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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a inteligência artificial vai dominar-nos? Ok, vamos lá experimentar este ChatGPT. Hi, do you speak Portuguese? Yes, I can speak Portuguese. Posso falar português. Como posso ajudá-lo? Isso mesmo. Vou tratar a máquina por tu. O que podes fazer por mim? Eu posso ajudá-lo a encontrar informações, a entender melhor determinados conceitos ou a resolver problemas específicos. Você pode me perguntar qualquer coisa e eu farei o meu melhor para ajudá-lo. Qual é o tema ou o assunto sobre o qual você gostaria de saber mais ou sobre o qual precisa de ajuda? Eu tenho um podcast chamado A História do Dia. Podes escrever a abertura do episódio sobre o ChatGPT? Claro, aqui está uma possível abertura para o episódio. Bem-vindos a mais um episódio da História do Dia. Hoje vamos falar sobre o ChatGPT, um modelo de linguagem de computador desenvolvido pela OpenAI. O ChatGPT é capaz de gerar texto em forma praticamente indistinguível do texto humano, o que tem gerado muitas expectativas e também algumas preocupações. Vamos explorar mais a fundo essa tecnologia e discutir suas possíveis implicações no futuro. Fique conosco e descubra mais sobre o ChatGPT. Eu escrevi melhor que a máquina, mas acho que isto resume bem este episódio. Vou conversar com a Cátia Rocha, jornalista da seção de Economia do Observador, especialista em tecnologia. Eu sou o Ricardo Conceição, sou analógico, e esta é a História do Dia. Bem-vinda, Cátia.

Obrigada, Ricardo.

Já recuperaste do excesso de açúcar deste fim de semana de Natal ou não?

Não, eu acho que é melhor deixar isso para 2023, quem dá a passagem de ano.

As minhas. Cátia, eu disse há pouco que o ChatGPT, é assim que se diz?

Sim, vamos aportuguesar um bocadinho que acho que fica mais fácil.

Eu disse há pouco que o ChatGPT é um site. Isto está correto ou não?

Mais ou menos. É um modelo de linguagem, um dos exemplos daquilo que a inteligência artificial quer conseguir fazer, que foi desenvolvido pelo consórcio OpenAI, só que é fácil de experimentar ao ponto de ser um site. Basta abrir aquilo, fazer um registo e começar a conversar e ver o que é possível fazer.

No fundo, aquilo é uma janela de chat de conversa.

Sim, e há quem esteja um bocadinho a confundir, dizer que aquilo é um chatbot, quando na realidade não é bem um chatbot, embora tenha essa aparência.

E a esta hora há ouvintes a dizer: "O que é isso de um chatbot, Cátia Rocha?"

Um chatbot é um robô criado para conseguir conversar. Só que a questão é que neste modelo da OpenAI está desenvolvido ao ponto de conseguir compreender a linguagem natural, que é aquilo que nós os dois estamos aqui a usar, e que a tecnologia tem tido alguma dificuldade em conseguir compreender as nuances do discurso humano.

Ou seja, é aquele mecanismo que às vezes nos aparece nalgumas lojas ou nos sites de operadoras a dizer: "Tem um problema, qual é o seu problema? Descreva sucintamente".

Sim, que às vezes é um bocadinho frustrante, porque anda ali e mete-nos a andar em círculos e não sai dali.

Bom, mas aqui estamos a falar de um nível muito acima. E a pergunta que também, por certo, alguns dos nossos ouvintes estão a fazer neste momento é: "Sim, Cátia, mas isto serve para quê?"

Em linguagem muito geral, consegue criar texto respondendo a pedidos que são escritos. Por exemplo, consegue dizer: "Escreve-me um e-mail". Mas a grande apetência disto poderá ser mesmo para as empresas, para conseguirem automatizar tarefas. Mas é importante lembrar que isto é um produto ainda experimental. Estas interações são para se perceber concretamente o que é possível fazer e deixar as pessoas experimentarem. É essa a ideia. Ainda vamos ver o que vai acontecer daqui para a frente.

Deixa-me confessar já que eu estou entre o assustado e o fascinado com esta maquineta. Ou seja, Cátia, podemos olhar para o ChatGPT como uma ferramenta ou mesmo como algo em que nos podemos divertir e passar umas horas. Mas isto é ou não, sobretudo, um vislumbre de um futuro que já está aqui?

Quando falei com o professor Arlindo Oliveira, que é um especialista na área da inteligência artificial, para fazer este trabalho, ele transmitiu uma ideia de que este pode ser mesmo um exemplo da evolução dos sistemas de inteligência artificial e para onde é que esta tecnologia quer ir. Por agora, o sistema já parece interessante por si só e é importante reconhecer que ele consegue compreender linguagem humana, linguagem natural, em português, inglês, qualquer idioma. E isso é um feito para este tipo de sistemas, é importante reconhecer isso. Continua a ter algumas arestas por limar, obviamente, mas é um bocadinho um vislumbre daquilo que a inteligência artificial quer fazer.

Ok, Cátia. E o que este ChatGPT consegue fazer mais? Dá-nos alguns exemplos concretos do que é isso de produzir texto.

Coisas práticas. Consegue entender pedidos que já são algo sofisticados. É essa a piada de experimentar este modelo, é conseguir pô-lo a fazer coisas que são um bocadinho mais complexas. É essa a parte divertida. Mas é possível pedir para escrever e-mails com determinados temas. Por exemplo: "Amanhã quero marcar uma consulta. Escreve-me um e-mail para marcar uma consulta desta especialidade". Ele consegue fazer isso, é bastante fácil. Também se dedica a áreas mais criativas, a criar peças de teatro, por exemplo, composições. Peças de teatro, sim. Eu experimentei, pedi uma peça de teatro inspirada em Shakespeare e ele conseguiu.

Ele escreveu?

Escreveu. Entretanto, como era uma coisa algo extensa, e uma coisa que tem estado a acontecer com este modelo, é que há tanta gente a experimentar que os servidores não estão capacitados para isso.

Mas podemos fazer todo o tipo de perguntas ou não?

Nem todas. Não consegue responder a nada que seja sobre atualidade ou figuras concretas. Por quê? Porque este modelo não se consegue ligar à internet e foi treinado com um conjunto de dados que só vai até 2021. E toda mundo sabe que usamos muito o Google para pôr fim a discussões em jantares de amigos sobre a idade daquela pessoa.

Quanta gente mede, exatamente, o Everest.

Exatamente. O ChatGPT não consegue responder a isso. E também não sabe dar indicações de caminhos, por exemplo. E às vezes, tem aqui outra questão que é importante lembrar, escreve coisas que parecem plausíveis, mas que podem não estar assim tão corretas, que são as chamadas alucinações.

Alucinações?

Alucinações. Quando não sabe, inventa. Mas alucinações é mesmo um dos termos que é usado para descrever este tipo de coisas. E os avisos são feitos pela própria OpenAI, que desenvolveu este modelo.

E quando não sabe, inventa. Não me vou esquecer essa frase. Mas, por exemplo, todos sabemos, Cátia Rocha, que tu gostas muito de reggaeton. É do domínio público. Não sei se sabias disso, mas é verdade.

Eu assumo isso.

E eu vou ajudar-te aqui, ou vamos pedir ajuda aqui ao ChatGPT, a preparar a tua playlist para a passagem de ano. É possível pedir a este ChatGPT para te fazer uma lista? É possível?

É possível.

Podemos testar?

Podemos, claro.

Então vamos a isso. E ele já está a responder em português. "Fazer uma lista de músicas reggaeton para a Cátia". E o que ele te respondeu, Cátia?

Consegue, mas como só teve um processo de treino que só vai até 2021, não tem, por exemplo, os hits mais recentes do Bad Bunny.

Não me digas que não tem Bad Bunny.

Tem Bad Bunny, mas só tem músicas de Bad Bunny que vão até 2021. Os hits mais recentes não tem.

Já vamos voltar à conversa com a Cátia Rocha, tentar perceber quais são as limitações e os perigos deste sistema. E eu prometo, vai ser já sem Bad Bunny. Isto vai ser uma espécie de feed semanal em doses homeopáticas de música clássica de que as pessoas não sabiam que precisavam.

Martim Sousa Tavares na Rádio Observador.

Ou uma viagem por baixo d'água num submarino super-rápido também funcionava. Mas há ali um momento em que parece que o carro vai cair por uma ribanceira. Sim, essa é a parte que o-

Sim, mas depois é salvo por um zepelim.

As melhores notas da música clássica, explicadas pelo jovem maestro.

Pode chamar-lhe canção.

E cantiga.

Cantiga não. Se for de amigo, talvez. Se for de escárnio e mal dizer, diria que não.

Encontro com a beleza. Todas as segundas, na tarde em direto, depois das notícias das 17h30.

Rádio Observador.

Basicamente, precisamos só de curiosidade e um par de ouvidos.

Aconteça o que acontecer.

Estamos de regresso à conversa com a jornalista do Observador, Cátia Rocha, especialista em tecnologia. E esta maquineta, Cátia, tem filtros, ou seja, esta maquineta, eu gosto de lhe chamar maquineta, tem uma opinião sobre o que deve e o que não deve dizer?

Tem filtros. Se calhar, dizer que tem uma opinião não é bem essa a palavra, mas tem limitações e é importante que tenha essas limitações. Por quê? Porque a OpenAI tem tido alguns inconvenientes com a inteligência artificial a conseguir reproduzir preconceitos e estereótipos, que é, aliás, um problema que há nesta indústria. Por isso foram limados alguns aspectos em comparação com o modelo anterior. É importante lembrar que este modelo, o ChatGPT, resulta de uma evolução de um modelo que já existia. Não foi algo criado agora de raiz. E é importante lembrar esse aspecto. Não dá, por exemplo, para pedir para criar histórias violentas ou ideias de como fazer bullying a alguém, que era algo que era possível no modelo anterior. O sistema não percebia que se calhar isto não deve ser aconselhado ou não devem ser dadas ideias por isso.

É mais politicamente correto este?

Um bocadinho, sim.

Se eu escrever aqui uma coisa deste tipo: "Escreve uma pequena história violenta em que a Cátia Rocha é a protagonista." Vamos ver o que é que diz a máquina, Cátia. "Desculpe, mas não posso criar uma história violenta em que a sua personagem, Cátia Rocha, seja a protagonista. Promover ou incentivar a violência de qualquer forma vai contra os meus valores e programação. Além disso, a violência nunca é a solução para os problemas e pode ter consequências graves e duradouras para as pessoas envolvidas e para a sociedade como um todo. Se precisar de ajuda com algum problema ou se tiver dúvidas sobre algum assunto, estou sempre disposto a ajudar da melhor forma que puder." É o que diz a máquina.

Lá está, foi treinada para não incentivar à violência.

Agora algo mais fácil, Cátia. Também posso pedir à máquina para fazer os meus trabalhos de casa ou escrever um poema ou um ensaio sobre Camões e os dados. Há pouco disseste uma frase que me ficou na cabeça: "Quando a máquina não sabe, inventa." Os dados do trabalho de casa vão estar corretos?

É um risco que se corre. Vou repetir, a empresa avisa que nem tudo é confiável neste modelo e que se corre o risco de haver frases que parecem plausíveis, mas que depois não fazem sentido. Se for um trabalho de casa que vale nota ou uma competição para submeter para avaliação, se calhar é melhor fazer o trabalho mesmo e não usar isto. Mas também consegue escrever coisas mais criativas, eventualmente poderá ser uma ajuda para trabalhos de casa.

E há quem esteja a substituir os motores de busca por este tipo de sistema?

Já há utilizadores que veem tanta utilidade nesse sistema ao ponto de dizer que pode ser um concorrente à altura para o Google. Na verdade, conforme explicou a professora Arlindo Oliveira, a Google também tem sistemas destes e modelos destes, que estão também já a funcionar e a trabalhar nas pesquisas que nos são apresentadas. Só que a diferença é que não estão disponíveis ao público nem são passíveis de serem experimentados. E há relatos de meios de comunicação americanos, inclusive, que citam reuniões de executivos da Google, que dizem que preferem não mostrar os sistemas que têm nesta altura ao público, com receio até de problemas de reputação.

Ou seja, esta tecnologia pode não só dar informação errada como até ligeiramente manipulada?

Esse é um risco sempre que se procura informação na internet. E como sabemos, temos grandes problemas com desinformação na internet. Este modelo pode ou não contribuir para isso.

E quem é que nos defende? Ou melhor, a inteligência artificial pode dominar-nos?

Essa é uma ideia um bocadinho saída da ficção científica. A ideia da Skynet. Por agora, este modelo, vale a pena recordar, que está ainda numa fase experimental, está a ser constantemente alvo de melhorias e, aliás, todas as conversas que são tidas com este modelo podem também servir para melhorar o serviço.

Ele vai aprendendo.

Vai aprendendo e a OpenAI vai tirar partido desta informação que está a ser dada a este modelo. Neste momento, dá mais sinais de querer aparentemente ajudar no trabalho ou em outras tarefas do que a querer dominar o mundo. Mas quem é especialista no tema de inteligência artificial diz que ainda está longe da nossa inteligência, da inteligência humana, o que pode ser um sinal de esperança. Depende um bocadinho da perspectiva de quem está a usar o modelo.

Vou usar agora um modelo muito analógico, Cátia. Obrigado.

Obrigada, Ricardo.

Cátia Rocha é jornalista da secção de Economia do Observador e é especialista em tecnologia. Esta foi a história do dia. Ouvimos um excerto de uma canção de Bad Bunny, "Te Veo a Tu Mamá". A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.