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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a ameaça falsa que deixou alunos, pais e professores em alerta.

A segurança total ou a 100% não existe. Portanto, o que lhe posso dizer é que do que foi rastreada a situação em que estamos, hoje é tão perigoso ir à escola como nos outros dias todos.

Magina da Silva é o diretor nacional da Polícia de Segurança Pública. No Porto, onde acompanhou uma operação da PSP de combate ao tráfico de droga, classificou de mau-gosto as ameaças que puseram em estado de alerta milhares de alunos e de pais na região de Lisboa. Várias ameaças, difundidas através das redes sociais, avisavam para a possibilidade de um massacre nas escolas da Grande Lisboa, esta quinta-feira, 20 de abril. Um boato que se espalhou a grande velocidade e que provocou medo nas mais diversas comunidades escolares. A 20 de abril, assinalava-se o 24º aniversário do massacre de Columbine, nos Estados Unidos, em que 12 adolescentes e um professor foram mortos por dois alunos que acabaram por se suicidar. Como nasceu este rumor e qual foi a resposta das autoridades e como devem os jornalistas lidar com estes casos? Vou conversar com Carlos Diogo Santos, editor de sociedade do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Carlos.

Olá, Ricardo.

O que é que aconteceu, afinal, esta quarta-feira?

Ao fim de vários dias de um trabalho que foi feito por investidores, pelas polícias em Portugal, sobre as várias ameaças que circulavam nas redes sociais, aquilo que aconteceu é que os alunos passaram a falar mais nas escolas e isso começou a invadir vários grupos, não só de alunos, mas também de pais, gerando aqui uma situação de pânico.

Grupos de WhatsApp?

WhatsApp, as conversas dos alunos. E isso gerou uma situação em que as próprias autoridades, que até aí tinham conseguido manter isto numa investigação e tentar perceber se de fato havia algum risco acrescido, e não havia até esse momento qualquer indício de perigo, passaram a perder quase que o controle da comunicação e o que aconteceu foi um pânico generalizado.

Ou seja, você está a falar de uma ideia que se espalhou rapidamente através das redes sociais, que foi uma espécie de anúncio de um crime, uma hipótese de um massacre nas escolas da Grande Lisboa, é isso?

Sim, exatamente. E depois de se criar essa mensagem que estava amplamente difundida nas escolas e na comunidade escolar, foi preciso a polícia falar de forma oficial sobre o que estava a acontecer. E o que estava a acontecer eram réplicas, como tem sido noticiado. Ou seja, houve uma aluna em Portugal que começou a difundir uma mensagem que já tinha circulado em outros países e em outras ocasiões, inclusivamente em território nacional, e essa mensagem acabou por se tornar viral e foi identificada pela polícia. Até mesmo esse aluno já tinha sido identificado quando este fenômeno ganha força na opinião pública.

E foi replicada por várias escolas, é isso? Há uma escola em Cascais, outra em Odivelas.

Sim, mensagens a apontar para ameaças de ataques em escolas em Vila Nova de Gaia, Aveiro, Leiria, mas sobretudo na região da Grande Lisboa.

E falaste aí de um aluno identificado, já se percebeu onde é que está a origem de tudo isto?

Sim, a PJ começou por passar a pente fino, juntamente, isto foi um trabalho com a Polícia de Segurança Pública e sempre em articulação com as autoridades de outros países, através da Interpol, passou a analisar, por exemplo, imagens que circulavam e os utilizadores que punham essas mensagens a circular.

As ameaças, certo.

As imagens não eram de armas que estavam em Portugal.

Estavam aí.

Sim, eram imagens que já tinham circulado.

Então vinham de onde?

Tinham circulado em outros países, Brasil, nomeadamente, até pela proximidade da língua, isso fez com que os alunos portugueses passassem a ter mais contato com esta realidade.

Porque no Brasil houve um caso muito semelhante já este mês, não é?

Sim, exatamente. Ou seja, aquilo que está a acontecer em Portugal é exatamente, ou muito idêntico, àquilo que foram as ameaças que começaram a circular nas redes sociais no Brasil.

Mas falávamos aqui do aluno identificado. Conta-nos lá essa parte da história.

Esse primeiro aluno que foi identificado foi numa escola de Odivelas. Nesse primeiro contato que as autoridades tiveram, percebeu-se que era uma criança que não tinha sequer noção da gravidade do que tinha feito, não tinha qualquer tipo de intenção de pôr em causa a segurança dos colegas e nem sabia da dimensão que tudo isto ia tomar nos dias seguintes.

Carlos Diogo Santos, falaste já de uma espécie de reação em cadeia que se espalhou pelas redes. Qual foi a reação das escolas a tudo isto? O que é que fizeram?

As escolas começaram a tentar perceber se de facto havia algum problema com algum dos seus alunos, mas eu acredito que foi a partir do momento que a Polícia de Segurança Pública informou os diretores de escolas que iria reforçar o policiamento, que este caso acabou até por ganhar essa dimensão. Por quê? Porque os diretores e alguns responsáveis das escolas acabaram por informar encarregados de educação de que iria haver um reforço do policiamento e isso fez com que, em alguns momentos, os próprios pais ficassem preocupados sobre o porquê então desse reforço.

Ou seja, houve uma tentativa de desvalorização por parte das escolas. No entanto, estamos todos muito atentos e a PSP até vai pôr aqui mais um carro à porta. Foi isso que aconteceu?

Exatamente. Ou seja, aqui a comunicação, que seria com a melhor das intenções, em alguns momentos pode ter funcionado como uma espécie de alarme.

Já voltamos à conversa com o editor de sociedade do Observador, Carlos Diogo Santos. Vamos tentar perceber qual será a melhor forma de reagir a estes rumores, quer pelas forças de segurança, quer também pelos jornalistas. Os seis episódios da série em podcast "O Sargento na Cela 7" estão já todos disponíveis no site do Observador, nas plataformas de podcast e ainda no YouTube. A série conta-nos a história de António Lobato, o prisioneiro de guerra português que mais tempo passou em cativeiro na guerra em África. É uma história de amor, de guerra e de uma operação secreta, uma história narrada pelo ator PP Rapazote e com música original de Noiserv, que estamos aqui a ouvir em fundo. É um podcast do Observador que nos permite mergulhar numa história incrível e com relatos na primeira pessoa de quem a viveu. E se gostar, pode partilhar o "Sargento na Cela 7" com um amigo ou familiar. Para nós, é muito importante que o faça. Estamos de regresso à conversa com Carlos Diogo Santos, o editor de sociedade do Observador. Carlos, e a PSP, já falaste aí da PSP e da Judiciária. A PSP olhou para isto da mesma forma que a Polícia Judiciária? São duas polícias que têm competências diferentes, por isso têm formas de atuação diferentes quando confrontadas com estes rumores e estas ameaças.

Sim, mas eu até vou mais longe. Têm estratégias de comunicação necessariamente diferentes. E não cometo aqui nenhum erro, penso, se focar neste caso para mostrar isso, que a Polícia de Segurança Pública, por ser uma polícia de proximidade, prevenção, de rua.

Segurança.

Segurança, acaba por ter aqui uma comunicação que é mais ágil e na parte de prevenção, de comunicar situações, acabou por comunicar por antecipação, neste caso, na madrugada de quinta-feira, e falou exatamente do que estava em causa e daquilo a que as pessoas deveriam ter particular atenção.

Luís Neves, o diretor nacional da Judiciária, fala em voyeurismo, em declarações registadas pela RTP.

Não há propriamente a intenção da prática dos crimes. Nós, quando iniciámos, já aqui foi dito, temos que ter a mente aberta e ver as opções todas. E o que verificámos é que, de facto, havia a necessidade de algum voyeurismo e de passagem destas mensagens.

No caso da Polícia Judiciária, como tem competências mais de investigação, a estratégia de comunicação é sempre mais a de não falar e de tentar perceber se o assunto cai no esquecimento, no caso de não haver qualquer perigo, como até agora parece nunca ter existido, para que não se criem ondas motivadas pela comunicação. E portanto, aqui é muito interessante esta estratégia de comunicação, estas diferenças, porque são estratégias que nós vemos noutros casos, mas às vezes em separado, e aqui pudemos ver, porque era um caso de articulação entre as duas polícias, que de facto a PSP é a primeira a reagir e a PJ só na quinta-feira, depois do assunto estar nos meios de comunicação e de quase ser necessário aqui uma tranquilização, é que vem dizer alguma coisa.

Usaste aí o termo tranquilizar. Olhando para aquilo que foi o comunicado da PSP, a polícia não deveria desmentir de uma forma mais categórica este tipo de ameaças? Ao ler aquele comunicado, fica um pouco a sensação que foi demasiado cautelosa na forma como desmentia aquela informação e, ao mesmo tempo, e daquilo que falavas há pouco, reforçava a presença nas escolas. Há carros da PSP à porta das escolas?

Sim. A polícia estava, neste caso, desde o dia 13. Isto é importante perceber-se. Ou seja, houve muitos dias de silêncio. Quando, na passada quinta-feira, a PSP comunica, está num dilema, ali num difícil equilíbrio, que é entre o de ficar em silêncio perante centenas de pessoas, centenas de pais que estão preocupados, que querem saber se a polícia está ou não atenta.

Porque a informação estava a correr, não é?

Exatamente. E são os próprios filhos a dizer, muitas vezes até com teorias que vão sendo criadas nas escolas. Portanto, há uma preocupação genuína de centenas de pessoas que vão invadindo as redes sociais da polícia perguntando: "Têm conhecimento disto? Sabem que isto está a acontecer?" E há aí um equilíbrio difícil entre o ficar calado e correr-se o risco de passar uma sensação de falta de segurança ou falar e provocar as tais ondas que nós falávamos ainda há pouco. E por isso é que é interessante percebermos que, num primeiro momento, há de facto um comunicado que é cauteloso, que é quase que: "Nós sabemos que isto está a circular e vamos estar atentos."

E será improvável, mas vamos estar atentos. Vamos pôr homens na rua. Ora, isto não tranquiliza ninguém, não é?

Pode ter esse efeito. E penso que por isso é que depois o diretor nacional da Polícia de Segurança Pública, Magina da Silva, vem quinta-feira, horas depois, dizer que tudo não passa de brincadeiras de mau gosto.

Ao que sei, portanto, não

Não passou de uma brincadeira de mau gosto, tal como muitas vezes os alunos para não irem aos exames comunicavam alertas de bomba.

Acho que esse equilíbrio foi aquilo que é difícil sempre, mas que neste caso mais uma vez ficou patente, que é entre o não dizer nada e criar-se uma sensação de falsa segurança e o dizer-se e criar-se a sensação de que se a polícia falou é porque isto é problemático.

E estas ameaças, Carlos, são crime? Há consequências para estas ameaças?

Sim. Neste caso, as crianças que foram identificadas como tendo sido as que colocaram em marcha em Portugal este tipo de ameaças nas redes sociais foram sinalizadas. Houve uma sinalização à proteção de menores e aos diversos tribunais de família e menores. Isto porque há uma comunicação direta, a partir do momento que as autoridades têm conhecimento disto, ao Ministério Público. E isto acontece, neste caso, porque as autoridades, PSP e sobretudo a PJ, consideraram que estamos perante a prática de um crime, um crime de ameaça com prática de outro crime. E portanto, acaba por se confirmar este crime também com o alarme social que provocou e por isso há uma comunicação ao Ministério Público por suspeitas desse ilícito.

E senhor editor de sociedade do Observador, Carlos Diogo Santos, como é que os jornalistas olham para isto, ou melhor, como é que lidam com esta informação?

É difícil falarmos nos jornalistas como um todo.

Exato.

Mas eu acredito que cada um no seu órgão de comunicação terá feito o melhor, ou pelo menos aquilo que achava que era melhor para, cumprindo as suas regras deontológicas, não criar alarme injustificado. Aquilo que, por exemplo, está aqui em causa é: se houver ameaças que são verificáveis e de facto têm um fundo de verdade, isto tem interesse público. Se tudo não passar de brincadeiras, poderá não ter interesse público.

E foi essa avaliação que fizemos aqui no Observador e na Rádio Observador?

Sim. Só na quinta-feira de madrugada, já passava da meia-noite, é que houve uma confirmação da Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública de que estava atenta e aliás com alguns conselhos às pessoas sobre os momentos ou em que situações é que deveriam ligar para o 112, dando algumas sugestões. E só nesse momento, quando a Polícia de Segurança Pública oficialmente confirma que estas ameaças estão a ser monitorizadas, estão a merecer a atenção das autoridades, é que o Observador avança a notícia e a dá, repito, já de madrugada, apesar de já serem conhecidas as ameaças desde a tarde desse dia, do dia anterior.

No fundo, somos colocados entre algo que está a provocar alarme social e que nós todos sabemos, porque somos todos de carne e osso, somos todos pais e filhos, e sabemos que a notícia está a circular, mas não lhe damos esse valor e esse peso notícia sem que exista aqui uma fonte oficial, uma confirmação oficial de que algo está a ser feito e que aquilo não passa de uma conversa de Facebook ou de TikTok.

Claro. É que o assunto é de facto muito sensível. Estamos a falar de locais onde os pais deixam as crianças, ou as crianças vão sozinhas, mas onde ficam, e sabemos bem o impacto que tem na vida das pessoas essa sensação de não segurança nesses espaços. E, portanto, não faria sentido estarmos a avançar com uma notícia, fosse qual fosse, se nós não tivéssemos a certeza de que a polícia estava a dar muita relevância àquelas ameaças, porque de facto poderia não passar de brincadeiras, como aliás parece, e a polícia nem estar sequer atenta a isso, porque já tinha feito algum tipo de trabalho que tinha permitido despistar tudo. Neste caso, não. A polícia disse: "Estamos a dar atenção ao caso, estamos a monitorizar, vamos fazer um reforço da segurança". E a partir desse momento, a partir do momento em que oficialmente a Direção Nacional da Polícia de Segurança Pública o assume, passa a não haver dúvidas de que aquilo é notícia e de que aquilo tem interesse público.

Obrigado, Carlos.

Obrigado.

Carlos Diogo Santos é o editor de sociedade do Observador. Esta foi a História do Dia, que contou com a colaboração do jornalista Vasco Maldonado Correia, sonoplastia de Diogo Casinha e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.