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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A Rússia está a tentar manipular as eleições europeias?

Os riscos de interferência. De facto, isto não é novo. Se olharmos para as eleições norte-americanas há alguns anos, se olharmos para o Brexit, isto não é novo, mas compreendemos hoje muito melhor do que antes que temos de estar vigilantes. É por isso que, no último Conselho Europeu, procedemos a uma troca de pontos de vista sobre este tema e encarregámos os nossos organismos nacionais e europeus de cooperarem muito mais do que antes, de modo a podermos tentar detetar, prevenir e reagir, se necessário. Estamos vigilantes.

O que escutamos é Charles Michel. Diz o presidente do Conselho Europeu, numa entrevista à Agência Lusa, no início deste mês, que a Europa está vigilante. Apela que todos os países da União Europeia devem estar atentos à desinformação e à propaganda russa que possa interferir com estas eleições. São avisos que chegam poucos dias depois de terem sido noticiadas buscas no Parlamento Europeu, precisamente por suspeitas de ingerência externa. Afinal, o que quer a Rússia destas eleições europeias? É isso que vamos perceber com a ajuda da jornalista Cátia Bruno, editora internacional do Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia. Quarta-feira, 05 de junho. Bem-vinda, Cátia Bruno.

Olá, Miguel.

A intervenção russa em diferentes eleições já foi notícia por várias vezes. Já se fizeram investigações nos Estados Unidos da América, já se discutiu o tema no Reino Unido. Agora, em plena campanha para as eleições europeias, aqui estamos nós a discutir os riscos na Europa. Por quê? O que quer a Rússia da Europa?

A Rússia sempre teve interesse na Europa, como teve, obviamente, nas eleições dos Estados Unidos e do Reino Unido, como falavas. O que há de diferente nestas eleições europeias é que acontecem depois do início da invasão de larga escala à Ucrânia. E isso, obviamente, cria aqui uma nova motivação para a Rússia querer influenciar estas eleições. Em concreto, a Rússia pode querer especificamente duas coisas: ajudar a eleger candidatos ao Parlamento Europeu que tenham um discurso mais favorável aos interesses da Rússia e, ao mesmo tempo, reforçar uma narrativa mais pró-russa no Parlamento Europeu, que até aqui o Kremlin acha que não existe. Não sou eu que digo isto. Quem diz isto é o primeiro-ministro belga, Alexander De Croo, que diz serem estas as informações que os serviços secretos do país lhe transmitem, que há esta intenção por parte da Rússia. Para além disto, há aquilo que já existia nas outras tentativas de influência de eleições que assistimos no passado, que os especialistas dizem ser uma espécie de elemento de oportunidade para semear o caos, para introduzir a dúvida. Eu falei, por exemplo, com um especialista, que é o Stefano Braghiroli, analista das instituições europeias, onde ele diz que há o objetivo do caos. A Rússia quer ajudar que o Parlamento Europeu não funcione como deva funcionar, que haja pedras na engrenagem, porque quanto mais difícil e quanto mais lenta for a reação do Parlamento Europeu, menos eficaz será para combater a Rússia no plano da guerra da Ucrânia.

Portanto, se a União Europeia não estiver unida, se não estiver também a funcionar, não consegue ajudar da melhor forma a Ucrânia e também não consegue tomar decisões a outros níveis.

Precisamente.

Neste momento, há uma investigação à plataforma noticiosa Voice of Europe, que mostra que a Rússia está investida em influenciar estas eleições. No fim do mês de maio, na semana passada, realizaram-se buscas no Parlamento Europeu por suspeitas de ingerência russa. O que já sabemos sobre estas diligências das autoridades judiciais e quem são ou quais são os nomes em cima da mesa?

Esta investigação foi revelada primeiro pela República Checa e depois pela Bélgica, ao mais alto nível. Foram os próprios primeiros-ministros que anunciaram a investigação e está relacionada com este órgão de comunicação social, o Voice of Europe, que, na verdade, segundo a investigação, não seria um média independente europeu que funcionaria por toda a Europa, mas sim um órgão criado diretamente pelo Kremlin para tentar contornar o fato de os órgãos russos como a RT, o canal de televisão RT, a Agência Sputnik, terem sido banidos do Parlamento Europeu na sequência da invasão à Ucrânia. E segundo a investigação, este canal, o Voice of Europe, servia de plataforma também para criar relações diretas com atores específicos no plano europeu. E quando falo relações diretas, falo de retribuição financeira. Ou seja, os investigadores suspeitam que a plataforma seria usada para pagar a determinadas figuras no plano europeu, para conseguir mais acesso a eurodeputados, mais exposição das suas narrativas, etc. Em causa há duas pessoas, já que sabemos que estão a ser investigadas. Uma é Petr Bystron, que não é eurodeputado, mas muito provavelmente vai passar a ser depois do dia 9 de junho, porque é o segundo na lista do partido Alternativa para a Alemanha, o AFD. E temos uma pessoa, essa sim, que está em Estrasburgo, Guillaume Paradourà, que é assistente no Parlamento Europeu de um deputado neerlandês, deputado esse que é conhecido pelas suas posições muito defensoras da narrativa russa. E este francês, Paradourà, tem também um passado ligado a outros partidos. Foi membro da União Nacional de Marine Le Pen, foi expulso do partido por questões ligadas com antissemitismo e também trabalhou como assistente do eurodeputado da AFD, Alexander Krahe, que é o cabeça de lista do partido, embora tenha sido recentemente afastado do partido pelas declarações de caráter antissemita que fez.

Para além destes dois funcionários investigados que terão sido pagos Há outros nomes do Parlamento Europeu que há muito se suspeitam que têm proximidade com o Kremlin. Que nomes são esses?

Sim, na verdade, há algumas figuras isoladas. Temos, por exemplo, o neerlandês De Graaf, que é precisamente o eurodeputado para quem este funcionário, este assistente, que foi agora investigado, trabalhava. Mas temos, sobretudo, e se olharmos em termos de dimensão, deputados, eurodeputados ligados a dois grandes partidos: a AFD, na Alemanha, e a União Nacional de Le Pen. No caso da AFD, temos, por exemplo, o Alexander Krah, o cabeça de lista, há muito que era mencionado na imprensa alemã como tendo suspeitas de ligação à Rússia e também à China. Um dos seus assistentes chegou mesmo a ser investigado e afastado por isso. Krah chegou a ser também interrogado pelo próprio FBI quando viajou para os Estados Unidos por causa das suas possíveis ligações ao Kremlin. Krah já foi várias vezes à Rússia, já teve vários encontros com figuras destacadas do Kremlin e recentemente a Der Spiegel fez uma investigação dizendo que o próprio Kremlin criou uma estratégia concreta para ser usada na Alemanha, para ser aplicada pela AFD, com uma espécie de tópicos de discurso que deveriam ser usados no país. A AFD nega que tenha tido esse contacto, mas a investigação da Der Spiegel confirmou que terá havido pelo menos essa abordagem. Depois temos a União Nacional de Le Pen, onde há vários eurodeputados que são conhecidos por terem alguma espécie de relação com a Rússia. Vários foram, por exemplo, observadores no referendo da anexação da Crimeia ou nos referendos dos novos territórios agora ocupados na Ucrânia. Um antigo eurodeputado do partido, Jean-Luc Schaffhauser, está a ser investigado em França, uma investigação judicial também, porque segundo o Washington Post, que também fez o seu trabalho, seria ele o elo de ligação em França do Kremlin, que teria, tal como tinha para a Alemanha através da AFD, um plano concreto para França através da União Nacional.

E as preocupações das autoridades quanto à intervenção russa nesta altura é uma preocupação que acontece em toda a Europa ou está centrada essa preocupação em alguns países específicos?

Parece que neste momento França e Alemanha são os principais focos, mas isso também se explica pela dimensão que têm, não só dimensão em termos de número de eurodeputados no Parlamento Europeu, como peso político, mas há sinais de que poderá estar a haver tentativas de influências em muitos outros países e de regiões diferentes do próprio continente. O leste da Europa é um local particularmente sensível. Temos o surgimento de alguns partidos, desde a invasão russa, surgiram alguns partidos que têm um discurso mais russófilo e mais crítico do apoio à Ucrânia. Isso aconteceu, por exemplo, na Polónia. Apareceu um partido, Confederação, que o pode agora eleger nestas eleições europeias. Temos, por exemplo, o caso da Roménia e da Bulgária, onde já há partidos que historicamente têm laços muito próximos com a Rússia, a que se somam novos partidos que vêm reforçar e são ainda mais radicais neste discurso, como o SOS Roménia, no caso da Roménia, e o Renascimento, no caso da Bulgária, e que podem também vir a eleger eurodeputados. E depois temos alguns países que são uma espécie de coelhos fora do cartol atirados pelo Kremlin, como por exemplo a Áustria, onde o FPÖ, conhecido partido de extrema-direita que já teve um governo a ser derrubado por ligações claras, filmadas, de tentativas de negócios com o Kremlin. O FPÖ, segundo as sondagens, vai ser claramente o vencedor das eleições europeias na Áustria. E temos, por exemplo, o caso de Itália, onde a Liga de Matteo Salvini também há muito que tem proximidade com Putin. Basta recordar que Salvini chegou a usar uma T-shirt com o seu rosto no próprio Parlamento Europeu.

Já voltamos à conversa com Kátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Estamos de regresso à conversa com Kátia Bruno, editora de Internacional do Observador. Estamos a falar da possível ingerência russa nas eleições europeias. Já falámos aqui de vários nomes, de deputados, de funcionários do Parlamento Europeu. Falemos de partidos. Há ligações à esquerda e à direita. Só isto já pode parecer estranho, mas comecemos pela direita. Na extrema-direita, esta questão russa divide as famílias europeias?

É verdade. Embora haja um consenso no centro-direita, no PPE, nos dois partidos mais à direita, o dos conservadores e reformistas e o Identidade e Democracia, a questão da guerra na Ucrânia tornou-se nos últimos anos provavelmente o tema que mais os separa. Um exemplo muito claro que podemos ver é o caso de Itália, em que temos Giorgia Meloni nos conservadores e a assumir uma posição claramente de apoio à Ucrânia, e Matteo Salvini no Identidade e Democracia, com uma posição muito mais próxima da Rússia. Toda esta questão tem potencial para se tornar ainda mais complexa depois destas eleições Recordemos, por exemplo, que o Fidesz da Hungria, o partido de Viktor Orbán, foi expulso do PPE e, portanto, agora nestas eleições, e não há dúvidas de que o Fidesz vai ser o vencedor das eleições na Hungria, tendo em conta as sondagens, vai ter que escolher um grupo. E temos, por exemplo, alguns partidos membros dos conservadores e reformistas que ameaçaram sair se o Fidesz entrar, por causa da posição que mantém em relação à Rússia. Ao mesmo tempo, temos combinações estranhas, partidos que estão num dos grupos, mas que nesse tema parece que não se identificam. É o caso, por exemplo, do Chega a nível nacional, que tem uma posição muito menos crítica da Rússia do que todos os outros colegas de partido, de família europeia. E temos outros partidos com discursos ambíguos. O Vlaams Belang, por exemplo, que é um partido separatista belga, sempre foi muito pró-russo e agora nos últimos anos tem tentado afastar-se do Kremlin. Aquilo que normalmente une a extrema-direita à Rússia de Putin são ideais mais relacionados com valores, a ideia da família tradicional, da defesa do cristianismo, o combate a temas como a ideologia de gênero, como é o termo utilizado, por oposição a uma globalização das elites, que é vista como vinda da esquerda e que Putin seria um paladino, um defensor do combate a isso.

Para lá da extrema-direita, à esquerda, também há ligações à Rússia e também há divisões sobre este tema.

Sim, é menos óbvio, é menos falado, também porque em termos de números, aqueles que têm uma posição mais favorável à Rússia são muito menos, mas elas existem. Mais uma vez, não é no centro-esquerda, os socialistas e democratas também parecem estar, regra geral, unidos nesta matéria, mas se olharmos para o grupo da esquerda unitária, o grupo em que, só para ajudar a contextualizar, pertence o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, há alguns eurodeputados, alguns partidos dentro dessa família, que votam de forma desalinhada com o grupo quando se trata de questões relacionadas com a Rússia. Por exemplo, quando foi a votação sobre se a Rússia deve ser considerada um estado terrorista, tendo em conta as ações que tem feito na Ucrânia. E aí temos de vez em quando alguns partidos que destoam. É o caso dos partidos comunistas tradicionais, como o PCP, o nosso PCP, que tem votado contra esse tipo de resolução, o Partido Comunista Grego, o Partido dos Trabalhadores da Bélgica, a França Insubmissa de Mélenchon. Mas ao contrário do que acontece com a extrema-direita, aqui os especialistas dizem que não parece haver nada para além de um posicionamento ideológico, ou seja, que não há nada que prove que haja uma ligação com o Kremlin que vá para lá de um alinhamento de posições. O especialista Bragi Olafsson usa muito a expressão: a Rússia foi muito boa a criar uma narrativa de que é herdeira da União Soviética e, portanto, estes partidos estão alinhados com ela por isso, e não pelas mesmas questões que está a extrema-direita e que têm mais a ver com as questões dos valores e do conservadorismo.

Perante tudo isto, podemos estar perante um cenário de surgir uma nova família política na Europa por causa também das ligações à Rússia.

É uma grande questão. Estamos a ver uma reorganização à direita. Há muito debate e temos visto isso até na nossa campanha nacional, com a questão de a que família que o Chega irá pertencer, será que vai haver uma união das famílias, etc. Tudo isso está a ser debatido à direita e pode vir a ser debatido também à esquerda, e nós estamos um bocadinho alheados dessa realidade. Por quê? Na Alemanha surgiu um partido novo, o partido tem o nome da sua líder, chama-se partido de Sahra Wagenknecht. Esta política é uma dissidente do Die Linke, o grande partido da extrema-esquerda, ou esquerda radical alemã, e que muito provavelmente vai eleger para este Parlamento Europeu. A questão é que este partido difere do Die Linke em muitas matérias. Em temas como a imigração, por exemplo, onde não tem uma posição semelhante à dos outros partidos do grupo da família da esquerda unitária, e na questão da Rússia e da Ucrânia. O cabeça de lista do partido a estas europeias, por exemplo, é um firme defensor de que é preciso negociar com a Rússia, de que é possível negociar com a Rússia e de que a Europa devia deixar de enviar armamento para a Ucrânia e devia começar a fazer negociações. Ora, este partido, ao eleger, muito dificilmente se sentará junto com os outros partidos da esquerda unitária. E há já quem especule que poderá querer criar um grupo novo, indo buscando outros partidos que estão um pouco perdidos na orgânica do Parlamento Europeu por causa da questão da Rússia e da Ucrânia. É o caso, por exemplo, do SMER, o maior partido da Eslováquia, o partido que é liderado pelo primeiro-ministro Robert Fico, que foi esfaqueado há pouco tempo, todos nos lembramos, e que é um partido que se assume como de centro-esquerda, mas que tem uma posição muito favorável à Rússia, tendo em conta o plano europeu, muito parecida à de Viktor Orbán. E o Movimento Cinco Estrelas em Itália, que se define também como um movimento de esquerda, que tem sido muito ambíguo sobre a posição que tem em relação à Ucrânia. Portanto, poderão estes partidos juntar-se e formar uma nova família europeia? Não sabemos. A dúvida existe à direita, existe à esquerda, e é a Rússia que as está a criar.

Vamos ver o que acontece depois do 9 de junho. Estamos aqui a falar de ligações à Rússia, umas mais concretas que outras, e estamos a falar de eleições, um momento em que as campanhas de desinformação aumentam, tem sido assim nos últimos anos. Neste plano, no plano da internet, no mundo das redes sociais, temos de fato um aumento de artigos, de publicações com ligação à Rússia. O que sabemos sobre isto? Que dados há sobre isto?

Há dados, temos dados. Sabemos que ao longo dos últimos anos foram identificadas redes por governos como o francês e o alemão, redes montadas que promovem desinformação online em temas relacionados sobretudo com a Ucrânia. Por exemplo, em França foi detectada uma rede que é chamada Portal Combat, na Alemanha foi detectada a Doppelganger, que também está activa noutros países. E apesar de os governos saberem isto e apesar de a União Europeia dizer que está a pôr em marcha medidas para o combate à desinformação, estas redes estão mais activas do que nunca. Há grupos de especialistas de ONGs que monitorizam as redes de desinformação, que notam, por exemplo, que só no último mês de maio houve vários anúncios patrocinados, publicações patrocinadas no Facebook, mais de 200, com narrativas muito claramente antiUcrânia e antiUnião Europeia, que podem ter chegado a três milhões de utilizadores do Facebook em países como França e Alemanha, mas também Itália e Polónia. Eu falei com um dos investigadores que fez esse estudo, o Paul Bouchaud, e ele dá como exemplo que são publicações que usam todos os temas possíveis para fazer apelos diretos ao voto. Não apelos diretos ao voto em partidos que seriam vistos como pró-Rússia, mas a que não haja voto nos partidos do centro. No caso de Itália, temos uma publicação de uma fila de desempregados, pessoas à porta do centro de emprego, e a legenda diz: "Estamos a dar dinheiro aos ucranianos e não o estamos a usar para estas pessoas, portanto, não continuem a votar nos partidos do costume". Que impacto é que isto vai ter no dia 9? Não sabemos. Vamos ter mesmo de esperar para ver.

Cátia Bruno, muito obrigado.

Obrigada eu.

Cátia Bruno é editora de Internacional do Observador e assina um longo artigo especial sobre este cenário de intervenção russa nas eleições europeias. Está em observador.pt. Esta foi a história do dia. Os sons que escutámos neste episódio foram captados pela Agência Lusa numa entrevista a Charles Michel, presidente do Conselho Europeu. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, de João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.