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Freitas do Amaral vai falar ao país. Está recolhido com a mulher, Maria José, e com os conselheiros mais próximos, numa suíte do oitavo andar do Hotel Altis, em Lisboa. O mesmo hotel que serviu de palco à cimeira secreta entre os homens de Soares e de Cunhal, vai agora ser usado como sede pra noite eleitoral do candidato da direita. Minutos antes, leu em voz alta o discurso que se prepara para fazer. Todos incentivam Freitas a avançar. Ofegante, José Luís Sanchez, o especialista espanhol que trabalha na campanha, irrompe pela suíte e manda parar tudo. Num português arranhado, diz que é demasiado cedo para falar sobre os resultados. Perante o pânico do staff de Freitas, grita que é preciso ter mais dados e que tudo aquilo é uma enorme precipitação. Não desiste até convencer o candidato a parar tudo o que está a fazer e esperar, recorda o filho, Domingues Amaral.
O José Luís Sanchez apareceu lá em cima, na suíte, e disse: "Não, senhor professor, não pode. Os resultados, as tendências."
Ninguém gosta particularmente daquele tipo. Era mais conhecido por ter sido o braço direito de Adolfo Suárez, o primeiro presidente do governo espanhol eleito em democracia. Mas já tinha trabalhado em Portugal com Sá Carneiro, Lucas Pires e Cavaco Silva. Apareceu na campanha de Freitas por influência do PSD, mais concretamente de Manuel Dias Loureiro, o homem da máquina social-democrata. Os mais próximos de Freitas, quase todos ligados ao CDS, suspeitam que Sanchez não passa de um vaidoso, que acha que sabe mais de política nacional do que os portugueses, como sugere 40 anos depois, Nuno Sintra Torres.
Não é a primeira vez que me acontece estar a fazer determinada coisa e aparecer um consultor estrangeiro. Muitas vezes, a nossa reação é: "Lá vem este ensinar o padre-nosso, quando não é preciso para nada".
Freitas do Amaral está ansioso, mas por prudência, vai dar uma vez mais ouvidos ao espanhol. Nos andares inferiores do Hotel Altis, onde estão os apoiantes, ninguém entende o que se passa e por que razão demora tanto o candidato a descer. São 10:00 da noite e Freitas não aparece. Haverá alguma coisa de errado com a contagem dos votos. No dia da grande decisão, Soares e Freitas estavam tecnicamente empatados nas sondagens. O dramatismo tinha tomado conta da campanha. Mais do que em qualquer outro momento da corrida, o país está verdadeiramente partido em duas metades: esquerda e direita. Soares, já ninguém duvida, tinha feito uma recuperação épica, mas não transpira exatamente confiança. A dois dias das eleições, admite publicamente que pode perder. Até diz que, se acontecer, vai parar um mês para descansar e logo a seguir, estará de volta ao Parlamento e ao Partido Socialista. Freitas do Amaral está confiante, mas os assessores mais próximos sabem que a vitória não está garantida. Continua a encher comícios pelo país fora até o último dia de campanha. Mas ninguém consegue prever qual vai ser o real impacto eleitoral da derrota no debate com Soares. A abstenção vai cair para mínimos históricos. Quase seis milhões de portugueses, em pouco mais de 7,6 milhões de inscritos, vão escolher entre Soares e Freitas. No final, quando os resultados forem anunciados, os dois vão ficar separados por uma margem muito curta. Esta é a eleição mais louca de sempre, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Loureiro. Episódio seis: a vitória mais curta da história.
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Ai, que bom nós podermos discordar. Poder mudar de sítio de paixão.
É a música que mobiliza e entusiasma os apoiantes de Mário Soares na segunda volta. Chama-se Rock da Liberdade e é cantada por Rui Veloso. Meses antes, a equipa de Soares até tinha feito uma primeira tentativa para encontrar um hino de campanha. Mas António Pedro Vasconcelos, que foi chamado para ajudar a encontrar a música, não gostou dos primeiros testes. Na altura, Mário Soares ainda estava com 8% nas intenções de voto e o cineasta achava que ter uma música em tom triunfal não fazia sentido. Nesse momento, Soares não percebeu a vantagem de não ter um hino próprio, mas acatou o conselho. Agora, as coisas mudaram. Ele é o candidato que conseguiu fazer uma das recuperações mais espetaculares da política portuguesa. Por isso, é altura de ter um hino de campanha antes do embate final com Freitas. Lançado a 6 de fevereiro de 1986, com música de Rui Veloso e letra de António Pedro Vasconcelos, o Rock da Liberdade é apresentado como uma batida para curtir. A música torna-se um sucesso instantâneo e provoca um efeito de arrastamento, sobretudo entre os mais jovens. A marca Soares é Fixe ganha um novo impulso na reta final. Proença de Carvalho, Eurico de Melo e Cavaco Silva, os três homens que na primavera de 1985 mais conspiraram para que Freitas do Amaral entrasse na corrida, chegam com o candidato à Praça Humberto Delgado, no Porto. Passam sensivelmente 15 minutos das 10 da noite. Aquelas quatro figuras são esperadas por dezenas de milhares de pessoas que aguentaram a chuva pra assistir ao último comício do candidato na cidade. Ao olhar praquele quadro, Freitas não consegue parar de pensar, mais uma vez, que nunca esteve tão perto do Palácio do Belém. Aquela quantidade de apoiantes não pode significar outra coisa. Haveria de o dizer no palco. Não conhece outro país no mundo onde tanta gente sai de casa a chover torrencialmente pra apoiar um candidato. Freitas não resiste em deixar uma última provocação a Soares e a aliança entre o socialista e Álvaro Cunhal. Sabe, melhor que ninguém, que os comunistas vão obedecer às ordens do líder e votar maciçamente em Soares. Por isso, tem de fazer tudo pra afastar o socialista dos moderados. "Eu não tive de mudar a minha estratégia ou tampouco de aliados entre a primeira e a segunda volta", diz Freitas, ainda antes de se despedir dos apoiantes. "Podem confiar em mim e votar de olhos bem abertos." Já tinha acontecido na primeira volta e Soares acha graça à ideia de repetir a brincadeira. Por que não fazer uma espécie de Totobola eleitoral e apostar no resultado que vai ter dali umas horas? Antes do almoço, e já depois de ter ido votar, convoca todos os elementos da comissão política da candidatura pra sede do Saldanha. Escolhe o número mágico e faz o mesmo pro adversário. Desafia todos os outros a fazerem o mesmo. Na primeira volta, acertou no resultado. Ou melhor, acertou no resultado dele. Teve precisamente 25% dos votos, mas cometeu um enorme erro de cálculo. Subvalorizou Freitas do Amaral, dando-lhe apenas 31%. Freitas teve mais de 46. Se cometer o mesmo erro nesta segunda volta, será o fim de linha pra Soares. Ainda mal se refez dos quilômetros percorridos. Regressou totalmente exausto da campanha e está a aproveitar as horas que tem até à noite pra recuperar alguma energia. Depois de um bom almoço, aproveita pra dormir uma sesta. Serão umas 17h quando acorda. É tempo de se preparar para o que aí vem. Refugia-se no escritório e começa a escrever dois discursos, um pra hipótese de ganhar, o outro pra o caso de ser derrotado. Escreve primeiro o da derrota. A filha, Isabel Soares, diz que o pai leu os dois à família.
O meu pai, ao contrário do que se diz por aí ultimamente, sempre foi um homem de família e sempre foi um homem que valorizou muito a família e a opinião da minha mãe pra ele era fundamental. E a nossa também, mas a da minha mãe era fundamental. E portanto, ele lia-nos sempre as intervenções que fazia, os discursos que preparava, etc., antes de fazer. Estávamos a almoçar e ele disse: "Vou vos ler, fiz dois discursos, preparei dois discursos, um pra derrota e outro pra vitória". Leu-nos os discursos. O discurso da derrota era assumir a derrota, basicamente. Ia alertar, mas por parte dele, assumir a derrota.
Freitas não estava em muito melhor estado físico do que Soares. Tinha passado o sábado de reflexão a descansar e a ouvir Vivaldi e Beethoven na Casa da Quinta da Marinha. Aproveitou para falar ao telefone com André Gonçalves Pereira, que lhe disse ter tido a informação de que uma embaixada de um país amigo tinha uma sondagem que dava 49% para Freitas, 49 para Soares. Gonçalves Pereira deu-lhe um conselho: "Professor, prepare-se para os dois cenários. Ou vai passar os próximos cinco anos num cargo muito exigente e altamente desgastante, ou vai saborear o sabor amargo da derrota." Agora, a poucas horas de conhecer o resultado, está em casa a ler Espinosa e a ouvir o Messias, de Handel. Sente-se sereno. Ter ido à missa de domingo e ter recebido uma massagem refrescante, ajuda. Aliás, por estes dias, é a única coisa que lhe permite tolerar as terríveis dores nas costas. Mas há um pensamento ligeiramente irritante que, por muito que tente, não o larga. Daniel Proença de Carvalho tinha uma sondagem para lhe mostrar. Seria a última. E já devia ter chegado há um ou dois dias. Mas quando lhe perguntou, o diretor da campanha desviou o assunto. Tem a sensação de que estão a esconder-lhe alguma coisa. A grande questão é: por quê? Respira-se confiança no Hotel Altis. José Ribeiro e Castro, porta-voz da campanha, passeia-se à frente de todos com uma garrafa gigante de Moët & Chandon. Até se deixa fotografar pra posteridade. São 18h30. Faltam 30 minutos pras urnas fecharem. E, por enquanto, Vítor António, o experiente técnico de sondagens que trabalha com a candidatura, pouco mais pode fazer do que brincar com os resultados que chegaram de Macau e fazer projeções. Freitas tem mais 2500 votos do que Soares. Vale pouco, é certo, mas se continuar assim, ganhará por uma margem razoável.
Boa noite, presidenciais 86, nós começamos já com a previsão da abstenção nesta segunda volta das eleições.
À hora certa, Henrique Garcia, jornalista da RTP, lê as projeções da estação pra abstenção. Estará entre os 20,5% e os 23,5%. É uma diminuição face à primeira volta e um calafrio pro staff de Freitas. Pode querer dizer que a esquerda se mobilizou mais desta vez. Soares tinha passado a reta final da segunda volta a dizer que o grande adversário era a abstenção. Será que esse apelo tinha dado resultado?
Doutor Ribeiro e Castro, tal como foi dito agora, as abstenções parece que rebaixaram nesta segunda volta das presidenciais.
Na primeira reação aos números, Ribeiro e Castro recusa essa leitura.
Nós não julgamos.
Em entrevista à Margarida Amarante, a partir da sede da campanha, o braço direito de Freitas defende que as eleições não se definem pelos abstencionistas, mas sim, por quem vota. Os primeiros resultados oficiais confortam os homens de Freitas. Só que apontam, ao mesmo tempo, para uma preocupante tendência. Dezenove horas e 17 minutos. Com 42 freguesias apuradas, Freitas consegue 82,36% dos votos. Dezenove horas e 21 minutos. Setenta freguesias. Freitas, 75,7%. Dezenove horas e 28 minutos. Cento e trinta e sete freguesias. Freitas, 71,2%. À medida que os votos entram, vai perdendo vantagem sobre Soares. As coisas estão a mudar muito rapidamente. A quase três quilômetros dali, no espaço Valbom, Carneiro Jacinto, o assessor de imprensa que tinha estado ao lado de Soares na Marinha Grande, não larga o telefone. À rapidez com que a distância se está a encurtar, a vitória do socialista começa cada vez mais a ser possível. Carneiro Jacinto está impaciente. Quer poder finalmente comunicar a Soares que tinham vencido aquela eleição e que ele vai ser presidente da República. Mas, do outro lado da linha, pedem-lhe uma e outra vez que tenha calma, ainda é muito cedo. Minutos depois, dizem-lhe aquilo que mais queria ouvir. O responsável pelas previsões de uma das estações de rádio garante-lhe que Soares será o grande vencedor da noite. Está prestes a telefonar ao candidato, quando chega uma péssima notícia. A outra estação de rádio diz que Freitas do Amaral será o vencedor por uma ligeiríssima diferença. Vai ter de esperar mais uns minutos pra ter a certeza absoluta. No quinto andar da Valbom, o terminal de computador ligado ao centro de escrutínio processa a informação que vai chegando e vai fazendo contas. A determinada altura, já não restam dúvidas e Carneiro Jacinto decide finalmente telefonar a Soares pra lhe dar a notícia. Tinha acabado de ser eleito presidente da República. Não contava com aquela reação de Soares. O socialista emociona-se com as palavras de Carneiro Jacinto, mas diz que prefere esperar até ter mais segurança. A margem é demasiado curta pra tomar a vitória como certa. Às 19h48, o jornalista Henrique Garcia interrompe a emissão da RTP pra ler as primeiras projeções.
Eu peço desculpa ao doutor António Gouveia, vamos interromper as previsões RTP. Aqui estão elas. Para Freitas do Amaral, entre 47,9% a 50,9%. Previsão RTP para Mário Soares, entre 49,1% e 52,1%. As previsões não nos deixam dizer com segurança quem é o candidato mais votado.
Mário Soares está com uma ligeira vantagem, mas ainda não acredita totalmente na vitória. No Altis, Freitas está na suíte do oitavo andar com a família e os conselheiros mais próximos. Os números da RTP são idênticos aos que os assessores já lhe tinham feito chegar Aliás, por esta altura, até já estão na posse de números mais actuais, que ainda não foram tornados públicos. Sente que tem de estar preparado para o pior. Faltam 10 minutos para as 20:00, quando termina de ler ao círculo mais próximo o discurso de aceitação da derrota. Todos os presentes concordam que é um bom discurso. Menos um. O espanhol José Luís Sanchez pede para esperar. Argumenta que a tendência de votos em Freitas está a crescer nas grandes freguesias das zonas urbanas, e isso pode mudar tudo. A esta hora, Soares ainda está em casa. Acompanha a noite eleitoral pela televisão, na companhia da família. Liga repetidamente para a sede de campanha. É certo que os primeiros indicadores são positivos, mas ainda tem receio que tudo aquilo seja demasiado prematuro. Desconfia do excesso de confiança da equipa mais próxima. Nem mesmo os gritos de António Campos, a garantir-lhe que a vitória está certa, conseguem tranquilizá-lo. Às 20 horas e 26 minutos, sem esperar por dados oficiais, Francisco Salgado Zenha é o primeiro a dar os parabéns a Soares. Congratula o vencedor e diz que o projeto de Mário Soares é preferível ao de Freitas. Passam 30 minutos das 20:00. No Hotel Altis, Proença de Carvalho, diretor de campanha, fala aos jornalistas ao lado de Pedro Santana Lopes. Faz uma declaração evasiva. "Se há coisa que não falhou, foi o candidato. Fez uma candidatura nobre." Dois dias antes das eleições, o diretor da campanha de Freitas do Amaral teve nas mãos uma sondagem que dava a vitória a Soares por 51,5% dos votos. Mas decidiu escondê-la do candidato para não o desmoralizar. O instinto de Freitas estava certo. Afinal, a sondagem sempre existia e era má. Meia hora depois, o telefone toca na sede de campanha de Soares. É Octávio Pato, o braço direito de Cunhal. Com enorme cuidado em escolher as palavras, diz que está a ligar para transmitir as felicidades, em nome da direção do PCP, pela derrota infligida a Freitas. "Só isso?", pergunta-lhe o diretor de campanha Gomes Motta. "Sim, e também pela vitória do doutor Mário Soares", corrige Octávio Pato. Horas mais tarde, Cunhal não fará muito diferente e celebra o resultado daquela noite, não como uma vitória de Soares, mas como uma grande derrota das forças reacionárias. São 21:30. Quando chega ao quartel general da campanha, ao lado da mulher, Maria Barroso, Soares é recebido num clima de euforia. Mas, por algum motivo que continua a escapar aos elementos do núcleo duro, insiste na mesma pergunta que está a fazer há horas: "Será mesmo seguro festejar já?" A confiança dos conselheiros é tanta que insistem para que fale logo. Mas o candidato tem um momento de lucidez. Como é óbvio, não pode discursar antes de Freitas reconhecer publicamente a derrota na televisão. E há uma coisa que não bate certo. Se os resultados são mesmo definitivos, por que razão está Freitas a demorar tanto tempo a reagir? O telefone toca novamente. Do outro lado da linha está um jornalista que está no Hotel Altis, o quartel general de Freitas. Tem boas relações com a equipa de Soares e quer transmitir uma informação de última hora. "Parece que o espanhol que está a assessorar a campanha está a dizer que isto vai virar." Ninguém quer acreditar. O pânico instala-se na Valbom. Serras Gago, especialista em sondagens ao serviço do PS, volta a olhar para as projeções à procura dos sinais que o espanhol de Freitas viu. Furioso, Soares perde a compostura e descarrega naquela gente toda. Como é que podiam ter cometido um erro daqueles e aconselhá-lo a avançar já para o discurso de vitória? E se tivesse feito isso e depois perdesse? Com que cara é que falaria novamente ao país? A indefinição ainda dura alguns minutos. O técnico da campanha de Freitas do Amaral, que recebe os dados, volta a olhar para o computador. Não percebe bem que contas está a fazer o espanhol. Ainda não eram 20:00 quando recebeu projeções que davam a vitória a Soares. Desde então, nada mudou. Por muito que volte a olhar para os números, não consegue vislumbrar qualquer inversão nos resultados. Mas todos preferem acreditar no que diz o espanhol. Afinal, aquela é a última esperança de Freitas. A contagem dos votos continua. Passam 10 minutos das 22:00, quando também o espanhol é obrigado a reconhecer a realidade. Não há mais motivos para esperar. Freitas do Amaral tem de descer do oitavo andar do hotel para falar ao país. Acaba de perder as eleições.
Minhas senhoras e meus senhores. Com base nos resultados já conhecidos, reconheço a vitória do doutor Mário Soares. Dou-lhe os meus parabéns e desejo-lhe sinceramente as maiores felicidades. Como democrata, aceito e respeito a decisão tomada. Oxalá tenha sido a melhor para o futuro do nosso país.
Freitas do Amaral assume a derrota, mas não consegue evitar uma referência nada subtil ao fato de ter feito uma campanha limpa e honesta, que uniu mais do que dividiu e que não espalhou agressividade, mas antes esperança, por oposição à do adversário. Mas Freitas quer garantir que o país não se parte definitivamente em dois. É importante que todos, mesmo aqueles que agora gritam contra Soares, saibam aceitar o resultado. E vai ser ele o primeiro a dar o exemplo. Lembra o filho, Domingues Amaral.
Até havia uns autocolantes que começaram logo a ser distribuídos na noite das eleições a dizer: "O meu presidente é outro" e meu pai logo nos disse: "Estão completamente proibidos de usar esse autocolante, porque eu aceitei a derrota, fomos batidos dentro das regras e, portanto, os meus filhos não vão andar com autocolantes a faltar ao respeito à decisão dos portugueses".
Mário Soares está pronto para falar ao país, mas aguarda ainda um outro discurso. O discurso do homem que, meses antes, tinha posto em causa o sonho de Soares chegar à presidência, ao acabar com o governo de Bloco Central e recusar apoiar a candidatura do socialista. Quer ouvir primeiro o que Cavaco Silva tem a dizer a partir da sala de conferências do Fórum Picuas. Suspeita que o primeiro-ministro e presidente do PSD não vai digerir bem o resultado. E mais uma vez, vai ter toda a razão.
A comunicação com Cavaco Silva. Então vamos passar. Professor Cavaco Silva.
Assumiu a sua candidatura de uma forma nobre, de uma forma digna e penso que prestigiou e fortaleceu a democracia em Portugal. O seu mérito, aliás, foi reconhecido quase por 50% do eleitorado português. Em democracia, as derrotas eleitorais são tão dignas como as vitórias. Não desistiremos de continuar a lutar para mudar Portugal.
Quando Cavaco Silva começa a ler a declaração que traz preparada, nota-se o estado de tensão em que se encontra. Está sempre à procura das palavras nos papéis que tem à frente. Olha para baixo, engana-se a ler, hesita. Por fim, promete continuar a lutar por mudar Portugal. Avisa que continuará a trabalhar enquanto o deixarem e faz um apelo aos apoiantes de Soares.
Devem ser evitados todos os excessos nas manifestações. A ordem é um bem precioso de que não podemos prescindir em democracia. O governo tudo fará para que os portugueses tenham ordem, segurança, esperança, confiança.
Soares assiste a tudo aquilo e fica furioso. Não deixará Cavaco sem resposta. Mas não é isso que mais o atormenta neste momento. Sabe que vai herdar um país partido ao meio, com duas metades muito radicalizadas, sendo que muitos apoiantes esperam dele que inicie ali, naquele momento, uma espécie de vingança contra a direita. Mas Soares não pode tolerar essa ideia. No Espaço Valbom, sabe o que vai dizer aos jornalistas que esperam por uma primeira reação. O núcleo duro da campanha tem uma vaga noção, mas ele não partilha com quase ninguém as exatas palavras que vai usar.
O presidente eleito da República Portuguesa, doutor Mário Soares, vai neste momento fazer uma declaração ao país.
E ele aí está, Mário Soares.
Senhores jornalistas, não serei o presidente de um partido, nem da maioria que me elegeu. Serei o presidente de todos os portugueses.
Mário Soares sai da sala cercado por jornalistas, mas tal como Freitas, recusa responder a perguntas. Através da televisão, tinha acabado de falar ao país como presidente eleito. Mas falta ainda falar aos milhares de apoiantes que enchem o Saldanha. A distância é curta, mas o carro que transporta Mário Soares avança lentamente por entre a multidão eufórica antes de conseguir entrar na praça.
A Polícia de Segurança Pública tem dificuldade em conter a população e a formar uma ala para dar acesso ao doutor Mário Soares, que se prepara agora, aí temos, para descer da viatura e acenar à população de Lisboa. Mário Soares sobe ao carro e cumprimenta a população concentrada na Praça do Saldanha.
Protegido por uma barreira de segurança, Soares entra no edifício da sede de candidatura. As câmaras da RTP começam a centrar a atenção numa das varandas do edifício. Minutos depois, surge finalmente o homem que todos esperavam. Soares levanta os dois braços no ar para a multidão e nas duas mãos ergue dois dedos a fazer um V de vitória. Vem acompanhado da mulher, Maria Barroso, que tem uma rosa amarela na mão direita. Os apoiantes agitam bandeiras de Portugal e do PS e gritam o slogan de campanha.
Mário Soares.
Mário Soares pede o microfone.
Atenção, é suficiente atenção? Estamos aqui para nos congratularmos com a nossa vitória, com a vossa vitória.
Soares começa por dizer que o resultado naquela noite representa a vitória da democracia e dos ideais generosos do 25 de Abril. Logo a seguir, ouve-se uma vaia monumental. Tinha acabado de cumprimentar os vencidos na eleição. Anos mais tarde, em entrevista à jornalista Maria João Vilas, Soares reconhecerá que aquelas palavras foram um autêntico balde de água fria e que se tivesse esperado mais algum tempo para as dizer, talvez já não tivesse conseguido controlar o ambiente. A crispação era tal, que dentro da candidatura, havia quem defendesse que ele deveria fazer o mesmo que Mitterrand: dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, se possível, logo naquela noite e logo a partir daquela varanda. Mas Soares recusa.
Os vencedores têm que saber ser generosos. Os vencedores, que somos nós, têm que saber ser dialogantes. Ninguém, amigos, pode ter medo da nossa alegria. Estou aqui, amigos, a partir de agora, para unir os portugueses e não para os dividir. E temos que lutar todos juntos.
Antes de abandonar a varanda, canta ainda o hino nacional em conjunto com a multidão de apoiantes, que não desmobiliza. Mário Soares terminou a noite eleito com 51,18% dos votos, contra 48,82 para Freitas do Amaral. A separá-los estavam apenas 138.670 votos.
No fundo, o que resta é um pouco ainda a admiração de como é que este homem, que passou dos 4%, 5%, 6% iniciais, das primeiras sondagens, acabou por ser o candidato vitorioso, acabou por se tornar esta noite, 16 de fevereiro, o novo presidente da República, o primeiro presidente da República civil nos últimos 60 anos.
O homem que um ano antes estava quase certo de que iria ter uma derrota humilhante, tinha agora acabado de conseguir uma das recuperações políticas mais incríveis de sempre. Cavaco Silva está exausto. Acaba de ler uma das intervenções mais difíceis de que tem memória. A vitória de Soares é um golpe duro de absorver. A relação entre os dois é péssima e Cavaco sabe que está numa situação de enorme fragilidade. Afinal, lidera um governo minoritário e tem agora na presidência um homem que escolheu como inimigo, ainda antes de chegar à liderança do PSD. Fica duas horas sentado num cadeirão na residência oficial, sozinho e em silêncio. Quer pensar com maior clareza. Decide tomar um quarto de comprimido para dormir. Vai-se deitar, sem saber o que o futuro lhe reserva. Passam poucos minutos das 9:00 quando tocam à porta. Todos dormem na casa de Freitas do Amaral. Tinham-se deitado às tantas depois de uma noite eleitoral terrível. Ninguém se levanta para ir atender a campainha. A custo, Domingues Amaral, que é quem tem o quarto mais perto da porta, decide levantar-se e arrasta-se até lá para ver quem é.
Vesto o roupão e vou assim meio ainda ressacado. E de repente olho e vejo um carro preto lá fora. Eu disse: "Mas o que será isto às 9:00 da manhã?" Abro e está um senhor assim muito bem vestido, um chauffeur. Tinha uma coisa com um grande ramo de flor. Diz: "Isto é para entregar ao professor Freitas do Amaral, João Maria de Azevedo." "Está bem". Olho e o envelope, Mário Soares.
Domingues Amaral nem quer acreditar. Por momentos, pensa seriamente na hipótese de mandar aquele ramo de flores à parede e despachar o motorista com dois gritos, mas acaba por se recompor.
Peguei no cartão e fui bater à porta dos meus pais a dizer: "Está aqui isto. Foi enviado pelo doutor Mário Soares." E eles ficaram espantados, porque não estavam à espera. Depois lá leram o cartão, que era uma mensagem simpática assinada pelos dois, doutor Mário Soares e pela doutora Maria Barroso.
Durante muito tempo, só os mais próximos de Freitas do Amaral souberam o que estava escrito naquele pequeno cartão que acompanhava o ramo de flores. Só muitos anos mais tarde é que vai revelar publicamente o conteúdo da mensagem. "Muitos parabéns pela campanha que fez. Do seu amigo e admirador, Mário Soares." Maria de Lourdes Pintasilgo, Salgado Zenha, Freitas do Amaral e Mário Soares protagonizaram a campanha presidencial mais espetacular de sempre. A carreira política de Pintasilgo não terminou ali. Três anos mais tarde, é eleita eurodeputada independente nas listas do Partido Socialista. As dívidas com que ficou das presidenciais, 6 mil contos, vai pagá-las ao longo dos anos seguintes. Nunca esquecerá a traição de Agnes. Acabará por morrer a 10 de julho de 2004, com 74 anos. Francisco Salgado Zenha nunca mais regressou à política. António Guterres chegou a convidá-lo para voltar ao Partido Socialista. Não aceitou. Meses depois das presidenciais, percebeu-se que já estava doente durante a campanha, mas mesmo os mais próximos desconheciam a gravidade da situação. Admite Joaquim Letria, o diretor de campanha.
Se eu viésse, foi uma coisa que eu próprio pensei: "Como é que um homem doente vai para a presidência da República?"
Salgado Zenha acabaria por morrer a 1 de novembro de 1993, aos 70 anos. Soares e Zenha nunca mais retomaram a amizade. Diogo Freitas do Amaral não perdeu apenas as eleições. Também ficou com uma dívida equivalente a mais de €2 milhões. Uma dívida que ninguém quis suportar.
Porque isto foi uma campanha absolutamente extraordinária, mas também se descontrolou um bocadinho a certa altura. Com tantos chapéuzinhos, tantas bandeiras, tantos almoços e jantares pelo país todo, a conta quando chegou era muito alta. E quem é que paga? Agora o PSD e o CDS cortaram-se. Eu acho que o CDS depois ajudou a pagar um bocadinho, mas o CDS, na altura, não valia muito, porque houve eleições logo a seguir, e o Cavaco Silva teve uma maioria absoluta com o PSD e, portanto, o PSD recusou-se a pagar as dívidas da campanha, coisa que eu nunca esqueci. Acho que o professor Cavaco Silva se portou mal nesse assunto.
Domingues Amaral recorda que depois da derrota, quase todos viraram as costas ao pai. As pessoas que enchiam a casa e a vida do candidato desapareceram. Com uma exceção: Marcelo Rebelo de Sousa.
Todos os fins de semana eu ia lá visitá-lo. E era uma espécie de Red Bull. Entrava, contava as piadas todas, dizia mal de toda a gente, contava as intrigas todas da política e nós ríamos à gargalhada durante quatro horas que ele estava lá, tomava banho na piscina, ia almoçar. E de repente dizíamos: "Pronto, isto faz bem, tira-nos um bocado este peso e que esta casa está um bocado sem ti."
Freitas do Amaral acabaria por pagar as dívidas essencialmente através de donativos que recebeu de todo o país e de pareceres jurídicos que foi fazendo ao longo de vários anos. Pensou muito sobre aquela derrota. Queria compreender o que o levou a perder. Vieram-lhe à cabeça um sem-número de hipóteses. Será que o resultado era, apesar de tudo, inevitável face à maioria de esquerda que existia no país? Será que o facto de Cavaco Silva e o PSD estarem no governo o acabou por prejudicar? Ou será que foi o último debate com Soares a deitar tudo a perder? No final, vai chegar a uma conclusão. É a mesma a que vai chegar o diretor de campanha, Daniel Proença de Carvalho. A vitória não era impossível, mas o adversário que teve pela frente era formidável e foi simplesmente melhor.
A hipótese de Freitas do Amaral era realista, muito realista mesmo. O que aconteceu depois foi que realmente o Tomás era um animal político e uma pessoa com uma capacidade de luta, um lutador, um homem com uma coragem. E ele não viu limites para aquilo, portanto, ele achou que ia ganhar, que ia lá chegar e fez tudo, e fez tudo bem.
Dois anos depois das eleições, em 1988, volta à política ativa para liderar o CDS, que tinha apenas quatro deputados eleitos. É um período traumático e mal-sucedido. Em 1992, afasta-se em definitivo do partido que tinha ajudado a fundar. Na primavera de 2000, é desafiado uma última vez para ser candidato presidencial, mas declina o convite do primeiro-ministro Durão Barroso. Em 2005, surpreende o país ao aceitar ser Ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro governo socialista de José Sócrates. O partido que fundou não lhe perdoa. O CDS, na altura liderado por Paulo Portas, retira da parede o retrato de Freitas e envia-o por correio para o Largo do Rato, sede do PS. Um ano depois, Freitas do Amaral é obrigado a deixar o cargo por causa do problema nas costas que o afeta desde os anos 70. Nunca mais voltará à política. Acabaria por morrer a 3 de outubro de 2019, em plena campanha eleitoral para as eleições legislativas. Tinha 78 anos. Cinco anos depois de chegar a presidente com a margem mais curta da história, Mário Soares seria reeleito com a maior percentagem de sempre: 70,35% dos votos e com o apoio de Cavaco Silva. Mesmo depois de abandonar o cargo, nunca deixa a política. É eleito eurodeputado em 1999. Em 2006, já com 80 anos e duas décadas depois de ter sido eleito pela primeira vez, Soares protagoniza uma nova campanha presidencial.
Eu cheguei lá e disse: "Vou-me candidatar a presidente da República." "Tu estás maluco, com essa idade." "Mas eu estou aqui fechado, chateado aqui na fundação, apetece-me percorrer o país. Apetece-me uma guerra brutal com ele." E ele disse: "Não, o que me interessa a mim é o resultado das eleições. Apetece-me é fazer política no país, apesar de ter nesta idade."
Mais uma vez, Soares volta a travar uma luta fratricida contra um outro histórico da área socialista, Manuel Alegre, mas desta vez com resultados diferentes. Não só perde contra o candidato da direita, Cavaco Silva, como ainda fica atrás de Alegre. A seguir às presidenciais de 1986, Mário Soares convidou várias vezes Freitas do Amaral para o visitar no Palácio de Belém. Recusou sempre. Demorou muito tempo a recuperar daquele frente a frente na televisão, que acabou por levar à derrota nas eleições. Um frente a frente épico, que ficaria para a história. Cerca de dois anos depois, reconciliaram-se e ficaram amigos.
Depois, mesmo no fim da vida, o professor Freitas do Amaral foi de uma dedicação e de uma amizade que eu nunca esquecerei. O meu irmão e eu, aliás, nunca esquecemos.
A filha de Mário Soares lembra-se dos derradeiros encontros. Com 92 anos, já depois de Maria Barroso ter morrido, o pai estava muito diminuído. Freitas do Amaral, com 75 anos e também fisicamente abatido por causa dos problemas nas costas, ia vê-lo de três em três meses. Um dia, pouco antes da morte de Mário Soares, Freitas chegou à casa do Campo Grande, tocou à porta e entrou. Eram de uma delicadeza extrema, recorda Isabel Soares. Tinham passado 31 anos desde a eleição mais louca de sempre, em que se tinham confrontado, sabendo que só um podia vencer. Conversaram um pouco e sentaram-se os dois a almoçar. Ficaram assim, sozinhos, sem pressa, frente a frente, pela última vez. "A Eleição Mais Louca de Sempre" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Gonçalo Waddington, e tem banda sonora original de Samuel Úria. O guião e as entrevistas são de Miguel Santos Carrapatoso. A sonoplastia e desenho de som são de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube e da RTP. Podcast Plus do Observador: é mais do que um podcast.
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