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"Guerra Traduzida" a começar na Rádio Observador. Vamos olhar para a imprensa russa, um trabalho da jornalista Inês Batista, feito em colaboração com a Larisa Tovmasian, natural da Rússia. Olá, Inês, boa tarde.
Boa tarde.
Começamos com uma explicação sobre o cessar-fogo anunciado pela Rússia.
"O que significa a decisão da Rússia de cessar-fogo e por que não é uma trégua com a Ucrânia?" É o título de um artigo do Pravda de Komsomol publicada esta manhã. O jornal dá conta que a partir do meio-dia em Moscovo, 9h em Portugal continental, vai haver uma pausa temporária na ofensiva por causa da celebração do Natal ortodoxo, que acontece esta sexta e sábado. A trégua foi proposta pelo patriarca de Moscovo e foi aceita pelo presidente russo. O Pravda Komsomol explica que se trata de um cessar-fogo unilateral que vai durar por 36 horas para abranger a véspera e a celebração do Natal. A Rússia, neste caso, não está nem um pouco interessada na reação de Kiev, é o que diz o jornal. O Pravda conta que a decisão foi tomada de forma a permitir que os crentes ortodoxos da Ucrânia fossem aos locais de oração e às igrejas com calma e sem medo.
Mas fez uma ressalva, Inês.
"Isso não significa, de forma alguma, que os militares russos deponham as armas", é o que diz o Pravda de Komsomol. Os militares de Moscovo, diz o jornal, não vão tomar de forma proativa ações ofensivas e bombardeamentos de artilharia, bem como ataques de mísseis, mas qualquer invasão por parte das Forças Armadas da Ucrânia será imediatamente interrompida com recurso a todos os meios de destruição. É uma citação deste jornal, que acrescenta também: "Em caso de tentativas de ataques ou bombardeamentos das Forças Armadas da Ucrânia, a resposta vai ser dupla". Depois desta explicação sobre o que significa este cessar-fogo, o Pravda de Komsomol afirma que Moscovo testou a Ucrânia com esta proposta de interromper as hostilidades e conclui que na Ucrânia e no Ocidente, ninguém se preocupa com os civis ou com as suas crenças.
Há também uma citação do assessor do chefe de gabinete do presidente da Ucrânia.
"Foi o primeiro a abrir a boca desagradável", é o que escreve o jornal, para informar que a Ucrânia não cessaria o fogo na época do Natal, que uma trégua temporária só seria possível se a Rússia retirasse completamente todas as tropas do território ucraniano. No artigo é citado o conselheiro nacional de segurança e defesa da Ucrânia e o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Dmytro Kuleba, disse: "A proposta da Rússia não era para levar a sério". É citado também o presidente da Ucrânia, que o Pravda diz ter falado de forma inequívoca. E está transcrita uma declaração de Zelenskyy que diz: "Agora a Rússia quer usar o Natal como disfarce para deter por um tempo o avanço dos militares no Donbass e trazer equipamentos, munições e novos recrutas para mais perto das nossas posições". É uma citação direta do presidente da Ucrânia. O jornal escreve depois: "Ninguém jamais mentiu tão francamente como ele". São depois citados uma série de líderes dos Estados Unidos, da União Europeia, das Nações Unidas. O Pravda de Komsomol escreve: "Eles tiveram a chance de provar a si mesmos como pessoas, recusaram. A mão da misericórdia cristã foi estendida aos ucranianos no grande feriado, os líderes rejeitaram".
Essa expressão, "a mão da misericórdia cristã", foi também utilizada por Dmitry Medvedev.
E faz título num artigo publicado no portal de notícias Vesti: "Medvedev: Kiev rejeitou a mão da misericórdia cristã". O vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia comentava a recusa ucraniana de aderir a um cessar-fogo durante a celebração do Natal. O portal de notícias afirma que Medvedev não mostrou surpresa com essa reação por parte da Ucrânia e cita uma publicação do vice-presidente no Telegram que diz: "A mão da misericórdia cristã foi estendida aos ucranianos no grande feriado, os líderes rejeitaram". O político diz que a maioria dos militares russos respiraram de alívio e pensaram: "Menos problemas" quando ouviram a resposta de Kiev a um cessar-fogo. O Vesti avança que Medvedev sente pena das pessoas que perderam a oportunidade de ir à igreja, enquanto compara os líderes da Ucrânia a porcos que não têm fé nem sentido de gratidão. Cita também o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia a apelidar os líderes ocidentais de guardadores de porcos e a dizer que os seus pupilos só entendem a força bruta, exigem de forma estridente comida dos donos. Sobre a reação cética à proposta da Federação Russa de uma trégua no Ocidente, Medvedev é citado a dizer: "Os herdeiros dos nazis nunca pouparam pessoas ou animais".
E agora, Inês, uma notícia de um meio de comunicação independente que fala numa descoberta.
O portal de notícias Meduza avança que os serviços de segurança da Ucrânia encontraram literatura pró-russa e armazéns militares russos nos edifícios da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo em quatro regiões da Ucrânia. É citado um relatório das autoridades que explicam que foram encontrados antigos armazéns, por exemplo, na região de Kherson, na igreja de São João Justo de Kronstadt, e que um dos responsáveis pela paróquia fugiu para os territórios ocupados depois de Kherson ter sido libertada. Nas regiões de Kirovohrad, Dnipro e Rivne, foi encontrada literatura pró-russa, material de campanha do partido de Viktor Medvedchuk, um político ucraniano pró-Kremlin, que é proibido na Ucrânia, bem como símbolos da Federação Russa, como bandeiras. A Meduza afirma ainda que os serviços de segurança da Ucrânia enviaram o material encontrado para ser examinado e que suspeitam que o secretário da diocese violou o código penal do país.
Notícias que chegam na véspera do dia de Natal ortodoxo, que é celebrado amanhã. E terminamos assim esta edição da "Guerra Traduzida" com a análise à imprensa russa.