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Vamos ver o que é que isso dá. Acho que deve ser bom.
Esta é a Isabel dos Santos. Está no mercado de La Boqueria, em Barcelona, na véspera de Natal de 2019. É o que mostra na conta pública que mantém no Instagram.
Então aqui no Natal vou provar umas ostras na praça.
Isabel dos Santos está à procura de mangas, papaías, ostras, frutos secos, tudo para a ceia de Natal. O pai, o ex-presidente da República de Angola, está em Barcelona há largos meses. É em Barcelona que José Eduardo dos Santos está a receber tratamentos para um problema de saúde. Isabel dos Santos sorri para a câmera do telemóvel e vai mostrando as bancadas com os produtos frescos. Nesse mesmo dia, a 24 de dezembro, publica uma outra mensagem também no Instagram.
Estou aqui para desejar a ti hoje um feliz Natal, que este ano traga para ti e para tua família paz, amor, carinho, muita felicidade e muita saúde. Um feliz Natal, boas festas e um feliz Ano Novo.
Quatro dias antes desta publicação no Instagram, a 20 de dezembro de 2019, "O Observador" divulgava a entrevista a Isabel dos Santos. Uma conversa com mais de duas horas que publicamos na íntegra.
A convidada de uma edição especial do "Sob Escuta" esta semana, é uma das maiores empresárias africanas, é também considerada a mulher mais rica de África e é filha do antigo presidente angolano e além disso, é acionista em algumas das maiores empresas portuguesas, engenheira Isabel dos Santos, bem-vinda ao "Sob Escuta".
Obrigada.
A filha do ex-presidente de Angola queixa-se de perseguição.
Hoje Angola para mim não é um sítio seguro.
Acha que podia ser um alvo específico por ser quem é?
Não há dúvida que há uma tendência de tentar fazer parecer na sociedade que todos os males que haviam antes era um grupo pequenino de pessoas, que era o presidente e a sua família, e que mais nada.
E a partir daqui, a vida de Isabel dos Santos e da família mudou. A 19 de janeiro de 2020, o Consórcio Internacional de Jornalistas revelava o caso Luanda Leaks no Expresso e na SIC.
Jornal da Noite, com Clara de Souza. Sejam bem-vindos ao Jornal da Noite e começamos hoje com a maior investigação jornalística aos negócios de Isabel dos Santos. Uma fuga de informação com mais de 715 mil documentos analisados por 120 jornalistas dos maiores órgãos de comunicação social de todo o mundo começam hoje a ser divulgados. O Expresso e a SIC associaram-se a este consórcio internacional e esta noite vamos revelar como a filha do antigo presidente de Angola fez chegar pelo menos 115 milhões de dólares dos cofres da Sonangol a uma sociedade do Dubai controlada por pessoas próximas de Angola própria.
Bem-vindos à Corte de Luanda. Terceiro episódio: A cara do pai. É uma opinião unânime. Isabel dos Santos é a filha preferida de José Eduardo dos Santos. Até que ponto Isabel beneficiou desse facto? Como foi o percurso de Isabel até ser considerada a mulher mais rica de África? Isabel saiu de Angola e nunca mais voltou. Nem sabemos se o fará nos próximos tempos. Neste episódio, guiados por Filipe Fernandes, vamos ficar a perceber como é forte a ligação de Isabel dos Santos ao pai e ao poder em Angola. Filipe Fernandes é o autor do livro "Isabel dos Santos: Segredos e Poder do Dinheiro". Eu sou o Ricardo Conceição. Bem-vindo, Filipe Fernandes. Obrigado por teres vindo. Onde está Isabel dos Santos?
Isabel dos Santos circulava entre Lisboa, Londres e o Dubai. Barcelona, onde está o pai. Era, digamos, este o circuito, desde que saiu de Angola em agosto de 2018. Nesta altura, eu creio que isto é uma forma de ela se esconder mais ou estar menos próxima das polícias e da Interpol. Penso que ela estará mais entre o Dubai e Londres, mas sobretudo no Dubai, que é um dos locais onde as elites africanas e asiáticas e algumas até europeias hoje em dia estão, porque é um sítio seguro.
Podemos dizer refúgio.
Exatamente, é refúgio.
Isabel dos Santos tem cidadania russa, não é?
Segundo a TASS, em janeiro, diz que ela sempre foi cidadã russa. A mãe é russa e, portanto, ela tem a cidadania russa. No entanto, a mãe também é britânica, eu creio que ela tem o cartão de residência em Londres, portanto, ela pode estar a viver na Inglaterra. Digamos que não é o sítio mais seguro, por razões óbvias. Se houver uma caça global, o sítio mais seguro será sempre o Dubai.
A Isabel dos Santos é filha de uma cidadã russa e do pai, José Eduardo dos Santos, cidadão angolano.
Angolano.
Como é que isto aconteceu, Filipe?
O pai, o José Eduardo dos Santos, aderiu ao MPLA jovem e foi estudar para Baku, no Azerbaijão, na Rússia, onde fez um curso em Engenharia de Petróleos e depois, mais tarde, um curso de telecomunicações, mas adequado à tecnologia militar, para trabalhar nas telecomunicações do exército MPLA, na altura da guerra colonial. E em Baku conheceu uma russa, Tatiana, tal como o amigo dele, que era o Ivan Dunant também.
Tatiana Cucanova.
Cucanova, exatamente. Agora é Reagan, do segundo casamento que entretanto teve. Em Baku, ele e um amigo O que chegou a ser o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que era o Pedro van Dunem. Conheceram duas russas e os dois casaram ao mesmo tempo e em 73 nasce Isabel dos Santos. Nessa altura, José Eduardo dos Santos estava na frente da guerra em Cabinda, que era uma das frentes de batalha do MPLA, onde estava em 73 quando ela nasceu.
Isabel dos Santos nasce em?
Baku, no Azerbaijão.
E a infância depois é passada onde?
Com a independência, em 75, José Eduardo dos Santos vem para Luanda com a mulher e com a filha. É interessante que começa a assumir cargos no governo, chegou a ser Ministro dos Negócios Estrangeiros do governo angolano, e ela vivia num dos bairros que já no tempo colonial era um dos bairros da elite, que era o bairro de Alvalade.
Bairro de Alvalade em Luanda.
Em Luanda, que se transferiu para a elite do governo de Angola e do partido no poder, que era o MPLA, que estava em guerra civil com a UNITA e com o FNLA. Eram tempos complicados, porque Luanda chegou a estar cercada.
E tu contas no teu livro que Isabel é homenagem a uma tia?
Exatamente, é uma homenagem, porque como eram vários filhos e os pais do José Eduardo dos Santos tinham que ir trabalhar, normalmente ele ficava com a irmã Isabel, que era uma das mais velhas, e que ficou um bocado a referência do irmão mais novo. Isso foi uma espécie de homenagem.
O meu pai nasceu no São Paulo. E a minha avó Jacinta vivia no São Paulo com o meu avô Eduardo. E eles tiveram uma primeira filha que se chamava Isabel. A minha avó saía de manhã muito cedo para ir trabalhar e quem tomava conta do meu pai era minha tia Isabel. E por este respeito, este carinho, este orgulho que ele teve na sua irmã mais velha, ele deu-me o mesmo nome de Isabel.
Então leva-nos lá mais à infância da Isabel dos Santos no bairro de Alvalade, em Luanda.
Nessa altura, há um momento quando o pai se torna presidente de Angola.
Cumpro hoje o honroso dever de prestar sermão nesta cerimônia solene de investidura para assumir os cargos de presidente do MPLA, Partido do Trabalho, presidente da República Popular de Angola e comandante-em-chefe das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola.
Não era muito favorável que o José Eduardo dos Santos mantivesse uma relação com uma branca. Isto dito assim parece uma coisa muito dura, mas é a verdade.
Estamos a falar em 1979?
79. 77, 79, quando morre o Agostinho Neto.
E o fato de ter uma mulher branca seria um problema?
Isso seria um problema, apesar de eles já estarem mais ou menos afastados, continuava a ser. E houve uma separação e nessa altura, a mãe trabalhava na Sonangol, no departamento de Geologia, e ela continuava a viver no bairro de Alvalade. A vida na altura seria bastante difícil.
Claro.
Há várias histórias de alguma falta de acesso a alimentos, a bens, etc.
E é aí que vem a história dos ovos.
Exatamente.
Conta-nos lá essa história dos ovos.
A Isabel dos Santos, numa das poucas entrevistas que ela deu, foi ao Financial Times em 2012 ou 2013. E nessa contava que ela já era empresária desde pequena e que até vendeu ovos durante a sua infância, quando andava quase na escola primária. Obviamente, com o país em guerra, sem divisas, o preço do petróleo, apesar de tudo, e a indústria do petróleo não era tão forte. Os diamantes, havia sempre contingências. Angola vivia numa austeridade terrível, com uma guerra civil intensa, em que a maior parte do dinheiro iria para compra de armas.
E nessa altura com o êxodo também da população para Luanda, não é?
Sim, tudo a concentrar-se em Luanda. Portanto, havia uma carência de bens alimentares. Por outro lado, era uma economia estatizada. Não havia iniciativa privada. E o que acontecia? Como em todos esses regimes, o que é que as pessoas tinham as suas próprias galinhas, tinham as suas próprias hortas, enfim, e depois faziam a comercialização disso entre as pessoas, nos seus empregos, nos seus amigos.
Havia uma economia paralela.
Exatamente. E a mãe trazia ovos para vender aos colegas e às colegas da Sonangol. E ela quando vinha da escola ia para a Sonangol, para o pé da mãe. E assistia e de certo modo participava, eventualmente ela é que contava os ovos, ela é que separava as caixas.
Estamos a falar ainda de Isabel dos Santos miúda.
Miúda, enfim, no início dos anos 80, teria sete, oito, nove anos.
Podemos tirar já daí essa lógica empresarial ou estamos aqui a extrapolar demasiado?
Eu acho que não. A forma como ela conta dá a ideia que a sua fortuna teria começado nos ovos Agora, que ela tem um certo pendor para uma iniciativa. Há uma outra história, quando ela já vivia em Londres, de ela comprar relógios e joalheria de marcas e de, quando ia de férias à Angola, vender no Natal ao círculo familiar.
Comprava bens de luxo para revender depois em Luanda.
Exatamente, em Luanda. Fins dos anos 80, início dos anos 90.
Que outras características de personalidade é que tu consegues identificar em Isabel dos Santos? Ou que são identificáveis por aquilo que é conhecido?
Acho que ela é determinada. Também vale a pena dizer, dá teimosia. É bastante fria na análise das situações. Tem uma grande capacidade de trabalho. É uma pessoa e tem um lado de iniciativa que ela entusiasma-se muito com o início das coisas. Depois perde um bocadinho isso e distancia-se. Há a história de um restaurante que ela abriu com uma das suas depois parceiras, a Paula Oliveira, que era, como dizia alguém, onde se podia comer sushi sem morrer.
Em Luanda.
Em Luanda. E ela no início até as ementas vigiava e estava atenta.
Mas também tem outro na praia, não é?
Esse foi o negócio inicial.
Esse foi o primeiro.
O primeiro negócio. Isso é um negócio que ela nunca fala, porque era um indivíduo que tinha um negócio na praia, um bar de praia, um restaurante, e que estava sempre a ser incomodado pelas autoridades. Estamos a falar em meados dos anos 90, a seguir às eleições presidenciais com José Eduardo dos Santos já havendo ido em 92.
Estamos a falar de uma Isabel dos Santos com 20 anos, 20 e poucos.
Sim, 22, 23 e no ambiente de Luanda e Angola ainda com grande peso do Estado e da polícia política. E ele lembrou-se: conhecia a filha do presidente de Angola, vou torná-la sócia e vou obter a minha paz.
E vão acabar os problemas.
E vão acabar os problemas. E conta-se, a Forbes, aliás, conta isso no artigo do Rafael Marques. E os problemas acabaram.
Tu já falaste aí várias vezes em Londres. Ela estudou em Londres, como é que foi essa fase da vida?
Quando o José Eduardo dos Santos se casa pela segunda vez, de certo modo, aquilo deve ter sido um incômodo e, portanto, a situação também em Angola não seria o melhor sítio para viver na altura. Segundo vários depoimentos de um general russo nas suas memórias, diz que o José Eduardo dos Santos e Angola a trataram muito bem e, portanto, permitiram-lhe meios para ela viver em Londres com a filha. E ela vai viver para Londres com os seus 10, 12 anos e vai para um colégio e faz lá sua formação toda como estudante e se calhar parte como pessoa, também.
Um colégio internacional?
Sim, num colégio internacional, mas depois vai pro King's College fazer engenharia.
Em termos de referência, é uma grande referência para si, seu pai, o facto de seguir também engenharia foi influência por parte do pai?
Sabes, Pedro, o meu pai foi a pessoa que me ensinou a ler, foi a pessoa também que me ensinou a escrever. Para mim, ele é uma grande fonte de inspiração. Ele é um homem extraordinário, é um homem muito simples, muito inteligente e, sem dúvida, eu acho que ele é uma referência para mim e para outros jovens também angolanos. Hoje sou engenheira, porque gosto de matemática, sempre adorei ciências e segui um bocadinho as passadas dele. Se bem que hoje a minha vida é diferente da dele, mas é, sem dúvida, um grande homem.
E o regresso depois à Angola?
O regresso. Ela, entretanto, quando acaba o curso, vai pra uma empresa que depois integrou a PwC, onde esteve dois ou três anos, viveu em Londres e em Lisboa.
Trabalhei alguns meses numa grande empresa de consultoria, que na altura chamava-se Coopers, que depois fundiu com a PwC, Price Waterhouse, e hoje é Price Waterhouse Coopers.
Só que, aliás, na PwC, se repararam que ela tinha muitas solicitações de Angola quando estava a trabalhar. Até tinha que faltar, porque vinha um ministro, vinha alguém e vinha receber ordens do pai. Depois, a dada altura, em 95, ela decide ir pra Angola e regressa à Angola.
Ela diz muitas vezes que até sentia essa necessidade.
Sentia e eu compreendo. Houve ali um momento de euforia em 91, quando foi assinada a paz, depois eleições, e depois houve ali uma espécie de choque quando recorreu acender uma guerra civil brutal. E eu acredito que ela estivesse ali no meio, muito dividida, como angolana que é.
Falamos também já aqui das relações familiares, mas as relações com os irmãos, e há uma resposta de Isabel dos Santos na entrevista ao Observador.
Eu não conheço nenhum processo judicial em relação aos meus irmãos. Digo irmãos, para já, são meus meios-irmãos, portanto, nós não temos uma relação próxima.
E esta resposta, Filipe Fernandes, indicia que realmente não há uma grande relação entre ela e os irmãos, meios-irmãos.
Obviamente que não há uma grande intimidade entre os irmãos, há relações De familiares. Aliás, basta ouvir falar X, Z da Isabel dos Santos, preservando alguma discrição de alguma intimidade. Diz sempre: "Nunca tive nenhuma relação financeira de negócios com a minha irmã Isabel dos Santos."
Até aquela tirada célebre agora de:
De devolve.
Paga o dinheiro e resolve isso.
Exatamente, para ver se ficamos todos em paz.
O que está em causa? É a dívida de 75 milhões. Pague então. Se estão a pedir euros, não querem kwanzas. Apesar de um Estado normalmente deve querer sempre receber na sua moeda, mas se o Estado está a precisar de dólares, está a pedir à cidadã, que é a cidadã que mais beneficiou das oportunidades de negócio em Angola. Está na hora da cidadã retribuir tudo o que o Estado lhe proporcionou, propiciando que fizesse grandes negócios e se tornasse a mulher que é. E pronto, mande dinheiro para Angola.
Há ali uma relação mínima, até porque ela viveu, no fundo, ela dava-se com os irmãos quando vinha de férias, quando regressava. E depois fez a sua vida um bocado à parte.
E como é que surge o casamento com o congolês Sindika Dokolo?
O Sindika é de uma elite congolesa. E um pouco como ela, também a mãe é dinamarquesa e ele estudou na Europa, estudou em França. Há ali um trajeto semelhante. E depois, obviamente, não sei se a Isabel dos Santos teria tantos partidos em Angola que lhe dessem essa dimensão, porque ele, de facto, tem também uma certa-
Uma linhagem?
É uma linhagem, ao mesmo tempo é alguém mais cosmopolita. Eles conhecem-se em-
Conhece a história de amor ou não?
Não conheço. Não tenho agora de memória, mas sei o dia que a Isabel dos Santos diz que tiveram o primeiro date, que foi o início do seu primeiro encontro, que ela celebrou o ano passado em Itália. Ele foi viver em 99 para Angola, quando a situação no Congo começou a estabilizar. O Mobutu já tinha saído em 1997 e ele foi viver para Luanda, que era um sítio mais seguro e começa a haver uma relação muito forte. Obviamente que não foi um casamento como era nas monarquias europeias e também nas monarquias angolanas.
Claro, não foi literalmente um casamento de casas reais.
Exatamente. Não, e de criar alianças. Enfim, não foi isso. Também há aqui um bocado aquele acaso que leva ao casamento.
Nesta altura, a Isabel dos Santos ainda era muito discreta. Nós sabemos alguma coisa, como é que foi o casamento? Temos sempre notícia de casamento à romba.
Sabe-se porque ela disse. Durante anos e anos se dizia, aliás, um jornal alemão falava em 10 mil convidados, em que os convidados teriam sido todos, haveria linhas aéreas quase.
Uma ponte aérea.
Uma ponte aérea, quase, para o casamento dela. E ela diz que não, foram 800 pessoas. Não é pouco, mas foram 800 pessoas e só tiveram presentes dois presidentes. Aí era mais quase geopolítica, era o Kabila da República do Congo e o Sam Nujoma da Namíbia. E depois, obviamente, foi um casamento com alguma realeza.
Mas nessas coisas há sempre aquela pergunta: sabe-se quanto custou ou não?
Não, isso não se sabe, mas não custou tanto como dizem, como falam, assim, números absurdos. Quer dizer, foi um casamento caro, aliás, porque muitas das coisas foram de Portugal para lá. Foi um casamento ao nível daquilo que Angola acha que a filha do seu presidente na altura merecia.
Filipe Fernandes, falamos aqui, ou falei eu, na questão de ela ser mais discreta nessa altura. Isto tudo muda e passamos, de há uns anos, a ter uma Isabel dos Santos nas redes sociais, muito ativa. O que aconteceu a Isabel dos Santos para ela passar de um registo mais discreto para um mais público?
Há várias explicações, mas eu acho que a compra da empresa Diamantes permitiu chegar a ir a Cannes e estar com todas as estrelas de cinema que lá estavam, jantar com elas, tirar fotografias com elas.
E vemos isso no Instagram de Isabel dos Santos.
Mas começa em 2014. Depois, eu acho que há aqui uma mudança que poderá ter a ver com a perspetiva de futuro dela, e ela achar que estando mais exposta mediaticamente, estaria mais defendida.
Mais protegida.
Mais protegida de alguma alteração que pudesse haver em Angola, que iria haver, inevitavelmente.
Com a saída do pai.
Com a saída do pai, porque o pai sairia, inevitavelmente. Exposta politicamente, e se eu adicionar exposta mediaticamente, é um coquetel Molotov.
Pode ser explosivo.
Pode ser explosivo.
Mas quer dizer, naquilo que estás a dizer, isto é pensado, não é algo que resulta.
Até porque a anterior situação era pensada.
Olá, fazendo um pequeno live aqui da Rússia, São Petersburgo, conferência internacional, econômica.
Porque ela tinha, por exemplo, um assessor de comunicação, um consultor de comunicação, que tinha a indicação de que ele não poderia falar por ela Ela queria manter-se. Ela era empresária, era discreta. Mantinha-se, aliás, ela dizia que não queria cargos políticos, não queria nada, ela era puramente empresária. E há ali um aumentar de exposição, eu penso que nisso. Depois, há uma outra situação que eu acho que veio expor irremediavelmente e que, de certo modo, explica a situação em que ela se encontrou hoje. Há uma coisa que ela na vida sempre fez: ela sempre fez o que o pai lhe pediu, e isso foi fatal quando ele pediu para ir pra Sonangol. E ela foi, porque eu penso que a situação da Sonangol era desesperada e ele não tinha mais ninguém.
Mas o caso mais emblemático pra mim ainda é da Isabel dos Santos.
Esta é a voz de Reginaldo Silva, é jornalista e analista político, entrevistado pela jornalista Dulce Neto, em Luanda, falava aqui dos processos judiciais em curso. Isabel é a cara do pai, diz Reginaldo Silva.
Pra mim, é mais emblemático, até pela proximidade que ela tem do presidente anterior, porque eu devo confessar, eu sempre vi em Isabel dos Santos a cara do pai, em termos de influência, do seu próprio poder e da forma como ela foi subindo na hierarquia econômica e social.
Isabel dos Santos é a menina do papai?
É. Em vários aspectos é. E por muito que ela queira apresentar a sua carreira empresarial como mérito seu, da sua inteligência, da sua capacidade de trabalho. Aliás, ela ainda recentemente dizia: "Por que não aplicam o mesmo princípio que aplicam ao europeu e a outras empresárias? Porque um africano pode ser um grande empresário como um europeu." Ela tenta muito isso, mas ela não deixa de ser filha do presidente da República e há casos óbvios em que lhe foram entregues, sobretudo na última fase, projetos diretamente do palácio presidencial.
Já lá vamos, mas ela queixa-se mesmo na entrevista, por exemplo, ao Observador, pôs muita tônica nisso. "Eu não tenho culpa de ser filha de quem sou", é basicamente o que ela diz.
Ou então você acha que os presidentes não deviam ter filhos? Ou que se os presidentes tivessem filhos, os filhos não deviam morar naquele país? Ou então, mais, os presidentes podem ter filhos, podem morar no país, mas os filhos dos presidentes não devem ter os mesmos direitos que os outros cidadãos. Ou seja, é ridículo.
Ela não tem culpa. Obviamente, que eu acho que há parte do seu percurso empresarial, que pode ser desligado um pouco dessa. Agora, é inevitável que ela, por exemplo, quando tem parceiros como o Américo Amorim ou a Sonae, eles escolhem-na não só pelas suas capacidades pessoais e empresariais. Sabem ou pressentiam que sendo filha de quem é, poderiam ter o caminho facilitado.
Então vamos olhar aqui pro percurso empresarial de Isabel dos Santos. Tudo começa com um negócio de distribuição de bebidas?
A questão é que há várias histórias do início. Nenhuma delas tem nada de-
Transcendente
...transcendente. Eu acho que é uma questão dela se decidir a contar. O primeiro é essa do bar na ilha. Depois, há duas versões. Uma é que ela foi trabalhar pra um grupo chamado Grupo Gemas, que tinha uma empresa, que era a Urbana 2000, que fazia a limpeza de Luanda. E ela trabalhava lá como engenheira e as comunicações lá na altura eram feitas por walkie-talkies, pelas movimentações. E ela tem os primeiros contatos com a Ericsson.
E abri com um amigo meu, que também é formado nos Estados Unidos, uma empresa de logística. Nós fizemos uma startup, logística, que ele dizia que era beverage delivery. Nós fazíamos distribuição de bebidas. E para controlar efetivamente os caminhões, porque tínhamos comprado caminhões em segunda mão, tínhamos dois caminhões em segunda mão, eu vendi o meu carro.
Mas nunca diz quem é o amigo. Porque se fosse, digamos-
Alguém com quem ela estudou?
Que estudou nos Estados Unidos e que depois estava em Angola e, portanto, falavam a mesma linguagem e que aí começaram. E depois tinham também o mesmo sistema de walkie-talkies.
Um sistema de comunicação com os motoristas, não é?
Exatamente. E que depois disso foi progredindo para uma empresa de telecomunicações, porque compraram o sistema da Motorola. Havia um empresário, que era o Horácio Roque, que dizia: "Cada fortuna tem a sua história". Portanto, cada um conta a que quer. Mas inevitavelmente, o grande negócio, digamos, é a Unitel.
Que é a operadora de telecomunicações-
Privada, que veio concorrer com a Movitel, que era estatal, em Angola, e que foi um sucesso brutal, porque depois aqui é preciso-
Desculpa, deixa eu te interromper aí, porque ela na entrevista ao Observador, a entrevista que está disponível em podcast, ela põe a coisa: "Tudo começou numa sala, era uma pequena sala, éramos 15 pessoas, mobília emprestada, em segunda mão".
As pessoas passam pela rua, veem o hotel e dizem: "Puxa, grande hotel, grande negócio". Mas o hotel não nasceu construído. Hoje olha-se pra rede da Unitel e diz-se: "Uma grande rede", mas alguém teve que a construir
Isto é um período de investimento de 20 anos. Em termos de investimento, que é um investimento muito demorado. Agora, se me perguntar assim: de onde é que veio o dinheiro para a Unitel investir? E eu respondo-lhe: todos os anos os sócios reinvestiram. No início da Unitel, reinvestiam quase 100%. A partir do sexto, sétimo ano, começaram a reinvestir quase com 80% a 70% do valor que ganhavam. Enorme.
Ou seja, o retrato que tira dessa Unitel é uma coisa construída ali desde o zero.
De certo modo, ele tem razão. Até pode ter começado assim, porque a Unitel quando começa é simplesmente uma licença do governo de Angola para operar. E é preciso contextualizar, porque em 98 está em plena guerra civil. É o culminar da guerra civil, um dos momentos mais intensos, que é quando e é nessa altura que a UNITA começa a perder algum fulgor, porque entretanto surge a dificuldade de comercializar os diamantes, enfim, que lhe tira algum suporte. Mas a guerra é muito intensa e, portanto, o governo de Angola fez um concurso para atribuição da segunda licença e ninguém concorreu, obviamente. E estou convencido que podia ter aberto até 2001 várias concursos que ninguém iria, na situação em que está. E, portanto, a única opção foi dar à Isabel dos Santos, mais à Sonangol, ao general Dino e ao general Kopelipa. Entretanto, ela conta isso, mas ela vem à Europa procurar parcerias, porque sabe que para construir uma peça de telecomunicações daquelas, uma rede, tem que ter parcerias. Portanto, poderá ter andado por uma antena ou outra, mas obviamente não foi por aí. E o ponto de partida é quando a PT, a Portugal Telecom, na altura, entra para o capital. E em 2001 começa a operar e tem apoio também dos Ericsson e de outros que ela explica. E o sucesso, entretanto, dá-se a morte do Savimbi e a Angola fica em paz. E as telecomunicações tornam-se um sucesso em Angola e noutros países de África. A seguir, a Europa, mas foi um sucesso tremendo. Depois aquilo torna-se uma cascal, quer dizer, aquilo começa a despejar dividendos.
Que segundo Isabel dos Santos, depois são reinvestidos.
E distribuídos. Parte são distribuídos. Aliás, cada um deles terá recebido desde 2001 até agora, 1 a 5 mil milhões de dólares. Quer dizer, é muito dinheiro, são 20 anos quase, mas é muito dinheiro.
E depois, supermercados, quer dizer, há uma série de investimentos.
Sim, ela começa depois a seguir, alia-se com o português Fernando Telos e o Américo Amorim para fazer um banco em Angola. Depois isso dá a entrada na Galp, que tem várias histórias.
Então vamos falar dessas.
Agora nos Luanda Leaks, o Sindika diz que foi ele que falou com o Amorim e que negociou com a Sonangol a entrada na Galp.
Andei na praia com o senhor Amorim. Era um senhor realmente por quem tinha muito respeito, porque lembrava muito o meu pai, que tinha falecido há pouco, que era um homem que começou quase do nada e com o sentido dos negócios, inteligência, determinação e visão. Fundamentalmente, os dois tinham uma grande visão. Conseguiram tornar-se os grandes empresários de referência, cada um do seu país.
Daquilo que sei do Américo Amorim, eu acho que o Américo Amorim já conhecia há muitos anos o presidente da Sonangol da altura.
Manuel Vicente?
Sim. Era o Manuel Vicente.
O irritante.
Exatamente, o senhor do irritante. E que o conhecia há muitos anos. E, portanto, eu creio que isso estava na Sonangol e Isabel dos Santos, que já estava na cabeça dele e foi ele que percebeu que também isso era uma vantagem, ter a Isabel dos Santos de um lado, ter a Sonangol, isso seria positivo. A seguir começam a fluir os negócios. Depois entra na banca, entra na televisão.
Isso em Angola, para além dos negócios cá, não é?
Porque há aqui uma lógica. Ela entra em negócios onde é importante que Angola esteja no centro ou os representantes angolanos estejam no centro de decisão, que tenham a ver com Angola. Se nós repararmos, o caso do Banco de Fomento de Angola, que era do BPI, e ela entra no BPI, portanto, ela está no centro do BPI para defender os interesses do Banco de Fomento de Angola também. E como se viu, quando foi necessário vender, isso foi importante.
E como é que era a relação dela com os empresários portugueses, como Américo Amorim, Paulo Azevedo, nomes grandes.
Eu penso que ela, apesar dessas coisas, nunca formou relações muito calorosas, porque ela não é uma pessoa calorosa. Aliás, ela olha para os negócios.
Ela olha com grande frieza para os negócios.
Sim. Aliás, o caso de Sonangol, ela pilar. Quer dizer, ela vai buscar o homem Sonangol, que estaria a tratar da entrada em Angola, contrata-o e faz uma cadeia Ela e a Sonangol ficam sem alternativa. E a seguir, ela ia à Sonangol para controlar nós.
Ou seja, estás a descrever alguém que tem um pensamento muito prático.
Sim, aliás, com o Américo Amorim tinha dois bancos em Angola, tinha uma aliança na Amorim Energia, e vai buscar um dos homens fortes.
Mário Leita Silva?
Sim, que era um quadro da PwC, que depois passou para o grupo Américo Amorim e ela tinha relações de negócios com o Américo Amorim, foi buscar o homem forte para si.
Começa agora o jornal das 10 na Rádio Observador com Carla Jorge Carvalho. E Carla, começamos com uma notícia de última hora sobre o Luanda Leaks.
O presidente do Conselho de Administração do Banco de Fomento de Angola renunciou ao cargo. Mário Leite Silva é gestor de Isabel dos Santos. A demissão tem efeitos a partir de 22 de janeiro.
E sempre foi agindo assim, não é? Sempre com grande sentido prático.
Aliás, há alguém que me dizia que ela como não consegue ter o feiticeiro, vai buscar o ajudante do feiticeiro.
Também há quem diga, lendo aquilo que tu escreveste, que ela perde rapidamente o interesse naquele negócio e depois deixa a equipa tratar.
Exatamente. É muito a visão macro, e portanto entrega muito às suas equipas. Escolhe bem as pessoas, paga-lhes bem. Depois tem um lado que, interessante, surgiu com as redes sociais, é que estava em reuniões e tirava selfies.
Mesmo com documentos sensíveis em cima da mesa.
Exatamente.
E isso não era muito bem visto, não é?
Não, porque era um bocado um ar leviano.
Claro. E os diamantes, Filipe?
Os diamantes é uma história que tem ligações, também um pouco com a história do Angolabanca. Os diamantes surgem, havia dois empresários israelitas de origem russa que estavam em Angola, um deles era o Guy Dagmarek, que tinha sido fornecedor de armas e tinha andado pontificado. E que recentemente ganhou o concurso para a construção de uma refinaria e usou o nome que é conhecido em Israel, o nome judaico, e não o nome russo. E quando descobriram, tiraram-lhe a concessão da construção, porque aquilo poderia dar alguns problemas. Houve dois que fizeram uma empresa de distribuição de diamantes, já estavam metidos também no negócio de diamantes, com a conivência do governo de Angola, para terem uma alternativa à De Beers, que era a Scorp. E nessa empresa surge como acionista uma empresa chamada Tais, que é Tatiana e Isabel.
A Tais, que ninguém confirma que é mesmo Tais, Tatiana e Isabel.
Não, isso não confirmam, mas confirmam que Isabel dos Santos era sócia. A Isabel dos Santos e a mãe. Entretanto, um ano ou dois depois, muda de nome e passa só para a mãe. E depois quando há uma fuga de um banco suíço em meados dos anos 2005, 2006, apareceu uma conta da Tatiana, mãe de Isabel dos Santos, com 5 milhões.
Tatiana Cucanova.
Cucanova, exatamente. E que tinha cinco milhões de dólares na conta.
Mas depois há a questão da empresa suíça. Como é que tudo isto entra nesta história?
A empresa suíça, que supostamente, é só o que se indica.
Ela diz que não é dela.
Eu não faço parte da Sodiam, nem da Grisogono. A Sodiam é uma empresa 100% estatal, da Grisogono não sou sócia.
Mas na altura eu acho que seria dos dois. Surge desse relacionamento, do sindica, da sua circulação pelos mundos das artes, das feiras, e conhece o dono dessa empresa suíça, que estava com algumas dificuldades e eles perceberam ali um negócio, poderia ser interessante para a Sodiam, interessante para eles, sobretudo. E portanto, o negócio começa aí, desde o momento que conseguem aliciar a Sodiam a entrar no capital.
Desde 2011, 2012, altura em que foi decidida a participação da Sodiam nesse negócio, o Estado não beneficiou de um único dólar.
Este é Eugénio Bravo da Rosa, presidente da Sodiam, em entrevista à SIC no início de 2020.
Portanto, estamos aqui a falar de uma perda para o Estado de cerca de valores que no total poderão rondar acima de 200 milhões de dólares.
Eventualmente, faria sentido. Em termos teóricos, faria sentido, em termos de como depois se executou, provavelmente não.
Ela tem uma presença também muito forte no mundo empresarial em Portugal. Como é que era a relação da Isabel dos Santos com tanto poder empresarial português e político? Temos que distinguir ou podemos juntá-los?
Podemos juntá-los. Acho que havia ali uma grande admiração.
Passadeira vermelha.
E tentava-se uma grande proximidade O Marcelo, o atual presidente da República, chegou a dizer que seria muito interessante se a PT conseguisse obter a PT na OPA que fez em 2014.
Das intenções à prática, Isabel dos Santos registra esta sexta-feira a sua oferta pública de aquisição sobre a PTS GPS. A empresária angolana retira todas as condições anteriormente impostas para avançar com a OPA e que dependiam da Oi. Isabel dos Santos revê as condições, mas não o valor da oferta.
O caso do negócio da Efacec é claramente isso. É uma empresa portuguesa que está com problemas, não há muita-
Não há quem avance.
Quem avance. Era preciso dinheiro, era preciso resolver o problema e, de facto, ela avançou.
E quando é que tudo isto começa a virar, Filipe?
Isto começa a virar, a minha ideia é a Sonangol é o ponto-chave, ela torna-se objetivamente um alvo.
Ela diz que não foi para a Sonangol por decisão do pai, não é?
Não, não fui escolhida pelo meu pai.
Foi escolhida pelo governo angolano para...
Fui escolhida pelo governo angolano.
E quem é que era o presidente de Angola à altura?
O governo angolano não é uma pessoa. O governo angolano são várias pessoas.
Durante 36 anos.
E sempre foram várias pessoas.
Com uma pessoa à cabeça.
Durante 36 anos com presidente da República.
Por exemplo, o Adultrados Costa, que hoje é um braço direito do João Lourenço, foi que esteve na decisão dela ir para a Sonangol em termos formais.
Formais?
Sim, mas obviamente, ele assinou. Portanto, a responsabilidade é dele também, não é só do presidente da República.
Mas é aí que começa tudo a virar? Achas que é aí?
Eu acho que expõe-a muito em Angola. O facto de ela estar no centro do vulcão, e a Sonangol é o Estado.
Sonangol é um grande pilar da economia angolana.
É o Estado e aquilo tem coisas. Enquanto houve dinheiro, aquilo era creditável.
Dava para tudo.
Dava para tudo. Aliás, geriu lojas alimentares. E tentar mudar é criar inimigos. Obviamente, isso é inevitável. E ela criou muitos, com o seu tempo na Sonangol. E isso torna-a um alvo político, e isso foi a base desta decisão do governo angolano. Por exemplo, o arresto dos bens e das contas. Até tentar asfixiar uma eventual tentativa de financiar movimentos contra o governo de Angola.
Como uma campanha política.
Sim. E isso poderia ser uma tentação, porque o caminho era esse, porque ela estava se a assumir quase como uma adversária política do João Lourenço.
"Jornal das 10" no Observador, com edição de João Felipe Cruz. Boa noite, João. Um tribunal angolano decretou o arresto preventivo de empresas e contas de Isabel dos Santos.
Foram arrestadas contas pessoais da empresária angolana e também nove empresas, nas quais detém participações sociais.
Mas tudo isso também coincide, como estavas a explicar, com a saída de cena do pai. Portanto, o pai sai de cena e de repente tudo começa a mudar.
É, e tinha que mudar. E digamos que o José Eduardo dos Santos, para quem entra de novo e tem que ganhar as próximas eleições e tem que governar um país em crise, tem que arranjar algum bode expiatório, alguma forma de tentar criar um caminho novo, não é? Não tendo responsabilidade sobre o caminho anterior, mesmo que tivesse.
A abajuração e a impunidade que se implantaram no nosso país nos últimos anos e que muitos danos causam à nossa economia, afetam a confiança dos investidores, porque minam a reputação e a credibilidade do país.
Este é João Lourenço, em setembro de 2018, no sexto congresso do MPLA.
Nesta cruzada de luta, o MPLA deve tomar a dianteira, ocupar a primeira trincheira, assumir o papel de vanguarda, de líder, mesmo que os primeiros a tombar sejam militantes ou mesmo altos dirigentes do partido.
Mas naquele congresso do MPLA, há frases de João Lourenço, com José Eduardo dos Santos sentado na sala, muito poderosas a indiciar que as coisas vão mudar, não é?
E têm que mudar, porque se nós analisarmos as eleições livres em Angola, os resultados do MPLA, ele de cada eleição em eleição, perde 10%. Portanto, se nas próximas eleições o MPLA perder 10%, fica com 51. E isso é uma linha muito ténue já.
E aí as coisas vão ter de virar mesmo, não é?
Podem ter que virar mesmo. Portanto, há vários aspetos. Porque se nós formos ver, aquilo que vale para os filhos do José Eduardo dos Santos, se formos aplicar à elite angolana, digamos que não se salva ninguém. Mas se levar esse rigor, Angola volta a ser decapitada e fica novamente um Estado. Não tem estrutura administrativa, para poder funcionar como um país
Uma democracia ocidental moderna, se fizermos coisas assim.
É preciso tempo.
O que é facto é que o cerco se aperta. E o que é que poderá acontecer a Isabel dos Santos? Se fizermos aqui um exercício quase de adivinhação do futuro, achas que ela vai ficar num degredo dourado em Dubai ou algo do gênero? Vai tentar negociar para conseguir resolver as coisas e voltar eventualmente à Angola?
É provável que haja, porque o momento da negociação passou. Negociação quase de igual para igual, que nunca é, porque um presidente da República não negocia de igual para igual. Mas ela teve essa chance.
Quem não aproveitou esta oportunidade, todas as consequências que poderão advir daí, são apenas da sua inteira responsabilidade.
Esta é a voz de João Lourenço, em entrevista à Deutsche Welle, no início de fevereiro de 2020. E perante a pergunta: "Gostaria de ver Isabel dos Santos atrás das grades?" João Lourenço respondeu:
Eu prefiro não responder a isso. Isto é uma decisão da Justiça, eu não sou juiz.
Provavelmente, a ideia que eu tenho e daquilo que me disseram, ela teve essa possibilidade.
E teve a arrogância de dizer que não, foi isso?
Fez, faz sentido. E depois, como me dizem, o João Lourenço também não é uma pessoa de grande flexibilidade nestas situações. Portanto, partiu para a guerra, vai ser difícil recuar.
Você vai ter de 15 a 20 anos para ter de volta isto, porque todos nós que estamos ligados ao processo, sabe como é que isso começa e quando é que acaba. Recursos atrás de recursos, impugnações, vai se arrastar.
Esta é a voz de David Mendes. É deputado, presidente da Associação Mãos Livres e foi entrevistado em Luanda pela Dulce Neto.
Mas toda a gente diz isso, por que ela não fez isso?
Demonstra que, primeiro, confirmação de que você não tem um sistema judicial independente, porque não é o presidente que vai dizer que eu não quero, ele não é o Estado. E mais, se estamos a falar de uma situação judicial, os órgãos judiciais é que têm que encarar o que é melhor em cada uma das fases judiciais. Meu entendimento, negociar com as pessoas de forma aberta e sincera, é o caminho mais lógico.
Agora, há uma negociação mais subterrânea e mais lenta, que morará depois daquele excesso de aparecimento quando foi o congelamento dos bens, o arresto dos bens em Angola e o facto de ela tentar resolver rapidamente os problemas que têm em Portugal das empresas e sair de cena.
E Filipe Fernandes, tu acreditas que ainda vamos ver Isabel dos Santos candidata à presidência de Angola?
Tenho muitas dúvidas. Da família, a única que eu veria era a Chizé, porque é uma política nata. Aliás, basta seguir os grupos dela do WhatsApp para se perceber que ela é ali com uma capacidade discursiva, às vezes interessante.
Que nós não conhecemos tão bem.
Exatamente, tem esse coisa. Eu acho que ela não é, nem nunca quis ser política, e não a estou a ver, até porque a Isabel dos Santos não é uma figura popular em Angola.
Nós somos do MPLA. Eu acho que disso não há dúvida. Somos do MPLA há muitos anos.
Se nas próximas eleições gerais, o candidato do MPLA continuar a ser o presidente João Lourenço, e se o programa não fugir muito àquilo que hoje está a ser defendido pelo MPLA, vai votar noutro partido?
Eu espero que o MPLA consiga realmente rapidamente trocar a sua visão, trocar esta estratégia, deixar de culpar o passado.
E se não trocar? Vai votar na UNITA?
Eu não sei quantos partidos é que vai haver em 2022, portanto, tenho dificuldade em fazer futurologia.
Quando a Unitel começou, aquilo era conhecido por Isatel. Hoje é a Unitel, que é uma grande empresa. Mas era a Isatel. Ela não é uma figura popular. Algumas elites, aliás, o jornal de Angola dava como exemplo, mas ela não é uma figura popular, nunca foi. Portanto, não vejo que ela conseguisse transformar isso num capital político capaz de disputar. E depois o MPLA é um partido complexo, é um partido com muitas variáveis. Aliás, o MPLA até 77, quando há um golpe, uma tentativa de golpe, o MPLA nunca foi unido, ele tinha várias fações e sempre teve. E nesse momento tornou-se, aliás, chou-se praticamente, não havia militantes, há ali uma endogamia muito grande. Aliás, nós quando olhamos para os governantes hoje, eles tiveram todos uns com os outros, uns contra os outros. Portanto, aquilo é uma coisa complexa, não é fácil ser candidato a presidente da República.
And now, as we pray, can I invite you please to stand, and Syndica's wife will now lead us in the bidding prayers.
Catedral de Westminster, em Londres, 17 de novembro de 2020.
We thank you, Lord, for the life of Syndica, who in baptism was given the pledge of eternal life Sindika showed much love for others in his life. May he now experience the loving mercy of God.
19 dias depois de morrer no Dubai, o marido de Isabel dos Santos, Sindika Dokolo, foi sepultado em Londres.
We pray for the repose of his soul, that he will rest in peace and enjoy the company of the saints in God's presence. Hear our prayer.
As cerimónias fúnebres decorreram simultaneamente em Luanda, Kinshasa e Londres e foram transmitidas durante cerca de cinco horas e meia na ZAP, um canal de televisão que pertence em 70% a Isabel dos Santos e em 30% à portuguesa NOS. O império de Isabel dos Santos está a ser alvo de escrutínio apertado das autoridades judiciais de vários países, com Angola no topo da lista. Isabel dos Santos perdeu, por via judicial, o controle da Unitel, a empresa de telecomunicações que fundou. Por cá, deverá perder a posição que detém na EFACEC. No início de novembro de 2020, o jornalista do Observador, Luís Rosa, escrevia que Angola não desiste de tentar ser ressarcida dos alegados prejuízos provocados pela filha de José Eduardo dos Santos. A Justiça angolana pediu o alargamento do valor do arresto das contas bancárias e dos bens móveis e imóveis que Isabel dos Santos tem em Portugal até um valor de 5000 milhões de euros. O juiz Carlos Alexandre aceitou o pedido. No próximo episódio, e último desta série, João Lourenço é a figura em destaque.
João Lourenço!
Quando nos propusemos a combater a corrupção em Angola, sabíamos que estávamos a mexer no ninho do marimbondo.
Foi assim. João Lourenço, estás a trabalhar. João Lourenço, o povo está a gostar. João Lourenço, exonera. Isto nenhum homem, nem Napoleão Bonaparte, muda um império. É preciso que os cidadãos sejam mais ativos. Está a sair ali. Pronto! Começaram a dar tiros. Estão a dar tiros. A ditadura está a dar tiro à população.
João Lourenço é uma escolha que o partido faz avançar, algumas pessoas dentro do partido fazem avançar, para haver ali uma espécie de recado a José Eduardo Santos a dizer: "Nós também temos alguma vontade".
Eu sempre achei que o dilema de João Lourenço seria entre salvar o Estado ou salvar o MPLA, e ainda não sei bem dizer qual é que ele preferiu salvar.
Estes são alguns dos sons que vamos ouvir no próximo episódio: o mimoso. Neste terceiro episódio, ouvimos sons retirados das contas públicas de Instagram de Isabel dos Santos e da irmã, Gizé dos Santos. Ainda sons da entrevista de Isabel dos Santos ao Observador e vários registos das entrevistas feitas por Dulce Neto em Angola. Ouvimos sons da SIC, nomeadamente na abertura do jornal da noite de 19 de janeiro de 2020 e da entrevista ao presidente da Sodiam. Há também um som da TVI e uma peça emitida em novembro de 2014. Há registos de uma entrevista de Isabel dos Santos e de outra de Sindika Dokolo no programa "Hora Quente", da TPA. Há sons históricos do MPLA, que estão disponíveis no canal do partido, no YouTube, e ouvimos também João Lourenço em entrevista à Deutsche Welle. No final, escutámos ainda os sons do funeral de Sindika Dokolo, retirados de uma emissão da TV Zimbo, que está disponível na íntegra no YouTube. Quanto a música, ouvimos um tema tradicional do Azerbaijão, Mugam, retirado de um disco de 1988 que reúne música folclórica da União Soviética. Do disco "A Vitória Certa", ouvimos "Revolução, Revolução". Escutámos ainda "Garota", do duo Ouro Negro e, claro, "Balo Mekeno", de Bonga, esta música que estamos a ouvir em fundo e que nos acompanha nos quatro episódios. A sonorização é da Beatriz Martelo Garcia. Este é um podcast da Rádio Observador, disponível no site e nas habituais plataformas de podcast. Eu sou o Ricardo Conceição.