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Está na hora da viagem pelos Cinco Continentes na Rádio Observador. É o que fazemos todas as semanas com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis, aqui para uma análise à geopolítica internacional. É uma viagem conduzida pelo jornalista André Maia.

Olá, Bruno, bem-vindo mais uma vez a mais um Cinco Continentes. Vamos viajar e começamos pelo conflito no Médio Oriente, como tem sido habitual. Dia 7 de dezembro fez dois meses desde os ataques do Hamas, desde que começou este sangrento conflito, ou recomeçou este sangrento conflito, como ainda não tínhamos visto até agora. Dois meses depois, Bruno, há motivos para acreditar num cessar-fogo definitivo em breve, até tendo em conta o veto de ontem nos Estados Unidos, não é?

Cumprimentos a todos. Não me parece que possamos estar certos de que haja um cessar-fogo, e muito menos definitivo, em breve. Espero que seja possível ter uma humanitária e eventualmente a libertação de mais reféns, mas inclusive as notícias que aparecem hoje é que um dos reféns, uma fala israelita, terá mesmo sido executado pelo Hamas, entretanto. Também não parece que a questão da evocação do artigo 99 pelo secretário-geral venha alterar muito as coisas, ou seja, Israel deixa claro que considera as Nações Unidas como preconceituosas contra o país, considera o próprio secretário-geral também dessa forma. Eu penso que António Guterres poderia ter feito um esforço para ter mantido alguma relação com Israel que lhe desse uma influência adicional. Não parece que tenha sido o caso, acho lamentável. Aliás, foi uma das razões que os Estados Unidos evocaram isto na véspera do Dia Mundial que recorda o Holocausto e o genocídio. Parece-me incrível e uma mancha nas Nações Unidas, que merecia mais palavras do secretário-geral António Guterres, que as Nações Unidas até o momento não tenham condenado inequivocamente o massacre do 7 de outubro, o maior massacre, o mais violento massacre de judeus desde a Segunda Guerra Mundial. Eu vi imagens desse massacre, uma pequena parte dessas imagens. A Embaixada de Israel convidou uma série de pessoas a assistir a essas imagens que não são exibidas publicamente com a preocupação de preservar a privacidade das vítimas. Mas depois de ter visto essas imagens, fica bastante evidente realmente a ideologia genocidária racista do Hamas, e que realmente é verdade que o Hamas não é só um movimento militar, aliás, um movimento militar muito bem organizado. O que fica também claro nessas imagens é o nível de disciplina militar dos ataques. Portanto, aquilo não é uma campanha em que há crimes de guerra, é uma campanha de crimes de guerra. Tudo é feito de forma deliberada, quando matar, quem matar. Quando vemos homens, mulheres, crianças, bebês e idosos a serem mortos, isso é feito de forma bastante deliberada e até com a preocupação de poupar munições. Vemos pessoas a serem decapitadas também, portanto, posso garantir que isso também aconteceu efetivamente. O que fica aí bastante evidente é que o Hamas é um movimento militar terrorista bastante disciplinado, bastante eficaz. Também é evidentemente um movimento político. Agora, infelizmente, é um movimento político com uma ideologia que torna impossível qualquer tipo de diálogo, negociação ou paz, que vá para além dessas negociações pontuais para conseguir a libertação de alguns reféns. E essa é a grande tragédia da população de Gaza. O grande risco também, tendo visto essas imagens, é que Israel fique cego pela violência daquilo que sofreu e que embarque numa campanha mais de vingança do que propriamente tendo em vista um objetivo político no final. Desse ponto de vista, acho que aqui a ação dos Estados Unidos é realmente crucial. Infelizmente, o secretário-geral, com esta votação, acabou por tentar isolar os Estados Unidos e aumentar a pressão sobre os Estados Unidos. Os Estados Unidos insistiram que não podiam votar a favor de uma resolução que privava Israel do direito de se defender na prática e também que mais uma vez não fazia qualquer referência aos ataques do 7 de outubro. Mas a verdade é que os Estados Unidos ficaram praticamente isolados no Conselho de Segurança, só os Estados Unidos se abstiveram. Isso, do meu ponto de vista, vai realmente aumentar a pressão dos Estados Unidos para que Israel seja muito mais cuidadoso no uso da força em Gaza com o impacto possível. Acho que se alguém tem impacto são os Estados Unidos, mas acho que isso é o máximo que se pode esperar neste momento, é que os Estados Unidos pressionem Israel para de facto serem muito mais disciplinados no uso da força sem falarmos necessariamente de crimes de guerra, e alguns provavelmente terão sido cometidos, mas podemos criticar o excesso de força por Israel. Podemos dizer que Israel provavelmente corre o risco de ter uma vitória militar à custa depois de uma derrota política, até em termos da sua imagem. E são coisas que os Estados Unidos podem dizer com alguma eficácia, agora não com resultados garantidos. E em termos realmente da questão de um cessar-fogo mais durável, ou seja, de uma paz mais durável, isso parece-me infelizmente que não pode ser visto como garantido, embora eu queira acreditar que esta fase mais intensa dos combates provavelmente esteja a passar ou que há claramente pelo menos uma forte pressão internacional para que essa intensidade, em termos de uso da força, seja reduzida e seja usada de uma forma muito mais discricionária.

Claro. E Bruno, cruzando aqui o conflito Hamas e Israel com a guerra da Rússia na Ucrânia, fica uma pergunta: o que é que foi Vladimir Putin fazer ao Golfo Pérsico? Isto porque se reuniu com o príncipe saudita, Mohammed bin Salman. A guerra em Gaza foi um dos temas em cima da mesa deste encontro. De que forma é que Putin aparece aqui nesta equação

E não só isso, também foi ao Dubai e o presidente do Irão foi a Moscovo. Aliás, o que estava inicialmente previsto era o príncipe saudita ir realmente a Moscovo e Putin insistiu que ele deveria ir no futuro. Isto também nos diz alguma coisa de uma certa assimetria de relações. O Irão está muito mais dependente da Rússia do que do próprio mentor Arábia Saudita ou os Emirados, para quem, sobretudo, isto é um sinal da autonomia estratégica e diplomática. Já não estamos numa época em que a Arábia Saudita estava essencialmente dependente dos Estados Unidos para garantir a sua segurança, que foi aquilo que aconteceu durante muitas décadas a partir da Segunda Guerra Mundial, da famosa cimeira entre o presidente Roosevelt e o rei fundador da Arábia Saudita, Ibn Saud. Durante todo esse período e durante todo o período da Guerra Fria, aliás, a Arábia Saudita não tinha sequer relações diplomáticas com a antecessora da Rússia comunista, a União Soviética. Essas relações só são restabelecidas em 1992. Mas realmente, neste contexto atual de uma espécie de uma Segunda Guerra Fria, tem realmente havido um esforço de algumas potências regionais para aumentar a sua autonomia face à potência tradicionalmente dominante, os Estados Unidos. E neste contexto também temos que ter em conta a questão de estarmos a falar, mesmo em relação à Rússia, cada vez mais de um petroestado, um Estado que está muito dependente das exportações de combustíveis fósseis. E isso levou, desde 2016, a uma aproximação importante no contexto da chamada OPEP+, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, em que a Arábia Saudita tem um papel liderante desde os anos 60. Mas desde 2016 foram adicionados uma série de outros países, também tendo em conta as alterações na própria produção e venda de petróleo, com novos países produtores importantes. E portanto, a Rússia desempenha aí um papel muito importante e há cada vez mais uma convergência entre esses petrostados, incluindo a Arábia Saudita e a Rússia. Em relação ao Irão, evidentemente, a aproximação, a convergência é maior, inclusive fala-se numa espécie de acordo de livre comércio, portanto, seria uma espécie de zona de comércio livre dos Estados párias ou dos Estados altamente sancionados pelo Ocidente.

Bruno, só temos cinco minutinhos, vamos ter de acelerar aqui nos cinco continentes na nossa viagem. Vamos à guerra na Ucrânia. Os ucranianos tiveram duas derrotas fora do campo de batalha esta semana. Primeiro, tivemos o Senado norte-americano a chumbar um apoio suplementar de apoio à Ucrânia de 97 mil milhões de euros e depois tivemos o partido de Viktor Orbán a exigir no Parlamento húngaro para que o primeiro-ministro use o poder de veto para não admitir novos apoios à Ucrânia na cimeira do Conselho Europeu da próxima semana. Não começam a ser aqui também demasiados contratempos para a Ucrânia a nível de apoios nos últimos tempos?

Sim, eu tenho de sublinhar que é realmente um momento difícil para a Ucrânia. Desde logo, a opinião pública mundial está muito desviada, tem a sua atenção muito focada no conflito em Gaza, por razões compreensíveis, e isso também se reflete aqui no próprio programa. Os Estados Unidos, sobretudo, que são um aliado absolutamente indispensável, sobretudo do ponto de vista militar, estão muito distraídos com guerras partidárias crescentes em torno das fronteiras da imigração, muito por causa das eleições primárias já em curso para as presidenciais e depois das presidenciais e legislativas em novembro de 2024. Parece-me evidente que Putin será reeleito presidente em março de 2024. Agora já temos a data e o anúncio oficial da recandidatura, a não ser que seja obviamente derrubado. Mas Putin aposta que, ao contrário da Rússia, no Ocidente há realmente eleições. As pessoas cansam-se dos governos, cansam-se de certas políticas, sejam internas, sejam externas, e ele está apostado, diria eu, sobretudo nas eleições americanas. Apesar de tudo, e ao contrário do que eu tenho lido, não parece que a Ucrânia não tenha sabido usar o armamento que lhe foi entregue e seja essa uma razão para estas dificuldades. Elas têm a ver essencialmente com dinâmicas internas nos países ocidentais, eu diria em particular nos Estados Unidos ou em países como Hungria, onde Orbán utiliza esta questão também para promover o voto, o apoio nacionalista. Eu diria também que não parece que esteja em risco aqui um colapso imediato. Falem disso um pouco até para tentar também recuperar terreno e conseguir alguns apoios adicionais. Acho, no entanto, que no curto prazo está em risco a capacidade ofensiva das forças ucranianas. Até por uma questão de prudência, eles não vão estar a empenhar-se em novas ofensivas, vão estar a tentar racionar munições e meios para dar prioridade à defensiva, porque deixaram de ter a certeza de qual é exatamente o volume de apoio que vão receber, quer da Europa, quer dos Estados Unidos.

Bruno, como prometido, esta semana vamos até à Venezuela, isto porque continua a temer-se a possibilidade do país invadir a Guiana para dominar a região do Essequibo. Nicolás Maduro anunciou que 95% dos venezuelanos votaram a favor da anexação, isto no referendo do passado domingo. É um referendo que serviu de pretexto também à emissão de 14 mandados de prisão para opositores do regime. Ora, tudo isto levou o Brasil, através do presidente Lula da Silva, a fazer este apelo que vamos ouvir.

Vamos ver no que vai dar. Eu acho que só tem uma coisa que o mundo não está precisando, só tem uma coisa que a América do Sul não está precisando agora é de confusão. Se tem uma coisa que nós precisamos para crescer e para melhorar a vida do nosso povo é a gente baixar o facho, trabalhar com muita disposição de melhorar a vida do povo e não ficar pensando em briga, não ficar inventando história. Então eu espero que o bom senso prevaleça.

Bruno, aqui o Nicolás Maduro está a tentar matar dois coelhos de uma vez só, ou seja, está a calar a oposição interna e ao mesmo tempo a tentar invadir a Guiana. E pergunto também que impacto é que vai ter este apelo brasileiro feito por Lula da Silva

Não me parece que tenha grande impacto. A Venezuela já estava suspensa do mercado regional do Mercosul, já está num caos econômico. Aliás, tudo isto é muito uma tentativa de distrair dos problemas do regime. Como referes, logo a seguir ao referendo em que ele disse que votaram 10 milhões de pessoas, que houve 96% de apoio à anexação, a oposição vai mostrar vídeos de salas de voto quase vazias e portanto, na sequência disso, ele mandou prender 12 líderes da oposição acusados de traição, tentarem sabotar o referendo. O Lula realmente diz aqui as palavras certas, embora sem nunca criticar explicitamente o agressor potencial, que é a Venezuela. Há muito também esta desconfiança de que a sua simpatia ideológica com o chavismo, alguma simpatia pelo menos, faz com que se duvide que inclusive se o conselho não for seguido, que é um conselho bastante sensato, que isso tenha realmente algum tipo de consequências. O Brasil movimentou aqui algumas tropas, mas fez questão de dizer que isso fazia parte de movimentos mais ou menos de rotina para proteger a fronteira. É verdade que o Maduro também não ameaçou para já com uma invasão, ameaçou apenas com enviar exploração de petróleo para esta zona. O que é mais irônico em tudo isto é realmente um governo que passa o tempo a denunciar o imperialismo com ambições imperialistas e até com base numa história imperialista. Estas reclamações territoriais da Venezuela têm como base, supostamente, uma presença colonial espanhola nesta região, que na verdade praticamente não tem base histórica, não houve uma presença colonial espanhola nesta região de forma continuada desde o início do século XVII. Houve uma presença holandesa e depois britânica, e a Guiana é uma colônia britânica até se tornar independente em 1967. Agora, de facto, não se pode afastar completamente o risco de invasão. O próprio presidente da Guiana claramente leva isso muito a sério. E qual é o principal ponto de contacto? Ele falou com o Brasil, falou também com a França, falou com o Commonwealth, com a CARICOM, com as várias organizações regionais, mas sobretudo falou com os Estados Unidos e inclusive referiu, e aparentemente já está em curso um exercício aéreo do Comando Sul Norte-Americano, com responsabilidade nesta zona, na zona da Guiana. Esse parece ser o fator fundamental para dissuadir eventualmente qualquer intervenção militar da parte da Venezuela, que os Estados Unidos deixaram muito claro que não aceitam que se ponha em causa de qualquer forma a integridade territorial da Guiana. Em termos militares, obviamente, a Guiana não tem qualquer possibilidade de resposta. Estamos a falar de Forças Armadas à volta de 3 mil soldados contra Forças Armadas venezuelanas de mais de 100 mil.

Claro. Bruno, já estamos a queimar o final do nosso tempo, mas aqui o árbitro levantou a placa dá-nos mais um minuto de compensação. Portanto, eu diria para irmos muito rapidamente, mesmo dentro de alguns segundos, até Pequim, onde tivemos a primeira cimeira entre União Europeia e China pós-Covid-19. Pergunto que conclusões é que podemos tirar deste encontro e se podemos finalmente deixar de nos preocupar com a China.

Não, acho que não, muito brevemente. Acho que não houve grandes conclusões e também não nos podemos deixar de preocupar com a China. Acho que corremos o risco de ter uma crise econômica extremamente séria na China. O próprio presidente Xi veio dizer de uma forma pouco vulgar que realmente a situação econômica está complicada e que há aqui uma fase decisiva crítica que é preciso ultrapassar. Acho que isso explica muito também porque a China tem sido muito prudente, por exemplo, no seu apoio à Rússia e tem procurado manter relações econômicas com a Europa e com os Estados Unidos. Essa foi claramente a prioridade do lado chinês. Do lado europeu, a prioridade foi passar a mensagem que é fundamental que esta relação seja muito mais equilibrada. De facto, nas últimas décadas houve um enorme crescimento nesta relação. A Europa e a China são os maiores parceiros comerciais respectivos, mas é uma relação muito assimétrica e da parte da Europa há sobretudo duas preocupações que foram aqui reafirmadas, mais justiça em termos de relações comerciais e econômicas, a ideia de que as empresas europeias são muitas vezes discriminadas na China e também a necessidade de ter em conta dependências perigosas em certos setores críticos e, portanto, não parece que dos dois lados tenha havido grandes mudanças no essencial da sua postura, passando ambos a mensagem de que apesar destas dificuldades, a ideia é estabilizar esta relação e manter esta relação.

Bruno Cardoso Reis, hoje viajámos aqui em Económica, foi um programa um bocadinho mais acelerado, mas para a semana estamos de volta para viajar novamente pelos cinco continentes para analisarmos a geopolítica internacional. Obrigado, Bruno. Até para a semana.

Obrigado