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Esta é a história do dia: qual a importância de um gasoduto no conflito com a Rússia? Olaf Scholz, o chanceler alemão, anuncia que suspende a certificação do Nord Stream 2, um novo gasoduto de mais de € 10 mil milhões que liga a Rússia à Alemanha. A 7 de fevereiro, em Washington, ao lado do chanceler Scholz, o presidente Joe Biden deixava o aviso: se militares russos entrarem na Ucrânia, o Nord Stream não avança. E afinal de contas, o que é isso do Nord Stream 2?

O Nord Stream 2 é um gasoduto que custou cerca de mais de € 11 mi e que pelo Mar Báltico, portanto, evitando atravessar fronteiras e territórios como o da Ucrânia e da Bielorrússia, nomeadamente, vai pelo mar. Foi inspirado na ideia de, por um lado, reforçar os canais de fluxo de gás da Rússia, em particular pra Alemanha, mas também depois a ser em parte distribuído pelos países do norte-centro da Europa. E para além de ser um reforço dos canais de abastecimento à Europa Central, Alemanha e países ao Norte, ser uma forma de fazer algum curto-circuito ou pelo menos alguma diminuição da dependência da travessia dos gasodutos atuais que vêm pelo território da Ucrânia e pelo território bielorrusso.

Que obriga a pagar taxa.

Exatamente. Portanto, aqui já houve certo calculismo. Aliás, não é a primeira vez que há uma grande tensão com recurso ao uso da arma do gás entre a Rússia e a Ucrânia, o que levou acerca de 10 anos, inclusive os russos quiseram aumentar o preço do gás e diminuir a portagem que pagavam à Ucrânia. Isso levou a uma subida do gás na Ucrânia, muito dependente do russo, levando a uma subida dramática na altura e apanhou uma época muito fria.

Foi em pleno inverno.

Foi em pleno inverno, exatamente. E a União Europeia ajudou a Ucrânia a pagar essa fatura mais elevada. Mas sobretudo os russos, pela forma como viam a Ucrânia, não estariam interessados, em particular a partir do momento em que a Ucrânia declarou uma posição de se virar para o Ocidente e não para Leste, quiseram diminuir o uso desse gasoduto como uma ferramenta política por parte também dos ucranianos, e daí todo o gás, se podemos usar essa expressão, foi posto na construção do chamado Nord Stream 2, que é o gasoduto báltico.

Ainda não está em funcionamento, mas quando a torneira for aberta, o débito será mais ou menos o dobro daquele que tem o Nord Stream 1?

Sim, duplicará a capacidade de fluxo de gás da Rússia para o Ocidente.

Ursula von der Leyen, presidenta da Comissão Europeia, reconheceu que a Europa está demasiado dependente do gás. Nuno Ribeiro da Silva, quão dependente do gás está a Europa?

Cerca de um terço no total. Claro que depende das geografias. Por exemplo, nós na Península Ibérica, diretamente não temos uma dependência de todo do gás russo. Agora Os países de confluência como a Polónia, Alemanha, a própria Dinamarca, os Países Baixos, a Bélgica e a França têm uma dependência, uns mais outros menos, muito mais a Polônia e a Alemanha do que inclusivamente já países mais ocidentais como a França, mas a dependência é sensível e no total o gás russo tem representado cerca de um terço do total do consumo do gás na Europa.

Na Alemanha, a dependência é superior até porque a Alemanha quer avançar por causa das alterações climáticas, quer avançar para outras soluções e está muito dependente do gás, é isso?

Certo, está muito dependente do gás. A Alemanha em termos do seu sistema elétrico, e realmente grande parte do gás vai para queimar nas centrais chamadas de ciclo combinado, que produzem eletricidade. A Alemanha tem um calcanhar de Aquiles histórico, mas muito pesado em termos de emissões, que é o fato de em cerca de um quarto da produção de eletricidade ser ainda feita com base em carvão de má qualidade, a chamada lignite, que é um carvão pobre e com maior teor de enxofre e de emissão de partículas. Portanto, a Alemanha pra acelerar o seu processo de descarbonização, efetivamente tem que ter alternativas. Trata-se, de facto, de um grande investimento, porque é uma grande potência a substituir as suas centrais tradicionalmente a funcionar a carvão, em particular a lignito, para combustíveis mais limpos, como é o gás natural, no quadro do misto de geração de eletricidade.

Este gasoduto é da Gazprom, que é uma empresa russa muito poderosa, pra onde recentemente foi trabalhar um senhor chamado Gerhard Schröder, que secalrar os mais novos não sabem quem é, mas foi o homem que antecedeu Angela Merkel na chefia do governo alemão. A Alemanha tem tratado toda esta situação com pinças. É uma afirmação muito forte dizer que Berlim está nas mãos de Moscovo por causa do gás?

Eu diria que é muito forte, no sentido em que a Alemanha tem músculo e argumentos para não ficar só pendurada nesse cordão umbilical. Agora, certo que é um enorme desconforto pra Alemanha e uma vulnerabilidade sensível, que não é nada negligenciável. E sobretudo quando também a Alemanha, pelos compromissos políticos da coligação no poder, entendeu acelerar o seu processo, cumprir aliás o calendário que estava previsto, o seu processo de desativação de centrais eletronucleares. Portanto, mais teve que recorrer ou mais tem disposição ao uso do gás natural, nomeadamente para fins de production de geração de eletricidade. Nesse sentido, de facto, a Alemanha é muito sensível a esta geoestratégia do gás e, em particular, à sua relação com a Rússia.

No arranque deste episódio ouvimos Joe Biden em Washington, ao lado do chanceler alemão prometer que em caso de invasão russa da Ucrânia, o Nord Stream 2 ficaria suspenso. A jornalista que está na conferência de imprensa até pergunta: "Mas como é que vai fazer isso se a Alemanha é soberana?"

How will you do that exactly since the project and control of the project is within Germany’s controls?

We will, I promise you we'll be able to do it. E Joe Biden responde que: "Eu vou tratar do assunto". Ora, os norte-americanos não querem a Europa tão dependente da Rússia ou também têm muito gás pra vender à Europa?

Não, sobretudo acredito que é não quererem tão dependente da Rússia. Repare-se que quando ainda não estávamos num mercado tão esticado, digamos, tão tenso e com tanto estresse por parte, nomeadamente da Europa, na compra de gás natural, não só à Rússia, mas ao mundo, já quer o anterior presidente americano e mesmo o presidente Obama nunca acharam, passe a expressão, graça nenhuma à construção deste pipeline. Portanto, é um tema que sempre foi visto pelos Estados Unidos como uma fragilidade que, em particular a Alemanha, mas a Europa, sobretudo a Central, ganharia relativamente à Rússia com a konstruktion desta infraestrutura e mais isso propriamente do que fazer contas a que a operação deste gasoduto limitaria ou diminuiria o interesse da Europa pela importação de gás natural liquefeito dos Estados Unido, do shale gás.

Quando nesta terça-feira foi conhecida a decisão de Berlim, Dmitri Medvedev, o antigo presidente, primeiro-ministro, foi trocando com Putin neste cargo e agora é vice-presidente do Conselho de Segurança Russo escreveu no Twitter que a Europa em breve vai pagar cerca de €2000 por cada mil metros cúbicos de gás. Agora paga cerca de 900, é isso? É possível vermos um aumento destes?

Bom, o senhor Medevedev é conhecido por ser fanfarrão. Tem um significado que é um alto dignatário da Federação Russa, de uma forma frontal e com enorme desfaçatez assumir que o gás é uma arma Coisa que na tradição dos mercados energéticos, nomeadamente do petróleo e do gás, sempre houve, mesmo em zonas de conflito e mesmo em zonas de tensão, um honrar de contratos que estavam estabelecidos e em vigor. Portanto, por um lado, isto é um aspeto importante de significado político, inclusivamente para fazer pensar a Europa em voltar a ter preocupações com a sua autonomia energética ou a trabalhar no sentido de uma crescente autonomia energética. Por outro lado, quando ele diz: "Bem, não há Nord Stream 2, vão pagar o gás com língua de palmo", não é pelo fato de haver ou não o Nord Stream 2, porque o Nord Stream 2 neste momento não está a funcionar. O que pode estar é por trás, que a Rússia estaria disponível a ir apertando a torneira dos outros gasodutos que estão em operação.

Esta suspensão do Nord Stream 2 faz mossa em Moscovo, quando se pode virar para Oriente, para a China, tem muito pronto escoar o gás. Isto pode realmente fazer mossa?

Faz mossa. Aliás, independentemente de alternativas de mercados, nomeadamente virando-se para o oriente e em particular para a China, que já hoje recebe quantidades significativas de gás russo, se calhar a China é mais cuidadosa nestas coisas. Mas faz mussa e é um ponto que é bom não esquecermos. Nós vemos isto no Ocidente: a Rússia tem a faca e o queijo na mão, porque é um grande produtor mundial de petróleo, é um grande produtor mundial de gás natural. Atenção também ao reverso da medalha, ou seja, a Federação Russa e em particular as receitas do Estado russo têm uma dependência muitíssimo grande da venda de petróleo e gás. Portanto, é evidente que a Rússia pode ter na despensa uma boa quantidade de rublos e dólares, mas isso não dura sempre.

Voltemos aos nossos fogões, aqui no extremo ocidental da Europa, em Portugal. O que se passa no outro lado, no Leste, vai ter obviamente consequências. Devemos preparar-nos para isso?

Tem algumas consequências. Eu diria sim e não. Não, no sentido em que nós utilizamos esporadicamente, recorreríamos a uma compra de gás russo, sejamos nós ou Espanha. Sim, no sentido em que uma situação de tensão como esta enerva o mercado mundial do gás natural. Ao chegar menos gás por tubo, os países viram-se para comprar gás por barco, que é sobretudo a forma como nós nos aprovisionamos, quer em Espanha, quer em Portugal.

E com mais procura...

Exatamente. E portanto, aí vai pôr mais uma acha na fogueira, no sentido de pressionar os preços em alta. De qualquer forma, nós temos estado a receber e com uma operação muito intensa pelo terminal de Sines, tenemos estado a receber gás dos Estados Unidos, da Nigéria, da Argélia. Já agora también lembrar que houve aqui um outro detalhe que veio ainda pôr mais tensão no que respeita à situação na Europa, e essa toca-nos mais diretamente, que foi a suspensão das relações entre Argelia e Marrocos, que levou os argelinos a deixarem de usar o chamado Gasoduto do Magrebe. Portanto, esta situação também não tem ajudado, mas em boa hora fizemos o terminal em Sines e portanto, isso dá-nos outra flexibilidade em termos de podermos recorrer a outras zonas de produção e exportação de gás natural, que entra sob a forma de barco em Sines.

Muito obrigado, Nuno Ribeiro da Silva.

Muito Obrigado.

Esta quarta-feira vamos continuar a acompanhar ao minuto a situação na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia, quer no site, quer na Rádio Observador. A Europa e os Estados Unido respondem com sanções aos avanços de Moscovo. No texto da jornalista Marta Leite Ferreira explicamos que sanções são estas e quem são os alvos. Ainda em destaque, esta quarta-feira, Benfica-Ajax no Estádio da Luz, primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Jogo que vamos transmitir em direto na Rádio Observador e seguir ao minuto em observador.pt. Esta foi a história do dia. A música do genérico é do João Ribeiro, a sonoplastia da Beatriz Martelo Garcia. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.