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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a guerra em Kursk que deixa Putin em risco.

"A profundidade da penetração no território da região de Kursk é de 12 km, a largura no front é de 40 km."

É um momento constrangedor, quando o governador de Kursk revela numa reunião que a Ucrânia já assumiu o controle de 28 localidades e pelo menos 2000 russos estão desaparecidos, Putin corta-lhe a palavra.

"No front os 40 km。"

"Ouça, Alexei Bryuch, isto é uma questão militar."

Ninguém sabe ao certo qual o real avanço das tropas de Kiev, mas há uma certeza: pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, território russo foi invadido e tomado pelo inimigo. Em que posição fica Vladimir Putin e o que dizem os sinais públicos sobre a estratégia privada do presidente russo para lidar com a ameaça? Vou conversar com Cátia Bruno, editora de internacional e uma das enviadas do Observador à guerra na Ucrânia em 2022. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta é a história do dia de segunda-feira, 02 de setembro. Bem-vinda, Cátia.

Olá, Sara.

Como é que Vladimir Putin habitualmente reage perante uma crise?

Normalmente, aquilo a que temos assistido ao longo dos anos, e já são muitos, Vladimir Putin está no poder desde o ano 2000, é que quando acontece uma crise, o presidente desaparece durante alguns tempos do olhar público. Não reage de imediato, não faz logo um discurso, mantém a sua agenda habitual e só fala sobre a crise que está acontecendo alguns dias ou até semanas depois.

E por que sabemos que é esse padrão?

Porque pudemos assistir a esse comportamento várias vezes ao longo de muitos anos. Basta pensar, por exemplo, quando foi o sequestro na escola de Beslan, em que centenas de crianças acabaram mortas por terroristas chechenos. Putin não reagiu logo, esteve desaparecido durante alguns tempos e depois apareceu mais tarde com um discurso muito forte e a dizer que iria usar isto para fazer alterações na forma de eleições de governadores locais, por exemplo. Quando começou a crise da pandemia de Covid-19, Putin também desapareceu e foram os governadores regionais que anunciaram as primeiras medidas do país. E mais recentemente, quando Yevgeny Prigozhin, o líder da milícia Wagner, tentou um motim para derrubar Putin, tentando entrar com os seus soldados por Moscovo dentro, Putin também não reagiu logo. Só depois da rebelião estar contida é que falou em público e disse que a rebelião teria que ser castigada.

É uma forma de só se associar a uma crise quando ela já está a caminho de ser resolvida e ele pode sair com uma imagem de força?

Sim, há um especialista na Rússia muito conhecido, o Mark Galeotti, que dizia recentemente: "Putin desaparece, faz este ato de desaparecer, espera para ver o que é que os subordinados fazem. Se correr bem, aparece para colher os louros, se correr mal, aparece para castigar quem errou". Portanto, ele acaba sempre por sair bem na fotografia, aconteça o que acontecer.

É isso que tem acontecido agora, com esta invasão de território russo por parte do exército de Kiev?

Parece-me que sim. Tivemos nos primeiros dias o presidente russo a não falar em público sobre o que estava a acontecer. Até as autoridades russas demoraram a confirmar, como as próprias autoridades ucranianas, a confirmar que estava uma ofensiva, de facto, em curso em território russo. Depois, Putin foi aparecendo na sua agenda habitual, sem falar sobre o tema. E depois, à medida que as semanas foram avançando e era óbvio aquilo que estava a acontecer e já havia uma resposta no terreno por parte da Rússia, Putin apareceu na reunião que ouvimos no início deste episódio a abordar o assunto e a repreender o governador da região de Kursk por este estar a revelar dados potencialmente sensíveis sobre perdas russas na zona de fronteira com a Ucrânia.

Se este é o comportamento público de Vladimir Putin, sabemos que em privado ele sabe que há uma crise e está a reagir como costuma reagir. Por que há uma crise?

Há uma crise porque, basta resumirmos nesta simples frase, é a primeira vez que território russo é invadido por um país estrangeiro desde a Segunda Guerra Mundial. Portanto, logo aí é óbvio que é uma crise. Se pensarmos que ainda por cima essa invasão é feita pelo país que tem sido atacado pela Rússia há dois anos.

Uma inversão de papéis.

Uma total inversão de papéis e que tem aqui um efeito no moral das tropas ucranianas e da própria sociedade ucraniana muito forte. É evidente que é uma crise. Depois é ainda mais evidente que é uma crise quando surgem relatos no terreno de que a resposta das autoridades russas demorou, de que a resposta militar durante os primeiros dias assentou apenas nos recrutas que estavam na região e não em militares experientes.

Recrutas que supostamente nem iriam ser postos a combater.

Precisamente, Putin tinha dado essa garantia às famílias de que eles nunca estariam numa linha da frente, numa zona de combate ativa, mas a partir do momento em que a Ucrânia invade a Rússia, em resposta a uma invasão da Rússia, esses recrutas foram apanhados desprevenidos e de repente são feridos, são mortos, são feitos prisioneiros de guerra.

Já voltamos à conversa com a Cátia Bruno. Na segunda parte vamos tentar perceber exactamente porque é que Kursk se tornou uma das batalhas desta guerra e do impacto que os civis, agora os russos, podem ter. Estamos de regresso à conversa com Cátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Cátia, vamos voltar aqui um bocadinho atrás. Onde é que fica Kursk e porque é que de repente é um dos pontos mais quentes da guerra na Ucrânia, sendo que Kursk é na Rússia?

Kursk fica numa zona de fronteira entre a Rússia e a Ucrânia, faz parte de uma das zonas mais ocidentais da Rússia e de uma das zonas mais orientais a norte da Ucrânia, e é uma zona que, apesar de ser uma região de fronteira, não tinha tido ainda grande contacto com esta guerra, como outras, por exemplo, Belgorod, tinham tido. Belgorod já tinha sido alvo de vários ataques com drones ucranianos, já tinha tido ataques militares por milícias de voluntários russos pró-ucranianos. E desta vez, Kursk, que fica mais para dentro do território russo do que Belgorod, sentiu pela primeira vez o impacto da guerra que acontece ali ao lado. É preciso lembrar que esta ofensiva começou a 6 de agosto, envolta num completo secretismo. Foram precisos dias para a própria Ucrânia confirmar que ela estava a acontecer. Segundo a Ucrânia, os aliados ocidentais nem sequer foram avisados, ou terão sido avisados muito à última hora. Portanto, isto apanhou completamente de surpresa, não só os líderes russos como obviamente os civis, sendo que estes são civis que embora vivam perto da fronteira com a Ucrânia, continuavam a sentir a guerra ainda como uma realidade muito distante, porque ao contrário de Belgorod, por exemplo, não tinham sido alvo de qualquer ataque. Isto tem um impacto na psique dos russos, obviamente muito grande, e ainda para mais estamos a falar de civis que, de repente, lidaram não apenas com o ataque de um drone uma vez, mas com bombardeamentos repetidos, com tropas a entrarem pela cidade adentro, com terem de se refugiar em caves e abrigos subterrâneos, com a falta de bens. Aquilo que os ucranianos sentiram ao longo dos últimos dois anos, de repente, cidadãos russos em Kursk sentiram exatamente o mesmo.

Mas em público, os russos foram garantindo que não se passava nada, que estava tudo controlado.

Sim, ao longo do tempo era inevitável reconhecer que algo se passava. Ou seja, nos primeiros dias não houve reação, mas a certa altura, quando começou a haver algum tipo de resposta, ou seja, quando a Rússia nomeou um comandante para o terreno, para além das tropas que lá estavam, e escolheu o líder das forças especiais chechenas, neste caso, Apti Alaudinov. Ao enviar este comandante para o terreno, ele começou a funcionar como uma espécie de relações públicas, a falar sobre a situação no terreno, e foi repetidamente garantindo aos russos que tudo estava sob controle. Das primeiras declarações que fez foi que aconselhava as pessoas a comerem pipocas enquanto viam a Rússia a destruir o inimigo. E depois, ao longo dos dias seguintes, foi dizendo: "Está tudo sob controle, a situação está totalmente acalmada, a Rússia está a responder e, portanto, nada temam". Quando, na verdade, aquilo que íamos vendo das imagens, por exemplo, que eram divulgadas nas redes sociais e das mensagens que eram divulgadas não só pelos ucranianos, mas pelos próprios civis russos, era um relato um pouco diferente daquele que o comandante fazia em público.

Esses relatos dão conta de que até este fim de semana, são quais as estimativas?

A Ucrânia diz que já controla 100 localidades na região de Kursk. Os russos não falam em números oficialmente, mas a famosa reunião de Putin com o governador da região trouxe aqui algumas luzes quando o governador fala em pelo menos 28 localidades conquistadas. Claro que é uma diferença muito grande de números face àqueles que a Ucrânia disse, mas esta reunião também já aconteceu há mais tempo. E o governador também falou em mais de 2000 pessoas desaparecidas.

Cidadãos russos.

Cidadãos russos, alguns militares, alguns civis, não sabemos exatamente. Sabemos, por exemplo, que uma publicação russa independente, que é o iStories, conseguiu identificar 130 recrutas russos que terão sido feitos prisioneiros pela Ucrânia, que estão dados como desaparecidos, mas que eles conseguiram identificar o seu paradeiro. E sabemos que a Rússia e a Ucrânia fizeram uma troca de prisioneiros com 150 para cada lado, sendo que isso significa que a Ucrânia fez pelo menos 150 prisioneiros de guerra, muito provavelmente terá feito mais.

Na primeira parte e também há pouco, já nesta segunda parte, falavas do impacto para os civis. De repente, russos que estão a viver a mesma coisa que vimos ucranianos viver, escondidos em bunkers durante dias, semanas. Neste momento, os civis russos são as vítimas colaterais da guerra nesta batalha específica. Esta mudança pode virar a opinião pública russa contra Putin?

Aqui elementos que temos de ter em conta que são, por um lado, a fase do conflito e, por outro, a dimensão geográfica da Rússia. Ou seja, o que eu quero dizer com isto: num primeiro momento, aquilo que, por exemplo, várias empresas de sondagens e empresas que fazem monitorização de redes sociais têm detetado é que há um nível de Raiva, desilusão por parte de muitos civis russos em relação às suas próprias autoridades. Há queixas sobre a demora a retirar pessoas da zona de Kursk, há queixas sobre o facto de os recrutas estarem a ser mandados para a linha da frente, mas aquilo que muitos especialistas apontam, e até fontes do Kremlin têm revelado a alguns jornais que têm confiança nisso, porque costuma ser esse o padrão de comportamento dos russos, é que ao longo do tempo, à medida que a situação for sendo controlada, esta revolta poderá diminuir. Por outro lado, temos também de pensar no facto de que esta é a sensação dos habitantes de Kursk. A Rússia é um país enorme, é um país com mais de 10 fusos horários e para a maior parte dos russos, a guerra continua a ser uma realidade distante. Tudo deixou de o ser para os habitantes de Kursk, mas eles são uma minoria da população. A isto junta-se o facto de a raiva que muitos sentem, até em Kursk, neste momento é em grande parte direcionada para as autoridades russas, mas também pelos relatos que temos ouvido já de jornalistas no terreno, há também muitos russos que se sentem muito revoltados com a Ucrânia e com o ataque vindo do lado ucraniano. Portanto, é quase expectável que ao longo do tempo, à medida que as autoridades russas vão resolvendo e vão controlando a ofensiva, essa raiva possa direcionar-se não necessariamente para o Kremlin, mas para o inimigo que o Kremlin tem apontado, a Ucrânia, e portanto, quem sabe se não poderá até ter um efeito de galvanizar os russos em torno de uma guerra que as sondagens mostram os tem mantido muito adormecidos, muito pouco importados com o decorrer dela.

O que significa, Cátia, que Kursk é um contratempo, sim, mas não deixa Putin propriamente em dificuldades.

Muito provavelmente não, porque como dizíamos no início deste episódio, o padrão não é novo. Putin tem a habilidade de saber responder, servir a vingança sempre de forma fria e, portanto, foi o que aconteceu precisamente com Prigozhin. Inicialmente, parecia uma resposta tosca, aquela ideia da anistia para alguns, e uns tempos depois, Prigozhin teve um acidente de avião um pouco inexplicável. Todo esse tipo de reação cria sempre uma imagem de um Putin fortalecido, que no momento em que todos pensam: "Se calhar agora ele não vai saber lidar com isto", ele tem a capacidade de dar uma resposta tão dura mais tarde que cria a perceção: "Bom, ele continua a ser um homem forte". E isso tem uma influência não só dentro do Kremlin, que faz com que ninguém tenha coragem de lhe apontar o dedo, mas faz também com que essa ideia se mantenha muito firme na cabeça da maioria dos russos e, portanto, muito provavelmente, Kursk não será diferente.

Obrigada, Cátia.

Obrigada eu.

Cátia Bruno é editora de Internacional do Observador. Em 2022, foi um dos nossos enviados especiais à Ucrânia quando começou a guerra. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Boa semana e até amanhã.