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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a semana negra de Cotrim de Figueiredo. Há dias em campanha que são maus e depois há dias que parecem feitos para destruir uma campanha por dentro. João Cotrim de Figueiredo vinha embalado pelas sondagens e com uma dinâmica de campanha que o apresentava já como o favorito para captar o voto do centro-direita, aquilo que o Observador chamou de momentum. E de repente, em menos de 24 horas, abateu-se uma tempestade sobre essa campanha quando à conversa com jornalistas, Cotrim disse isto:
Não excluo qualquer candidato, mas terei de fazer uma reflexão profunda sobre que candidatos vamos estar a falar. O André Ventura dos últimos quatro dias eu ainda não o conheci. Quer dizer, mudou o discurso e parece, esse sim, um político diferente.
A forma tranquila como João Cotrim de Figueiredo disse essa frase mostra que não estava preparado para o que aí vinha, porque imediatamente assim que falou, as notificações dispararam: Cotrim admite votar Ventura na segunda volta. Primeiro a confusão e depois o recuo e finalmente a admissão do erro.
Eu não queria abrir a porta. E por que eu fiz aquelas declarações, eu próprio gostava muito de perceber, não consigo explicar o que é que me passou pela cabeça.
E quando a campanha ainda estava a tentar apagar esse fogo, apareceu a segunda frente: uma denúncia pública de assédio ou abuso sexual feita por uma antiga assessora ligada ao Iniciativa Liberal. Cotrim nega em absoluto e diz que vai avançar com uma queixa-crime e um processo por difamação. Mas o mal estava feito. Cotrim ficou preso num daqueles ciclos noticiosos em que tudo acontece ao mesmo tempo e quase tudo é tóxico. E agora? Para perceber o que está em jogo e o que pode acontecer nos próximos dias, eu vou conversar com o Miguel Santos Carapatoso, editor adjunto de política do Observador. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 14 de janeiro. Olá, Miguel.
Olá, Pedro.
Vamos começar pela primeira parte destes dias terríveis de João Cotrim de Figueiredo, que tem a ver com aquela declaração que ele fez sobre André Ventura. Já se percebeu exatamente o que ele quis dizer, o que ele disse, o que foi mal percebido, porque houve várias versões sobre isso.
Houve várias versões que o próprio alimentou. Primeiro, João Cotrim de Figueiredo admitiu que sim, que poderia eventualmente votar em André Ventura numa segunda volta. Depois, percebendo que as declarações que tinha feito aos jornalistas estavam a correr-lhe mal, fez uma nova declaração onde sugeriu que os jornalistas tinham percebido mal. Depois fez ainda um vídeo que publicou nas redes sociais, onde aí já assumia que talvez não tivesse sido muito claro. E na terça-feira, ontem, já veio dizer que de facto tinha estado menos bem e até justificou esse facto com toda a pressão que tinha que ia sentindo desde manhã com o caso que depois o veio a afetar horas mais tarde.
O caso de uma denúncia de um alegado abuso sexual. Na tua interpretação, com essas versões todas, o que achas que se passou naquela declaração? Achas que foi um pensamento estratégico, foi falta de pensamento, qual dessas versões é que tu compras?
Foi excesso de confiança, alguma displicência na forma como falou aos jornalistas. Não é a primeira vez que acontece. A maratona de debates de João Cotrim de Figueiredo não foi exatamente brilhante, precisamente porque em muitos momentos revelou esse excesso de confiança e até alguma falta de preparação. E neste caso, parece-me evidente que estando a fazer uma excelente campanha sob todos os pontos de vista, estando na crista da onda, confrontado com uma pergunta que é essencial e básica em qualquer campanha e cuja resposta também vem nos manuais que qualquer político deve ler, Cotrim de Figueiredo deu a resposta mais impensável de todas e foi porque não pensou bem naquilo que estava a dizer. Não acho que haja outra justificação.
Sim, nós todos estamos habituados a ouvir os políticos, quando se fazem perguntas dessas, responderem não equacionar outro cenário que não seja o da segunda volta. Até dissemos ao mesmo tempo e juro que não combinámos. Porque é de facto isso que nós ouvimos com frequência, porque é a resposta que estamos à espera, mesmo quando fazemos alguma pergunta que tente tirar alguma coisa do candidato para além disso.
É muito comum em legislativas perguntar sobre coligações e a resposta é essa. João Cotrim de Figueiredo já tem mais do que experiência política para saber isso mesmo. O próprio já reconheceu que esteve mal. Não me parece, honestamente, e vamos falar seguramente disso mais à frente, que para lá daquilo a que convencionamos chamar bolha político-midiática, esta frase vá ter assim tanto impacto. Teve impacto nos telejornais, nos jornais, nos sites de informação, mas acho que as pessoas acabam por relativizar, vão acabar de alguma forma por relativizar essa tirada.
Ia perguntar-te isso, qual é que é verdadeiramente o impacto que isto tem no eleitor, porque claro, nós que estamos na bolha e quando se está em campanha, aliás, essa frase assim que foi dita, disparou os telefones de toda a gente Com o título: "Coutinho admite votar em Ventura na segunda volta". Acho que já respondeste a isso, mas tenho outra pergunta que é: um político em campanha pode pedir desculpa, pode admitir o erro, deve fazê-lo ou isso tem custos para o eleitorado?
Nós não estamos muito habituados em Portugal a que isso aconteça.
Exatamente.
Mas sim, intuitivamente digo que é melhor pedir desculpa do que insistir num erro e insistir na ideia de que foi mal interpretado, que parecia ser esse o caminho que Cotrim Figueiredo estava a seguir. Cotrim Figueiredo foi muito claro nas palavras que utilizou. Assumiu, sim, que num eventual cenário de André Ventura passar à segunda volta contra António José Seguro, talvez votasse no líder do Chega. Até elogiou o líder do Chega pela campanha que tem feito, o que já agora, não há mal nenhum nisso. Do ponto de vista político, do ponto de vista tático, é objetivamente um erro quando Cotrim Figueiredo, à luz das sondagens que conhecemos, está a disputar com André Ventura e com António José Seguro uma passagem à segunda volta.
O que seria talvez impensável há uns meses.
O que torna ainda mais incompreensível esta tirada do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal.
Entretanto, isto aconteceu num dia, horas mais tarde, como aliás já fizeste referência a isso, surgiram perguntas também sobre um alegado caso de abuso sexual a uma das ex-assessoras de Cotrim Figueiredo, que terá denunciado o caso em mensagens privadas no Instagram ou numa story só para amigos do Instagram. Isto é uma bomba na campanha. Aparentemente, a campanha já sabia que essa história ia surgir e eu acho que não estou a revelar aqui nenhum segredo se dissermos que nós próprios jornalistas já ouvíamos muito a história circular e portanto toda a gente estava mais ou menos preparada. Acontecendo tudo isto, como é que achas que o candidato reagiu? Achas que reagiu bem, como devia ter reagido? E já agora, como é que se lida com uma situação destas tão delicada, mexendo e não estragar tudo o que está à volta?
Neste caso, acho que o dever de qualquer jornalista, mesmo num espaço como este, que também se confunde com alguma análise e opinião, mas acho que o dever de qualquer jornalista neste caso é não escolher lados, não fazer comentários sobre a queixosa, não fazer comentários sobre a culpabilidade ou não de João Cotrim Figueiredo. Nós não sabemos o que aconteceu, sabemos aquilo que tu explicaste. Houve uma pessoa que num circuito privado, ainda assim numa rede social, fez uma alegação. É importante explicar que o Observador, e tenho a certeza que outros órgãos de comunicação social, tentaram falar com a própria e a própria não quis prestar mais esclarecimentos. Esse trabalho de procura de contraditório e procura de mais factos foi feito por nós e seguramente por outros jornais. E portanto, o que sabemos é aquilo que foi tornado público. Quanto a João Cotrim Figueiredo, há um lado humano, e mais uma vez, com todo o cuidado que estou a pôr nestas palavras, é evidente que isto afeta qualquer pessoa, afetaria qualquer pessoa, independentemente do que se tiver passado naquela altura. Há o lado humano em que João Cotrim Figueiredo, de facto, foi-se abaixo, compreensivelmente abaixo. Depois há o lado político. E aí acho que Cotrim Figueiredo esteve bem num momento, muito mal num outro momento. Bem em dizer, e pelos vistos, segundo o próprio, em acionar todos os mecanismos de defesa. Sente-se atingido no seu bom nome e na sua honra e portanto agiu judicialmente contra aquela pessoa, e acho que aí fez bem, tem todo o direito de se defender. Mal num segundo momento. E qual é esse momento? É quando João Cotrim Figueiredo e a máquina da IL começam a sugerir que há uma cabala montada pela campanha de Luís Marques Mendes, em conluio com o governo e com a AD.
Estás a falar quando começam a denunciar que esta mulher trabalha-
É logo no primeiro comunicado que fazem, quando mencionam diretamente o local, o trabalho da pessoa em causa, dizendo que trabalha no ministério do governo. Esse é um primeiro momento em que a ligação é feita. Havia já aí uma sugestão de que há uma campanha organizada. Depois, o próprio João Cotrim Figueiredo manteve essa suspeição. E tivemos também Bernardo Blanco, diretor de campanha de João Cotrim Figueiredo, a sugerir que há uma campanha negativa organizada pela equipa de Luís Marques Mendes.
Bem quando acionou os mecanismos de defesa, mal quando entrou naquele clássico que é a vitimização.
Não é só vitimização.
E a acusação para o outro lado.
A questão é que há aqui uma acusação grave e portanto o mesmo candidato que se queixa, porventura legitimamente, de estar a ser alvo de uma suspeição injustificada e injusta, não pode depois, sem provas, sugerir que há um plano maior, que há uma cabala, que há uma conspiração organizada a partir do governo, com conhecimento de Luís Marques Mendes, contra ele. Aí já estamos num plano em que não há outro termo para utilizar, mas é um plano do populismo. E se nós somos tão exigentes com uma figura como André Ventura, e bem Também temos de ser exigentes quando outras figuras políticas são tão ou mais populistas que André Ventura. Portanto, João Cotrim Figueiredo, talvez por não ter ninguém a aconselhá-lo a ter alguma prudência e calma, perdeu um pouco a cabeça.
Historicamente, aqui na vida política portuguesa, qual é a tua convicção? Achas que os eleitores são sensíveis a este tipo de escândalos ou tendem a relativizá-lo quando estão a escolher os seus representantes políticos para qualquer cargo?
A resposta é: depende. Depende do tipo de partido ou de figura política de que estamos a falar. Por exemplo, tivemos André Ventura e o Chega nas últimas eleições legislativas muito afetados por casos e casinhos, alguns deles bastante graves, a envolver suspeitas de crime de pedofilia de alguns elementos ligados ao Chega. E depois tivemos, por exemplo, o caso das mães lactantes no Bloco de Esquerda. E isso teve efeitos muito diferentes, porque os eleitores desses dois partidos são diferentes. Há alguns dados interessantes que podemos abordar também e que relacionam a confiança que as pessoas têm na comunicação social e nos jornais. E essa confiança não é igual em todas as faixas etárias, em todos os rendimentos, em todos os níveis de escolaridade, em todas as orientações ideológicas. Por exemplo, as pessoas entre os 25 e os 44 anos, menos escolarizadas, com rendimentos mais baixos, politicamente indefinidos, mostram menos confiança na comunicação social. Isto é um cruzamento quase perfeito com o eleitorado do Chega e, portanto, nós sabemos que quando estas notícias saem na comunicação social-
O eleitorado do Chega é mais imune a esse tipo de informações.
Têm tendência a dizer: "Eu não acredito no que está ali". E sabemos, por exemplo, que as pessoas mais velhas, as pessoas com rendimentos e níveis de escolaridade mais altos, os portugueses que se dizem mais de esquerda e de centro, são aqueles que confiam mais nas notícias, nos órgãos de comunicação social. Também se quisermos fazer aqui uma distribuição, estas pessoas tendencialmente serão mais do Bloco de Esquerda ou do Partido Socialista. E, portanto, qualquer caso que mexa com os princípios ideológicos e éticos que um partido professa, como aconteceu no caso do Bloco de Esquerda e as mães lactantes, isso tem um impacto muito diferente do que tem junto de eleitores do Chega, por exemplo. E quem diz eleitores do Chega, dirá, neste caso muito em concreto, também no eleitorado da IL. Portanto, não é fácil nem é líquido que isto venha a impactar tanto como poderia acontecer na campanha do Cotrim Figueiredo.
Mas já não falta muito tempo, portanto, no domingo já teremos essa resposta. Miguel, obrigado mais uma vez.
Obrigado.
O Miguel Santos Carrapatoso é editor-adjunto de política do Observador. Que surpresas nos reserva hoje a campanha eleitoral para as presidenciais? É a mais renhida dos últimos anos e é seguramente uma das mais duras. E aqui estou a ser simpático com as palavras. Vamos estar de olho nisso e vamos estar atentos também ao que se passa no Irão. Os apelos para que os protestos continuem estão a ser incentivados até por Donald Trump, mas isto tem um custo. Calcula-se em milhares o número de mortos e até a televisão estatal iraniana admite aquilo que chamou de muitos mártires. E noutro caso, que não desapareceu do radar, Marco Rubio, o secretário de Estado dos Estados Unidos, tem encontro marcado com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, por causa da vontade de Trump de controlar a Gronelândia. Agora sabe-se que o próprio vice-presidente, J. D. Vance, também vai estar presente na reunião. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.