas, mas quando lhe perguntam especificamente sobre as nucleares, ele diz: "Bem, essas são umas das armas, mas não são as únicas". Agora, aí eu pergunto, obviamente, depois a resposta de Mark Rutte é dizer que a NATO não tem a intenção de atacar Kaliningrado, a NATO é uma aliança defensiva. A implicação disso, que ele não fez e que talvez pudesse fazer, até para passar uma mensagem mais robusta, mas que claramente não fez para evitar uma escalada verbal maior, é que a NATO não tenciona tomar a iniciativa de atacar Kaliningrado, sem mais, mas se um país da NATO for atacado, nomeadamente se a Polônia for atacada, se a Lituânia for atacada, que são países que fazem fronteira com este exclave, então por que a NATO não poderia atacar, não deveria pôr essa questão de exatamente Kaliningrado como um alvo bastante vulnerável, potencialmente, para ações militares dos países da NATO. E isso, obviamente, é importante para dissuadir precisamente a Rússia dessas tentações bálticas, por exemplo. Porque a verdade é: "Mas então a Rússia ameaça que vai usar armas nucleares". Bem, mas a Rússia também já ameaçou muitas vezes usar armas nucleares no contexto da Ucrânia e não o fez. E eu recordo que a Ucrânia já invadiu território russo. Para surpresa de todos, fez uma incursão prolongada por território russo na zona de Kursk. E que eu saiba, não houve um ataque nuclear russo em resposta a isso. Portanto, eu acho que isto realmente também nos deve fazer pensar que a Rússia é uma potência agressiva e ameaçadora, que deve ser levada a sério, mas em muitos casos também é, historicamente tem sido um gigante de pés de barro e, portanto, os países da NATO, desde que se mantenham coesos, desde que tenham uma Uma resposta robusta potencialmente também pode defender-se e de preferência até dissuadir a Rússia de avançar nesse sentido. Aqui o grande problema, o grande imprevisto e eventualmente a grande tentação é a questão dos Estados Unidos, ou seja, com Donald Trump não temos nenhuma razão para dar como certo que havendo algum tipo de ataque a um país da NATO na Europa, que os Estados Unidos realmente iriam responder a esses ataques. Apesar de tudo há uma presença militar dos Estados Unidos nesta região, inclusive na Polónia. Donald Trump até se dá muito bem com o presidente polaco, que é da sua área política. Isso é um fator que pode ajudar um bocadinho, mas eu acho que ninguém pode dar isso como seguro. E isso pode ser um fator a tentar a Rússia a testar as águas, precisamente fiando-se nessa ideia de que Donald Trump não viria ajudar os europeus. Isso obviamente enfraquece a robustez da defesa ou da dissuasão de uma potencial ameaça russa.

E veremos até onde nos leva esse teste. Bruno, entretanto, 11 anos após o referendo do Brexit, o debate no Reino Unido continua vivo. Talvez não se esperasse com tantas reações. O certo é que Andy Burnham colocou em cima da mesa a revisão das opções da relação de Londres com a União Europeia. E eu pergunto-te por que esta discussão volta com tanta força neste momento, até porque importa perceber do ponto de vista estratégico e histórico se faz sentido o Reino Unido voltar a reaproximar-se do mercado único ou até de novos acordos com Bruxelas.

O Andy Burnham, que é o novo primeiro-ministro trabalhista, como sabemos, houve uma mudança porque o anterior, o Keir Starmer era muito impopular. Andy Burnham é bastante mais popular e realmente continua a liderar as sondagens.

Ia-te perguntar isso, se essa popularidade se mantém ainda.

Sim, mantém-se, embora ainda tenha tido pouco tempo para começar a desgastar-se, ainda temos de esperar para ver se isso dura. Mas a verdade é que ele fez o seu primeiro grande discurso sobre política interna e política externa, é uma tradição na política britânica, no Congresso do Partido Trabalhista. Há outros exemplos famosos de Margaret Thatcher, etc., obviamente no caso do Partido Conservador. E realmente, o que ficou muito claro é que na parte da política interna, a questão é recuperar o dinamismo económico e também dar prioridade a esta questão de gerir o envelhecimento da população com uma série de opções, que vamos ver se são assim tão populares. Por exemplo, não subir tanto as pensões e haver mais investimento público no cuidado aos idosos. Mas no caso da política externa, claramente uma grande prioridade é esta reaproximação à Europa, isso é bastante claro. A reaproximação e uma reaproximação que pela primeira vez, e isso realmente é uma linha vermelha que foi ultrapassada, se quisermos, pela primeira vez desde 2016, desde o referendo do Brexit, em que a opção de saída da União Europeia venceu, pela primeira vez há um líder político britânico de um grande partido britânico, neste caso também chefe do governo, que põe a possibilidade da Grã-Bretanha voltar a pedir a adesão à União Europeia. Ele não diz que é isso que vai acontecer, ele não diz que essa é a opção dele. Tem aqui uma opção mais pragmática, mais cuidadosa, mais prudente, que é dizer que todas as opções estão em cima da mesa nessa reaproximação, por exemplo, voltar ao mercado único, mas também a própria questão da adesão. O que eu acho que podemos concluir daqui é que o Reino Unido não vai voltar a aderir à União Europeia. Essa questão está longe de se poder dar como certa. Desde logo, não há nenhum processo que tenha sido reiniciado. A acontecer, seriam provavelmente negociações também complexas, porque os europeus também querem ter garantias que desta vez é mesmo a sério e não vão aceitar o tipo de opt-outs, de áreas em que a Grã-Bretanha não estava da mesma forma, embora provavelmente, por exemplo, a questão do euro seja algo que poderia ser aceitável, porque há outros países importantes que não fazem parte do euro e que fazem parte da União Europeia. Mas em todo o caso, acho que é significativo. E significativo de quê? É significativo que economicamente essa aposta foi um enorme erro e um erro extremamente custoso. Há números muito impressionantes de perdas à volta de 6% do PIB, 15 mil empresas britânicas que deixaram de exportar para a Europa, porque é simplesmente demasiado complicado, demasiado caro. E realmente as sondagens refletem esse crescente consenso, ou seja, na média das sondagens, há sondagens com números ainda superiores, mas na média das sondagens, 61% dos britânicos querem voltar a aderir à União Europeia e à volta de 39% preferem ficar como estão. No fundo, as sondagens encorajam esta posição, esta iniciativa. E isto também reflete um último dado, que é que a Grã-Bretanha saiu na pior altura possível. Ou seja, a aposta da Grã-Bretanha saindo da União Europeia era muito apostar em novos acordos de comércio livre, mais e mais comércio livre com mais e mais países, sem ter de ajustar posições com os outros 27. Fazendo isso sozinho, seria mais fácil. O problema é que a tendência global é exatamente a oposta e os acordos que a Grã-Bretanha tem assinado não lhe têm sido mais favoráveis, porque obviamente perde peso relativo. Uma coisa é a Índia estar a negociar com a União Europeia, outra coisa é a Índia estar a negociar apenas com a Grã-Bretanha. Mesmo quando consegue acordos, eles não são assim tão vantajosos. E por outro lado, em muitos casos não consegue esses acordos e sobretudo não consegue com os Estados Unidos. Apesar de tudo, fez um acordo, mas realmente o problema ainda maior é que a aposta também era no sentido de uma reaproximação, uma aproximação ainda maior com o grande aliado histórico que eram os Estados Unidos. Ora, o problema é que os Estados Unidos, coincidentemente, e até em parte pelas mesmas razões, o mesmo tipo de dinâmicas políticas populistas, nacionalistas, vai eleger Donald Trump. E com Donald Trump, o que temos é um desinvestimento das alianças em geral e um desinvestimento de tudo o que é comércio livre, acordos comerciais, abertura do mercado americano ao exterior. Tudo isso tornou a vida da Grã-Bretanha fora da União Europeia ainda muito mais difícil do que já seria provavelmente o caso.

Veremos como se vai desenvolver este dossiê nos próximos tempos e como é que se vai manter esta popularidade de Andy Burnham. Para já, Bruno, e aqui a quatro minutos para fecharmos esta nossa primeira parte, vamos falar também da cimeira em Washington entre Xi Jinping e Donald Trump. O ministro da Defesa de Taiwan apressou-se a sublinhar que a posição de princípio dos Estados Unidos sobre a ilha não mudou, apesar de um pacote de armamento norte-americano de 14 mil milhões de dólares continuar congelado. Pergunto se manter este pacote de armamento congelado é uma moeda de troca de Donald Trump para negociar com Xi Jinping e também há que destacar esta pressão militar quase diária do regime chinês em redor de Taiwan.

Sim, eu percebo a posição de Taiwan de vir tentar apresentar a melhor versão possível daquilo que aconteceu. Já falámos aqui um pouco da cimeira entre Xi e Donald Trump. Possivelmente haverá mais duas ainda durante este ano, ou seja, muita parra, pouca uva, muita pompa, pouca substância, mas ainda assim o efeito é perigoso em alguns aspetos que nos podem parecer marginais. Mas a verdade é que Taiwan é muito importante. Pode não nos interessar muito, pode parecer muito distante, mas é o sítio onde uma escalada para um choque direto entre as duas grandes potências globais é mais provável, não pode ser afastado. E isso pode acontecer em parte também porque a China pode entender que os Estados Unidos estão a desinvestir da defesa de Taiwan e eventualmente pode errar nesse cálculo. É verdade que a China tem muito mais a perder num ataque a Taiwan do que a Rússia, por exemplo, tinha com a Crimeia, ou seja, a China está muito investida numa economia global minimamente funcional e isso realmente ficaria em risco com esta invasão, a começar por coisas como, por exemplo, a produção dos microchips mais avançados, que são cruciais para toda esta questão da inteligência artificial, que estão muito concentrados em Taiwan. Mas realmente o impacto seria tremendo, faria parecer o conflito com a Rússia uma coisa menor e teria um impacto brutal na economia global, inclusive com muitas implicações para a Europa, que teria opções muito difíceis a tomar, por exemplo, mostrar solidariedade com uma democracia invadida em Taiwan, mas arriscar uma relação económica com a China que se tem tornado absolutamente indispensável para o funcionamento da economia europeia e da economia global em geral. Na maior parte dos setores industriais, a dependência da China anda entre os 30 e os 60 ou 70%. Em questões como as matérias-primas críticas, as terras raras, em muitos casos chega aos 100%. Já houve uma mudança, que é efetivamente Donald Trump é o primeiro presidente americano que publicamente diz que vender mais ou menos armas para Taiwan não é feita em função de evitar uma escalada, uma crise perigosa com a China, não é feita em função de garantir os meios de defesa de Taiwan, que é algo com que os Estados Unidos se comprometeram por um tratado, quando parte deste pacote, na altura em que há o reconhecimento da República Popular da China, portanto da rival histórica de Taiwan, mas é uma função dos acordos, dos negócios, das relações entre a China e os Estados Unidos e portanto determinada essencialmente pelos interesses norte-americanos, inclusive com esta questão que o próprio Donald Trump terá aparentemente oferecido armas americanas também para vender à República Popular da China. Obviamente, terá sido um improviso do presidente. Ninguém teve a oportunidade de lhe explicar, porque ele não terá perguntado a ninguém se seria boa ideia, se, por exemplo, colocava o risco dos chineses copiarem esses sistemas de armamento. Mas em todo o caso, realmente já houve aqui uma mudança e isso é também um aviso para os aliados europeus, para todos os aliados dos Estados Unidos, que é realmente os Estados Unidos com Donald Trump são muito pouco de fiar. E portanto, por exemplo, em toda a discussão que estamos a ter na Europa sobre comprar ou não comprar armamento americano, por exemplo, em Portugal, comprar ou não comprar a F-35, o avião norte-americano, que é provavelmente o melhor, mas será que essa é a melhor hipótese? Sendo o melhor avião, será a melhor hipótese se não sabemos se no futuro, havendo um conflito, os Estados Unidos estarão ou não dispostos realmente a entregar o avião como prometido, a garantir a sua manutenção, ou se será melhor fazer algum tipo de acordo com uma outra potência que pode ser ameaçadora para Portugal ou para os europeus, mas pode ser interessante para os Estados Unidos.

Muito bem, Bruno Cardoso Reis, ficamos por aqui nesta nossa primeira parte. Voltamos já a seguir, logo depois das notícias, com o Brasil, que é o país em destaque esta semana e que vai a votos já este domingo. Estamos de regresso para a segunda parte dos Cinco Continentes. Eu sou o João Costa e Silva, está comigo, como é habitual, o historiador Bruno Cardoso Reis. Começamos esta segunda parte, Bruno, pelo país em destaque, o Brasil, mais uma vez aqui em destaque no nosso programa. Vai a votos este domingo, dia 4 de outubro, numas eleições presidenciais marcadas por uma forte polarização interna e por um olhar muito atento dos Estados Unidos e da comunidade internacional. Sei que queres trazer aqui alguns dados e algumas datas a destacar a propósito destas eleições brasileiras, não é assim?

Sim, exatamente. Obviamente, são eleições que nós acompanhamos com interesse em Portugal Até porque há uma grande comunidade brasileira em Portugal, será talvez a segunda a seguir aos Estados Unidos. Na verdade, uma das curiosidades destas eleições é que estamos a falar mais ou menos de 160 milhões de eleitores, é uma escala um pouco diferente da de Portugal. O Brasil é a quarta maior democracia do mundo, a seguir à Índia, aos Estados Unidos e à Indonésia. Obviamente, isto significa que o Brasil tem um impacto global, já vamos também recordar aqui alguns números, mas é curioso sublinhar este aspecto que é os brasileiros no exterior também podem votar. E o maior círculo eleitoral, em termos de eleitores recenseados fora do Brasil, é precisamente em Lisboa, tem quase 80 mil votantes. Portanto, o que eu queria aqui recordar em termos de dados, datas e algumas referências. Por um lado, esta questão em termos de peso geopolítico do Brasil, estamos a falar de mais de 200 milhões de habitantes, 212 provavelmente, é metade, aliás, basicamente em todos os indicadores cruciais, o Brasil é à volta de metade da América do Sul. O país seguinte em termos de população, já falamos aqui disso algumas vezes, é a Colômbia que tem 53 milhões de habitantes. Estamos aqui a ver realmente o peso enorme do Brasil. Em termos de território, é a mesma coisa, estamos a falar de oito milhões e meio de quilômetros quadrados, é quase metade, 47% mais ou menos da área total da América do Sul. Em termos de economia, a mesma coisa, é mais ou menos metade da economia regional da América do Sul. Em termos de investimento em defesa, a mesma coisa, o Brasil sozinho gasta em defesa mais ou menos o mesmo que todos os outros países vizinhos somados. Depois, em termos de datas. Bem, obviamente, não há eleições presidenciais no Brasil até 1889. O Brasil torna-se independente como uma monarquia, com a mesma dinastia que em Portugal, a dinastia de Bragança. Com o golpe militar de 1889, que afasta o imperador Dom Pedro II, de fato passamos a ter uma república, inicialmente uma república muito oligárquica até 1930. Depois temos um período de mais ou menos 15 anos do chamado Varguismo, em que a figura central é Estílio Vargas, que inclusive em 1937 vai dar um autogolpe e assumidamente passar a ter um regime autoritário de poder pessoal, que vai, aliás, copiar o nome também do nosso regime autoritário. Temos um Estado Novo no Brasil também, de 1937 a 1945. Depois, no Brasil, ao contrário de em Portugal, há realmente um pronunciamento militar bem-sucedido para a democratização e temos uma nova república mais pluralista, mais democrática, mais participada, mas bastante conflituosa, com muitas tendências também populistas, muito instável entre 1945 e 1964. E depois temos, obviamente, de 64 até basicamente 1988, o período da ditadura militar. Só desde 1989 realmente é que temos nove eleições diretas para presidente, que são claramente livres, justas, internacionalmente reconhecidas. O total histórico, já agora, para quem tiver curiosidade, são 31 eleições para presidente e tivemos 39 presidentes em funções no Brasil desde 1889, mas de fato oito também desde 1988. Sendo que, obviamente, nas últimas décadas, uma figura absolutamente dominante na política presidencial brasileira tem sido Luiz Inácio Lula da Silva, que é eleito pela primeira vez em 2002, mas que já tinha sido candidato derrotado em todas as eleições anteriores e que obviamente volta a ser candidato depois em 2022, com sucesso contra o presidente Jair Bolsonaro. No fundo, o que temos aqui também é um dado importante que é o Brasil é um sistema presidencial, para quem está mais distraído, ou seja, o presidente no Brasil é também o chefe do governo. É verdade que muitas vezes é complicado formar governo, é o chamado presidencialismo de coalizão, ou seja, é preciso procurar uma ampla coligação, porque nenhum partido domina o Congresso, o Parlamento brasileiro tem 20 partidos. O PP, aliás, é o segundo partido, o PT é o partido do Lula da Silva, mas sobretudo no campo externo, como também no campo da defesa, obviamente, o presidente tem aqui uma palavra decisiva e às vezes não tem assim tanto interesse pela dimensão externa, mas no caso do Lula é assim, obviamente, tem aqui um protagonismo, um peso muito grande que obviamente não tem no caso de Portugal.

E Bruno, nós temos eleições este domingo. Falamos muito aqui no "Cinco Continentes" também desta dinâmica entre Lula da Silva e o filho de Jair Bolsonaro, que é candidato nestas eleições, e sobre a possibilidade ou não de uma segunda volta. Na tua opinião, isto vai acontecer e que alinhamentos geopolíticos estão em jogo também no futuro do Brasil, porque são dois candidatos com visões muito opostas?

Sim. Bem, se as sondagens forem fiáveis, e obviamente temos sempre de recordar que sondagens não são votações e têm margens de erro por alguma razão, e realmente os candidatos estão relativamente próximos e estão muitas vezes dentro da margem de erro, mas se as sondagens forem de fiar, o dado aqui muito importante é que Flávio Bolsonaro tem estado a subir, ainda assim é possível que perca para Lula na primeira volta, mas não há sondagens que deem indicação de que seja possível a vitória de nenhum deles, porque são os candidatos que de longe lideram as intenções de voto, nenhum deles na primeira volta. Portanto, a expectativa é que haja realmente uma segunda volta E, portanto, teremos de esperar para ver o resultado. Eu diria que realmente as coisas estão muito complicadas para Lula. O governo não é particularmente popular. Temos uma tendência geral na América Latina, de que temos falado aqui na América do Sul, para uma viragem à direita, muito à conta das questões da segurança, do crime organizado. E, portanto, mesmo um candidato que a maior parte dos analistas consideram que não é particularmente eficaz ou carismático, como é Flávio Bolsonaro, mas que tem uma boa máquina partidária, muito profissional na gestão da campanha, realmente tem conseguido recuperar ao longo destes meses, desde o verão, aproximar-se, muitas vezes empatar ou até já ultrapassar ligeiramente Lula nas intenções de voto para a segunda volta. E realmente os números eleitorais das sondagens também permitem perceber que isso seria lógico, uma vez que há mais candidatos com mais votos à direita do que à esquerda e, portanto, a partir desses votos, provavelmente seriam mais facilmente transferíveis para Flávio Bolsonaro do que para Lula. Em termos de implicações para a política externa, ela não tem sido uma grande questão na campanha, isso também não é propriamente de estranhar, é por regra assim, as campanhas fazem-se mais na dimensão interna. Apesar de que o Lula tem puxado um pouco por essa questão, sublinhando muito esta questão da pressão norte-americana, da tentativa do Donald Trump e dos seus aliados apoiarem Flávio Bolsonaro, usar isso no fundo para jogar uma cartada nacionalista. Também, o que é pouco típico de um candidato da esquerda brasileira, da esquerda em geral, tem destacado muito que irá dar prioridade ao investimento em defesa, também para reforçar a capacidade de dissuadir eventuais ambições intervencionistas. Enfim, eu recordo que houve, obviamente, uma intervenção militar dos Estados Unidos logo ali a norte, no país vizinho do Brasil, na Venezuela, contra Nicolás Maduro. Mas é interessante que apesar das diferenças entre os candidatos, nomeadamente entre Lula e Flávio Bolsonaro, há alguns pontos que são partilhados e que podemos dar como uma continuidade garantida, que é a questão da prioridade ao desenvolvimento e às relações comerciais, diversificar, ampliar relações e parcerias comerciais, procurar novos mercados para exportações e também a aposta no próprio bloco do Mercosul. Por exemplo, Flávio Bolsonaro faz um pouquinho a diferença em relação ao seu pai, embora, ao contrário, por exemplo, Lula diga que vai dar prioridade a aderir à OCDE, que é no fundo um clube econômico, uma espécie do Ocidente global, tradicionalmente mais próximo dos Estados Unidos e também da Europa. Lula continua a insistir muito na questão dos BRICS e do G20, que foram grandes apostas dele, portanto, mais a questão do Sul global, mas acentuando muito também que quer reaproximar-se da própria Europa, mas também da Ásia e do Médio Oriente. Vários candidatos acentuam muito esta questão da importância das relações com a Ásia, mas procurando diversificar em relação à China. O único candidato que me apareceu neste esforço de investigação a dar algum destaque aos países da CPLP, aos países de língua portuguesa, até Portugal, foi o Renan Santos do Partido Missão, portanto, é um destes candidatos da direita, mas que não terá, a partir de hipótese de vencer. Eu diria, algumas mudanças existirão, sobretudo na relação com os Estados Unidos, isso é muito evidente, mas convém não exagerar também o que vai mudar. Trump é um político muito ideológico, mas tem uma dimensão pragmática, Lula a mesma coisa. E portanto, se Lula voltar a ganhar, provavelmente voltará a haver um esforço para reduzir as tensões com os Estados Unidos. E Flávio Bolsonaro também, que é a alternativa aqui evidente e mais provável, diria eu, acho que é bem possível que seja o candidato vencedor numa segunda volta, embora por uma margem curta. Mas Flávio Bolsonaro, certamente, por exemplo, irá aderir àquela Aliança das Américas, portanto, esta aliança numa gestão mais securitária e mais militarizada do crime organizado nas Américas, isso será apresentado como uma grande vitória por Trump, mas, por exemplo, não se pode dar ao luxo de pôr em questão as relações econômicas com a China, que representam à volta de 30% das exportações brasileiras. Isso também não aconteceu, aliás, com Jair Bolsonaro, que tinha prometido acabar com a dependência em relação à China e depois acabou por ser muito mais pragmático, porque isso teria um custo econômico brutal para o Brasil.

Bruno, eu estou aqui a lembrar os resultados de 2022, quando o Lula concorreu contra Jair Bolsonaro, o pai de Flávio Bolsonaro, e a distância é muito curta em termos de porcentagem, 50,90% contra 49,10%. Ou seja, tu antecipas que isso eventualmente possa acontecer numa segunda volta, ou seja, os dois candidatos estão muito equilibrados nesse sentido, não é possível fazer aqui grandes análises daquilo que vai ser a segunda volta.

É exatamente o que as sondagens apontam, ou seja, estão a dar resultados tipo 48, 49, ora para um, ora para outro. E tem sido também, aliás, a tendência na América Latina, na América do Sul. Ainda recentemente no Peru vimos uma eleição, a eleição da nova presidente Keiko Fujimori, que foi decidida por 50 mil votos ou algo assim, portanto, menos de 1% do total. E portanto, sim, o que obviamente também torna difícil fazer previsões muito seguras. Vamos ver também como é que evolui a campanha e se as sondagens nas próximas semanas, havendo uma segunda volta, que realmente eu dou como cenário mais provável, se não há aqui uma descolagem, eventualmente, de um ou de outro. Mas, para já, parece haver uma estabilização dos dados nesse sentido, de ser uma eleição muito renhida na segunda volta.

Muito bem, estaremos cá também para analisar tudo na próxima semana no "Cinco Continentes". Vamos agora até à África e falar aqui do agravamento da guerra civil na Etiópia e o risco regional. O exército reivindica a tomada da cidade de Alamata, na região de Tigray. Mas há mais, Bruno, há acusações diretas do governo da Etiópia ao Egito, ao Sudão e à Eritreia. Estamos perante um risco iminente de regionalização deste conflito e que impacto é que isto também pode ter na segurança do Mar Vermelho, que é outro ponto importante também.

Sim, que já está muito ameaçado. Basta recordar a questão da guerra civil no Sudão, que é um país ribeirinho do Mar Vermelho, a questão da pirataria na Somália que ora se vai atenuando, ora se vai reforçando, agora está outra vez em crescente, que está toda gente muito ocupada com o conflito no Iémen, com a questão dos houthis, que também estão, esses sim, muito diretamente a ameaçar a navegação no Estreito de Aden. Tudo isto para dizer que toda esta região ribeirinha do Mar Vermelho está realmente em ebulição. Tivemos dados também, por exemplo, em relação à guerra civil no Sudão, que se está a agravar, de que têm aumentado as vagas de refugiados. A ONU veio falar em 400 por dia a entrarem, por exemplo, no Chade. E aqui o grande dado, já tínhamos falado deste conflito, é realmente uma coligação mais ampla, não apenas do Tigré, mas também da zona de Amara e outras províncias, outros grupos étnicos importantes, basicamente do norte da Etiópia, da zona a norte da capital e que faz fronteira com a Eritreia, e não é por acaso que a Eritreia aparece aqui referida. Mas o que é também interessante é a parte da Eritreia aparece o Sudão e o Egito. E aí a explicação para essa suspeita etíope, que provavelmente terá alguma razão de ser, teremos de ver se confirma, mas é que em relação à Eritreia, o conflito é, por um lado, um difere territorial de fronteiras, que teve a ver com a divisão dos dois países. A Eritreia só se tornou independente da Etiópia em 1993, e depois houve uma guerra de fronteiras a seguir a isso. Mas entretanto, há um dado novo que é a questão da ambição declarada do atual primeiro-ministro, do homem forte da Etiópia, Abi Ahmed, de voltar a ter um acesso ao mar. Ora, um alvo evidente dessa ambição seria precisamente a Eritreia, que os ouvintes olhando para o mapa perceberão, é basicamente a costa do Mar Vermelho imediatamente a norte da Etiópia, a par do Djibouti. As tensões com o Egito e com o Sudão têm muito a ver com a grande Barragem do Renascimento Etíope e com a questão das famosas Fontes do Nilo, que se passou séculos a tentar descobrir e que estão realmente, basicamente na Etiópia, e portanto, com a questão da garantia do fluxo d'água para o Sudão e para o Egito. Ora, obviamente, o Nilo é absolutamente vital para a sobrevivência, para a viabilidade ambiental, agrícola, econômica quer para o Sudão, quer para o Egito, e portanto, tem havido muitos episódios realmente de ameaças, troca de ameaças entre um lado e o outro e há aqui esta suspeita do lado etíope. O problema realmente é que só em si mesma a suspeita já aponta neste sentido o risco de uma regionalização do conflito e portanto, no fundo, termos aqui uma série de conflitos armados que cada vez mais estão interligados, se influenciam negativamente, mutuamente e portanto, basicamente um cenário de desestabilização muito grave desta região, depois com implicações, como referias, para a segurança marítima no Mar Vermelho. Isso aí terá implicações não apenas regionais, mas também globais.

Bruno, vamos deixar ainda dois temas para uma versão mais alargada em podcast. Vamos falar da primeira mulher a ser nomeada primeira-ministra em Marrocos e também da inteligência artificial e da sua regulação nos Estados Unidos. Para já, e para quem nos ouve em FM, vamos à tua recomendação. O que é que tens para sugerir esta semana?

A recomendação tem tudo a ver com esta questão das eleições no Brasil e com um dos candidatos com hipótese de vencer ou eventualmente de perder, mas que independentemente de perder ou ganhar, realmente já tem tido um impacto enorme na história política brasileira das últimas décadas, basicamente desde os anos 70, como primeiro um grande líder sindical do setor metalúrgico, depois o criador do primeiro grande partido operário brasileiro, mas que alia uma dimensão ideológica, mas também muito pragmática, o Partido dos Trabalhadores, portanto Lula da Silva, obviamente. Saiu agora, obviamente não por acaso, um segundo volume da grande biografia de Lula da Silva pelo Fernando Moraes, que é um grande jornalista brasileiro, publicado pela Companhia das Letras. No fundo é recomendar, evidentemente comecem pelo primeiro volume, quem ainda não começou, mas agora já têm dois volumes e já vai até às disputas com o Fernando Henrique Cardoso. Acho que realmente, para quem se interessa por história política brasileira, é uma leitura que vale muito a pena para aprofundar o nosso conhecimento, não apenas sobre o Lula, mas sobre toda a história do Brasil nestas décadas.

Muito bem, uma sugestão bem apropriada para este fim de semana. Bruno, nós vamos continuar em podcast numa versão mais alargada, mas despedimo-nos assim dos nossos ouvintes que estão neste momento a ouvir em FM. Continuamos com o "Cinco Continentes", agora numa versão mais alargada em podcast, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, temos ainda aqui dois temas. Começamos por Marrocos. Fatima El Mansouri tornou-se na primeira mulher a ser nomeada primeira-ministra de Marrocos, na sequência da vitória eleitoral do seu partido nas eleições legislativas. Pergunto qual é o alcance histórico e também simbólico desta nomeação no mundo árabe e islâmico e se esta escolha do Palácio Real reflete aqui também uma estratégia quase de modernização social e diplomática de Marrocos, para quem sabe, até reforçar os laços com a Europa e com o Ocidente, se isso pode ser realmente um objetivo.

Eu acho que é importante acompanharmos o que se passa em Marrocos, tal como é importante acompanharmos o que se passa em Espanha, e acompanhamos bastante menos, mas realmente é o nosso vizinho mais próximo a sul. A estabilidade política e a prosperidade económica de Marrocos são cruciais para criarem uma barreira em relação a duas regiões tendencialmente muito destabilizadas, a zona do Sahel mais a sul, e depois também a zona da África do Norte, incluindo países como por exemplo a Líbia, mais para Oriente. Portanto, acho que é interessante realmente essa aposta, é a primeira vez. Acho que é uma tentativa de passar alguma ideia de renovação, de modernidade. Falava-se, aliás, como um candidato possível, parte da liderança coletiva do mesmo partido que venceu as eleições, deste PAM, deste partido centrista e relativamente próximo do rei, que ganhou as eleições. Falava-se também do presidente da Federação de Futebol de Marrocos, uma figura bastante popular, mas provavelmente ele não terá sido discutido porque a prioridade é também ajudar a organizar as coisas do mundial de 2030, que será organizado também com Portugal e com Espanha. É alguém com experiência política, nomeadamente atualmente é presidente da Câmara de Marraquexe, que é uma das capitais históricas de Marrocos, embora hoje a capital política seja realmente Rabat, mas é uma das grandes cidades marroquinas. É alguém que é claramente próxima do rei, aliás, a própria forma como agradeceu a nomeação mostra isso. Eu acho que em si mesmo não é insignificante, basta dizer que é o segundo país árabe a ter uma primeira-ministra mulher. A Tunísia já tem desde 2023, mas é realmente algo excecional, pelo menos muito raro no mundo árabe. É claramente um sinal desta questão de que Marrocos é diferente, é algo que Marrocos procura sublinhar muito, que não é apenas um país islâmico ou árabe, é também um país atlântico, é um país mediterrânico e um país que aposta, de facto, em boas relações com a Europa, que é um parceiro económico muito importante, com os Estados Unidos, até com Israel, através dos Acordos de Abraão. Agora, a minha dúvida é se isto será suficiente, se será modernização suficiente para contentar realmente uma juventude muito insatisfeita. Recordo que no ano passado houve uma revolta, parte daquela vaga da chamada geração Z. É verdade que foi uma revolta um pouco mais moderada do que noutros sítios e onde a maior parte dos manifestantes nunca puseram em questão o papel do rei, mas realmente temos este dado fundamental que é: ou ela consegue dar uma resposta à grande questão do desemprego juvenil, que anda perto dos 40%, ou então eu temo que depois eventualmente algum período de graça para ver por onde é que as coisas estão a evoluir, que voltemos a ter tensões, problemas, manifestações, sobretudo destes setores mais jovens muito insatisfeitos em Marrocos.

Bruno, vamos ainda falar sobre inteligência artificial, uma pequena paragem nos Estados Unidos. A Casa Branca anunciou a formalização de um compromisso voluntário, e esta palavra é muito importante, assinado pelas principais empresas tecnológicas do país para estabelecer salvaguardas e padrões éticos na inteligência artificial, em contraste com a via regulatória rígida adotada pela União Europeia, o AI Act. Esta aposta dos Estados Unidos em compromissos voluntários parece-te suficiente para garantir algum progresso e segurança, que é aquilo que se quer neste momento?

Não me parece que seja suficiente, acho que é uma grande imprudência, mas acho que é significativo. E acho que realmente uma das grandes questões da política, da economia, da segurança, da defesa global nos próximos anos é a grande questão, provavelmente em todos esses aspectos, porque a inteligência artificial tem um enorme potencial positivo e negativo em todas estas dimensões. Há evidentemente uma corrida para a inteligência artificial, para liderar a inteligência artificial entre a China e os Estados Unidos. Aí, obviamente, Donald Trump tem toda a razão. Agora, o que é incrível realmente é termos cada vez mais líderes tecnológicos que durante décadas se caracterizaram por um tecnootimismo completamente à prova de tudo, que mesmo esses, que são dos que mais lucram precisamente com este negócio, que sejam eles realmente cada vez mais a pedir que haja contenção, que haja travões, que haja regras, que haja regulação do Estado. E seja o Estado, neste caso o governo norte-americano de Donald Trump, realmente a resistir a isso, em parte parece-me por esta arrogância de Donald Trump, que ele deixou claro com esta ideia que a única coisa que é preciso para regular a inteligência artificial é um presidente superinteligente como ele. Esta ideia de que tudo se resolve mudando o nome das coisas é algo que aliás Donald Trump partilha com a esquerda radical mais politicamente correta, portanto agora passa-se a chamar superinteligência e se é superinteligência e já não inteligência artificial, já quer dizer que é superboa e não haverá problemas. Obviamente isso parece-me que é tudo muito perigoso. Eu temo que vá ser preciso um incidente sério para forçar o governo americano a agir. Em todo caso, acho que é significativo que, apesar de Donald Trump, ainda assim, mesmo isto, esta autorregulamentação, à partida pressupõe-se com mais restrições, já tenha avançado. Aparentemente, mesmo na administração Trump já há quem tenha percebido que isto é realmente perigoso pelos impactos que a inteligência artificial pode ter, e já temos tido vários incidentes que mostram isso, ainda com modelos que estão muito aquém daquilo que nos próximos anos pode ser desenvolvido, mas também a própria opinião pública, as próprias elites políticas, ou seja, percebem que também há aqui um risco político de não fazer nada. Parece-me que isto é uma tentativa de ir dizendo que se está a fazer alguma coisa, claramente é insuficiente, mas acho que pode ser um sinal de que as coisas estão a começar a virar no sentido de reconhecer os perigos da inteligência artificial e não apenas os lucros da inteligência artificial nos Estados Unidos.

Bruno, é assim que fechamos esta edição do "Cinco Continentes". Já sabe, e aqui para os nossos ouvintes, se tiver perguntas, pode enviar para o e-mail ouvinte@observador.pt. Pode deixar também os seus comentários a cada novo episódio no Spotify. E Bruno, temos encontro marcado no próximo sábado. Até lá, um grande abraço. Boa semana.

Boa semana a todos. Obrigado.