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Agradeço também ao movimento espontâneo por ter organizado essa festa.

Estamos no início de setembro de 2012, festa de aniversário de José Eduardo dos Santos, 70 anos.

No dia 31, foram realizadas as eleições gerais e agora estão a ser anunciados os resultados.

O MPLA acaba de vencer as terceiras eleições em Angola com 71,8% dos votos. Os aniversários do presidente são, por esta altura, acontecimentos de importância nacional.

Feliz aniversário, camarada presidente José Eduardo dos Santos, arquiteto da paz.

O senhor está aqui no meu coração.

Que são imensas as qualidades que possuis.

Que Deus continue a lhe abençoar rica e poderosamente.

Porque é uma pessoa muito calma, serena e culta.

Uma pessoa extremamente humanista. Em 2017, aos 75 anos, houve futebol, música e festa.

Agradeço também por terem preparado um bolo para festejar esse aniversário e que podem contar comigo.

A filha, Isabel dos Santos, sempre presente, homenageia o pai e o pai da nação.

Amamos muito o nosso pai. É um homem extraordinário, um homem inteligente, um homem calmo, um homem sempre com bom conselho.

2013. Ano da nossa fundação, 28 de agosto. Dia da nossa criação, quiseste que nascêssemos os dois no mesmo dia, obrigado, patrono.

O Estádio da Glória, em Luanda, palco da festa, pertence à AFA, a Academia de Futebol de Angola, fundada a 28 de agosto de 2013, no dia de aniversário de José Eduardo dos Santos.

És o nosso exemplo, desportista, engenheiro, pai, avô e patriota, e és o nosso destino.

Há sempre desporto, banquetes e música, com nomes sonantes como Matias Damásio.

É um privilégio, sobretudo, ter feito dueto com o camarada presidente.

Angola, sobretudo Luanda, para para celebrar o pai da nação, o arquiteto da paz.

No tempo de José Eduardo dos Santos, toda a cidade parava, havia festas por todo lado, havia torneios internacionais de futebol, jantares comemorativos, concertos, etc. Ou seja, era um dia especial, só faltava mesmo ser feriado, como disseram.

Esta é a voz de Dulce Neto, a editora executiva do Observador.

Isto revela bem o culto da personalidade, um certo endeusamento da figura de José Eduardo dos Santos.

Mas no passado, com o ex-presidente da República, eram passeatas, criavam um barraco para se beber, tinha que haver maratonas e por aí fora. Era dia de festa para Luanda toda ou Angola.

Mas era feriado?

Não era feriado. Poderia ser um dia normal, mas um dia de alegria para todo mundo, para todos os angolanos.

José Teixeira é motorista da Kubinga, uma plataforma eletrônica de transporte de passageiros e entrega de comida que conversou com a Dulce Neto em Luanda. A história que também queremos contar passa-se a 28 de agosto de 1982. O presidente faz 40 anos. Recebe como presente um quadro, uma caricatura.

É conhecida como a maca do quadro. Maca em Angola significa confusão.

Problema.

Problema. A maca do quadro é considerada como a primeira purga eduardina, que é quando ele começa a afastar várias personalidades, alguns históricos do MPLA, que lhe poderiam fazer sombra ou que lhe poderiam fazer alguma oposição de alguma maneira.

Mas como é que um presente de aniversário acaba nisso?

Aquilo foi uma brincadeira, digamos assim, que um grupo de funcionários fez para o saudar, mas pelos vistos, José Eduardo dos Santos não teria muito sentido de humor ou então viu aqui um bom pretexto para se ver livre de quem ele não queria. Era uma peça e era um quadro em que o presidente aparecia vestido de fato-treino, porque ele é um desportista, a tocar viola, com raparigas à volta. Mas a caricatura não foi muito bem recebida e Lúcio Lara foi acusado de estar por trás da ideia, também a sua mulher, Rute Lara, e são afastados, assim como o Ambrósio Loko, que é ministro da Educação, e o poeta e biógrafo de Agostinho Neto, o Costa Andrade, conhecido como Ndum Nduma. Pior destino ainda teve Rui Galhanas, o autor do desenho, que foi mesmo parar à prisão. Aproveitou este pretexto e começou assim a livrar-se daqueles que lhe poderiam fazer frente de alguma forma.

Trinta e oito anos depois, e desde que saiu de Angola, em 2019, as festas de aniversário de José Eduardo dos Santos mudaram. Muitos dos que o felicitavam publicamente estão agora em silêncio Outros, mais anónimos, enviam os parabéns pelas redes sociais. Já não há reportagens nas televisões, nem cartazes espalhados por Luanda. Num vídeo divulgado no Instagram, este ano, pela filha, Chizé, José Eduardo dos Santos surge debilitado, envelhecido e já sem as imagens dos brindes e da mesa farta.

Obrigado a todos que me felicitaram. Desejo a todos felicidades, boa saúde, muita paz. Um abraço.

Bem-vindos à Corte de Luanda. Segundo episódio: o chefe. Guiados pela editora executiva d'O Observador, Dulce Neto, mostramos o percurso de José Eduardo dos Santos desde 1979, quando assume a presidência, até aos dias de hoje. São quase 40 anos marcados pela guerra, pela paz desperdiçada e pela corrupção. Ficamos ainda a perceber como as mulheres e os filhos do ex-presidente terão beneficiado da ligação a José Eduardo dos Santos. O pai da nação, o arquiteto da paz, esteve 38 anos no poder em Angola. Eu sou o Ricardo Conceição. Dulce Neto, vamos até ao Futungo de Belas. Estamos em setembro de 1979, já com José Eduardo dos Santos como presidente.

Ele entra sozinho na casa que foi de um rico português, perto do Atlântico, com as ilhas do Mussulo e de Cazenga em frente. Vai sem Tatiana.

Ele tinha 30 e poucos anos? Quantos?

37 anos.

37 anos. E como é o arranque da presidência de José Eduardo dos Santos?

Ele promete reconstruir o país, e ele tentou, à sua maneira, mesmo que parecesse ser à maneira do partido. Ele foi muito inteligente aí também. Ele primeiro dominou o MPLA, aparentemente obediente à cartilha de Agostinho Neto. Ele foi construindo, sem pressas, o eduardismo. Ele libertou os fraccionistas presos, integrou-os no regime, enxotou da roda do poder potenciais adversários, afastou quem não tinha estado do seu lado e corrigiu a orientação ideológica do movimento. Ou seja, até meados dos anos 80, ele segue o modelo marxista-leninista enquanto fazia a guerra, com a ajuda dos amigos cubanos e soviéticos. Justino Pinto de Andrade diz que ele vive num colete de forças até 1981.

E José Eduardo sentiu que estava bloqueado por aquele conjunto de quadros antigos do MPLA, de dirigentes.

Com muitos indivíduos da direção do MPLA a exigir que ele não se desviasse nem um milímetro do que Agostinho Neto pensava, mas que depois, no Congresso dos Argelinos, ele foi varrendo-os todos numa purga interna.

Não queriam que mulatos e brancos se engajassem na luta armada. Então, por uma questão de algum aproveitamento das pessoas, são compatriotas nossos, querem vir lutar, mas há aqui algumas resistências internas. Então, o Neto mandava-os estacionar na Argélia. Iam descendo a conta-gotas à medida que o Neto se apercebesse que já podia vir mais um. Então fazia-os descer, ficavam conhecidos como os argelinos.

E a partir de 1986, o que faz com que muitos dos analistas digam que ele é um homem que sabe ler os sinais do mundo. Eu diria que ele é um homem que sabe ler a alma dos homens também, porque sabe como eles são vaidosos e gostam do poder e por isso depois os compra, mas isso será para mais à frente. Ele vai se afirmando como um subtil mestre da política e da geopolítica. E quando ele vê que o Muro de Berlim vai cair.

Dem zu Folge können Privatreisen nach dem Ausland ab sofort ohne besondere Anlässe beantragt werden.

Ele percebeu que o modelo tinha falido com a queda do Muro de Berlim e que o MPLA tinha que se adaptar aos novos tempos e que tinha que criar novas articulações, porque eles destruíram a economia, criaram um país de pobres.

Esta é a voz de Mikhail Gorbatchov no dia de Natal de 1991. O líder da União Soviética demitia-se e acabava a URSS. O marxismo-leninismo vai pra gaveta, começa a entrar em força o dinheiro do petróleo. Isto numa Angola ainda em guerra com a UNITA a perder força. Estão reunidas aqui as condições para abrir o caminho pra paz, para os acordos de Bicesse?

Sim, eu acho que sim, porque aberta a economia ao mercado depois da queda do Muro de Berlim, podíamos dizer adeus marxismo, viva o capitalismo, ainda que mascarado de socialismo africano, como lhe chamava José Eduardo. Ele tira razões a Washington para o combater na guerrilha. Na balança dos negócios, o petróleo do MPLA pesava mais do que os diamantes da UNITA. E despedidas as tropas de Cuba, do outro lado, também o contingente sul-africano de apoio a Savimbi se retirava, estava pronto para enterrar o partido único e experimentar o multipartidarismo. Por isso vemos aqui que José Eduardo Santos também dá esse passo.

E temos o acordo de paz depois em Bicesse, não é?

Sim, assinado o acordo de paz em Bicesse perante a troika, Portugal, Estados Unidos e a antiga União Soviética, a 31 de maio de 1991. Ele em 1992 está pronto para apagar Partido do Trabalho do MPLA, Popular do nome do país e a Assembleia do Povo passou à Assembleia Nacional e vai a eleições em 1992.

E aí consegue derrotar a UNITA nessas eleições.

Termina a qualidade de representante especial do secretário-geral das Nações Unidas, certificar.

Esta é a voz de Margaret Anstee, era diplomata britânica, chefe da segunda missão de verificação da ONU pra Angola, a UNAVEM II.

Que as eleições realizadas nos dias 29 e 30 de setembro de 1992, podem ser consideradas como tendo sido, de uma forma geral, livres e justas. Ele consegue derrotar a UNITA, tem uma postura completamente diferente da do Savimbi, mas ele vence com 49,57% e as regras acordadas pediam uma segunda volta.

E houve segunda volta?

Não houve segunda volta porque o Savimbi não aceitou o resultado e recomeça a guerra. E dentro de Luanda viveu-se o horror. É aquela chamada o Massacre do Dia das Bruxas. São três dias tremendos, de que toda a gente ainda fala imenso em Angola.

Deixa-me fazer-te esta pergunta, Dulce Neto, qual é novamente o papel de José Eduardo dos Santos nesse Massacre do Dia das Bruxas, nesse retomar da guerra civil em Angola, porque há quem diga que ele colocou travões, outros defendem que a ordem para uma repressão violenta veio dele.

Sim, aqueles que defendem, que têm uma visão de José Eduardo dos Santos como arquiteto da paz, como ele gostava de se auto intitular, ilibam-no completamente desta carnificina. Dizem que tal como no maio de 77, ele não queria derramamento de sangue de todo. Outros dizem que não. Outros dizem até que terá sido José Eduardo dos Santos, num ato maquiavélico, que empurra o Savimbi, sabendo que o Savimbi era intempestivo, violento, agressivo, impulsivo, para esta guerra. E a verdade é que nestes três dias, a UNITA é completamente decapitada.

Dulce, vamos aqui fazer um ponto de situação. José Eduardo dos Santos sai vitorioso do 27 de maio de 77, cimenta o poder tanto no MPLA como no país, assina o acordo de paz, vence as eleições em 92 e consegue uma vitória estrondosa, quando a televisão mostra o corpo caído de Jonas Savimbi cravejado de balas.

Conseguiu a paz. Isto também tem várias leituras. Mas em 2002, José Eduardo dos Santos fica livre para, de facto, reconstruir o país. Tinha os petrodólares e já não tinha nenhum inimigo.

E com esse capital político, com a morte de Jonas Savimbi, ele tem argumentos e consegue argumentos para se manter no poder sem eleições.

Exatamente. Ele teve sempre aqui dois argumentos. Primeiro, estava sem guerra e depois havia que reconstruir o país. Aliás, o grande lema era: Angola começa agora.

É a paz. Esta palavra simples, com apenas três letras, é a essência da vida para nós, os angolanos, que aprendemos ao longo de quatro décadas o valor que a mesma encerra.

A 3 de abril de 2002, José Eduardo dos Santos anunciava na televisão que vinha aí a paz.

Amanhã, terá lugar a assinatura formal da Acta de Luena, que nos vai permitir dizer, com grande alegria, que a guerra em Angola acabou e a paz chegou para sempre

Depois de alcançada a paz. E ele começa a cultivar esta imagem de arquiteto da paz. Ele faz muito o culto da personalidade. José Eduardo dos Santos faz muito o culto da personalidade.

O que não deixa de ser curioso em alguém que é tão reservado, não é?

Faz parte do esquema do poder.

E começa a ser mais visível, Dulce, aquela faceta que atribuem a José Eduardo dos Santos de não admitir quem lhe faça sombra. Nesta altura, isso torna-se palpável?

Sim, dentro do partido, ele cala aqueles que o opõem, comprando-os, era o que eu há pouco dizia. Ou seja, ele tem dinheiro, ele tem o petróleo, ele tem os petrodólares. E ele assim conseguiu convencer muita gente da UNITA a ficar serena, alguns até passarem-se para o MPLA.

Porque chama pessoas da UNITA para o regime, não é?

Também chama pessoas da UNita para o regime.

Dulce Neto, vou aproveitar essa deixa, porque há um episódio ali, mais ou menos no ano 2000, que pode ser importante para perceber as estratégias de poder de José Eduardo dos Santos. E começa numa conversa que ele terá tido com Fidel Castro. Conta-nos lá essa história.

Ele disse a Fidel Castro que estava cansado e que queria sair. José Eduardo dos Santos disse isto várias vezes ao longo dos seus 38 anos do poder. Tanto que quando ele disse que saía em 2017, muitas pessoas com quem eu falei na altura me diziam: "Espera lá, vamos lá ver se sai mesmo ou se não sai", mas como veremos mais à frente, dessa vez ele saiu. E curiosamente, em 2001, ele disse que ia se retirar da política ativa dali a dois anos, e a notícia foi recebida com ceticismo, mas ele fez com que outros se perfilassem à sucessão para depois os aniquilar politicamente. Filomeno Vieira Lopes, que é um economista angolano, um professor universitário muito conhecido, líder também do Bloco Democrático, diz que ele usou a tática do Golungo Alto, que é uma tática do Cuanza Norte, que ele diz: "Quando queremos atravessar um rio, nós não sabemos muito bem onde é que está o jacaré, então vamos lançando pedras aqui e ali, quando ele levantar a cabeça, a gente sabe onde é que ele está e passa do outro lado". E foi muito isto o que aconteceu internamente no MPLA.

Ou seja, ele ia ameaçando que ia sair para ver quem é que punha o braço no ar a dizer: "Eu estou aqui e estou disponível".

E depois o aniquilava. E foi isso que ele fez a João Lourenço.

Os militantes do MPLA e o povo angolano em geral guardarão para sempre na sua memória a imagem do estadista que, entre outros feitos, trouxe a tão almejada paz definitiva, o perdão e a reconciliação nacional entre irmãos antes desavindos.

Esta é a voz de João Lourenço no sexto congresso do MPLA, em setembro de 2018. Durante muitos anos, João Lourenço esteve afastado por decisão de José Eduardo dos Santos. Aqui, depois de assumir a presidência do partido, vingou-se.

Os males a corrigir, e não só, mas sobretudo a combater, são a corrupção, o nepotismo, a bajulação e a impunidade.

Esta imagem do Paladino da Paz desgastou-se muito nos últimos anos do governo do José Eduardo dos Santos. Temos todos na memória a repressão aos jovens ativistas que foram presos. Há muitos outros episódios. Marcelino Moque contava-me dos corpos de outros dois que encabeçavam uma manifestação e que foram atirados aos crocodilos, alguns desaparecimentos. Há muitos episódios que levam algumas pessoas a mostrar o lado menos simpático e dizem até que mais sanguinário de José Eduardo dos Santos. A verdade é que ele, a partir de 2012, endurece muito o seu caráter. Há o caso de um rapper que é brutalmente agredido com barras de ferro e catanas. Em novembro de 2013, há um opositor da política de José Eduardo dos Santos que é assassinado quando está a colar um cartaz anti-governo. Rafael Marques fez uma grande investigação onde ele denunciou os esquadrões da morte.

José Eduardo dos Santos presidiu a uma guerra que levou milhões e milhões de vidas e uma guerra que não tinha sentido. E depois dessa guerra, tivemos esquadrões da morte em Angola. Eu reportei, fiz um relatório sobre as execuções sumárias. Qual foi a resposta de José Eduardo dos Santos, um homem magnânimo?

Claro que há sempre aqueles que o defendem e que dizem: "Ladrão, sim, assassino e sanguinário, não. Eram os homens à volta dele que faziam isto, não era ele, ele não sabia". David Mendes, que é conhecido como o advogado dos pobres e é o presidente da Associação Mãos Livres, deputado independente pela UNITA na Assembleia, que foi durante muitos anos um opositor de José Eduardo dos Santos, denunciando os seus casos de corrupção, tem, por exemplo, essa postura. Acha que ele é um homem da paz.

Mas será que ele mandava fazer? Ou as pessoas para agradá-lo, assim agiam. Ou sentiam: "Não, esse está a incomodar o chefe, vamos dar um jeito".

O mesmo Mário Pinto de Andrade, mas Mário Pinto de Andrade é do bureau político do MPLA, mas ele diz sempre que o maior legado do ex-presidente é a paz.

Falaste em corrupção, e a corrupção é um problema central na questão de Angola

É um assunto incontornável do reinado de José Eduardo dos Santos. Há quatro décadas que a imprensa nacional e estrangeira denunciava casos e expunha práticas de corrupção. Angola tem sido mesmo um dos países mais corruptos do mundo, a julgar pelos rankings da Transparency International. Os últimos dados anunciados em janeiro deste ano apresentaram uma melhoria considerável, teve 26 pontos em 100 na escala da transparência, e nos últimos três anos, desde que João Lourenço foi eleito, que se tornou na bandeira da governação e que veio abalar José Eduardo dos Santos.

E a grande pergunta que toda a gente faz é: até que ponto é José Eduardo dos Santos que está no topo dessa pirâmide da corrupção em Angola?

É inevitável. Rafael Marques tem uma frase muito interessante, diz que ele institucionalizou o saque, ou seja, que ele institucionalizou a corrupção.

Que era a altura da candonga, como se dizia, traficavam-se os ovos, bens alimentares, que eram o que as pessoas mais procuravam, bens essenciais, calçado, roupas. Isto foi tendo um crescendo.

Mas estamos a falar de José Eduardo dos Santos.

De institucionalização estou a falar, quer dizer, como é que tínhamos um modelo, que tinha o nome de socialista, mas era extremamente correto.

Por várias frases, por várias ações, não só pelo exemplo, mas também por várias coisas que ele dizia. Ele dizia que nenhum angolano pode viver só do seu salário, por exemplo, e falou sempre muito da acumulação primitiva de capitais. Ele queria criar uma burguesia forte, ele queria criar uma classe empresarial angolana forte e tinha dinheiro para lhes dar.

Eu quis criar uma classe empresarial, uma classe de ricos.

Este é Justino Pinto de Andrade, ex-membro do MPLA e atual líder do Bloco Democrático.

Eles falavam que era preciso criar uma burguesia, usavam a expressão burguesia.

Mas José Eduardo dos Santos, apesar de o foco estar muito em Isabel dos Santos e nos generais, não se conhece grande fortuna e grandes negócios a José Eduardo dos Santos, mas fala-se muito da ligação dos filhos e de outros testas de ferro que ele poderia ter. Não se pode apontar nenhum caso de corrupção diretamente a José Eduardo dos Santos. Houve aquele caso do Angola Gate. Aliás, ainda antes da paz, já há casos de sacos azuis que são relatados, por isso houve aqui alguns casos. Mas José Eduardo dos Santos é o rosto também, é o topo, porque é ele que cria o sistema, é ele que permite o sistema, é ele que alimenta o sistema, porque isso está na base do seu poder também.

E é um sistema onde muita gente vai buscar dinheiro, não é?

É sistêmico, ou seja, muitos dos opositores ao que João Lourenço agora está a fazer e que dizem que João Lourenço está a fazer uma justiça seletiva, apontando as armas, entre aspas, à família dos Santos e aos seus amigos, dizem precisamente isto, é que isto era um sistema. A corrupção é sistêmica e vive muito do facto de Angola ser um Estado partidário, ou seja, de ter um partido de Estado, que é o MPLA.

Era o modelo soviético e era um modelo que gerava todo tipo de esquemas de corrupção.

Por isso, não foi apenas José Eduardo dos Santos, foi muita gente. Alguns dizem mesmo, como é o caso de Alberto da Costa Júnior, o líder da UNITA, com quem eu falei em Luanda, que se é para prender toda a gente, então não havia governo.

E aqui quem roubou mais, quem roubou menos. E eu sou daqueles que acha que se for para prender toda a gente, vai todo mundo para cadeia, não sobra ninguém na governação. Não sobra rigorosamente ninguém.

Mas recentemente o nome do ex-presidente José Eduardo dos Santos surge pela primeira vez num despacho judicial.

Sim, o procurador-geral da República, quando determinou o arresto dos bens da filha Isabel e do genro, refere várias vezes que o ex-presidente de Angola autorizou o desvio de cerca de 115 milhões de dólares do erário público e favoreceu a filha no comércio de diamantes.

Portanto, eu não sou daqueles que olha para esta questão e diz: "Não, aqui tem uma tora exclusiva e, portanto, os males disto tudo foram José Eduardo dos Santos, que roubou sozinho". Não, não é verdade. Esse é o objetivo estratégico para onde nos querem conduzir.

Perante isto, eu perguntei-lhe por que o João Lourenço teve de fazer isto.

Simples, para ilibar a sua mão disto tudo e para dizer "o MPLA não é corrupto", porque ele está a fazer a defesa do seu partido. E todo mundo em Angola sabe o quanto aquilo foi uma prática coletiva.

Mas José Eduardo dos Santos é atingido não só pelo ataque que é feito aos filhos, mas também pelo desgaste da imagem que é feita. Só a simples expressão usada pelo presidente João Lourenço, marimbondos, é terrível.

Quando nos propusemos a combater a corrupção em Angola, tínhamos noção de que precisávamos de ter muita coragem. Sabíamos que estávamos a mexer no ninho do marimbondo.

Isto é de tal forma que, já fora do poder, em 2017, José Eduardo dos Santos convocou uma conferência de imprensa na sua fundação em Miramar.

Para se explicar.

Para se explicar, para dizer que não tinha deixado os cofres vazios, como João Lourenço estava a dizer.

Que não deixei os cofres do Estado vazios

Quando, na segunda quinzena do mês de setembro de 2017, fiz a entrega das minhas funções ao novo presidente da República. Nessa altura, mais de 15 mil milhões de dólares, o Estado tinha nas contas do BNA, o Banco Nacional de Angola.

Porque, na verdade, José Eduardo dos Santos está a ser apontado como o causador, antes da Covid, agora é muito a Covid também, mas como o causador da situação depauperada em que Angola está, que está numa profunda crise económica.

Deixa-me pegar já nisso, Dulce Neto, para te fazer aqui uma pergunta que tinha preparada para te fazer, que é: José Eduardo dos Santos falha, do ponto de vista político, ao criar e ajudar a criar um país com assimetrias gigantescas, em que a pobreza é atroz, em que o povo vive numa pobreza atroz e há uma classe que vive numa riqueza das Arábias, diria eu. E José Eduardo dos Santos é um dos rostos e um dos culpados dessa situação.

É interessante tu me faças essa pergunta, porque eu estou me a lembrar de alguém, de um opositor dele, que diz que José Eduardo dos Santos não precisou nunca de ser um ditador como o Idi Amin. Não precisou de pendurar as cabeças dos seus inimigos na praça pública, nos candeeiros, não precisou de o fazer. Foi um ditador subtil. Conseguiu dominar, conseguiu ser o senhor absoluto, chamam-lhe o Luís XIV, sem precisar de mostrar sangue. Filomeno Vieira Lopes diz que não é seguro que não haja sangue. Ele diz que um dia os historiadores mostrarão a faceta completa dele. Mas Rafael Marques diz uma coisa muito interessante, que é: em Angola, a corrupção mata.

Um homem que mata o seu povo pela corrupção, pela incúria, pela incompetência e pela repressão, não pode ser um homem magnânimo.

Quando José Eduardo dos Santos sai do poder, os relatórios do desenvolvimento humano da ONU, do Banco Mundial ou da UNICEF mostravam uma realidade terrível. Quarenta por cento dos quase 25 milhões de angolanos viviam abaixo do limiar de pobreza, com menos de 1,7 € por dia. Angola tinha uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo. Em cada mil crianças, 157 morriam antes dos cinco anos. A esperança de vida não passava dos 56 anos. Mais de um terço da população sem água potável, 60% não tinham saneamento básico. Ou seja, José Eduardo dos Santos, que diz "vamos reconstruir Angola", que tem tudo para reconstruir Angola, acaba por desbaratar os recursos todos de Angola. Ele reconstrói alguma coisa, ele fez algumas coisas, algumas estradas, algumas infraestruturas, mas até isso é uma mágoa para os angolanos, porque foram obras mal feitas, não fiscalizadas por causa da corrupção e muitas estão estragadas.

E quando é que José Eduardo dos Santos percebe que tem de sair? É quando o preço do petróleo começa a cair e a doença, por outro lado, se torna mais pública?

Começa-se a falar mais do cancro dele nos últimos anos, mas, na verdade, há um telegrama na WikiLeaks que fala já do cancro muito para trás. Por isso, o que eu acho que é mais determinante do que a doença, aqui, é que a fonte do poder dele diminuiu ou secou. A partir de 2014, com a grande crise de 2014. José Eduardo dos Santos deixou de ter a renda para dar à sua rede clientelar. Por isso, deixou de ter tanto apoio. Por outro lado, a população começou a passar mal e por isso começou a haver mais contestação. Os jovens ganham uma força que não tinham antes.

Culpados da miséria no país não é só um, mas o principal não é segredo, chama-se Zedu. Do comunismo ao conformismo, de marionete ao zurzo. Patrão de poderes, quem te menciona ou é morto ou vai com o zurzo.

E agora a pergunta que se põe é: ficar calado, tens estado a resolver o problema? Esses anos todos que nós estamos a falar de saque, o silêncio salvou as crianças? A quem é que o silêncio salvou?

És um pedaço de ferro, frio e inanimado. Teu coração, se tens algum, bate do lado contrário. Anuncio que não volto a candidatar-me, mas o posto deu-te saudades antes de saltares. José Edo Murphy, o nosso ator mais bravo, ao invés do Nobel, era pelo Oscar que deverias ter implorado.

A voz é de Rafael Marques. A canção é de Luaty Beirão.

Devia medir melhor as palavras, mas agora é tarde. O desespero fez com que me tornasse num grande fardo.

As redes sociais dão-lhes uma dimensão e uma capacidade de luta que eles também não tinham. E José Eduardo dos Santos começa a ser contestado muito nas ruas, mas eu iria dizer, o despudor com que os filhos se apropriam ou usam o erário público, torna-se por demais evidente e começa a chocar, inclusive, muitas pessoas dentro do MPLA. Muitas pessoas dentro do MPLA não gostavam dos filhos de José Eduardo dos Santos. Por isso, digamos que ele sai quando vê que já está a perder poder.

E o partido também, importância crucial aí. A força do MPLA, que nós aqui todos achávamos que o MPLA era José Eduardo dos Santos, é nesse momento Que o partido mostra que o MPLA não é só José Eduardo dos Santos.

Não, porque o MPLA percebe, dizem alguns analistas, e estou a me lembrar do Cédric Carvalho, que é um dos reviews. Os reviews é como se chama aqueles ativistas, os 15 mais dois que foram presos, tiveram greve de fome, houve aquele movimento internacional todo.

Onde estava o Lutut Bibey.

Onde estava o Lutut Bibey. Que houve aquele movimento todo internacional para os libertar. Ele diz que José Eduardo dos Santos foi sacrificado pelo partido, ou seja, o partido percebe que tem que fazer alguma coisa para sobreviver e que à boa maneira russa, arranja um bode expiatório.

Sacrificar altos quadros do PCFE russo, tal como aqui estão a sacrificar altos quadros do partido. Essas pessoas que estão a ser alvos de processos judiciais, realmente são altos quadros. Mas isso tudo é a sobrevivência do partido. As pessoas dentro do partido sabem que é preciso excluir alguns, sacrificar alguns. O próprio João Lourenço também chegou a dizer que não importa, nem que tivemos que sacrificar alguns, terão que ser sacrificados, que está acontecendo. Mas isso tudo só pra uma coisa, sobrevivência do grupo.

José Eduardo dos Santos não é nenhum inocente, mas o partido teve aqui um papel também, de alguma forma, preponderante, ou seja, o poder dele dentro do partido diminuiu. De fato, isso parece muito óbvio.

José Eduardo dos Santos sai de Angola em 2019 e nunca mais voltou a Luanda.

Não, ele sai de Angola muito zangado. Sabemos que ele estava muito doente, ele estava mais debilitado. Faz um pouquinho de confusão como é que um homem que se mantém no poder durante 38 anos, que é um jogador exímio. Pepetela chama-lhe um xadrezista, há outros que lhe chamam planificador, mas que ele é um jogador exímio, é, um estratega, que sabe ler os tempos e sabe ler os homens. Como é que ele vai escolher um sucessor, que depois o põe em causa? Ou seja, há quem diga que ele bebeu do mesmo veneno. Ele não sabia o que João Lourenço era. Ele enganou-se em relação a João Lourenço. Uns dizem isso, outros dizem que não, que ele não teve alternativa. Mas a verdade é que ele comete aqui, Reginaldo Silva, que é um destacado jornalista angolano e foi o fundador do Sindicato de Jornalistas Angolanos, e é um sobrevivente do 27 de maio de 77. Ele diz que comete aqui a sua última derrota e ele não estava à espera. Aliás, ninguém estava à espera que João Lourenço fizesse isto.

Quando se toma a decisão de João Lourenço, ele, de fato, ou não avaliou bem o que é que seria de João Lourenço, ou ficou com alguma coisa ali que falhou, porque João Lourenço, em termos de mudança, desta mudança que nós estamos a viver, surpreendeu-nos a todos, devo confessar. Eu próprio, que tenho uma relação jornalística com João Lourenço que já tem muitos anos, nunca admiti que João Lourenço pudesse fazer uma rutura tão direta e tão rápida, sobretudo. E é aí que eu digo que ele perdeu a batalha, porque o sucessor que ele pensava que era o homem que iria, de fato, manter a sua presença, mesmo ele estando fora do poder, não cumpriu o que ele pensava que ia cumprir.

E José Eduardo dos Santos não regressa a Angola porque tem medo? Tem medo de ser humilhado?

Ele sai zangado e recusa o avião que João Lourenço lhe oferece e é teimoso e vem num avião da TAP. Há quem diga que foi uma birra, há quem diga que é porque ele teme pela sua segurança, embora fosse estranho, porque era o avião dos seus generais que o poderia levar.

Portanto, não vem num avião angolano, vem num avião português.

Ele vem num avião da TAP. Faz escala em Portugal e vai para Barcelona e nunca mais regressou a Angola. Vai regressar ou não? Ele tem imunidade até 2022. João Lourenço já deu indicação de que poderá, eventualmente, ir atrás dele, entre aspas. Curiosamente, em Angola, não se sente uma animosidade com José Eduardo dos Santos. Quer num candongueiro, num dos carros do candongueiro onde eu andei, ou no mais evoluído Lexus de ar-condicionado e vidros fumados, quer num restaurante no Epic Sana, ou um muçeca a comer uns pinchos em qualquer lado. As pessoas não querem mal a José Eduardo dos Santos. Muitos dizem: "Ele pode voltar, este é o seu país e ele deve poder morrer tranquilamente em Angola". Eles têm mais animosidade para com Isabel dos Santos.

É muita pressão. Abre os jornais, é Eduardo. Fecha os jornais, é Eduardo. Vai para as ruas, é Eduardo. É um dia.

É, ele vê tudo.

Mas pode ser recomendado também a não ver.

E acha que isso está acontecendo?

Não sei, pode ser. É uma probabilidade, porque se põe-se na cabeça das pessoas que eles são os culpados.

Esta é a voz de David Mendes, é presidente da Associação Mãos Livres.

Quer dizer, as elites dizem outra coisa, que é: se João Lourenço leva até o fim esta guerra, entre aspas, a José Eduardo dos Santos, o que é que lhe vai acontecer a ele? Se ele um dia sair do poder, o que é que lhe vai acontecer? Também tem que se autoexilar, porque ele também fez parte do mesmo sistema. Aliás, ele próprio disse isso numa conferência de imprensa. Por isso, não se nota em Angola, quer nas altas esferas, quer nos muceques Esta animosidade para com José Eduardo dos Santos. Pelo contrário, as pessoas dizem que ele pode voltar.

Há pouco, Dulce Neto, falaste nessa capacidade de antecipação e de leitura das jogadas por José Eduardo dos Santos. Esse homem que esteve 38 anos agarrado ao poder, hoje já não quer saber do poder ou ainda continua agarrado ao poder?

Paulo Inglês, que é um sociólogo angolano, diz que José Eduardo dos Santos não era extravagante, que a extravagância dele era mandar em Angola, que era quase uma obsessão, o poder. Há um ex-ministro dele que fala comigo e que esteve ligado à UNITA e ao SAVIMBI, e que tem aquela expressão que nós conhecemos muito, que diz que o poder é afrodisíaco, mas também cansa. José Eduardo dos Santos, na verdade, quis manter um certo poder indireto, porque ele larga o poder, a presidência, mas ele quer continuar como presidente do MPLA. E ele tinha legitimidade para o fazer. E aí é que se vê a força do MPLA. Ele podia ter continuado como presidente do MPLA mais algum tempo, mas o partido disse que não, que havia uma tradição entre a presidência do partido e a presidência do país, o tal partido de Estado, e não permite que isso aconteça. Mas ele ainda tenta uma série de coisas. Tenta ser presidente emérito, tenta ter uma série de imunidades e uma série de regalias que depois a Assembleia Nacional não lhe dá. Aliás, é muito curioso que Mário Pinto de Andrade, que é do bureau político do MPLA, diz mesmo: "Presidente emérito? Mas que fantochada é essa?"

Por outro lado, naquela idade e durante aquele período que eu vivi no Congo e depois fui para Punhosogete, fazer os meus estudos, não tive nenhuma namorada, nem tive nenhuma amante, nem congolesa, nem angolana, de nenhuma outra nacionalidade qualquer. Nessa altura, não pensava em ter namorada, nem arranjar filhos, nem casamento, tinha outras preocupações. Portanto, não pode ter nascido qualquer filho.

Esta é a voz de José Eduardo dos Santos, a desmentir a paternidade de uma mulher numa rara declaração sobre a vida privada à TPA. Recorremos mais uma vez a Justino Pinto de Andrade, ex-militante do MPLA e atual líder do Bloco Democrático, porque é importante falar de mulheres e de filhos.

Os filhos dos políticos viraram todos empresários. As mulheres dos políticos também viraram todas empresárias. E todos de sucesso. Por quê? Porque era a lógica do MPLA de preservação do poder. O poder econômico está conosco e, portanto, o poder político também está sempre conosco.

José Eduardo dos Santos teve várias mulheres, algumas que se conhecem, são sobretudo quatro as que são mais referidas, mas há mais histórias. A vida sentimental de José Eduardo dos Santos nunca foi linear. Dizem que ele era um homem muito bonito, muito elegante e fazia muito sucesso junto com as mulheres. Há quem diga que ele era um sedutor, há quem diga que ele era mais seduzido do que sedutor, porque ele era meio chochombo.

Chochombo, Dulce?

Sim, chochombo quer dizer sem graça, introvertido, apagado, bem-educado.

Tímido.

Talvez, sim. Talvez por aí, mas é uma expressão que é muito utilizada lá. Aliás, há uma anedota que me foi contada pela Margarida Paredes, que foi uma amiga do casal, e ela conta que na altura até diziam que ele parecia o selo do povoamento, porque ele tinha tido uma mulher branca, a Tatiana, depois uma mulher mestiça, a Maria Luísa Abrantes, Milucha, mãe da Tsizé e do Coreandu, e depois uma mulher negra, que é a Ana Paula dos Santos e os seus quatro filhos.

Que é a atual mulher. Mas vamos regressar aqui.

Não se pode dizer que seja a atual mulher, porque formalmente e oficialmente eles continuam casados, de facto, mas de facto não estão a viver juntos.

Não estão juntos.

Não. Ele está em Barcelona e Ana Paula dos Santos faz a sua vida em Luanda.

Deixa-me regressar então aqui a Tatiana Kukanova, a primeira mulher russa. Podemos dizer que beneficiou do facto de José Eduardo dos Santos ter estado tanto tempo no poder?

É curioso, porque eu falei com uma vizinha dela, em que o marido dava boleia à Tatiana, na altura em que ele já era presidente, mas eles já estavam separados. E ela fazia questão de dizer: "Ele pode ser presidente, mas eu sou engenheira", como quem diz: "Eu autossustento-me". A verdade é que quando eles separaram, José Eduardo dos Santos deixou uma pensão, que era à filha, que era à mulher, ex-mulher, neste caso. E nós vemos que Tatiana depois entra nos negócios com Isabel dos Santos, numa empresa chamada Tais, que é muito curioso porque diz-se que são as iniciais de Tatiana e as iniciais de Isabel, que esteve envolvida nos negócios dos diamantes.

Isabel, já sabemos, está sob investigação por tudo o que aconteceu nos últimos anos em Angola e pela forma como terá beneficiado o facto do pai ser o presidente. Deixa-me avançar aqui na história para o outro filho, o segundo filho, que é?

Zenu ou Filomeno dos Santos. Filomeno é filho de Filomena dos Santos, conhecida como Necas, mais ou menos na mesma altura da Milucha.

Que é a mãe de Tsizé Coreandu.

Sim, Maria Luísa Abrantes, conhecida como Milucha, que é uma figura muito curiosa, que nunca deixou, na verdade, José Eduardo dos Santos, acompanha-o ao longo da vida e mesmo nestes momentos muito complicados, ela tem vindo várias vezes a público, saindo em sua defesa. Milucha foi, durante muito tempo, presidente da Agência Nacional de Investimento Privado, da ANIP. Ela esteve nos Estados Unidos com os filhos. Há quem diga que durante muito tempo ela nem dizia que os filhos eram filhos de José Eduardo dos Santos, mas quando volta dos Estados Unidos e vê que os outros filhos de José Eduardo dos Santos estavam a ter algumas benesses, que então ela começa a assumir que os filhos eram de José Eduardo dos Santos também. Esta mulher foi também considerada uma das 50 mulheres de negócios mais influentes de África.

E os filhos, Tchizé e Koreandu?

Os filhos, Tchizé, cujo nome é Velviche, que vem daquela planta fantástica do deserto do Namibe. Tchizé é política. Ela diz que ia aos acampamentos do MPLA aos cinco anos. Ela chega a deputada, depois é suspensa, vários episódios muito curiosos. Tchizé teve vários negócios e tem. Ela é acionista da Semba Comunicações, que é uma produtora fundada pelo irmão mais novo, o José Eduardo Paulino dos Santos, conhecido como Koreandu, que é um artista que curiosamente é o único que veio, no meio desta confusão toda depois do Luanda Leaks, dizer que ninguém escolhe a família onde nasce. E ela é acionista maioritária da diamantífera De Oro. Aliás, ela até tem 30% de uma empresa portuguesa, a Central de Frutas do Painho, na região do Cadaval, e que estava a ser investigada pelo Ministério Público português por suspeitas de branqueamento de capitais. O que ela ganhou com José Eduardo dos Santos? Ganhou muito, porque através da Semba, ela teve uma série de contratos públicos para campanhas de marketing e sobretudo pra gestão da TPA, que é a televisão pública de Angola. O Maka Angola, do Rafael Marques, estimava que só em 2016 ela tinha recebido cerca de 87 milhões de euros entregues pelo Estado. E a De Oro recebeu, nesse mesmo ano, uma licença de prospecção inserida num consórcio e que foi dada por decreto presidencial.

Já que falamos de quatro, mas publicamente há pelo menos mais cinco filhos, Dulce.

Exatamente. Que sejam do conhecimento público, há mais cinco filhos, embora se diga que ele tem muitos mais filhos além destes que são do conhecimento público e a quem, aliás, ele também dá bens e também dá rendas.

Dulce, vamos então ao filho que se segue.

É José Avelino Gurgel dos Santos, também conhecido como Joés, que é nascido da relação com Maria Bernarda Gurgel. Ele é conhecido como o empresário dos plásticos, porque a sua empresa, a Neosol, tem 80% de uma grande companhia angolana, a Angoplaste, que tinha uma série de benefícios outorgados por decreto presidencial. Este filho tem aqui duas coisas que eu acho muito interessantes. Uma, ele é noivo da filha de João Lourenço. E sabemos que as relações entre os dois clãs não são as melhores neste momento, mas a verdade é que Joés tem um noivado com Cristina Lourenço. O outro aspecto curioso é que durante muito tempo, Joés não foi assumido por José Eduardo dos Santos. Quem o criou foi Paulo Cassoma, um homem muito importante também no regime angolano, grande amigo de José Eduardo dos Santos, que casou com Dadinha, com Bernarda Gurgel, e que criou o filho, este filho de José Eduardo dos Santos, até ele ter mais ou menos 11, 12 anos e depois terá sido Ana Paula dos Santos que obrigou José Eduardo dos Santos a reconhecê-lo. Só mais um pormenor sobre este filho, é que José Eduardo dos Santos era um homem da música e os filhos dele, vários, herdaram esta costela, digamos assim. E Joés toca numa banda de rock chamada Trinity Nova. Ele é baterista neste grupo, onde o irmão dele, o Danilo, é baixista.

Danilo já faz parte dos quatro filhos que José Eduardo dos Santos tem com a atual mulher, Ana Paula Santos.

Exatamente. Danilo tornou-se conhecido com a polêmica do relógio dos € 500 mil. Ele estava a participar num leilão de artigos de luxo para ajudar a luta contra a sida e foi muito criticado. Ele depois pede desculpa, explica que não foi nada um relógio, que foi uma coleção de pintura, que, na verdade, depois se percebe que é de fotografia. Danilo tem vários negócios. O mais conhecido é o fato de ele ser acionista maioritário do Banco Postal de Angola, que foi constituído em setembro de 2016, onde os outros irmãos, filhos de Ana Paula dos Santos e José Eduardo dos Santos, também têm ações, mas o Banco Nacional de Angola, com João Lourenço, revogou a licença do Banco Postal de Angola. Já agora, deixa-me dizer o nome dos outros três filhos. É Josiane dos Santos, que é cantora numa banda que se chama Black Fufas. O Eduardo dos Santos e o Ustin dos Santos.

Dulce Neto, podemos então afirmar com algum grau de segurança Que todas estas pessoas beneficiaram do facto de José Eduardo dos Santos ter estado 38 anos na presidência em Angola.

Todos dizem que José Eduardo dos Santos era um homem de família e ele cuidou muito bem da sua família e cuidou muito bem dos seus filhos. Todos estudaram fora, ou quase todos estudaram fora, e quase todos tiveram negócios ou têm negócios. Mas curiosamente, José Eduardo dos Santos não cuidou só bem da sua família. Ele também cuidou bem de uma outra família que lhe permitiu ter o poder, o MPLA.

Dulce Neto, começamos esta conversa por Barcelona, onde hoje, depois de 38 anos no poder, José Eduardo dos Santos está praticamente sozinho.

Sim, sozinho com os seus guardas em Barcelona, como esteve quase sempre. Mas é curioso que ele tem alimentado, ou alguém por ele, a sua página oficial do Facebook, que se chama "JES Patriota", ele queria ser recordado como um patriota, onde ele põe momentos do seu passado glorioso. Mas atenção, a história ainda não acabou. José Eduardo dos Santos ainda tem muito poder, tem muito dinheiro e, na sua perspetiva, dinheiro é poder. E ele ainda tem muitos apoiantes dentro de Angola. Por isso eu diria a história ainda não acabou, não sabemos o que é que vai acontecer ou não. E se João Lourenço perde esta batalha da economia em Angola, as pessoas estão a passar fome em Angola, e começa a haver aquilo que se costuma chamar a síndrome da cebola do Egito. As pessoas começam a dizer, e tu ouves muito isto na rua: "Ele podia roubar, mas com ele nós tínhamos pão na mesa." As pessoas chegavam-me a dizer, quando não havia comida, ele dava ordens aos filhos, que mandavam vir barcos cheios de comida e punham comida nos armazéns. Por isso, eles estão convencidos. José Eduardo dos Santos dava-lhes mais comida do que João Lourenço lhes dá comida. Por isso, eu diria que a história ainda não acabou, mas que José Eduardo dos Santos, neste momento, é um homem só e há uma certeza que ele pode ter: é que Angola já não é dele.

José Eduardo dos Santos saiu da presidência em 2017 e goza de cinco anos de imunidade. Questionado pela Deutsche Welle sobre a possibilidade do antigo presidente vir a ser investigado, João Lourenço diz que essa é uma decisão do poder judicial e não do poder político. No próximo episódio, a vida de Isabel dos Santos, aquela que poderá ser a mulher mais rica de África.

O meu pai foi a pessoa que me ensinou a ler. Para mim, ele é uma grande fonte de inspiração.

Há uma coisa que ela na vida sempre fez, ela sempre fez o que o pai lhe pediu.

Não, não fui escolhida pelo meu pai.

Eu devo confessar, eu sempre vi em Isabel dos Santos a cara do pai.

Quando tem parceiros como o Américo Amorim ou a Sonangol, eles escolhem-na não só pelas suas capacidades pessoais e empresariais. Sabem ou pressentiam que sendo filha de quem é, poderiam ter o caminho facilitado.

Nós somos do MPLA. Eu acho que disso não há dúvida.

Todas as consequências que poderão advir daí são apenas da sua inteira responsabilidade.

Estes são alguns dos sons que vamos ouvir no terceiro episódio, "A Cara do Pai", dedicado a Isabel dos Santos. São muitos os sons e as músicas que usámos neste segundo episódio. Desde logo, os sons das entrevistas feitas por Dulce Neto em Luanda. No início, ouvimos uma canção cantada por OmySSi, letra de Luís Panta e produção musical de DJ Bruno AG, uma canção de homenagem ao patrono da AFA, a Academia de Futebol de Angola, José Eduardo dos Santos. Ouvimos também sons retirados da TV Zimbo e da Platino Line e da TPA. Há sons históricos da queda do Muro de Berlim, retirados do YouTube, e ainda o hino da União Soviética, cantado pelo coro do Exército Vermelho. Também ouvimos a canção "O Futuro é Agora" e um excerto da BBC que dá conta da morte de Jonas Savimbi. Há sons também retirados do YouTube, do canal do MPLA e de João Lourenço na visita oficial a Lisboa. Há mais músicas neste segundo episódio. O "Kamikaze Angolano", do iconoclasta Luaty Beirão, e "Detalhes" de Roberto Carlos. Há dois pequenos excertos das bandas Trinity Nova com "Karma" e Black Fofas com "Os Meus Olhos Choram". E claro, Balume Keno, de bonga, que nos acompanha em todos os episódios. A sonorização é da Beatriz Martel Garcia e do Diogo Casinha. Este é um podcast da Rádio Observador, que está disponível no site e nas plataformas habituais de podcast. Eu sou o Ricardo Conceição.