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Luanda, 11 de novembro de 2020. Os aplausos são para João Lourenço. No âmbito das comemorações do 45º aniversário da independência de Angola, o Presidente da República inaugura o Hotel Intercontinental Luanda Miramar, de cinco estrelas. De máscara, João Lourenço corta a fita vermelha e derrama um pouco de espumante na entrada daquela unidade hoteleira. O hotel foi nacionalizado.
No caso concreto desta unidade, todo o investimento foi feito por uma empresa pública, no caso a Sonangol, e como resultado da ação da PGR, a propriedade acaba por regressar a quem realmente fez a totalidade do investimento.
E enquanto João Lourenço falava, aqui num som transmitido pela televisão pública de Angola.
É a juventude nesta hora, que saiu de uma das ruas. Aqui estamos nos Congolense.
Noutro ponto de Luanda, mais ou menos à mesma hora, centenas de jovens saem à rua para protestar por melhores condições de vida e pela realização de eleições autárquicas, as primeiras de Angola, que deveriam ter acontecido este ano, mas foram adiadas sem nova data.
Pronto. Começaram a dar tiros. Estão a dar tiros. Estão a dar tiro na população. A juventude aqui a fugir. A ditadura está a dar tiro à população.
São jovens que protestam nas ruas de Luanda no dia da independência de Angola. Um deles é Luaty Beirão, rapper, um rosto bem conhecido de Portugal depois da contestação nos últimos tempos de José Eduardo dos Santos.
Ya, pessoal, como viram, a força do MPLA levaram a GoPro, portanto interromperam a live e provavelmente eu continuando com esta, também hão de querer levar o telefone. Não façam isso. Senhora, deixe as pessoas reclamarem. Nós queremos que os nossos filhos cresçam num país melhor. Não quer, deixa em paz. É mesmo nesse momento que vão dizer "não façam isso". Estão é as pessoas a ser agredidas. A culpa é da vítima, sempre.
Os sons que aqui ouvimos estão em vídeos publicados nas redes sociais durante este dia 11 de novembro de 2020.
Vou-lhe só dizer uma coisa, o senhor está em direto pra Internet, não adianta me pegar no microfone, está bem? Ok, portanto cumpra com o seu dever republicano e diga o que me acompanha. Vai me acompanhar aonde? Então dê-me voz de detenção e eu vou lhe acompanhar até à esquadra. O senhor detenha-me e eu vou lhe acompanhar até à esquadra. Então diga-me que estou detido. Estou detido? Por favor, de mãos gemas, pode ser? Senhores, é assim. Espera. Espera aí. O polícia que vai tirar a minha. A polícia que tira a calma. Pronto.
Um jovem de 26 anos que ficou ferido nas manifestações viria a morrer no hospital. Segundo a Lusa, o relatório oficial do Hospital Américo Boavida, em Luanda, indica que o estudante sofreu ofensa corporal com objeto contundente não especificado, tendo morrido após uma intervenção cirúrgica. Testemunhas oculares dizem que foi atingido por um disparo da polícia.
A polícia está a agir com excesso de zelo. A polícia está a agir de má-fé.
Ao longo do mês de novembro de 2020, sucedem-se as reações oficiais. A polícia de Luanda nega responsabilidade nesta morte, diz que agiu dentro da legalidade. Por seu lado, o ministro do Interior pede às forças de segurança para, e citamos, "evitar alguns excessos". João Lourenço reúne-se, entretanto, com um grupo de jovens e diz que as manifestações não têm de acabar em violência, assinalando que esse direito está, por ora, limitado devido à pandemia de Covid-19, tal como as idas à praia ou as festas de casamento. Bem-vindos à Corte de Luanda. Quarto episódio: O Mimoso. João Lourenço assumiu a presidência da República de Angola em setembro de 2017. Em Lisboa, disse que enfiou a mão no ninho de vespas, no ninho do marimbondo. Prometeu luta à corrupção, ao nepotismo, à basulação, mas nos bairros de Luanda, as queixas continuam. Será que mudou alguma coisa? Neste último episódio da Corte de Luanda, o jornalista do Observador, João de Almeida Dias, mostra-nos o percurso de João Lourenço, desde o quintal de casa até à Presidência da República. Eu sou o Ricardo Conceição. Vamos tentar conhecer melhor quem é João Lourenço, o presidente de Angola. João de Almeida Dias, vamos falar de João Lourenço, o Mimoso?
Exatamente, o Mimoso. O Mimoso é uma alcunha de infância que João Lourenço tem. João Lourenço nasceu e cresceu no Lobito e há uma história que foi contada à Lusa por uma ex-ama de João Lourenço e também prima, que foi lá tomar conta dos primos, ela era mais velha. E ela descreveu à Lusa João Lourenço como o Mimoso, porque ele era uma criança muito obediente. Não saía do quintal, foi esta a expressão, que é como quem diz que não sai dos seus limites, sabe muito bem até onde é que pode ir, com quem é que pode ir. Provavelmente, para sair do quintal, tem de ir com a mão do pai ou da mãe. Portanto, era uma criança muito obediente. Daí o Mimoso.
E como é que João Lourenço, o Mimoso, que não queria sair do quintal ou tinha algum receio de sair do quintal, vai pro MPLA?
Ele já tinha o MPLA dentro da família. O pai dele tinha sido um militante anticolonial, portanto o combate político não era uma novidade na vida de João Lourenço e na família dele. O pai dele esteve até preso pelas suas atividades ainda no tempo do Estado Novo. Mas João Lourenço entra no MPLA apenas a seguir ao 25 de Abril e a sua entrada dá-se já em guerra civil, portanto, em guerra contra a UNITA.
Já depois do 25 de Abril?
Já depois do 25 de Abril. Mas como acontecia muitas vezes nessa altura, com os jovens que eram vistos como promissores dentro da máquina do MPLA, João Lourenço teve uma grande promoção, que era ir pra Moscovo ou ir pra União Soviética. No caso dele, foi estudar pra Moscovo, na Academia Político-Militar Vladimir Ilyich Lenin, história. Mais do que a parte da história, eu destacaria a parte da academia político-militar, porque este binômio acabou por estar muito presente na vida de João Lourenço. João Lourenço estuda lá história, está lá há alguns anos, mas depois acaba por voltar pra Angola. E quando volta, já não volta a pegar em armas. Já não é um homem de guerra, é um homem da política em meio de guerra. Portanto, ele passa a ser um comissário político das Forças Armadas do MPLA. E é nesse ambiente que ele começa a navegar muito bem naqueles corredores meio palacianos, meio conspiratórios também do meio militar do lado do MPLA e começa a ganhar respeito.
Aproxima-se do topo.
Aproxima-se lentamente do topo. Centramos outra vez do quintal. Ele não sai daquele quintal, mas começa a perceber como é que são os cantos, o que é que se faz, o que é que não se faz, e percebe, evidentemente, o que é que pode fazer com tudo o que tem à mão. Ele passa a ser governador no Moxico, depois também é governador em Benguela, onde acaba também por liderar o MPLA e, mais à frente, há pouco eu dizia que uma das promoções era ser chamado pra estudar na União Soviética, ele teve essa promoção, e agora teve outra promoção, que era ser chamado agora para Luanda. Vai ser chamado para Luanda para ser secretário de informação do MPLA em 1992, que é um ano muito importante. É o ano de eleições. É o ano em que há uma interrupção da guerra acordada em Bicesse, cá em Portugal, entre a UNITA e o MPLA. E, portanto, nesse ano há eleições e é João Lourenço que tem, teoricamente, a incumbência de organizar a propaganda política do MPLA. Não é bem ele que o faz, ele chama, e o MPLA chama aquilo que eles chamam os brasileiros, e estão certos, são brasileiros que tinham alta experiência em campanhas políticas no Brasil, e que chegam à Angola e fazem uma campanha política à séria. Fazem uma campanha com cartazes, com vídeos e, por exemplo, com este hino que vamos ouvir. Essas eleições, já se sabe, não correram bem. O MPLA ficou em primeiro, como fica sempre, a UNITA não aceitou os resultados, como fazia sempre à altura, e a guerra voltou a entrar numa nova fase e, portanto, a paz foi bastante efêmera.
E aí, qual é, depois, o papel desempenhado por João Lourenço?
João Lourenço passa a ser, a partir daí, o braço direito do José Eduardo dos Santos. Portanto, já não é o homem que trata simplesmente da propaganda do partido, é o verdadeiro braço direito. E quando eu digo braço direito, digo à frente das câmeras, por exemplo, das câmeras da RTP, em que ele aparece várias vezes com uns óculos grandes e uma cara muito jovem, porque ele vai pra este meio ainda na década dos seus 30 anos, e também nos meios mais fechados. Houve uma pessoa do Comitê Central do MPLA que me disse que eles são dois homens que nesta altura se entendiam muito bem, porque tinham a mesma formação, eram dois homens soviéticos.
José Eduardo dos Santos e João Lourenço.
Exatamente. Dois homens soviéticos. Evidentemente que são angolanos, e isso é algo que não se pode tirar, e portanto têm essa gênese. Mas também foram formados na União Soviética e, portanto, também têm um caráter um pouco austero. E no caso de João Lourenço, essa austeridade também levou a que seguisse tudo o que era ditado por José Eduardo dos Santos. Ele tornou-se na pessoa que ia dar os recados de José Eduardo dos Santos a outros.
Tens exemplos?
Sim, um diplomata, por exemplo, conta-me que no final de um almoço algo restrito, João Lourenço pega no braço deste diplomata, chama-o pra um canto pra que os outros não oiçam nada e dá-lhe um recado diretamente da boca de José Eduardo dos Santos. Este tipo de proximidade existe muito. Mas é nessa altura que se nota ainda outra faceta em João Lourenço, e isto ainda em concordância com o que eu dizia, que é a faceta autoritária. Quem fala disso é, por exemplo, o Cédric Carvalho, jornalista angolano.
João Lourenço faz parte, relatam as jornais que chegaram a noticiar à época, das pessoas que disse que foi ele mesmo quem encabeçou um esquema que afastou dois ex-secretários gerais do bloco partidário, que era nomeadamente Marcolino Moco e Lopo do Nascimento.
O Cédric diz que há uma veia autoritária, reaccionária, como disse o Cédric, de João Lourenço. E João Lourenço, de facto, nesta altura disciplina muitas pessoas dentro do partido. Repare que eu há bocado falei, por exemplo, de Lopo Nascimento e Marcolino Moco, que aspiraram a um dia sucederem José Eduardo dos Santos. Quem é que os afasta? É João Lourenço que suja as mãos. Marcolino Moco tem até umas declarações à altura na Rádio Eclésia, em 2001, em que disse isto: "Numa reunião, João Lourenço tratou-me como uma criança e mandou-me calar". Ora, ele estava a mandar calar um homem que tinha sido primeiro-ministro. Portanto, nesta altura, João Lourenço, enquanto secretário-geral do MPLA, dá-se ao luxo de mandar calar um primeiro-ministro. Ele estava com este nível de confiança nas suas capacidades e no seu à vontade naquele meio.
E tanta confiança alimenta alguma ambição também?
Exatamente, essa é a grande ironia do destino, porque neste período em que João Lourenço é o braço direito de José Eduardo dos Santos, acaba por terminar no momento em que ele ousa ele próprio sair do quintal. Ele, João Lourenço.
E isso quer dizer?
Isso quer dizer que ele próprio se perfila para ser presidente de Angola ou pelo menos fica ali quase a caminho e tem umas declarações que o mandam completamente ao chão.
Isso acontece naquela altura em que José Eduardo dos Santos diz que está cansado e que está pronto para sair, é mais ou menos por aí?
Exatamente.
Estamos a falar no ano 2000?
Em 2000 ele tem essa conversa com o tal diplomata que eu dizia e em 2001 voltou a fazê-la numa reunião do Comitê Central do MPLA. José Eduardo dos Santos tem umas declarações em que diz que quer as eleições se realizem em 2002 ou em 2003, teremos um ano e meio ou dois anos e meio para que o partido possa preparar o seu candidato para as eleições e esse candidato não se vai chamar José Eduardo dos Santos. Portanto, José Eduardo dos Santos diz: "Meus amigos, quando houver eleições, não contem comigo, contem com outra pessoa, comecem já a procurar outro nome."
E é nessa altura que João Lourenço põe a cabeça de fora?
É dois anos depois disto, porque entre 2001 e, portanto, dois anos a seguir, 2003, há um acontecimento muito importante, que é em 2002, a morte de Jonas Savimbi e o fim da guerra.
"Government forces say they killed Savimbi Friday during fighting in Moxico province."
E assim que acaba a guerra, é mais fácil, é mais evidente que terá de haver eleições. Já há condições para haver eleições. E, portanto, quando Savimbi já morreu, quando já há paz e quando se percebe que ela vai ficar, ou pelo menos assim se espera e entende-se que há instrumentos para isso, e aí mérito de José Eduardo dos Santos, que chama a UNITA até para governar com alguns ministérios, João Lourenço dá uma entrevista ao jornal "A Capital" e comete o maior erro da sua vida política.
Como assim, João Almeida Dias?
João Lourenço dá uma entrevista ao jornal "A Capital", onde acaba por dizer que, e vou citar agora: "O presidente dos Santos é muito conhecido do povo angolano e o povo tem uma opinião sobre ele. Se é um presidente sério ou se não é. E nós enquanto MPLA pensamos que é sério". E depois remata com esta frase: "E sendo sério, acreditamos que ele vai honrar a sua palavra". Ora, a palavra dele era que ia sair e que nas próximas eleições não seria ele o candidato. Portanto, ele diz aqui duas coisas, mas acho que a mais grave de todas, ou aquela que se tornou a mais grave, foi sugerir sequer que o presidente poderia não ser sério.
Ao candidatar-se de novo, não é?
Exatamente. Ora, o que é que acontece? José Eduardo dos Santos não se afasta.
E há castigo para João Lourenço?
Claro que há castigo para João Lourenço. João Lourenço acaba por ter aquilo que uma pessoa muito próxima dos corredores do MPLA me disse que foi uma regulação de ambições. O partido regulou-lhe as ambições.
Essa é uma imagem poderosa.
É um eufemismo daqueles. O que é que acontece? Ele foi para primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional. Ou seja, vai de secretário-geral do MPLA, que é uma figura altíssima na hierarquia angolana, continua a ser, na altura ainda era mais, e agora vai para primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional.
Começa a chamada travessia no deserto.
Mais ou menos, porque eu não acredito que isto seja uma travessia do deserto clássica.
Isto é uma humilhação. Esta história do deserto, da travessia do deserto, isso pra mim é uma grande mentira.
Justino Pinto de Andrade saiu do MPLA ainda antes da independência de Angola em 1975. Hoje é o líder do partido Bloco Democrático. Foi entrevistado por Dulce Neto em Angola.
Se me disserem que o vice-presidente do Parlamento é o deserto e que o bureau político do MPLA é o deserto, então acho que é um deserto maravilhoso pra muita gente. Se o deserto é isso, não há nenhuma travessia de deserto. Ele era secretário-geral e deixou de ser secretário-geral, mas manteve-se na estrutura dirigente do partido e do Estado.
Ele não vai para o desterro, ele não vai para um gulag, ele não vai sequer pra miséria, antes pelo contrário. João Lourenço, neste momento, torna-se naquilo que é um apparatchik. Ele é um homem do aparelho. E ele aqui, o que ele faz, na verdade, é voltar pro quintal e perceber que fez muito mal em ter ousado sair ou pelo menos desafiar o dono da casa, quanto mais do quintal. E, portanto, ele nesta altura, senta-se no seu lugar E sentar-se no seu lugar é, por exemplo, um episódio como este: há uma votação na Assembleia Nacional para criar uma coisa chamada Fundo Nacional de Desenvolvimento, que ainda hoje existe, que é um mecanismo que permite que se façam empréstimos a baixos juros, financiados com as receitas do petróleo e dos diamantes em Angola, que como sabemos, são generosas. E a esta altura, quando a lei foi desenhada, havia uma maior facilidade para que agentes políticos contraíssem estes empréstimos.
Usufruíssem desse dinheiro.
Exatamente. Portanto, as pessoas estavam ali a votar aquela lei e iam usufruir em potência, só se quisessem.
Ninguém era obrigado.
Exatamente, ninguém era obrigado. Mas eles poderiam e seriam aqueles que estariam possivelmente na fila da frente para usufruir disto. E aquele jornal há pouco que eu também referi, a Capital, tem uma crônica em que cita João Lourenço na altura em que ele, na qualidade de primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional, anuncia essa votação. Eu acho esta citação de João Lourenço genial. Ele diz isto: "Quem é que está a favor, quem é que está contra e quem é que não quer dinheiro?" Quem é que não quer dinheiro? É uma frase que é quase como quem pergunta: quem é que quer ser parvo? Quem é que não quer dinheiro? Claro que queremos todos dinheiro. E a verdade é que os deputados acabaram por votar todos, foi uma votação unânime, foi uma das primeiras votações unânimes em Angola, porque evidentemente toda gente queria dinheiro.
E João Lourenço também usufruiu.
João Lourenço quis dinheiro e João Lourenço teve dinheiro. Esse é o ponto seguinte. E por isso é que eu não acredito, e várias pessoas que falaram comigo também refutam essa ideia de que ele tenha feito uma travessia no deserto clássica. Aliás, são muito poucas as pessoas em Angola que tenham feito isso. João Lourenço chegou a ter 5,42% do Banco Sol, que é tão somente o chamado Banco do MPLA. É assim que circula. É um dos principais bancos de Angola e, portanto, João Lourenço tinha mais do que 5% destas ações. Vamos lá ver uma coisa. Não seria possível a João Lourenço, com o seu salário de primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional, de ter tanto de um banco. Portanto, evidentemente que João Lourenço, como depois mais tarde viria a admitir e a dizer, ele também fez parte deste sistema. Portanto, não podemos dizer que é uma travessia no deserto clássica.
Deixa-me só fazer-te aqui uma pergunta, João. A mulher dele, nesta altura, era ministra.
Ministra do Planeamento, exatamente.
E nesta altura também, não é?
Nós saltamos essa parte, mas Ana Dias Lourenço, mulher de João Lourenço, é uma conhecida economista. Eles estão juntos desde o final até dos anos 70. E são um casal que sempre foi descrito como um casal muito ambicioso. Pessoas que privaram com eles dizem que são um casal muito unido, mas também muito ambicioso, muito capaz no domínio técnico, e muitas vezes até isso é mais realçado à Ana Dias Lourenço do que ao próprio João Lourenço.
Portanto, temos Ana Dias Lourenço, ministra do Planeamento, que é uma pasta importantíssima porque vai gerindo todos os dinheiros.
Exatamente.
E temos João Lourenço com 5%, pelo menos, do Banco Sol, o tal Banco do MPLA. Não se pode dizer que seja uma situação muito desfavorável.
Exatamente. E ainda há mais, para além disso. Há uma coisa chamada GEFI. A GEFI é uma holding do MPLA, ou seja, é um aglomerado de empresas do partido, que são empresas de vários ramos, não têm apenas a ver com política ou com os negócios. Quando eu digo todos os ramos, digo mesmo todos os ramos. E dentro desta holding há uma empresa chamada Orion, que segundo o Maka Angola, em 2012, era detida em 70% pelo partido e em 5% por Ana Dias Lourenço.
A mulher de João Lourenço.
Exatamente.
E por que essa empresa é importante pra esta história?
Esta empresa é importante porque ela é referida, embora o nome do João Lourenço não seja referido, esta empresa é, sim, referida num testemunho na Lava Jato, a grande operação de combate à corrupção no Brasil. E nesse depoimento, Mônica Moura, que é uma pessoa que trabalha com publicidade e propaganda política, acaba por denunciar ali, naqueles acordos de delação premiada, acaba por descrever ali um esquema em que chega dinheiro de uma empresa muito conhecida, que é a Odebrecht, em que dá dinheiro à empresa da própria Mônica Moura, mas este dinheiro depois tem que ser depositado num banco. Consegues adivinhar qual é que é o banco?
Então ficou acertado que $30 milhões seria feito com o partido, MPLA, e $20 milhões seria feito através da Odebrecht. Foi assim realmente. Então esses $30 milhões eu recebi em três parcelas de $10 milhões ao longo da campanha, não foi uma coisa consecutiva. E depositado numa conta bancária que eu abri lá no Banco Sol, um banco angolano pertencente ao partido Essas peculiaridades em Angola. Tem um partido que tem um banco gigante, várias agências. É um negócio meio esquisito, mas existe isso lá.
Ora aí está, o Banco Sol, sempre. Isto não é nenhuma publicidade ao Banco Sol da minha parte, mas de facto é sempre o Banco Sol, é repetidamente o Banco Sol quando estamos a falar destes temas. E portanto, há ali uma parcela de dinheiro em que é declarada, a Mónica Moura usa a expressão: "Tudo bem, tudo direitinho", mas depois há outra parte do dinheiro que já é posta de outras maneiras menos legítimas, isto evidentemente no relato que a Mónica Moura faz. Nesse relato, ela não refere João Lourenço, mas acaba por referir uma pessoa muito importante, já lá vamos a essa, que é Manuel Vicente. E ela até quando diz Manuel Vicente, até regala os olhos. Portanto, João Lourenço nessa altura não era ninguém que seria de destacar, pelo menos para uma pessoa que percebesse alguma coisa da política e do meio da elite angolana, mas também era uma pessoa que conseguia lucrar nesse meio. Portanto, não era digno de menção, mas ainda assim estava lá no meio.
E como é que no meio disso tudo, e nessa altura, aparentemente com uma situação mais ou menos confortável do ponto de vista económico, pelo menos é aquilo que nos é dado a perceber, ele acaba como Ministro da Defesa?
Ele acaba como Ministro da Defesa.
Estamos a falar mais ou menos em que ano, João?
Estamos a falar em 2014, é quando ele é nomeado, que não é um ano qualquer. É um ano em que Angola começa a ter problemas para os quais a sua elite acabou, e vemos hoje, ainda, não preparou o país. Estamos a falar da queda do preço do petróleo. E portanto, foi uma altura em que algumas ações começaram a ser menos toleradas. O petróleo, no espaço de seis meses, caiu de 110 dólares para 26 dólares, depois acabou por estabilizar nos 30 e tal, 40 e poucos, por barril, evidente. E com esta queda do preço, Angola tem muito menos dinheiro, Angola tem muito menos rendimentos e há pessoas com menos paciência.
Isto porque a economia angolana é altamente dependente do petróleo, assim a níveis inimagináveis, quase.
Ao nível dos 95%.
Ou seja, há menos dinheiro, zangou-se as comadres, é isso que estás a querer dizer?
Exatamente. E há uma comadre que acaba por ficar zangada com outra. E estamos agora aqui a falar de Cândido Van-Dúnem. Cândido Van-Dúnem foi Ministro da Defesa, até que foi apanhado num alegado esquema de sobrefaturação de rações de combate que eram vendidas ao exército, enquanto ministro da Defesa. Ora, isto é posto ao descoberto e João Lourenço acaba por ser o nome escolhido para substituí-lo em 2014.
Mas espera, João Lourenço não estava numa lista negra do presidente José Eduardo dos Santos, dos tais delfins atrevidos que foram regulados pelo partido.
Certo. José Eduardo dos Santos parecia não esquecer quem tinha um dia desafiado, quem tinha um dia ousado sair do quintal, usando mais esta expressão. Mas a verdade é que nesta altura, também o próprio José Eduardo dos Santos sofre com aquilo que começa a ser a fragilidade tremenda da economia de Angola, depois de um boom tremendo que começou ainda no início dos anos 2000. E é nesta altura em que começa a aparecer uma dinâmica dentro do MPLA, que só muito mais tarde é que nós cá fora percebemos. E é possível que ainda hoje não percebamos totalmente.
Que dinâmica é essa, o quê?
É uma dinâmica em que, ao contrário daquilo que nós pensávamos, e acrescento eu, ao contrário de que possivelmente e provavelmente José Eduardo dos Santos pensava, o MPLA é um partido com vida própria. Ou seja, José Eduardo dos Santos era o arquiteto da paz, era o camarada presidente e, até um certo ponto, mandava no partido, mas não fazia tudo isto sozinho. E João Lourenço acaba por ser promovido a Ministro da Defesa um pouco nesta lógica, em que já com uma maior fragilidade de José Eduardo dos Santos, que nesta altura já estava doente, já estava mais fragilizado e ainda mais cansado. Portanto, se ele já estava cansado em 2000 e em 2001, fazemos ideia em 2014.
Em 2012, em eleições gerais, fui eleito presidente da República e empossado para cumprir o mandato que nos termos da Constituição da República, termina em 2017. Assim, eu tomei a decisão de deixar a atividade política ativa em 2018.
Nesta altura, o partido e algumas alas do partido, sobretudo a ala mais militar, começam a demonstrar algum descontentamento com aquilo que é toda a corrupção, todos os luxos que são conhecidos, não só em Luanda, mas como em Lisboa e noutras capitais europeias e também nos Estados Unidos.
João Lourenço é uma escolha do partido.
João Lourenço é uma escolha que o partido faz avançar, algumas pessoas dentro do partido fazem avançar, para haver ali uma espécie de recado a José Eduardo dos Santos a dizer: "Nós também temos alguma vontade". Mas volto a dizer, isto na altura não foi entendido como tal cá fora, e aqui também coloco os jornalistas, mas também não parece que tenha sido entendido nessa altura, o que depois também explica o que vem a seguir.
Então o que é que vem a seguir?
O que vem a seguir-
Porque o que vem a seguir é a escolha de João Lourenço para presidente.
Exatamente, o que vem a seguir é essa escolha, que é talvez a pergunta mais enigmática da política angolana, do país em geral, dos últimos anos, que é: por que José Eduardo dos Santos escolheu João Lourenço para ser seu sucessor?
Sob proposta do líder do MPLA, o camarada presidente José Eduardo dos Santos, o partido designou o seu vice-presidente, o camarada João Lourenço, candidato a presidente da República para as eleições gerais de 2017.
Uma coisa é ser ministro da Defesa, o que em Angola já é importante. Mas outra coisa é ser o candidato à presidência. E aqui entramos numa história ou nuns esquemas dentro do MPLA que ainda hoje não estão totalmente descritos, mas que são uma confusão tremenda.
Então vamos lá tentar desatar esse nó.
José Eduardo Santos chega a uma altura em que já não confia em ninguém. Isto é o que me diz uma fonte muito próxima do MPLA, que conhece muito bem o topo do partido. José Eduardo dos Santos chega a uma altura em que já não confia em ninguém. E quando eu digo que não confia em ninguém, é não confia, nomeadamente, no seu vice-presidente, Manuel Vicente. Isto porque, em 2012, Manuel Vicente é chamado ao candidato a vice-presidente de José Eduardo dos Santos, eles ganham as eleições e então Manuel Vicente passa a ser o número dois e nessa altura, José Eduardo dos Santos mete Manuel Vicente a fazer tudo. José Eduardo dos Santos já praticamente não vai a despacho, já não trata de coisas, manda Manuel Vicente pra Assembleia Geral da ONU, pra coisas importantes, pra coisas que não são importantes, pra coisas que ele não respeita, nomeadamente o funeral de Mandela, porque sabe-se que José Eduardo dos Santos tinha uma má relação com o Nelson Mandela. Portanto, mandava Manuel Vicente para todo lado. Mas depois, há uma altura em que percebe, ou percebe-se que as contas da Sonangol, que Manuel Vicente tinha gerido até aí, estavam na miséria. Havia uma suposta falência técnica da Sonangol. E, portanto, José Eduardo dos Santos aí deixa de confiar na pessoa em quem mais pensava que poderia confiar, que era Manuel Vicente. E a partir daqui começa o abismo.
A Sonangol estava numa situação muito difícil, quase de pré-falência. O engenheiro Manuel Vicente foi PCA da Sonangol quase 12 anos ou mais. No fundo, ele é que geriu a Sonangol, ele é que controlou a Sonangol, mandou na Sonangol. Acho que trabalhou lá mais de 14 anos, acho que esteve no Conselho de Administração muito tempo.
Também foi PCA com conselho também vice-presidente.
Não, acho que não chegou a acumular. Acho que a nossa lei não permite e acho que ele não chegou a acumular. Foi exatamente quando ele deixou de ser vice-presidente, que foi nomeado Francisco Lemos, que efetivamente faz o diagnóstico um ano e meio, dois depois da sua entrada e que diz que a empresa está numa situação de pré-falência.
Porque se não pode confiar em Manuel Vicente, pode confiar em quem? Pra suceder. E nesta altura, começam a suceder nomes atrás de nomes. E José Eduardo dos Santos teve sempre este pensamento, que era: "Eu preciso ter uma pessoa". Isto não é exclusivo ao José Eduardo dos Santos, isto é muito próprio a muitos líderes africanos que tiveram décadas e décadas no poder e quando chega a altura de saírem ou quando começa uma altura de fragilidade, começam a pensar na segurança da sua família. E aqui ele começa a pensar num dos seus filhos, não Isabel dos Santos, que estava na Sonangol. Nunca se pensou que uma mulher pudesse vir a ser presidente de Angola, mas pensou, por exemplo, no José Filomeno, seu filho. Mas tinha um problema, e dentro do MPLA disseram que havia um problema, e tenho várias fontes do MPLA a dizerem-me isto, que é: o seu filho não é militar. Ora, então o que é que José Eduardo dos Santos faz? Promove o filho a brigadeiro. Só que isso não é respeitado dentro do partido. Então, parte pra um novo nome. E diz assim: "Quero o Burnito de Sousa". O Burnito de Sousa era um homem do aparelho, muito conhecedor das províncias, das campanhas políticas também. E, portanto, agora quer o Burnito de Sousa. Problema: o Burnito de Sousa também não era militar e no partido dizem: "Camarada presidente, o Burnito não é militar".
E havia ali um militar à mão.
Exatamente, João Lourenço. Evidentemente que houve outros nomes pelo meio, se eu começasse aqui a dizer os outros nomes, não saíamos daqui. Mas a verdade é que João Lourenço acaba por ser aquilo que é descrito como um mal menor. E é nesta altura em que talvez José Eduardo dos Santos comece a perceber, mas ainda não totalmente, que as coisas podem não vir a correr bem. Porque repare numa coisa, ele sugeriu muitos nomes e eles foram sempre negados pelo partido. E só o facto de ele ter sugerido nomes que não eram de militares, e ele sabendo que era isso que o partido queria, eram militares, e ele ao insistir nisso, não estava a dar o devido valor ao partido.
Mais uma vez, tal como aconteceu com a escolha pra ministro da Defesa, é o partido que escolhe então quem é o presidente, quem vai ser o presidente.
Exatamente. Com um pormenor: José Eduardo dos Santos acaba por pedir ou por ter uma cedência do partido, que é Burnito de Sousa fica como vice-presidente de João Lourenço. E ainda uma terceira, aliás, que tem a ver com a continuação do próprio José Eduardo dos Santos como presidente do MPLA, não de Angola, mas do MPLA. E, portanto, ele acaba por fazer esta cedência de ter João Lourenço como presidente e tem, por outro lado, dois elementos, que é Burnito de Sousa, a vice-presidente e ele próprio, a presidente do MPLA. Mas isto acabou por não servir pra grande coisa.
Justino Pinto de Andrade, líder do Bloco Democrático, apresenta uma outra teoria.
Eu penso que o José Eduardo, naquele seu estilo de homem de equilíbrios, pensou: "Agora vou pôr um meio Umbundu no poder". Então eu penso que o José Eduardo fez esta leitura, porque havia uma grande contestação, porque só vocês é que mandam, os Quimbundos, já não é o Neto, depois o Eduardo, agora se vem o Nandó, é um outro Quimbundo, se vem não sei quem, é outro Quimbundo. E eu penso que ele fez uma escolha com base neste raciocínio de equilíbrio étnico. Este é do Lobito
Portanto, vai neutralizar algum eleitorado potencial da UNITA.
E João Lourenço assume esse papel de candidato à presidência da República e logo na campanha eleitoral começa a mostrar e a dar sinais de que há ali uma rotura com José Eduardo dos Santos.
Mais uma vez, não vimos isto à altura, mas soubemos agora. Soubemos nós, Observador, através de várias conversas com fontes e dentro do partido dizem-nos isto: João Lourenço adotou um slogan que José Eduardo dos Santos já tinha utilizado antes, que era...
Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal.
Vamos melhorar o que está bem e corrigir o que está mal. O voto certo. Número quatro. O candidato João Lourenço. E a bandeira MPLA.
Ao fazer isto, acaba por haver ali uma ideia de continuidade de um para outro. Problema para José Eduardo dos Santos: durante a campanha, ou ao início da campanha, a equipa do José Eduardo dos Santos estava na campanha de João Lourenço e dava-lhe discursos para ele ler. Portanto, os discursos eram escritos por outra equipa que não a sua. E João Lourenço desde o início disse: "Não, vou fazer o meu próprio discurso". E portanto, ao fazer isto, João Lourenço já demonstra ali um desejo de independência e de um certo descolamento a vários níveis do José Eduardo dos Santos, que mais tarde se veio a concretizar em medidas muito concretas já quando ele se tornou presidente.
Quem é verdadeiramente patriota apoia ou não o combate à corrupção?
E aí torna-se praticamente no exonerador implacável.
Foi essa a alcunha que vingou nas redes sociais e em vários meios. Há até um kuduro em honra a João Lourenço em que se exalta essa decisão de exonerar tudo e todos.
João Lourenço estás a trabalhar. João Lourenço ouve o que está. João Lourenço exonera. João Lourenço exonera.
Na verdade, eu disse exonerar tudo e todos, mas na verdade também não foi bem isto. Foi, sobretudo, a exoneração de pessoas muito próximas de José Eduardo dos Santos. E quando digo muito próximas, estou mesmo a falar de muito próximas, estou a falar da família. Os filhos que tinham a concessão para a TPA2, o Correndo e a Gizé dos Santos, foram exonerados. José Filomeno dos Santos também foi exonerado do Fundo Soberano de Angola e Isabel dos Santos foi exonerada da Sonangol. E isto cria aqui uma posição em que João Lourenço está a assumir uma rutura com o passado. Depois podemos tentar discutir se isto é uma coisa mais de marketing do que outra coisa. Mas para todos os efeitos, há aqui um corte muito claro com José Eduardo dos Santos.
E ele consegue cimentar e tem vindo a cimentar essa posição de distanciamento. Há outras histórias que mostram isso também, não é?
Sim, há uma história que se passa já no Congresso de 2018 do MPLA. E neste congresso, João Lourenço é chamado a falar no pódio e José Eduardo dos Santos era presidente do MPLA, mas já se sabia que ia deixar de ser presidente nessa altura, nesse congresso. Portanto, já não era presidente de Angola, continuava do partido e ia ali sair.
Portanto, isso era mais um problema resolvido para João Lourenço.
Exatamente. E, no fundo, ele já estava ali a sair de cena, já não fazia nada, mas estava na primeira fila. E o que João Lourenço faz? Faz um discurso em que saúda o arquiteto da paz, o camarada presidente, José Eduardo dos Santos.
Trouxe a tão almejada paz definitiva, o perdão e a reconciliação nacional entre irmãos antes desavindos.
Mas depois destrói-o. Ele faz um discurso em que faz uma lista de males a corrigir em Angola, diz que esses males são, por exemplo, a corrupção, o nepotismo, a bajulação, a impunidade. Faz ali uma série de afirmações, dizer que se tem que perseguir a corrupção doa a quem doer. Quer dizer, naquele pano de fundo, era evidente que a mensagem era dirigida àquele senhor de 70 e tal anos, sentado na primeira fila, que só por acaso tinha sido presidente de Angola e seu antecessor. Isto já é mau que chegue para a figura do José Eduardo dos Santos.
Estes males apontados aqui são o inimigo público número um, contra o qual temos o dever e a obrigação de lutar e de vencer.
Pior ainda era que aquele auditório onde isto correu estava cheio, porque era uma sessão da juventude do MPLA. Então, de repente, estamos a ver e a ouvir centenas de jovens naquela sala a rirem e a aplaudirem como se fosse uma revolução ali em curso, que não foi bem isso, mas ainda assim estavam a rir e a aplaudir todas as declarações em que João Lourenço atacava de forma, não diria literal, mas bastante clara, José Eduardo dos Santos e talvez os seus últimos anos no poder. Portanto, isso foi uma cena destruidora e que deixou José Eduardo dos Santos numa posição já muito frágil.
Isso deve ter sido uma situação muito difícil para José Eduardo dos Santos, que pouco tempo depois deixa Angola, segue para Barcelona e nunca mais voltou à Angola.
Exatamente. Ele sai do país. Ninguém sabe certamente se ele voltará ou não, mas muitos palpitam que já não o fará, pelo menos em vida.
João Almeida Dias, há uma dúvida que se mantém: havia ou não havia um acordo entre João Lourenço e José Eduardo dos Santos, ou pelo menos alguém que os representasse ou que representasse a família, para uma não agressão Que se vai verificar com aquilo que Isabel dos Santos chama de perseguição política que vai acabar nesses processos judiciais.
Essa é uma questão que, entre as várias pessoas com quem nós falamos, ninguém nos deu um relato definitivo. Tenho pessoas, todas próximas, por isso acabo por dar-lhes valor, mas de facto contam todas histórias um pouco diferentes. Há pessoas que me dizem que João Lourenço não é uma pessoa para fazer qualquer tipo de acordo desse gênero, ou seja, um pacto de não agressão não é algo que João Lourenço queira fazer. Também tenho outra pessoa, um diplomata, que me diz que sim, que houve uma conversa, mas que é uma conversa entre dois surdos e dois mudos. Eles falam pouco, ouvem pouco e cada um terá dito aquilo que mais lhe interessava e pouco terá ouvido. E depois também há a Paula Cristina Roque, que é uma investigadora da Universidade de Oxford. Ela tem uma conversa com um membro do bureau político que versou sobre esse assunto.
Um elemento do bureau político do MPLA disse-me que houve um acordo não escrito em 2017 entre a elite do partido dominante. E recorde-se que João Lourenço defendeu o lema anticorrupção. Então, alegadamente, houve um acordo para fazer tábua rasa, ou seja, não haveria processos contra os protagonistas da corrupção e gestão danosa até aí. Apenas daí para frente. A partir de 2017, quem insistisse nessas práticas enfrentaria as consequências legais.
Há aqui várias opções para esta questão de ter havido ou não ter havido um acordo. Agora, o final da história nós já sabemos mais ou menos, que é: a ter havido um acordo em que haveria um pacto de não agressão à família de Eduardo dos Santos, esse acordo foi quebrado, porque Isabel dos Santos está em vários trabalhos em Angola, ela própria já não vai lá há bastante tempo, admitiu isso numa entrevista ao Observador, e, por exemplo, José Filomeno dos Santos chegou a estar preso. Não creio que um acordo pudesse deixar de fora estas hipóteses. Ao ver os seus capitais e seus bens congelados, por um lado, Isabel dos Santos, e ter o José Filomeno dos Santos preso, certamente não seriam opções contempladas pelo ex-presidente José Eduardo dos Santos.
Também Luanda é um centro de oportunidades, em teoria, porque a prática é mesmo outra. Nós, quase que todos que vivemos no interior de Angola, Luanda parece o El Dorado mesmo, tudo está em Luanda. Há uma abordagem muito diferente, parece que estamos em outro país, mas dentro de Angola.
Este é Domingo Jaime, 29 anos, licenciado em Direito, mas vive de expedientes. Adulce Neto encontra-o na marginal de Luanda. À pergunta "João Lourenço mudou alguma coisa?", a resposta é esta.
Mas é aquilo que se diz: substituímos os seis pela meia dúzia. Só substituímos a pessoa, mas as práticas continuam as mesmas.
Domingo Jaime quer ser escritor e na mão segura uma cópia d'Os Miseráveis, de Victor Hugo.
Isto nenhum homem, nem Napoleão Bonaparte, muda um império. É preciso que os cidadãos sejam mais ativos, mas para tal é necessário investir fortemente na educação, que é o princípio. Eu pelo menos já dei aulas e tudo mais. É mesmo o calcanhar de Aquiles de Angola.
E para acabar esta conversa, João, que futuro terá João Lourenço? É um presidente de pedra e cal na presidência de Angola, vai cumprir os mandatos e sair?
Eu vi uma imagem nas redes sociais em que havia uma montagem com quatro imagens angolanas. Uma era aquela cerveja angolana, a Cuca. Outra era um calulu. A outra era uma fotografia da Baía de Luanda. E a outra era João Lourenço. E a pergunta era esta: se tiver de abdicar de um, qual é que é? Se isto fosse em 2017, 2018, na altura em que se faziam kuduros em honra ao exonerador implacável, João Lourenço, tenho a certeza que se calhar até alguém poderia prescindir talvez da Baía de Luanda ou do calulu, acho que da Cuca, não.
Da Cuca acho que não.
Mas também não quereriam abdicar de João Lourenço. Agora, a história em 2020 é muito diferente, parece-me. João Lourenço tem uma postura de combate à corrupção no início, mas a verdade é que isso não teve uma repercussão na qualidade de vida das pessoas. Eu falei até com a Cisaltina Coutaia, que é a pessoa que lidera a Open Society Angola, que tem uma interpretação muito interessante da maneira como João Lourenço combate ou não a corrupção e a maneira como ele olha para o MPLA. É melhor ouvirmos o que ela tem para dizer.
Eu sempre achei que o dilema de João Lourenço seria entre salvar o Estado ou salvar o MPLA. E ainda não sei bem dizer qual é que ele preferiu salvar.
Portanto, há este dilema que a Cisaltina tem e que, na verdade, muitos angolanos têm, que é o que João Lourenço quer salvar no meio disso tudo. Ele já não tem a carta branca para fazer tudo. E depois há outro elemento que é muito importante, que já falamos sobre ele, que é o preço do petróleo. O preço do petróleo voltou a descer, está muito por baixo, muito dificilmente volta a subir para os níveis de outrora e sequer até para níveis que sejam minimamente saudáveis. E João Lourenço tem este problema. Pela frente, tem uma grande cidade, que é Luanda, que é das maiores cidades de Angola, e é a que cresce mais depressa em África, não em Angola, em África. Tem ali uma série de problemas que terá de tentar resolver e será difícil arranjar os meios para isso. Não quer dizer que o MPLA não seja um partido hegemônico, não quer dizer que o presidente não tenha grande poder, mas vida fácil não terá. E se é para fazer apostas, eu aposto que João Lourenço não vai durar o tempo todo de José Eduardo dos Santos. José Eduardo dos Santos só houve um e não parece que venha a haver outro. Mas para todos os efeitos, João Lourenço tem poder, mas também não tem um poder inquestionável. E esse é o grande desafio dele próprio. Agora, não, já não tem a popularidade de outrora, já não lhe fazem kuduros e eu diria que ele vai ter de encontrar outra maneira para conseguir satisfazer a população angolana.
João Lourenço já cumpriu três dos cinco anos de mandato na Presidência da República. Neste quarto e último episódio da "Corte de Luanda", ficámos a perceber como chegou à presidência e os desafios que enfrenta num país muito débil do ponto de vista económico e social. Para estes quatro episódios, falámos com 89 pessoas e consultámos muita informação. O que ouvimos nesta série é apenas uma amostra do material que recolhemos e que, em grande parte, está nos textos que já publicámos. Neste episódio ouvimos, além dos sons das entrevistas feitas por Dulce Neto em Angola, o coro do Exército Vermelho a cantar "Katyusha". Ouvimos também sons do MPLA, como aqueles das campanhas eleitorais de 1992 e de 2017. Escutámos ainda a CNN a anunciar a morte de Jonas Savimbi, o testemunho de Mónica Moura no caso Lava Jato e que está disponível no YouTube. Há também Isabel dos Santos em entrevista ao Observador e tivemos Kuduro dos LinkDep com "João Lourenço is Over". E claro, Balume Keno de Bonga, esta música que estamos a ouvir e que nos acompanha nestes quatro episódios. A sonorização é da Beatriz Martelo Garcia. Este é um podcast da Rádio Observador, que está disponível no site e nas habituais plataformas de podcast. Eu sou o Ricardo Conceição.