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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a invasão da cidade de Gaza. O morticínio vai continuar? Efi Defrin é brigadeiro general das Forças Armadas de Israel. Nesta declaração, diz que não vão esperar. As operações preliminares para tomar a cidade de Gaza estão em curso, um ataque forte contra o Hamas ao nível do solo e do subsolo, num ataque contra o que chama de terror. Israel chamou milhares de reservistas e prepara-se para lançar uma ofensiva contra a cidade de Gaza e já está a aconselhar a população a fugir para sul. E tudo isto para quê? E como veem os israelitas estas ações militares, este morticínio na Faixa de Gaza? É sobre isto que vou conversar com a jornalista israelita Maya Siminovich, que está em Tel Aviv. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 22 de agosto. Bem-vinda, Maya.
Oi, Ricardo. Muito obrigada.
Maya, que plano é este da ocupação da cidade de Gaza?
É uma coisa que todos nos perguntamos também aqui. Na teoria, é assim mesmo, uma conquista da cidade de Gaza primeiro e depois dos campos de refugiados do centro de Gaza, os lugares onde o exército israelense não tinha entrado ainda nessa guerra.
E agora foram recrutados mais 50 mil reservistas para ajudar neste esforço de guerra. Já agora, Maya, explica-nos o que são reservistas, porque nós também não estamos muito habituados a este tipo de terminologia.
Verdade. Aqui o exército é todo mundo. Todo mundo que tem 18 anos, homens e mulheres. Os homens servem três anos, as mulheres dois e meio, agora aumentou um pouco. E os reservistas são todos aqueles que já fizeram o serviço obrigatório, que é obrigatório, quem não vai pro exército, vai pra cadeia. Essas pessoas mais velhas, até os 40, 45, dependendo das unidades, voltam quando é preciso. É um marco de atuação voluntário, eu diria assim, mais ou menos voluntário, porque sim, se eles não querem ir, não vão. Mas no passado tinha consequências, agora é mais uma pressão social, de não estar bem visto, também abandonar os amigos numa situação de guerra como agora. E essas pessoas são todo mundo. Todo mundo que serve, são os professores das escolas, o dono do café, o vizinho, os filhos das amigas, em geral. Agora a pergunta. Sim?
Ia te perguntar, mas quando nós dizemos que vão ser chamados mais de 50 mil reservistas, estamos a falar de mais de 50 mil pessoas que aderem quase que voluntariamente a este novo esforço de guerra, é isso?
É aí que está a questão. Vão começar a mandar esses convites ou cartas pra eles se apresentarem, ainda não foram mandados, vai ser gradual. Agora em setembro vai ser uma das ondas de pedido, depois em novembro, depois o exército disse que em fevereiro ou março já vamos estar em 2026. E não tenho certeza que essas pessoas vão se apresentar. Tenho, inclusive, grandes dúvidas, porque tem aquelas pessoas que são contra a guerra dentro do exército, e esses que saem contra, falando publicamente, não são a maioria, são a minoria. Mas tem muitas pessoas, não tem números, porque não é uma coisa que se publicita, mas sim de falar com pessoas, que simplesmente não vão. E isso é uma incógnita.
Maya, quando falamos na ocupação da cidade de Gaza, isto leva-me aqui a uma pergunta: ainda há alguma coisa para ocupar? O que vemos daqui é morte e destruição em proporções desumanas. No fundo, qual é o objetivo desta nova ofensiva?
Olha, deixa eu te dizer uma coisa antes. Se tem alguma coisa a conquistar, tem. Está destruída Gaza. A maioria. Mas tem redutos. A cidade de Gaza tem muitos edifícios que estão em pé. Antes da guerra, a visão que tinha o mundo de Gaza também era não tão realista. Gaza sempre foi um território ocupado, bloqueado, nada de bom, mas tinha classe média, tinha pessoas ricas, tinha bairros residenciais. Isso nunca era uma coisa que as pessoas viam no mundo, por o que for, por como os jornalistas retratam a realidade dos lugares, era uma coisa que talvez não era interessante mostrar. Essas coisas, como não sabíamos então, agora também tem outras muitas coisas que não sabemos, porque Israel não permite que tenham jornalistas na Gaza. Agora, o que tem lá que conquistar? Segundo o exército israelense, tem duas brigadas de Hamas escondidas na cidade de Gaza. Esse é o objetivo do exército israelense. Tem também milhares de pessoas que já foram evacuadas. Ia dizer evacuar, mas não tem nenhuma ordem, nada. Todo mundo lá está fugindo como pode, de burro, de carro ou a pé. E isso está passando de maneira gradual, porque também ninguém tem certeza completa que isso vai acontecer. Parece que vai, mas tem uma coisa aqui nessa região que os pronósticos que os políticos falam bem claramente: "Vai acontecer isso." Depois, às vezes não acontece.
Já regressamos à conversa com Maya Siminovich, jornalista e que vive em Tel Aviv. Na segunda parte, como olham os israelitas para o que se está a passar na Faixa de Gaza? Estamos de regresso à conversa com Maya Siminovich, jornalista que vive em Tel Aviv. Maya, muita coisa mudou aí em Israel desde os ataques de 07 de outubro e o fato de existirem ainda reféns nas mãos do Hamas é uma ferida muito profunda na sociedade israelita. Porém, os relatos da fome, da morte, da destruição que nos vão chegando todos os dias são muito impressionantes e levantam questões morais e éticas. Israel é uma democracia ocidental no Médio Oriente, é pelo menos assim que olhamos para Israel. Como é que a sociedade israelita lida com este morticínio na Faixa de Gaza?
Tu estava dizendo como é que olham pra isso? Ia te responder de costas. Não olham. Os meios de comunicação fecharam filas com o governo na narrativa. São bem críticos com o governo pra diferentes coisas, mas a guerra em Gaza é um bloco de negação. Não está acontecendo o que o mundo todo diz, não tem fome, as coisas não estão bem, mas não é assim, não. É uma coisa terrível a falta de-
Empatia.
Não. Isso é outra coisa, isso vai depois. Mas por enquanto, os jornalistas não estão cumprindo com a labor deles básica de informar. Então criam uma sociedade ou alimentam uma situação que é confortável, de não saber, não pensar, não querer saber.
Mas isso, Maya, porque a dor causada pelos ataques de 07 de outubro é tão profunda que levou a essa reação? Achas que isso pode ser uma explicação?
Acho que é primeiro um choque do que aconteceu, depois, de novo, meios de comunicação e políticos alimentam o trauma. Nunca acaba. Todos os dias o que tem na televisão são ainda os mortos, os heróis, enterros. Essa é uma guerra que também tem muito soldado que morre. Tinha no meio ataques iranianos. Tem muita coisa que está acontecendo desde o ponto de vista de vitimismo. Que não é, mas é interpretado desse jeito. Está sendo alimentado, obviamente, pela política do Benjamin Netanyahu. Então está caindo essa vingança, desejo de vingança do começo, não está nem apagado, continua.
E precisamente do ponto de vista político, no fundo, esta guerra também é muito alimentada pelo primeiro-ministro. Isto é uma forma de sobrevivência política para Benjamin Netanyahu, que enfrenta graves suspeitas de corrupção e está respondendo à justiça por isso?
É isso que os críticos dele falam, que agora já não é só oposição política. Porque a guerra está acabando com as vidas de tantas pessoas, tem um monte de pessoas não suspeitosas de antissionistas ou anti instituições, tipo 550 ex-militares israelenses que foram chefes do exército, do Mossad, do Shin Bet, que é o serviço de informação interior da polícia, estão dizendo de maneira recorrente que esta guerra tem que parar e que está obedecendo só a motivos políticos do primeiro-ministro. É uma coisa que é bem aberta e ele é muito criticado por isso. E ele responde também, ele nega e tem uma base que o apoia. Tem conversas muito perigosas. A mídia toda está contra o governo. Todo mundo é oposição. Quem não está comigo, está contra mim. E é uma narrativa que está contaminando, obviamente, a população.
E a forma como a situação e a atuação do governo israelita é condenada do ponto de vista internacional. Emmanuel Macron já condenou esta nova ideia de conquistar a cidade de Gaza. Como é que este clamor internacional é ouvido aí em Israel, Maya?
Antes esqueci de responder aqueles que não estão de costas pra Gaza. Aqueles que estão vendo, lendo, se manifestando, pagando. Tem muito israelita que está pagando, primeiro pra ajudar famílias de Gaza a sair do país. Isso foi no começo da guerra. Era pra subornar os, como se diz pessoas de Egito?
Os egípcios.
Fácil, os egípcios. Então eles tinham que ser subornados pra poder sair de Rafah, que é o sul da Gaza, e cada pessoa devia pagar entre sete e 10 mil dólares. Foi por muito tempo, quando ainda Rafah estava aberto, e tinha muitos israelitas, não posso dizer números porque não sei, mas pessoas que ajudavam, pagavam, faziam esse tipo de coisas. Ainda acontece de mandar dinheiro e gás para Gaza, que é o único jeito de tentar ajudar as pessoas comprarem comida no mercado negro, nessa coisa impossível de lidar. Então tem esses que se manifestam também todos os dias, não só pelo retorno dos reféns, também pra acabar com a guerra porque é injusta. São a minoria. É óbvio que é uma minoria. E eu acho que muitas das pessoas acham que é bem-vinda qualquer crítica exterior, porque reforça a situação que sentem aqui, de que o mundo tem que ver que a deriva autocrática desse país é muito perigosa. Mas a maioria não, a maioria acha que o mundo está contra, porque são judeus.
E pegando nisso, Maya, não podemos acreditar que a violência vá parar nas próximas semanas ou nos próximos meses.
Na verdade, eu sempre estou com uma incógnita que talvez aconteça algum milagre. De verdade, eu não sou crente, mas eu acho que alguma coisa tem que acontecer, porque pior não pode ser. Mas a lógica da guerra e da política que se está seguindo agora diz que isso vai continuar. E talvez seja também pertinente lembrar que as eleições aqui são em outubro de 2026. E se é assim, como os críticos do Netanyahu falam, que ele está prorrogando por motivos políticos, e o exército está dizendo que as operações podem continuar até bem entrado 2026, por que não até outubro? Pode ser que continue. Em algum momento vai ter que parar, mas enquanto não fecha, não.
Obrigado, Maya.
Obrigada.
Maya Siminovich é jornalista israelita, vive em Tel Aviv e tivemos esta conversa por telefone, nem sempre com a melhor qualidade de som. Ficam ainda algumas notas pra esta sexta-feira. Assinala-se um dia de jejum e de oração pela paz, pedido pelo Papa Leão XIV. E por cá, a fragata Bartolomeu Dias regressa à base naval de Lisboa após uma missão da NATO no Mediterrâneo, pra qual zarpou a 28 de abril, o dia do apagão. E depois, ainda temos o início do Festival dos 900 Anos do Foral de Ponte de Lima. Novecentos anos. O Foral foi outorgado pela Rainha dona Teresa a 4 de março de 1125. Claro que isto pede música no Areal do Rio Lima, esta sexta-feira, com Resistência e Gipsy Kings. Em Aveiro, arranca o Festival das Dunas de São Jacinto. A praia vai encher-se de papagaios de mil cores neste fim de semana. E quanto a romarias, há muitas e boas propostas por todo o país, mas o nosso destaque esta sexta-feira vai pra aldeia de Olas, no Conselho de Belmonte. Não sei bem se devo dizer Ólas ou Olás, mas como não tem acento, vou dizer Olas, no Conselho de Belmonte. Festas em honra de Santa Ana, a mãe de Maria, avó materna de Jesus. E na noite desta sexta-feira, há uma tradicional procissão de velas motorizada. É uma tradição local. Logo, às 08h30 de sábado, ninguém dorme em Olas, porque há passeio de motos que promete acordar toda a aldeia. E em Corroios, no Seixal, também há festa. Segundo o cartaz, os Clã tocam às 10 da noite desta sexta-feira e no domingo, 24, há concerto dos Anjos. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana e boas férias.