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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a Rússia quer ter armas nucleares no espaço.

"I want to be clear about a couple of things right off the bat. First, this is not an active capability that's been deployed. And though Russia's pursuit of this particular capability is troubling, there is no immediate threat to anyone's safety. We are not talking about a weapon that can be used to attack human beings or cause physical destruction here on Earth."

John Kirby é o porta-voz do Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca. No habitual briefing aos jornalistas, admitiu que a Rússia está a desenvolver uma nova arma, mas quis tranquilizar os norte-americanos e o mundo ao dizer que não poderá atingir ninguém no planeta Terra. Esta suspeita aponta para uma arma a colocar em órbita e que terá, pelo menos, a capacidade de destruir satélites. E sabemos bem quão dependente está a nossa vida quotidiana dos satélites artificiais. Que arma é esta? E por que aparece aqui o termo nuclear associado a esta ameaça? Vou conversar com José Carlos Duarte, jornalista da seção de internacional do Observador. Eu sou Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de segunda-feira, 19 de fevereiro. Bem-vindo, José Carlos.

Olá, Ricardo.

José Carlos, como é que esta história estranha, acho que podemos dizer que é uma história estranha, como é que tudo isto começou?

Esta história começou na passada quarta-feira, quando o presidente do Comitê dos Serviços Secretos da Câmara dos Representantes norte-americana, que é chefiada pelo republicano Michael Turner, partilhou um comunicado à comunidade internacional, partilhou no Twitter, que haveria uma ameaça séria à segurança dos Estados Unidos. E nesse mesmo documento pedia ao presidente Joe Biden para desclassificar as informações que seriam relativas a essa ameaça. Depois, a imprensa norte-americana foi avançando algumas informações que foram completando as peças do puzzle.

Mas espera aí, José Carlos, isso foi pedido no Twitter, no X?

Sim, foi o presidente daquele comitê que fez um comunicado em que se lê claramente que o comitê tinha tido uma informação relativa a uma ameaça séria à segurança dos Estados Unidos e pedia diretamente ao presidente Biden para que essas informações fossem tornadas públicas relativamente a essa ameaça e para que os aliados também dos Estados Unidos pudessem discutir que ações e qual seria a linha que teriam de tomar relativamente a esta ameaça.

Isso é tão incomum no mundo das informações que é estranho, mas afinal, o que é que sabemos sobre esta ameaça, José Carlos Duarte?

O comunicado de Michael Turner não tinha nenhum detalhe sobre a ameaça. Teve de ser a imprensa a dar alguns detalhes, mas 24 horas depois deste comunicado, a Casa Branca abriu o jogo e o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, o John Kirby, veio dar mais informações sobre o que era esta ameaça.

"While I am limited by how much I can share about the specific nature of the threat, I can confirm that it is related to an anti-satellite capability that Russia is developing."

Certo é que neste momento se trata de um míssil antissatélite, que é destinado a destruir outros, como o próprio nome indica, destinado para destruir satélites. John Kirby descartou logo por completo a possibilidade deste míssil ser usado para destruir países ou para atacar-

Para alvos no planeta Terra.

Exato, para atacar países, para atacar humanos, para destruir infraestruturas. Ele descartou logo esse cenário. É, no fundo, algo para destruir satélites e a ameaça é preocupante, mas não está iminente. Isto é, esta tecnologia russa ainda está a ser desenvolvida, mas ainda não está em órbita da Terra.

Mas o míssil será disparado a partir de uma plataforma em órbita, é isso?

Exato. Esse míssil será disparado dessa plataforma para destruir satélites e estará no espaço sob a órbita da Terra.

Parece que estamos aqui a falar de ficção científica. Mas, José Carlos Duarte, também já ouvimos associado a este caso o termo nuclear. Estamos a falar de uma arma nuclear?

Ainda não é completamente claro, mas os analistas consideram que a hipótese mais provável é que seja uma arma movida a energia nuclear e que não deverá, em princípio, transportar ogivas nucleares. Mas essas hipóteses ainda não são completamente claras. Os Estados Unidos não clarificaram, nem revelaram se será uma arma com ogivas nucleares, mas até o momento acredita-se que seja apenas movida a energia nuclear.

De resto, houve um ensaio nos anos 60 do século passado que demonstrou que um ataque nuclear a um alvo em órbita pode ter consequências muito complicadas aqui embaixo, aqui na Terra.

Sim, foi em julho de 1962. Foi um teste e na altura os Estados Unidos cunharam o nome de Starfish Prime para esse ensaio. Washington detonou uma arma nuclear a cerca de 400 km acima da Terra. Essa arma foi detonada a cerca de 1300 km do Havaí, mas mesmo assim, o arquipélago acabou por sofrer consequências desse ataque. Várias casas ficaram sem luz temporariamente, mas o que é fato é que também afetou redes de comunicação e esses efeitos até se sentiram mais ou menos na linha do Equador. Ou seja, os efeitos foram realmente, ainda que tenha sido um teste, houve consequências deste ensaio Ensaio esse que também foi repetido pela União Soviética, mas em diferentes geografias.

Ou seja, um ataque nuclear a um alvo em órbita ou num alvo já no espaço, vamos dizer assim, tem consequências depois no campo eletromagnético, é isso?

Sim, tem. E pode realmente não só destruir um satélite como também na Terra acabar por gerar alguns abalos e gerar algumas consequências que vão muito além apenas do satélite.

Já regressamos à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista da secção de internacional do Observador. Afinal, quão preocupados devemos estar com esta nova arma russa? Estamos de regresso à conversa com o José Carlos Duarte, jornalista da secção de internacional do Observador. José Carlos, e a Rússia tem capacidade para construir uma arma destas?

Até o momento, o que sabemos é que os Estados Unidos dizem que sim, que a Rússia tem capacidades para construir um míssil anti satélites, o que aliás, não é de estranhar, porque este tipo de arma já foi desenvolvido no passado, não é propriamente inovador. Mas o que é facto é que até o momento a Rússia nunca confirmou a existência deste novo míssil anti satélite.

Dizes que já foi mais ou menos testado, mas foi com um ataque a um satélite lançado a partir da Terra, não é isso?

Sim, em novembro de 2021, a Rússia realmente destruiu um satélite soviético que até já estava desativado e que realmente o destruiu, e que depois teve consequências também sobre a órbita da Terra. Ou seja, houve cerca de 1500 destroços desse satélite soviético que acabaram por ir parar à órbita. Isso até colocou em risco os astronautas que estavam na Estação Espacial Internacional, que até tiveram de ir para uma nave espacial por causa dos destroços do satélite. Os Estados Unidos consideraram essa ação grave e preocupante, mas a Rússia defendeu-se. A Rússia, que nem tinha dado aviso de que iria lançar esse ataque, portanto, foi uma espécie de uma surpresa, foram os Estados Unidos que o denunciaram. E a Rússia, na altura, disse que tinha feito um ataque preciso e que não haveria perigo para os astronautas que estavam na estação espacial.

O que é facto é que o lixo ficou a viajar, nem sei qual é a velocidade, mas já vimos essa cena em filmes, não é? Quando uma nave ou a estação orbital é atingida por um destroço com consequências terríveis. E perante tudo isto, já ouvimos o lado norte-americano, já percebemos que há preocupação, o Kremlin diz alguma coisa ou não?

Neste momento, o Kremlin nega a informação dos Estados Unidos, diz que é uma fabricação maliciosa. Este foi o termo usado pela presidência russa e o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, veio dar um argumento que é basicamente aquilo que a Rússia está a tentar dizer. Ou seja, isto é uma fabricação da Casa Branca para que o pacote de ajuda destinado à Ucrânia, avaliado em cerca de 60 mil milhões de dólares, seja aprovado pelo Congresso. Ou seja, isto é uma forma de Joe Biden e a sua administração fazerem pressão no Congresso.

Pressionarem contra esta arma.

Exato, que a Rússia é má, que a Rússia tem que ser derrotada e que pra isso devemos ajudar a Ucrânia na guerra e devemos aprovar este pacote de ajuda financeira.

Já percebemos que esta arma poderá então ter um sistema de energia nuclear. Parece sempre que estamos a falar de ficção científica, nunca pensei estarmos a falar disto a sério. Não é uma arma nuclear, mas quão importante é nos dias de hoje destruir um satélite de um inimigo?

O impacto pode ser devastador. Para um inimigo, primeiro convém explicar que teria repercussões muito negativas. As redes de comunicação, redes de vigilância seriam completamente arrasadas, as pessoas ficariam sem internet e até sem luz.

Poderíamos ficar às escuras, literalmente, e também às escuras em comunicações, é isso?

Exato. Portanto, poderia ter esse impacto nesse país inimigo. E não é seguro nem líquido dizer que também não pudesse afetar outros satélites de outros países. Ou seja, vamos supor que a Rússia ataca os Estados Unidos e destrói um satélite norte-americano, mas tendo em conta os destroços e tudo aquilo que pode acontecer no espaço, esses destroços poderiam, por exemplo, afetar um satélite indiano ou um satélite chinês. E poderia ter esse tipo de impacto noutros países que não são, diremos assim, inimigos da Rússia. Portanto, há aqui uma espécie de efeito em cadeia que poderia realmente prejudicar não só o inimigo russo, como também outros países e outros satélites. E além disso, também é importante frisar aqui um ponto, é: isto também pode ser apenas uma forma de dissuasão, ou seja, tal como aconteceu na Guerra Fria, em que a União Soviética e os Estados Unidos compravam armas nucleares pra demonstrar que são mais poderosos e que uma potência não se vai meter com a outra porque um tem uma arma mais poderosa, isso pode também repetir-se. Ou seja, a Rússia pode lançar este míssil pro espaço e nunca o utilizar, e ser uma espécie de dissuasão, ou seja, de ameaça que se os Estados Unidos não cumprirem A, B ou C, que lançam aquele míssil contra um satélite. A imprensa norte-americana escreve isso, vários congressistas estão preocupados que poderá também ter implicações geopolíticas. Ou seja, poderá até não ser lançado, mas essa ameaça pode preocupar realmente os Estados Unidos.

O facto da possibilidade de existir, até porque a nossa vida está muito dependente, nós às vezes nem imaginamos como as telecomunicações são importantes para a nossa vida. Olha, pra entregar o IRS daqui a uns tempos, vai ser preciso. Mas isso é interessante o que estás a dizer, porque há um tratado Que foi assinado já há muito tempo entre Washington e Moscovo, que é claro que não há que há armas no espaço. O espaço é um espaço da humanidade.

Sim, esse acordo foi assinado durante a Guerra Fria, como é óbvio, em que também houve uma corrida ao espaço. Os Estados Unidos, por exemplo, chegaram à Lua, a União Soviética mandou o primeiro homem ao espaço.

Yuri Gagarin.

Exato. Portanto, nesse contexto, as potências nucleares e espaciais chegaram a uma conclusão: nós temos que regular o chamado direito internacional espacial, algo que seria inimaginável no início do século passado. E nesse direito, chegou-se ao Tratado de Espaço Sideral, com a ajuda das Nações Unidas, e ficou definido que o espaço é só para ser usado para meios pacíficos. E tendo em conta que é para ser usado para essas finalidades, o tratado estipula que é completamente proibido a instalação de bases militares, fortificações, a colocação de armas no espaço, é completamente proibido. Mas não existe nenhum garante, não existe ninguém que possa obrigar a Rússia a cumprir esse tratado. Isso é apenas um tratado que realmente foi assinado, mas que a Rússia, se quiser, pode não cumprir, porque não existe ninguém nem nada que vá responsabilizar a Rússia por o incumprir.

E basta pensar no celeuma que deu a chamada Guerra das Estrelas nos anos 80 entre Estados Unidos e Rússia. Mas a Rússia não está obrigada, Putin não se sente obrigado a este tratado?

A questão é: nós não sabemos. Recentemente, a Rússia também disse que não ia cumprir o tratado nuclear New Start, que foi assinado com os Estados Unidos. E esse tratado previa, por exemplo, a inspeção de ogivas nucleares, saber quantas tinham, a partilha de informações entre Moscovo e Washington, e a Rússia unilateralmente decidiu não cumprir mais esse acordo. Portanto, nós não sabemos muito bem se neste caso, Moscovo também não vai rasgar o acordo e simplesmente incumpri-lo. Tendo em conta as tensões entre o Ocidente e a Rússia, Moscovo não se sente obrigado agora a cumprir esses tratados internacionais que realmente existem, mas que é muito difícil, se alguém não cumprir, se algum país não cumprir, obrigar a cumprir, porque não existe nenhum garante, nenhum tribunal que possa fazer e que possa levar à justiça esse tipo de casos.

E há pouco falaste na Índia e na China, e se pensarmos também nos aliados ocidentais, eu imagino que uma ameaça destas possa preocupar muito as capitais de todas estas potências, no caso do bloco ocidental, e também a Índia e a China, que são potências nucleares, e também querem e estão a ir ao espaço, também estão preocupados com isto, ou não?

Depreende-se que sim. Um ataque a um míssil norte-americano realmente poderia gerar consequências que afetaria mísseis de outros países. Mas até o momento, não temos nenhuma reação pública, nenhuma potência nuclear, nenhuma potência espacial, mas os Estados Unidos, tendo em conta o teor do aviso, já avisaram, e o John Kirby frisou isso na quinta-feira, já avisaram não só os seus aliados, como também todos os parceiros espaciais desta alegada ameaça russa.

Obrigado, José Carlos.

Obrigado.

José Carlos Duarte é jornalista da secção de internacional d'O Observador. Esta foi a história do dia. O som que ouvimos de John Kirby foi retirado do canal de YouTube da Casa Branca. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.