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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como três jovens montaram um esquema de falsificação que rendeu milhares de euros. Contas falsas da EDP ou dos CTT, receitas, também falsas, para comprar medicamentos e para uso indevido, são alguns exemplos de um esquema fraudulento alegadamente criado por três jovens e que abriram a porta a milhares de fraudes que terão rendido milhares de euros. É um caso que nos mostra quão simples pode ser montar um esquema criminoso através de um computador. E é sobre isso que vou conversar com a Leonor Riso, editora adjunta de sociedade do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de segunda-feira, 4 de agosto. Bem-vinda, Leonor.

Obrigada, Ricardo.

Leonor, quem são estes jovens?

Primeiro, eu queria dizer que são realmente jovens. Dois deles tinham apenas 18 anos e um deles tinha 17 quando todos se iniciaram na prática criminosa. Eram estudantes na altura e como os crimes começaram a compensar, até serem descobertos, não tinham quaisquer atividades profissionais. Viviam dos crimes com os quais amealharam milhares de euros. Estão agora acusados de dezenas de crimes de acesso ilegítimo agravado, falsidade informática e burla qualificada, entre outros.

Mas Leonor, o que é que alegadamente fizeram?

Em sites que vendem dados de segurança hackeados, estes jovens compravam, com criptomoedas, milhares de credenciais e dados bancários das pessoas. Aqueles que nós usamos todos os dias. Segundo esta acusação do Ministério Público a que o Observador teve acesso, nestes sites tanto se podem comprar passwords da Netflix como os dados de entrada nas apps dos nossos bancos.

Mau!

Estes dados são roubados, como todos sabemos, através de ataques informáticos. Estes jovens simplesmente compraram-nos. De seguida, criaram um grupo no Discord onde os partilhavam entre si e com outros membros que entretanto se juntaram. Chegaram a ser mais de mil pessoas neste grupo onde eram partilhados todos estes dados.

Mil pessoas? E a pergunta da pessoa já com alguma idade: o que é o Discord, Leonor?

O Discord é um site de salas de chats sobre vários temas. Tanto via voz ou via texto escrito, sendo que é um site que tem maior preponderância de conteúdos sobre videojogos, mas permite falar sobre quaisquer temas.

Portanto, é uma espécie de fórum onde se encontram os utilizadores, os gamers, quem usa videojogos. Leonor, e foi a partir do Discord que estes três jovens e esses mil amigos, não sei se lhes podemos chamar amigos, deram início a atividades criminosas, é isso?

Sim, Ricardo, podemos dizer que o Discord foi o que uniu os vários arguidos. Foi no Discord que mostravam os seus acessos indevidos a várias plataformas de saúde, das quais obtiveram credenciais nesses sites onde foram compradas, e estas plataformas de saúde permitiram-lhes criar várias receitas médicas falsas. Estas receitas foram usadas para comprar, na maioria, a codeína, que é uma substância presente no xarope para a gripe, que só se vende mediante prescrição médica. E o que é que eles faziam com a codeína? Misturavam com outras substâncias, com bebidas normais, para criar algo que se chama e que é muito conhecido, lean ou purple drank. Esta bebida cria efeitos relaxantes e uma sensação de euforia em quem a consome.

No fundo, é uma bebida adulterada com o medicamento.

Sim. E não era só às plataformas de prescrição de receitas médicas que os jovens conseguiam aceder. E aqui vê-se um pouco que eram jovens. Entraram na plataforma de emissão de certificados de óbito para fazer certificados de óbito falsos em nomes de pessoas que queriam ridicularizar.

Mas faziam certificados de óbito falsos, mas a partir do-

Sim, a plataforma era legítima, tal como as credenciais que usavam. Por isso, estes certificados de óbito eram legítimos, só eram falsos na medida em que não correspondiam à verdade.

Em que a pessoa estava viva.

Exatamente. Além disso, também entraram no sistema de notificação de doenças, para aquelas doenças que são de notificação obrigatória, como a kibox, como a dengue, para fazer notificações em nome de pessoas de quem não gostavam ou com quem se tinham chateado.

Como vingança do indivíduo à devender-

Sim, uma brincadeira, entre aspas

...aquela pessoa tem esta doença.

Exatamente. Acima de tudo, aquilo com que fizeram muito dinheiro, também fizeram dinheiro com a codeína, com os certificados não tanto, era mais no sentido de ridicularizar as pessoas, mas a maior parte do dinheiro que foi encontrado, que foi seguido, foi feito através de burlas. Burlas estas através de mensagens de texto. Infelizmente, todos nós já recebemos essas mensagens, em como temos dívidas a saldar dos CTT, com a EDP. As pessoas recebiam essas mensagens e pagavam utilizando entidades que estavam sob controle dos jovens.

Aquelas mensagens, por exemplo, que às vezes recebemos do tipo: "Tem uma encomenda CTT, clica aqui, não sei o quê", quando não encomendamos nada.

Sim, ou então a encomenda irá para trás, ou então uma conta da EDP por saldar no valor de cento e tal euros e que tem de ser paga com uma entidade que lá surge e essa entidade está em nome dos criminosos.

Já regressamos à conversa com Leonor Rizzo, editora adjunta de Sociedade do Observador. Afinal, o que ganharam, mas sobretudo, o que perderam estes jovens? Estamos de regresso à conversa com Leonor Rizzo, editora adjunta de Sociedade do Observador. Leonor, ainda conseguiram também entrar no site ou no sistema da Segurança Social?

Sim, é verdade. Ao que o Ministério Público apurou, através de um menor, um dos jovens acusados conseguiu entrar nos sistemas da Segurança Social. Este menor era filho de uma funcionária da Segurança Social e seguia instruções de um dos acusados para se apropriar de dados que estavam lá. Por exemplo, no computador desse acusado foram encontrados 300 mil registos de pessoas.

300 mil?

Sim, é verdade.

E sabemos quanto é que amealharam nesta atividade?

Foram milhares de euros. Com estes dados em concreto da Segurança Social, aquilo que eles faziam era chantagem com as pessoas, ou seja, sei onde vives, sei quem é a tua família. Por exemplo, está na acusação que um youtuber conhecido foi alvo de chantagem por meio deste acesso indevido. A maior parte do dinheiro amealhado foi realmente através das burlas, que já mencionámos. Estes jovens, além de terem feito milhares de euros, também com esse dinheiro conseguiram comprar objetos de grande valor. Nas buscas de que foram alvo, foram encontrados computadores, iPhones, iPads, malas de luxo, roupas de marca, muitos cartões bancários, bem como vários xaropes e medicamentos que terão sido prescritos.

Com as receitas falsas.

Exatamente, com as receitas falsas. Foi também encontrada na casa de um dos jovens uma prenda endereçada à sua mãe, que eram uns chinelos, mas não eram uns chinelos quaisquer. Eram uns chinelos da marca Versace, que eram cor-de-rosa com um aplique dourado.

E caros, imagino.

Sim.

Mas estamos a falar então de vários suspeitos, vários arguidos, ou só de três, que são os três fundadores ou alegados fundadores deste esquema criminoso?

Não são apenas três. Como dizes, e bem, realmente há aqui três pessoas que são tidas como os mentores e os iniciadores deste esquema, de toda esta atividade criminosa, mas o Ministério Público acusou 18 pessoas ao todo.

18.

Exatamente. Os três considerados mentores encontram-se em prisão preventiva. Ainda não há julgamento. Uma coisa que todo este caso revela é que é possível iniciar uma atividade criminosa bem organizada, muito abrangente. Eles não eram hackers, ou seja, aquilo que fizeram foi aproveitar-se de sites que existem, onde os nossos dados estão à venda pelos vistos, e com isto começaram a fazer o que lhes apeteceu. Não só tirar proveitos monetários, como também ridicularizar as pessoas.

É interessante isso que estás a dizer, portanto, não são crânios informáticos que entram nos sistemas e que os alteram.

Piratas informáticos.

São três miúdos, no fundo.

Viram uma oportunidade.

E que compraram acessos indevidos ou alegadamente compraram acessos indevidos e que conseguiram, a partir daí, montar um esquema criminoso. Isso parece terrivelmente fácil.

Sim, parece mesmo muito fácil. São sites que podem não estar facilmente acessíveis, mas são acessíveis e têm listas infindáveis, como nós podemos ver através desta história, de dados de várias pessoas.

E ainda não há julgamento marcado?

Não, que saibamos ainda não está marcado.

Mas para já estes três jovens estão em prisão preventiva.

Exatamente. Sim.

Obrigado, Leonor.

Obrigada, Ricardo.

Leonor Rizzo é editora adjunta de Sociedade do Observador. Ficam ainda alguns destaques para esta segunda-feira. Desde logo, o calor, que vai mesmo apertar, muito calor em todo o país esta segunda-feira e durante esta semana. De resto, o episódio anterior da História do Dia, o de sexta-feira, 1 de agosto, pode dar uma ajuda a perceber o porquê de tanto calor. E mais logo à noite, estreia o terceiro episódio da nova série dos Podcast Plus do Observador, o terceiro episódio de "1983: Portugal à Queima Roupa". Este episódio chama-se "Ataque à Embaixada". E esta semana está repleta de acontecimentos desportivos. Na quarta-feira arranca a Volta a Portugal em Bicicleta e há pré-eliminatória da Liga dos Campeões, Nice-Benfica, um jogo na Riviera francesa, que terá transmissão na Rádio Observador. Na sexta-feira arranca o campeonato de futebol. O Casa Pia recebe o Sporting na primeira jornada e no sábado há um Futebol Clube do Porto, Vitória Sport Clube de Guimarães, no Estádio do Dragão. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Francisco Gil, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e boas férias.