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Bem-vindos ao primeiro de cinco episódios do Cinco Continentes sobre o Irão. Cinco Continentes com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Viva, Bruno.
Olá, João. Obrigado.
Bruno, neste primeiro dos cinco episódios, vais centrar-te nos primórdios da história deste país e de que forma é que essa história moldou o Irão de hoje e a visão que este país tem do mundo. Bruno, é possível recuar até quando para encontrar vestígios do que podemos designar civilização no Irão?
Bem, é realmente uma questão muito interessante. E é importante dizer que a civilização, um elemento fundamental e mais antigo da identidade iraniana atual é a língua persa, que eles chamam Farsi na própria língua persa, e que é uma língua muito importante, uma língua de alta cultura numa zona muito mais vasta do que aquilo que é o Irão atual. E é, aliás, uma língua ainda hoje usada no Afeganistão, no Uzbequistão e não apenas no Irão, mas que, por exemplo, no passado era a língua da elite na Índia, no subcontinente indiano, chamado Império Mongol ou Mogol da Índia, e depois também em muitas zonas do Médio Oriente. A vinda dos persas e dessa língua persa, que é uma língua indo-europeia, da mesma família de línguas que as nossas, por exemplo, que o latim ou as línguas germânicas, ou que as línguas também do subcontinente indiano. A chegada dos persas e das línguas iranianas é um processo que se pensa que terá lugar a partir das estepes da Ásia Central há 6 mil anos, entre 2000 e 1000 anos antes de Cristo. Antes disso, naquilo que é hoje o Irão, já existem vestígios arqueológicos de algumas das civilizações mais antigas. O Irão, obviamente, faz fronteira com o Iraque. O Iraque era a antiga Mesopotâmia e sabemos que esse é um dos grandes focos de desenvolvimento das primeiras cidades, da escrita. Ora, há um Estado que vai ter uma influência muito grande depois. Vai ser absorvido, mas vai influenciar muito os primeiros Estados persas, que nós podemos designar como persas, que é o Elam, com a capital em Susa. Isso fica mesmo numa província do Irão que faz fronteira com o Iraque, na parte mais ocidental do Irão atual. E aí estamos a falar de vestígios com volta de 6 mil anos. Inclusive, é uma cidade que é referida na Bíblia hebraica, onde a rainha Ester teria sido rainha e terá ajudado a salvar os judeus depois da conquista de Jerusalém. Mas temos referências a vestígios arqueológicos na zona do Baluchistão iraniano, que faz fronteira com o Paquistão, quase na outra ponta. Esta civilização chamada Cultura de Jiroft, como eu dizia, nesta província do Baluchistão, na zona mais oriental do Irão atual, já próximo da fronteira com o Paquistão. Mas há especulações de que aí poderíamos ter, por exemplo, zigurates, que são aquelas grandes pirâmides desta cultura da zona mesopotâmica, que deram origem ao mito da Torre Babel, talvez com 7 ou 8 mil anos, ainda muito mais antigos do que os de Ur e de outras zonas sumérias, embora essas datações estejam a ser questionadas não por serem arqueólogos iranianos, mas porque há muitas vezes esta tendência entre os arqueólogos de apontarem para datas mais antigas. Também a ideia de que poderá ter se encontrado aqui um primeiro sistema de escrita cuneiforme, o primeiro sistema de escrita que se conhece. Não teria origem, nesse caso, na zona da Suméria, naquilo que é hoje o sul do Iraque, mas nesta zona. Mas tudo isso é um pouco contestado, porque também tem havido alguns anúncios, mas depois não tem havido publicação de artigos acadêmicos, etc. Há aí algumas dúvidas. Mas o que não há nenhuma dúvida é que o Irão é um dos grandes centros de civilização da antiguidade e o Irão é um daqueles países atuais que, como a Grécia, como a Etiópia, como a China, no fundo, podem reclamar, com alguma credibilidade, uma ligação quase ininterrupta com culturas que já são muito importantes, com civilizações que já são muito importantes e muito avançadas na antiguidade. Isso realmente vai marcar também muito a própria imagem dos iranianos e dos persas até hoje, que se veem como um grande centro de civilização ainda muito antes, por exemplo, da questão do Islão aparecer.
Muito bem. E quando é que nasce, Bruno, o chamado Império Persa? E há um Império Persa ou vários impérios?
Sim, exatamente. Essa também é uma questão pertinente, ou seja, há vários impérios persas.
Ok.
O Império Persa original, se quisermos dizer assim, é criado pelo Ciro Grande, à volta do século VI antes de Cristo, à volta de 550 antes de Cristo, há 2500 anos, mais ou menos, é o chamado Império dos Aquemênidas. E esse império, que se vai estender durante mais ou menos dois séculos, até às conquistas do Alexandre o Grande, até à volta de 330 antes de Cristo. Esse grande Império Persa realmente é o primeiro grande Estado persa, é também o primeiro grande império ou certamente um dos primeiros grandes impérios. É, por exemplo, anterior ao Império Han, na China. Tem realmente uma dimensão que até aí nunca se tinha visto. Nenhum Estado tinha conseguido ser tão grande em população, em dimensão. Também com esta característica, que se torna muito típica dos impérios, que é ser multiétnico. Multiétnico e multireligioso. Estima-se que no seu apogeu, depois com o primo do Ciro Grande, o Dário, que vai restaurar o império depois de uma guerra civil Entre 520 e 480 antes de Cristo, teria mais de 5 milhões de quilômetros quadrados. Ia desde o Egito até o Afeganistão e ao Paquistão, ia desde a Grécia até Omã e teria cerca de 40 milhões de pessoas, o que era talvez, provavelmente, um quarto, um quinto da população mundial. Era realmente uma superpotência da sua época. Esse império depois vai ser conquistado por Alexandre, o Grande, e vai dar origem a uma série de reinos greco-persas, porque o próprio Alexandre Magno também vai apostar nessa cooptação das elites persas, da burocracia persa, etc. Mas depois vamos ter outros impérios etnicamente, linguisticamente ou culturalmente persas. O Império Parto, dos partos, que vai ser um grande rival dos romanos entre mais ou menos o século II antes de Cristo e o século II depois de Cristo, cerca de 400 anos. Depois o Império dos Sassânidas, também mais ou menos a partir do século II depois de Cristo, cerca de 240 depois de Cristo, até às conquistas árabes e à introdução do Islã, por volta de 630, 640 depois de Cristo. E depois temos impérios perso-islâmicos. Mas esses vamos falar mais nos próximos episódios.
Sim.
Nomeadamente os Safávidas no século XVI, com quem, por exemplo, os portugueses vão contactar a partir de Ormuz.
Estamos a falar de um país do Médio Oriente, com uma longa história e uma longa tradição e com um grande passado imperial, Bruno. O século XVIII põe fim aos séculos de predomínio e até de expansão do Império Persa?
Sim, há realmente uma espécie de ponto de viragem. Mas é importante também passar esta ideia, que é: muitos destes impérios realmente eram bastante maiores do que é o Irão atual. Que é um país com cerca de 1 milhão e 600 mil quilômetros, não é propriamente um país pequeno, 90 milhões de habitantes. Mas como eu digo, grande parte do Médio Oriente foi controlado por alguns impérios persas, a começar pelo primeiro. Mas realmente o último grande império persa com alguma expressão e que se expande para além das fronteiras atuais é este dos Safávidas, que vamos falar também mais nos próximos episódios, a partir do século XVI até meados do século XVIII. Por volta de meados do século XVIII, de fato, há uma guerra civil, há a queda dessa dinastia, aparece um Nadir Xá e depois outras dinastias. Mas é, por exemplo, aí que o Afeganistão se torna independente, o fundador daquilo que vem a ser o Estado afegão, uma confederação tribal que vai sobrevivendo, é o Xá Durrani, que era um general deste Nadir Xá, um xá persa. Não é por acaso que a língua culta, a língua da elite afegã, da educação no Afeganistão, ainda hoje é o farsi. Enfim, tem algumas diferenças, é o persa. O persa afegão, se quisermos, tem algumas variantes em relação ao persa que se fala no Irão. E isso também é algo que os iranianos dizem muito atualmente, que faz parte da sua cultura política, que é: "Atenção, nós não somos um país agressivo, ao contrário daquilo que se diz no Ocidente, há muitos séculos que não invadimos ninguém".
Sim.
Um amigo meu, aliás, contava essa história com um diplomata iraniano que lhe estava a dizer isso, e ele disse: "Bem, olha, no caso de Portugal é um bocadinho o contrário, porque Portugal tem a fama de ser um país muito pacífico, mas nós fomos imperialistas expansionistas até o início do século XX. Ainda estávamos a ocupar partes de Angola e Moçambique no início do século XX". Mas realmente é verdade que, no essencial, a partir de meados do século XVIII, os Estados iranianos estão em contração. Por exemplo, no início do século XIX, vão perder bastante território para a Rússia. E isto também quer dizer que, na cultura política iraniana, a mensagem implícita é: por um lado, estamos a ser injustamente acusados de sermos expansionistas, de sermos imperialistas, mas nós somos bastante pacíficos, sendo que a verdade é que já controlamos muitos destes territórios onde agora queremos ter alguma influência. Países como o Líbano, como os países do Golfo Pérsico, que também é um nome disputado. Nós falamos muito do Golfo da América e do Golfo do México, mas nesta zona os árabes chamam de Golfo Arábico. E obviamente os iranianos chamam de Golfo Pérsico. Os árabes não gostam nada que no Ocidente tenha prevalecido este nome de Golfo Pérsico. Também há muito esta ideia de que o nível de ambição do Irão, querendo ser uma potência regional importante no Médio Oriente, não é nada mais do que recuperar o seu lugar devido como grande potência, como uma grande civilização, com um longo passado imperial. Há este lado um pouco contraditório, que é os iranianos, sobretudo o regime atual, gostam muito de falar das suas credenciais anti-imperialistas, mas a verdade é que, em certo sentido, como eu disse, pode-se dizer que o Irão ou a Pérsia inventou os impérios. Até pelo seu lugar muito central em relação a outros grandes centros da Eurásia, à Índia, à China. É o Irão muitas vezes que faz o contato, a chamada Rota da Seda, que faz o contato entre a Índia, a China e depois potências mais ocidentais, Roma ou depois as potências europeias na Idade Média. É realmente um grande centro difusor também de ideias, de palavras que nós utilizamos, por exemplo, paraíso. Paraíso vem de uma palavra persa que quer dizer um jardim rodeado de muros, um jardim interior. Os álamos, por exemplo, que os nossos santos têm, aparecem primeiro representados na arte persa da antiguidade, porque era um símbolo de que essa pessoa tinha o favor divino. Começam a aparecer nos reis ou nos imperadores, se quisermos, nos xás persas. A Pérsia tem esta ideia que é um grande centro de civilização, tem direito a ser um líder regional no Médio Oriente e não percebem como é que um país como os Estados Unidos, que tem 200 anos, por exemplo, podem ter a pretensão de dizer que não devem ter esse papel.
É a história que lhes dá outro respaldo. O Irão hoje, Bruno, é tributário de todas essas experiências e formas de organização do passado?
Não quer dizer que, e isso é importante também tendo em conta o mote do tema destes programas, eu não estou aqui a dizer que a história legitima o presente ou que obriga a uma determinada opção na atualidade.
Mas molda.
Mas é verdade que molda muitas coisas. E nomeadamente quando estamos a falar destas coisas, de cultura estratégica, de cultura política, da visão do mundo, é evidente que isso é muito marcado pela nossa identidade, pela identidade da comunidade política a que nós pertencemos. Não é por acaso que todos os grandes impérios, por exemplo, têm uma certa pretensão a ter uma política externa mais ativa. Até um país como Portugal, que hoje em dia é um país pequeno a nível global, tem uma política externa muito mais ativa e apesar de tudo com alguma influência, do que tem um país como a República Checa ou como outros países da Europa Central que não têm esse passado mais global, vamos dizer assim. Quando alguma coisa se passa em Angola ou na Guiné-Bissau, muitas vezes, de facto, interessa mais a Portugal do que interessaria a outro país. E portanto, é importante perceber que, por exemplo, para os iranianos, isso significa que o que se passa no Afeganistão, o que se passa no Paquistão, o que se passa no Líbano, depois também há as ligações religiosas que vamos falar noutros episódios, mas tudo isso são regiões que os iranianos, os persas, sabem que no passado já fizeram parte de grandes impérios, grandes estados iranianos, que são zonas onde há milhares de anos, não é há centenas ou há dezenas, mas há milhares de anos que muitas vezes o estado persa tem uma grande influência e tem um grande peso.
E que peso tem a história, não é, Bruno? Todos os historiadores sabem isso. Bruno, no próximo "Cinco Continentes Especial", vamos focar-nos na islamização do Império Persa, por que o Irão se tornou xiita e como a religião moldou a política ao ponto de o Irão se designar ainda hoje o país dos aiatolás. Até amanhã, Bruno. Obrigado.
Obrigado.