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"Cinco Continentes" na Rádio Observador. Todas as semanas, ao sábado, analisamos os assuntos que estão a marcar a geopolítica internacional. Eu sou o João Costa e Silva, comigo o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, sê muito bem-vindo. Hoje, ligeiramente mais cedo aqui na rádio. Como é que foi a tua semana?

Tudo bem, tudo a correr bem.

Muito bem.

Estamos a preparar-nos para as festas e a gozar destes fins de semana prolongados, que já não tínhamos há uns tempos.

Estamos quase a entrar em dezembro. Estamos aqui no capítulo final. Nós temos muito para analisar hoje. Vamos começar com a guerra na Ucrânia. Na semana passada falámos em pormenor do plano de paz norte-americano, que continua a ser tema. Hoje centramo-nos no discurso de Putin, um discurso em que percebemos alguns objetivos. Diz que a guerra acaba quando as tropas ucranianas se renderem, a promessa de que não vai invadir a Europa. Mas Bruno, aqui a pergunta que importa fazer é se podemos confiar ou não no presidente russo.

Bem, eu deixo isso ao critério dos ouvintes. No fundo, o que nós sabemos é que este presidente Putin é o mesmo que horas antes da Ucrânia ser invadida, ter esta invasão em grande escala em fevereiro de 2022, dizia que não ia haver invasão nenhuma. Passámos, aliás, alguns meses com os países ocidentais a avisar desse risco e com os propagandistas russos e os líderes russos a garantirem que tudo aquilo não passava de desinformação ocidental. O presidente Putin, quando a invasão se consumou, também fez um discurso a apelar à rendição das tropas ucranianas, que é um tema a que ele regressa agora, e a garantir que não queria anexar nenhum território ucraniano. Também sabemos onde é que essa promessa foi parar. E mais, há aqui outro dado que é relevante, que é a Rússia, tal como aliás a Alemanha nazi, quando por exemplo invadiu a Polónia, alegou que tinha sido atacada pelos polacos. Nós sabemos como os nazis alemães eram muito burocráticos, portanto, temos os documentos que provam que isso foi realmente uma operação de falsa bandeira, false flag. Foram tropas das SS disfarçados de polacos que tentaram dar alguma realidade a essa propaganda nazi, que já na altura não foi levada muito a sério por ninguém. Mas realmente eu recordo que os russos também alegaram que eram os ucranianos que estavam a atacar estes territórios do Donbass, onde vivem separatistas russos, onde desde 2014 havia uma ação militar russa. Tendo em conta que muitos propagandistas russos têm passado também as últimas semanas, meses, a alegar que há um risco de que a Europa se esteja a rearmar para invadir a Rússia, para atacar a Rússia, não sei se não será um sinal ainda mais alarmante do que esta promessa de Putin que não irá invadir. Agora, em todo caso, e como dizias, o discurso não deixa de ser relevante, não porque possa ser levado muito a sério nessas promessas, mas porque realmente é claro a respeito de que avaliação é que Putin faz da situação. Claramente, ele acha que está na mó de cima, acha que tem Trump alinhado com os interesses russos e pode continuar a pressionar por objetivos maximalistas, que são basicamente os mesmos que tinha no início da guerra, e vai ao ponto de dizer que se querem que a guerra acabe, os ucranianos só têm de se render e retirar dos territórios que ele designa numa ironia cruel como ocupados. Aparentemente, a Ucrânia ocupa o seu próprio território internacionalmente reconhecido e aparentemente também é agora a Rússia que determina que território é que pertence a quem, a Rússia é que faz a lei internacional. Mas em todo caso, o que é relevante realmente é isso, é que Putin acha que não tem de fazer qualquer tipo de cedência, pode continuar a conseguir ganhos no terreno, mas sobretudo a apostar nesta ideia de que a Ucrânia vai ser forçada a aceitar estes objetivos russos, nomeadamente pelos Estados Unidos. Acho que também há aqui um objetivo intermédio ou mais imediato, que também fica bastante evidente nas palavras de Putin e de outros responsáveis russos, que é para já criar obstáculos, tornar mais complicada a aprovação desta iniciativa europeia de descongelar os bens russos para os utilizar para ajudar a Ucrânia a rearmar-se, a título de reparação por esta invasão ilegal e como tal declarada quer pelo Tribunal da Haia, quer pela esmagadora maioria dos Estados membros da Assembleia Geral das Nações Unidas. E desse ponto de vista parece estar a resultar, parece estar a ter alguns resultados, nomeadamente pelo papel lamentável da Bélgica, que é menos referido do que o da Hungria, mas eu diria que ainda é mais lamentável, porque pelo menos a Hungria ainda tem alguma afinidade ideológica, alguma simpatia. É um pouco por convicção que ele se quer manter próximo da Rússia, não apenas por interesses económicos, embora também seja muito isso. Mas no caso da Bélgica, é mesmo por a lógica de mercearia. Primeiro passaram imenso tempo agarrados aos diamantes russos, agora é aos bens congelados que estão neste sistema Euroclear, que está baseado em Bruxelas, com bases em disparates como que isso ia ter um efeito muito negativo no investimento externo na Europa, como se houvesse propriamente muitas alternativas ao mercado europeu que não estivessem já preenchidas. Enfim, os investidores gostam de diversificar e sendo assim vão para a China, para os países do Golfo, para os Estados Unidos, mas não há muito mais economias com a dimensão da europeia que possam propriamente substituir essa função.

A posição de Putin e a questão da confiança em termos daquilo que a Europa também pode esperar ou não, porque é sempre muito imprevisível, assim também à semelhança como Donald Trump. Bruno, nós continuamos a falar de Putin, da visita ao Tajiquistão para uma cimeira da Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Eu pergunto o que é isto, será uma espécie de NATO russa? Podemos pôr isso em causa?

Eu acho que é uma boa descrição. Tem obviamente uma história diferente. No fundo, isto começa em 1991 com o fim da União Soviética, em 1992 é criada uma organização de segurança coletiva que supostamente daria continuidade às Forças Armadas Soviéticas e depois em 2002 é que é então transformado nesta Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que basicamente replica exatamente a lógica da NATO, tem até um artigo, por acaso não é o quinto, é o quarto, muito semelhante, uma cláusula de defesa mútua. E portanto, isto só mostra realmente a extrema ironia, a extrema hipocrisia, as constantes contradições da propaganda e desinformação russa. E como é incrível que realmente ainda haja compradores para isso aqui na Europa. Enfim, basicamente percebe-se por questões de simpatia ideológica ou conveniência ideológica do ponto de vista de certos argumentos ou de certas correntes políticas, mas realmente é uma coisa absurda, por exemplo, pôr em questão a legitimidade da NATO ou do seu alargamento, quando a Rússia basicamente tem uma organização exatamente igual. Às vezes também por ignorância há quem diga que isso está em contradição com a Carta das Nações Unidas, porque há um Conselho de Segurança. Bem, é quem não leu a Carta das Nações Unidas, porque a Carta das Nações Unidas expressamente prevê e até encoraja a criação de organizações regionais de segurança. Aliás, o próprio tratado que cria a NATO em 1949 faz referência à Carta de 1945. E realmente o grande problema aqui da Rússia não é, vamos ser claros, a existência da NATO ou o seu alargamento, é o facto desta NATO russa realmente não funcionar, estar longe de ter o sucesso que tem a Aliança Atlântica, e isso é fácil de medir. Em 2002 tinha nove membros, atualmente já só vai em cinco. O último a suspender a sua participação foi a Arménia o ano passado. E portanto, no caso da NATO russa, o que temos não é um alargamento, é uma contração constante do número de Estados-membros, o que reflete este problema crucial realmente do ponto de vista de Moscovo e que é também a sua grande frustração e real queixa com países como a Ucrânia, que é países que fizeram parte do Império Russo ou do Império Soviético, enfim, do império disfarçado da União Soviética, realmente mostram muito pouco interesse em manter-se numa esfera de influência russa. Realmente as esferas de influência existem na política internacional, mas para funcionarem realmente bem, não podem ser confundidas com a imposição pela força das ligações com esse país. Isso é outra coisa, é um império formal ou informal. Portanto, para haver uma esfera de influência, é preciso que esse país tenha capacidade de atração, tenha coisas interessantes a oferecer aos países vizinhos ou aos países que no fundo querem ter uma relação de maior proximidade, uma aliança mais próxima, aceitar até certo ponto um certo papel de liderança desse país. E realmente é isso que a Rússia não consegue fazer. Aliás, em contraste com a China, que essa sim, no fundo lidera na prática a Organização de Cooperação de Xangai, da qual a Rússia também faz parte, assim como estes estados da Ásia Central, que é o que ainda resta desta Organização do Tratado de Segurança Coletiva. Essa sim tem-se continuado a expandir, o que também aliás cria outras ironias em todo este argumento sobre os grandes problemas e as grandes ameaças da expansão da NATO, é que há uma organização de segurança, esta Organização de Cooperação de Xangai, que se continua também a expandir, começou com a China, a Rússia e os países da Ásia Central, agora já inclui países como a Índia, como o Paquistão, como o Irão, e o último a aderir foi a Bielorrússia, que fica aqui exatamente na fronteira da NATO, na fronteira nomeadamente da Polónia. E portanto, eu pergunto se as pessoas que estão preocupadas com os problemas criados pela expansão da NATO, aqueles que acham que de alguma forma se justifica a invasão russa da Ucrânia, porque supostamente a Ucrânia poderia vir a fazer parte da NATO, se também acham que os países da NATO podem invadir a Bielorrússia porque ela agora faz parte de uma organização de segurança rival. Mas portanto, tudo isto ilustra bem várias contradições na forma como são debatidas estas questões das alianças no contexto euro-asiático.

E Bruno, nós na semana passada deixámos as grandes análises, dissemos assim para esta semana. Estamos a falar da COP30, do G20 e também da Cimeira União Europeia-União Africana. Gostava de perceber contigo que balanço final é que fazes destes grandes encontros multilaterais.

Bem, eu diria que a montanha pariu um bocadinho um rato, diria que pouco se avançou em termos muito substantivos, apesar de declarações grandiloquentes de compromisso com o multilateralismo, ou seja, com este formato, no fundo haver grandes reuniões com muitos países, no caso da COP30, basicamente quase todos os países, quase todos os Estados-membros das Nações Unidas, no caso do G20, como o nome indica, as 20 maiores economias, portanto, são países que no conjunto o G20 representa volta de 75% do comércio global, volta de 65% do PIB global. E depois também esta cimeira União Europeia-União Africana, portanto, os 55 Estados da União Africana, todos os Estados da África, inclusive do Norte de África, e depois os 27 da União Europeia. Portanto, no fundo, há aqui um esforço para dizer que apesar de Donald Trump, apesar de uma crescente tendência pró-unilateralismo para as grandes potências voltarem a fazer o que querem, enfim, o caso da Rússia é bastante evidente, veja-se a Ucrânia, mas também cada vez mais os Estados Unidos e também mesmo a China. Mas portanto, é esta ideia de que essas mesmas potências, apesar de tudo, porque no G20 E no COP30 estavam também a Índia e a Rússia, só os Estados Unidos é que não se fez representar. No fundo, continua a haver um compromisso com este tipo de diplomacia mais inclusiva, se quisermos, mais institucional. Mas a verdade é que, por um lado, sem os Estados Unidos é muito difícil avançar com agendas muito ambiciosas. Isso ficou bastante evidente no COP30 e no G20. No COP30 conseguiu-se uns compromissos no sentido de haver mais financiamento, triplicar a partida o financiamento pra transição energética, mas sem ser muito claro como é que isso se vai implementar. O Brasil criou este fundo também para subsidiar a manutenção das florestas tropicais, desde logo a Amazônia. O objetivo era 10 mil milhões, conseguiu 6 mil, portanto menos mal, mas ainda assim não se pode dizer que seja um sucesso estrondoso. E não houve qualquer compromisso, isso foi ativamente bloqueado pelos petrostados, mas também por estados como a Índia e com os Estados Unidos também a fazerem pressão nesse sentido nos bastidores, não houve qualquer compromisso quanto ao fim do uso dos hidrocarbonetos, dos combustíveis fósseis. Desse ponto de vista, pode-se dizer que o COP30 ficou bastante aquém do que eram as expectativas mais ambiciosas, embora já fosse bastante claro que provavelmente elas não se iam concretizar.

Era previsível, não era, Bruno?

Exatamente. Não apenas pela ausência dos Estados Unidos, mas também por isso, porque no fundo há também uma pressão, como já falamos, da opinião pública, inclusive na Europa, no sentido de alguma impaciência com os custos econômicos que isto tem e também com esta ideia, e é aí que os Estados Unidos têm um papel muito importante, que é: "Mas nós vamos assumir esses custos e os nossos competidores não vão, portanto, vamos ficar em desvantagem competitiva, vamos ter dificuldades econômicas ainda maiores." Sabemos que, por exemplo, várias indústrias importantes, desde logo a automóvel na Europa, estão com problemas. Mas se os Estados Unidos não estão a fazer isso, não temos garantias que a China faça, então como é que vamos avançar? Em relação à questão do G20, aquilo que acabou por ser mais significativo são dois aspetos paralelos propriamente à cimeira, que é, por um lado, o agravar desta crise entre a África do Sul e os Estados Unidos. Os Estados Unidos não se fizeram representar, serão o próximo país a liderar o G20, portanto a assumir aqui a presidência rotativa. Por tradição, há uma espécie de entrega do martelo da presidência de um presidente ao outro ou de um chefe de Estado de um governo a outro. Ramaphosa não podia fazer isso com Trump. Os Estados Unidos quiseram que fosse lá um diplomata qualquer de segunda linha receber isso. Ramaphosa recusou, disse que não aceitava fazer isso e como retaliação, Donald Trump diz que não vai convidar a África do Sul para o G20. Apesar da África do Sul não ser um país convidado, ser um país membro, à partida não precisa de convite, mas em todo caso, em termos práticos, parece que realmente há aqui disposição dos Estados Unidos em continuar a forçar esta crise. E o segundo aspecto relevante é que Lula da Silva insistiu que nos encontros paralelos com os países europeus e com as instituições de Bruxelas, teve a garantia de que o acordo comercial Mercosul-União Europeia, portanto a grande organização regional da América do Sul e União Europeia, iria finalmente ser assinada a 20 de dezembro. Ele indicou exatamente a data. Isso à partida seria uma ótima notícia, nomeadamente pra Portugal, eu diria também pra União Europeia. Fala-se muito de uma Europa mais geoestratégica. Bem, não há nada mais geoestratégico que fazer um acordo deste tipo. São mais de 700 milhões de pessoas, os dois mercados combinados. Os países do Mercosul têm imensos recursos estratégicos, desde logo o Brasil, tem as segundas, terceiras maiores reservas de terras raras. E para Portugal tem esta questão, que é nós somos grandes importadores de alimentos, estes países são exportadores de alimentos a preços muito mais baratos do que é possível produzir na Europa e somos também exportadores, nomeadamente pro Brasil. Aí os nossos produtos, por exemplo, azeite, vinho, etc, têm taxas muito elevadas que a partir daí irão descer e isso tem um potencial grande de aumentar as exportações para mercados importantes para Portugal.

Bruno, nós vamos-

Em relação à-

Diz, sim

Em relação à cimeira entre a União Europeia e a União Africana.

Ah, sim, faltava essa, já me esquecia.

Este dado é interessante, que é presidido por dois líderes lusófonos, portanto foi presidido pelo presidente de Angola, João Lourenço, que é o anfitrião, e pelo António Costa. São os 25 anos desta parceria estratégica, que Portugal, quando teve a presidência da União Europeia em 1997, fez muito por promover, a partir de 2000, no Cairo, depois avançou-se pra essa parceria. Realmente é muito importante para Portugal, que quer muito ter este papel de ponte entre a Europa e África e aqui conseguiu fazer isso de alguma forma. Agora, há sempre esta questão que é: isto são mais palavras do que ações? Sim e não, no sentido que não mudou muito com esta cimeira, mas houve um reafirmar deste compromisso do chamado Global Gateway, que é uma espécie de resposta europeia à Rota da Seda chinesa, à Nova Rota da Seda, com grandes investimentos em infraestruturas, um pouco um novo modelo de ajuda ao desenvolvimento, cooperação, que não passa por doações, mas por investimentos. E essa realmente parece-me que tem de ser a tendência do futuro, e Angola é um exemplo disso com este Corredor do Lobito, que no fundo é renovar esta linha de caminho de ferro que liga Angola aos países do interior, todos eles com muitos recursos minerais, também terras raras, e aí há até uma presença também de uma empresa importante portuguesa, a Mota-Engil, é uma das empresas, digamos, parte deste consórcio que tem alguns milhares de milhões de euros de financiamento.

Bruno, vamos ficar por aqui nesta nossa primeira parte. Já a seguir vamos falar da primeira viagem do Papa Leão XIV e conhecemos ainda o país em destaque esta semana, Guiné-Bissau, a propósito da crise que se vive no país. É já a seguir, logo depois das notícias. Estamos de regresso à segunda parte do Cinco Continentes na Rádio Observador. Bruno, vamos começar esta segunda parte a falar de Macron e do novo serviço militar voluntário em França. Há mais países europeus com alternativas a um sistema puramente voluntário, até agora, sobretudo os nórdicos e também os países de Leste. Bruno, pergunto o que é que se passa. Esta é uma preparação para a guerra que aí vem ou até, como alega a Rússia, um sinal de que os europeus se podem estar a preparar para atacar Moscovo? Há essa premissa, não é?

Sim. Podemos começar por esse último ponto, que realmente disso não faz nenhum sentido. No fundo, estamos a falar aqui de alternativas a um serviço militar puramente profissional, que foi o modelo que começou a prevalecer a partir do final da Guerra Fria. No caso de França, por exemplo, o serviço militar obrigatório termina em 2001, vai terminando gradualmente, vai sendo muito reduzido, mas termina em 2001 e portanto o que passamos a ter a partir daí realmente é um número muito mais reduzido de soldados, marinheiros, pilotos, mas muito preparados e sendo puramente profissional, essas tropas podem ser utilizadas em operações fora de portas, ou seja, como forças expedicionárias, que foi muito o tipo de guerra em que os exércitos europeus se foram envolvendo no pós-Guerra Fria, a partir dos anos 90, desde a Bósnia ao Afeganistão, várias operações em África, onde nomeadamente a França teve também um papel importante. Realmente, agora estamos neste registo que é passar desse modelo puramente profissional, mas com grandes limitações no número de forças que se tem de efetivos para um modelo mais misto, mais híbrido, mais criativo. Realmente aqui o que é relevante é a França também, que já não é propriamente um país da linha da frente. Não estamos a falar da Finlândia, que, por exemplo, nunca abandonou esse modelo de serviço obrigatório, dos Bálticos, que alguns abandonaram, entretanto todos retomaram. Não estamos a falar dos países nórdicos, países como a Suécia, que tem um serviço chamado seletivo, ou seja, toda a gente é obrigada a apresentar-se, a prestar provas físicas, ou a Noruega, mas depois só o número reduzido que é mesmo necessário é que são selecionados. E o modelo, por exemplo, da Polónia, que é no fundo permitir à população, mas também existe, por exemplo, em países como a Lituânia, permitir à população voluntariamente ter treino militar, embora não sejam propriamente forças que estejam permanentemente no quadro. Tudo isso, imediatamente neste caso, esta força francesa, desde logo será a partir de 2026, portanto não é para já. Serão apenas 3 mil para começar, até porque isto também tem implicações orçamentais. Não esquecemos que isto de ter mais tropa, mesmo que seja serviço militar obrigatório, obviamente as pessoas têm de ser pagas, mesmo que não seja muito, têm de ter quartéis, têm de ter fardas, têm de ter equipamento, têm de ter oficiais que as treinem, portanto tudo isso tem grandes implicações, não é mão de obra de graça. Essa é, aliás, uma das questões que é referida por Macron, tem de ser feito de forma gradual, tem de ser feito tendo em conta o custo-benefício, portanto a ideia é passar de 3 mil para 30, 35 mil em 10 anos. Mas no fundo, o que é muito claro é que esta força não é para invadir ninguém, é uma força apenas para prestar serviço no território francês, ou seja, no fundo defesa da pátria, se quisermos. Qual é aqui, apesar de tudo, a virtualidade disto? É que permitirá obviamente libertar forças, as tais forças profissionais que continuam a existir, para eventualmente essas poderem ser enviadas para sítios onde seja necessário. Mas aí a ideia obviamente é que será, por exemplo, a cumprir obrigações do artigo quinto da NATO, portanto, defesa de algum Estado desta linha da frente mais próxima do Rússia ou da Ucrânia, que possa vir a estar ameaçada. E como sabemos, aliás, já há uma presença permanente ou rotativa, mas enfim, de contingentes de países da NATO, por exemplo, nos Bálticos. Portugal, por exemplo, já enviou fuzileiros para a Lituânia, tem enviado muitas vezes F-16 para fazer patrulha nessas regiões.

E Bruno, agora vamos falar do sistema antiaéreo Miguel Ângelo, da empresa Leonardo. Tu aqui queres falar da escolha do nome, da dependência de outros sistemas externos. No fundo, vamos falar aqui de vantagens e desvantagens e também implicações mais amplas. É isso? Queres analisar melhor esta questão?

Sim, acho que é um pretexto para olhar para o estado da indústria europeia de defesa. A Leonardo é o 12º maior grupo de defesa a nível global, está bastante longe do líder, que é a Lockheed Martin, americana, que tem, por exemplo, os F-35, que anda à volta dos 90 mil milhões de negócios anuais. Mas no contexto europeu, a Leonardo é, à partida, a segunda maior, depois dos BA Systems, que é a grande empresa britânica, que anda à volta dos 30 mil milhões. A Leonardo anda entre os 12 e os 15 mil milhões. É um grupo baseado em Itália, e isso explica o nome. A Leonardo vai agrupar uma série de indústrias de defesa italianas e vai ser escolhido esse nome em homenagem a Leonardo Da Vinci, que não só é um grande artista, mas também um engenheiro militar, um inovador, alguém que desenvolve sistemas de armas novos na Itália do Renascimento. E obviamente, aqui a escolha do nome também de Michelangelo pode parecer um pouquinho mais estranha, mas é o Michelangelo Dome. Os israelitas têm o Iron Dome, a cúpula de ferro, e aqui os italianos vão oferecer esta alternativa europeia do Michelangelo Dome, ou seja, da abóbada da cúpula Michelangelo, aí já se justifica um pouquinho mais, desde a Capela Sistina à cúpula do Vaticano de São Pedro. É claramente uma referência à cultura, ao soft power italiano. Mas o que é realmente interessante é que a Leonardo destaca-se muito, por exemplo, nos sistemas tradicionalmente de helicópteros, mas cada vez mais também nos drones. E aqui a ideia é criar um sistema integrado, com sensores, com inteligência artificial, para identificar ameaças e identificar quais os sistemas que melhor podem responder a essas ameaças. E a ideia é que seja um sistema aberto, que permita utilizar diferentes sistemas de armamento. Podem utilizar sistemas antiaéreos europeus, israelitas, norte-americanos, e isso dá mais facilidade, mais flexibilidade também ao sistema. Aquilo que também mostra, ao mesmo tempo, é que realmente a indústria europeia da defesa ainda não tem capacidade por si só para fazer um sistema que à partida fosse pensado para ser apenas europeu. Isto claramente também reflete esta grande preocupação na Europa por esta guerra aérea totalmente impiedosa da Rússia contra os civis ucranianos. Todas estas questões também de drones, embora pra mim não é claro que este sistema seja o mais adequado ou mais bem pensado precisamente pra questão do combate aos drones, mas em todo caso, é bastante claro que esta é uma prioridade que está na cabeça de toda a gente na Europa, nos decisores europeus, esta necessidade realmente de reforçar as defesas antiaéreas e a Leonardo está a apostar nisso, e realmente quer aumentar ainda mais a sua carteira de encomendas. Elas subiram 15% no último ano, e realmente estão a atingir níveis recordes. A maior parte dos europeus e a maior parte dos líderes europeus perceberam que realmente com Putin de um lado e Trump do outro, a Europa tem pouca alternativa a não ser rearmar-se.

E Bruno, vamos deixar aqui a questão do sistema antiaéreo de lado. Vamos até à Guiné-Bissau. É um clima difícil aquele que se vive no país. A União Europeia está a acompanhar com a habitual preocupação os desenvolvimentos depois do golpe militar na quarta-feira. Quais são as implicações mais amplas de um evento ainda pouco claro? Há muitas informações a circular.

Sim, o que temos como claro é que houve realmente algum tipo de golpe. No fundo, a grande questão é perceber se é um golpe militar convencional, em que uma parte das Forças Armadas depõe o poder civil, ou se é mais propriamente uma espécie de autogolpe, ou seja, em que o presidente em funções utiliza militares que lhe são leais para evitar uma derrota eleitoral, porque a maioria dos observadores estão de acordo que realmente o anúncio iminente dos resultados das eleições seria uma vitória da oposição, e isto é uma forma de evitar que isso aconteça. Pelo menos isso, aparentemente, podemos dar como objetivo. Realmente, o golpe vai impedir que venha um novo presidente, que haja as consequências naturais de uma eleição. Agora, se esse exílio no Senegal do presidente guineense é uma espécie de simulacro, isso teremos de ver. O que também é bastante evidente é que o novo primeiro-ministro, também já indigitado, que era o chefe deste golpe militar, que era o chefe do Estado-Maior Particular do Presidente, portanto o semi-presidencialismo guineense é mais próximo do francês do que propriamente do português. O presidente tem, apesar de tudo, poderes significativos, inclusive na questão da relação com as Forças Armadas, isso indica bem a proximidade dos golpistas com o presidente aparentemente deposto. E além disso, o novo primeiro-ministro também era alguém muito próximo do presidente que foi aparentemente afastado, ou seja, conhecido inclusive como o mandatário da sua campanha, se quisermos assim. Tudo isso realmente suscita aqui bastantes suspeitas. Aquilo que podemos dar como certo é que a Guiné acompanha aqui uma infeliz tendência, que é temos uma tendência para um número novamente crescente de golpes de Estado na última década. Desde 2020, podemos recuar até 2019, tivemos nove golpes militares bem-sucedidos, começando com o Sudão, o Mali, depois o Chade, novamente o Mali em 2021, a Guiné, Guiné-Conacri, o Sudão, a Birmânia é o único não africano, o único país não africano é a Birmânia em 2021, depois em 2022 o Burkina Faso e em 2023 o Níger e o Gabão. Temos agora mais este golpe na Guiné-Bissau. Também não é propriamente algo invulgar na história da Guiné-Bissau, desde 1980, que é o primeiro golpe militar, apenas seis anos depois da independência com o general Envieira a tomar o poder Isto corresponde realmente a uma tendência global e, em particular, a uma tendência africana e da África Ocidental, desta zona do Sahel, em que a Guiné-Bissau também se integra e que obviamente é facilitada por uma questão crucial, que é: hoje em dia é muito fácil estes golpistas encontrarem alternativas se os países ocidentais, se os países europeus se mostrarem mais críticos, mais renitentes em manter a cooperação, o investimento, podem recorrer à Rússia, podem recorrer à China, podem recorrer aos países do Golfo e também crescentemente poderão recorrer provavelmente aos Estados Unidos do Donald Trump, que não mostra grande preocupação com estas questões de direitos humanos ou de democraticidade.

E Bruno, a Guiné-Bissau, que é precisamente o país em destaque esta semana, além deste suposto golpe militar, que dados e que datas queres destacar neste país africano?

A Guiné-Bissau obviamente é uma antiga colónia portuguesa, portanto há aqui uma longa presença portuguesa, mas é uma presença muito ténue até muito tarde, ou seja, ela começa a partir de meados do século XV, 1446 é a data que geralmente é apontada. São os portugueses que dão o nome não só a este país, mas a toda esta região. Não é por acaso que o país vizinho se chama também Guiné Conakry, mas no fundo a África Ocidental começa por ser conhecida como Guiné. Aparentemente será uma distorção de uma palavra berbere, Guiné ou algo assim, que quer dizer a terra dos negros. Mas essa presença, de facto, é muito ténue, como dizia, até finais do século XIX e mesmo até já ao início do século XX. Ou seja, temos primeiro uma presença em Cacheu, que é onde se começa a estabelecer uma feitoria, uma fortaleza, depois em Bissau, mas realmente até ao século XIX é Cacheu que é a capital desta região, onde se concentra basicamente o comércio e sobretudo o comércio de escravos, portanto pessoas escravizadas que são vendidas pelos Estados africanos desta região aos portugueses, aos comerciantes portugueses. A Guiné está dependente de Cabo Verde, portanto Cabo Verde é aqui a colónia mais importante, e essa dependência, essa relação muito próxima vai se manter até ao período da independência e mesmo depois. Amílcar Cabral é nascido na Guiné, mas de origem cabo-verdiana. O primeiro presidente, Luís Cabral, que é o irmão de Amílcar Cabral, que é morto em 1973, também vai ser de origem cabo-verdiana. Mas essa proximidade quebra-se em 1980. Nós temos na Guiné e em Cabo Verde uma luta pela independência que é conduzida por um partido binacional, o PAIGC é o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, com elementos dos dois territórios. Mas realmente isso vai levar a tensões ainda no período colonial, a própria PIDE vai explorar isso. O assassinato de Amílcar Cabral em 1973, em parte também tem a ver com isso. E depois houve o primeiro golpe em 1980, também reflete isso. No fundo, Nino Vieira apresenta-se como alguém que está a defender os guineenses contra as elites cabo-verdianas. Enfim, é um pequeno país, sobretudo no contexto africano, apenas 36 mil km quadrados. É um terço mais ou menos do tamanho de Portugal, 2 milhões de habitantes. É um país extremamente pobre, um dos 15 países mais pobres do mundo, o sexto com o PIB mais baixo da África Ocidental, apenas $900 por ano, per capita. E obviamente com uma economia ainda agrícola, mais de 60% da atividade económica. A grande exportação é o caju, que é ótimo, mas enfim, são 90% das exportações. Mas obviamente tudo isso também significa que é uma economia muito limitada também. E isso tem aberto nos últimos anos, infelizmente, grande espaço ao tráfico de drogas a partir da América do Sul, por exemplo, países como a Venezuela, atravessam o Atlântico e depois têm um ponto de ancoragem na Guiné-Bissau para depois a droga acabar por vir para a Europa e portanto com um Estado muito frágil, com uma economia muito frágil, de facto há muitas suspeitas, que parecem justificadas, de uma grande penetração dessa criminalidade organizada na Guiné, o que também não ajuda obviamente à estabilização, à normalização democrática do país. Em termos de relações entre Portugal e a Guiné-Bissau, apesar da luta armada, que começa em setembro de 1963 e vai até abril de 74, apesar da Guiné ser o teatro militar mais difícil para as tropas portuguesas nestes conflitos coloniais tardios, nas chamadas guerras do Ultramar, a verdade é que depois as relações rapidamente se normalizam e até é a Guiné-Bissau, com o presidente Luís Cabral, que vai organizar a famosa Cimeira de Bissau em 1978, para facilitar a normalização de relações entre Portugal e Angola, que foram as relações mais problemáticas no período pós-independência.

Muito bem, a Guiné-Bissau é o país em destaque esta semana, ainda que falámos aqui de coisas boas, mas também não é pelos melhores motivos a propósito do suposto golpe militar. Bruno, vamos avançar para outro tema. Falámos da primeira viagem do novo Papa Leão XIV. Importa perceber aqui por que o Papa escolheu a Turquia e o Líbano

Esta é realmente a primeira viagem do Papa Leão XIV, que foi eleito em maio passado, mas é a última visita do Papa Francisco, que ele evidentemente já não conseguiu fazer, porque entretanto adoeceu e depois acabou por morrer. É uma visita que já estava planeada com muita antecedência e que tem a ver com duas grandes questões, ou talvez três grandes questões. Por um lado, a sua justificação mais imediata, mais evidente, no caso da Turquia, é a questão dos 1700 anos, um aniversário do Concílio de Niceia, que é o primeiro grande concílio da cristandade. Em 325, ainda com o imperador Constantino, o primeiro imperador cristão, ele legaliza e até oficializa a relação entre o cristianismo e o Império Romano, mas depois percebe que há ali muitas divisões, muitas divergências. A ideia era que o cristianismo se tornasse um fator de união, de reunião até do Império Romano, que estava muito dividido por crises internas. E a última coisa que ele precisava era de multiplicação de choques teológicos, de heresias, etc. Esta é uma tentativa de impor um dogma, de impor uma doutrina única, e realmente com algum sucesso neste sentido. Não conseguiu impedir que depois viessem a surgir múltiplas confissões cristãs e conflitos, inclusive as famosas guerras de religião na Europa no século XVI, XVII, entre cristãos. Mas pelo menos o chamado Credo, a confissão da fé de Niceia continua a ser o ponto de referência da esmagadora maioria dos cristãos no mundo, sejam protestantes, católicos, anglicanos, ortodoxos. Aquele Credo que se diz nas missas católicas: "Creio em Deus Pai todo-poderoso, etc." Tudo isso vem deste Concílio de Niceia e é um marco muito importante na história do cristianismo. E é também uma forma de marcar algo que os papas vêm procurando fazer, pelo menos desde o tempo de João XXIII, que foi aliás núncio, embaixador papal em Istambul, mas depois muito com Paulo VI e muito ainda mais com João Paulo II, esta questão do ecumenismo, do diálogo inter-religioso, em particular com a Igreja Ortodoxa e com o Patriarca de Constantinopla, que é por tradição o mais iminente dos patriarcas, dos chefes das várias igrejas ortodoxas, e por exemplo, o levantamento da excomunhão mútua que vinha desde o Grande Cisma de 1056. Paulo VI e o patriarca Atanásio levantam a excomunhão que vinha desde esse tempo. Tudo isto também nesta lógica de promoção do diálogo ecumênico, é a segunda grande prioridade, também com o próprio Islão, como uma religião abraâmica. E aí, obviamente, também se justifica a ida ao Líbano, onde a questão do diálogo inter-religioso é crucial pra própria sobrevivência do Estado. É um Estado multiétnico, multireligioso, com múltiplas confissões cristãs e também diversas seitas muçulmanas, islâmicas. Obviamente também está muito na linha de frente destes conflitos no Médio Oriente e é uma forma também aí do Papa passar esta mensagem que a religião não deve dividir, deve unir, não deve servir de pretexto para a guerra, mas sim para a paz.

E Bruno, antes da tua habitual recomendação, vamos ainda falar da chamada de Xi Jinping e Trump. Será que isto tem alguma coisa a ver com a evolução da crise que já falamos aqui entre China, Japão e também Taiwan? E por falar de crises e também de Trump, quanto à Venezuela, saber também qual é o ponto de situação neste momento.

Foi uma chamada muito reveladora, porque isto mostra o impacto da forma como Trump lida com a Rússia, com a Ucrânia, com a Europa. Isso é um impacto realmente global e não apenas aqui na nossa região. Ou seja, a China percebeu que Trump não está propriamente muito preso a velhas alianças e foi aqui testar as águas. Já falamos da questão da crise entre o Japão e a China. Ela continua relativamente limitada, mas não está resolvida. E a China veio aqui dizer: "Nós é que temos razão. O Japão perdeu a Segunda Guerra Mundial, a China e os Estados Unidos foram aliados na Segunda Guerra Mundial." Foi nessa altura que Taiwan foi devolvida à China, mas agora continua a ser negada essa ligação a Pequim. O Japão está a voltar a ameaçar essa ligação. Parece-me evidente que Xi esteve a testar o tipo de argumentos que a China utilizará se algum dia decidir fazer uma ação militar mais musculada contra Taiwan. E Trump, aparentemente, não lhe deu propriamente grande oposição. As notícias que temos são que terá feito pressão, sim, sobre o Japão pra isto não escalar, até porque a China terá dado a entender que isto podia complicar também a paz comercial entre a China e os Estados Unidos, a compra da soja aos camponeses, aos agricultores americanos do Midwest, que apoiaram Donald Trump e que agora estão com imensas dificuldades econômicas por causa destas guerras comerciais. Em relação à questão da Venezuela, realmente parece confirmar-se que estamos realmente a chegar a um momento de cisão. Trump disse que ia começar a fazer ataques em terra e que isso até seria mais fácil, o que não é verdade, que seria mais fácil. Mas é evidente que esta tática de tentar assustar o regime de Maduro pra ver se ele caía não foi bem-sucedida, como nós antecipamos que não seria. E agora Donald Trump, para não recuar de forma um pouco humilhante, tem que fazer aqui mais alguma coisa. Vamos ver se essa alguma coisa não torna ainda a situação mais complicada para os venezuelanos e pra própria oposição venezuelana, que pode ser aqui um alvo de retaliações do regime. Se o que tivermos forem uns quantos bombardeamentos aéreos contra alvos do regime e se ficar por aí, provavelmente isso também não será suficiente para o regime, que é rejeitado pela maioria dos venezuelanos, convém sempre lembrar isso. Nas eleições do ano passado, isso ficou bastante claro e provado. Mas isso não quer dizer que obviamente os venezuelanos queiram ser bombardeados ou tornar-se aqui uma espécie de vítimas colaterais de uma demonstração de poder de Donald Trump.

Bruno, vamos fechar com a tua habitual recomendação. O que é que tens para sugerir esta semana?

A recomendação desta semana é da revista "Foreign Affairs", ou melhor, do site, porque hoje em dia as revistas, a imprensa cada vez mais tem a existência online a par da impressa. Portanto, o Elliott Abrams, "How to Topple Maduro", como derrubar Maduro, e por que ele argumenta que a mudança de regime é a única opção na Venezuela. O Elliott Abrams é um crítico de Donald Trump, mas que trabalhou para a primeira administração de Donald Trump, precisamente nesta questão da Venezuela. E o que ele diz é que há de fato muitos problemas com esta forma muito errática como Donald Trump lida com as coisas, muitos riscos. Mas a verdade é que também este argumento de se dizer: "Temos de negociar, temos de fazer pressão". Tudo isso já se tentou no primeiro mandato de Donald Trump. Houve imensa pressão, foi reconhecido um presidente que não era Maduro, que foi quem realmente ganhou legitimamente esse cargo, Guaidó. Houve sanções, houve diálogo com todos os países da região e realmente o regime resistiu a tudo isso, com o apoio da Rússia, com o apoio do Irão, com o apoio de Cuba, com o apoio da China e com o apoio dos homens armados, das milícias, da polícia, dos militares. E, portanto, no fundo, o que ele diz é: "Não vejo outra solução que não seja algum tipo de ação militar". Agora, o que era crucial era isso ser articulado com a oposição venezuelana, ter o mínimo de custos para os próprios venezuelanos e abrir realmente a porta a um processo de transição que desde logo passasse por Edmundo González, que foi o presidente legitimamente eleito no ano passado, mas depois dessa possibilidade de eleições, e que também permitisse uma anistia ampla, portanto, não houvesse aqui uma espécie de acerto de contas que complicasse muito as coisas. E ele defende também que não há razões para achar que na Venezuela vai acontecer a mesma coisa que aconteceu noutras tentativas de mudança de regime, por exemplo, no Iraque ou no Afeganistão. Ele diz que aqui há um sinal muito claro de que realmente há uma oposição muito ampla, muito preparada. Há uma história de muitas décadas de democracia na Venezuela, já falamos disso, entre 1958 e depois a emergência de Chávez, a partir de 1999, houve várias décadas de democracia na Venezuela. No fundo, ele apresenta aqui um argumento no sentido de dizer que se calhar a única alternativa, neste caso, é mesmo utilizar a força. Agora, convém que isso seja feito de forma inteligente, com plano político também e em articulação com os representantes legítimos dos venezuelanos.

Bruno, nós ficamos por aqui nesta edição de sábado do "Cinco Continentes", ligeiramente mais cedo aqui na rádio, sempre disponível também em podcast. Pode enviar também perguntas para o e-mail ouvinte@observador.pt ou deixar, por exemplo, um comentário no Spotify a este episódio e nós, aliás, tu tens todo o gosto em responder num próximo episódio. Um grande abraço, Bruno, e uma boa semana.

Obrigado, João, e boa semana a todos.