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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a violência entre estafetas de entrega de comida. O vídeo foi partilhado nas redes sociais e mostra uma rixa entre entregadores de comida, alguns deles de mochila às costas. Estão à frente da porta do Centro Comercial Vasco da Gama, do lado que dá para o Rio Tejo, no dia 31 de agosto deste ano. Na sequência desta rixa, foi lançada uma investigação pelas autoridades sobre uma eventual guerra territorial entre estafetas. E é precisamente sobre isso que vou conversar com a jornalista Rita Pereira Carvalho. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de segunda-feira, 23 de dezembro. Bem-vinda, Rita.

Olá.

Quem anda por Lisboa, e acredito que noutras cidades do país não será muito diferente, já viu concentrações de entregadores de comida. Eles estão todos juntos com as motos e as bicicletas. Os estafetas posicionam-se em algumas zonas, isso é para mais rapidamente conseguir um serviço? É assim que funciona? Já estão nos locais, é isso?

Sim, há pontos específicos onde os estafetas têm de estar para poderem receber os pedidos. Estas concentrações de que falavas veem-se muitas vezes a 200, 300 metros de um restaurante, o que significa que esse restaurante definiu aquele sítio específico na aplicação. Mas há aqui um ponto importante. Isto acontece, segundo os estafetas que falaram conosco, apenas com uma aplicação, que é a Uber. Ou seja, na Uber não existe uma distribuição baseada na proximidade. O que nos explicaram esses trabalhadores foi que eles têm de estar nos pontos definidos e se não estiverem nos pontos, só conseguem receber os pedidos caso nenhum dos estafetas que está nesse ponto-

Esteja disponível.

Sim, exatamente. Nesse caso, a aplicação distribui pelos estafetas mais próximos.

Ok, portanto, só funciona para a Uber Eats, digamos, e depois há as outras. Há mesmo muitas. Nós conhecemos duas ou três de cabeça, mas há muitas aplicações que servem precisamente para a entrega de comida em casa. Ou seja, zonas como centros comerciais ou perto de cozinhas de diferentes marcas, porque nem toda gente sabe isto, mas há edifícios, e aqui em Alvalade, perto dos estúdios da Rádio Observador, há um desses edifícios onde funciona uma cozinha que tem as várias marcas. Portanto, várias marcas de cozinha conhecidas, de fast food ou medium food. E são zonas preferenciais para esperar por um serviço?

Sim, nas zonas onde há mais restaurantes, há naturalmente uma maior concentração de estafetas, porque à partida também há mais pedidos. E é isso que nós conseguimos ver aqui em Alvalade, por exemplo. E é também nestes sítios, onde há uma maior concentração de trabalhadores, que há relatos de mais episódios de ameaças e violência. Porque há mais pessoas, naturalmente. O que existe neste momento são grupos que dominam esses tais pontos de que eu falava há pouco e que impedem outros estafetas de trabalhar ali. Ou seja, quanto menos pessoas, mais pedidos eles vão ter.

Mais probabilidade têm.

Exatamente. Com estes grupos, os pedidos acabam por ser distribuídos sempre ou quase sempre pelas mesmas pessoas. E há outros que ficam, obviamente, impedidos de recolher pedidos.

E o que aconteceu a 31 de agosto deste ano no Parque das Nações, em Lisboa? Ouvimos o som no arranque deste episódio da história do dia.

Foi precisamente um destes episódios de violência de que falava, sendo que este foi o mais grave registrado pela PSP até agora, segundo os dados que a PSP nos deu. Aliás, esse vídeo do momento que mostra as agressões entre estafetas está relacionado com a questão dos pontos de recolha, e isto também é uma informação da PSP, em que alguns estafetas foram impedidos de ficar naquele sítio pelo grupo que domina aquela área.

Estamos a falar do Vasco da Gama, no Parque das Nações.

Exatamente. E, portanto, à porta do Vasco da Gama, há um ponto de recolha definido, há um grupo que está sempre naquele ponto e que tenta impedir que outros estafetas fiquem ali. O que aconteceu nessa noite foi por volta das 19:00, um pouquinho antes de jantar, quando há mais pedidos.

Exato.

O que aconteceu nessa noite foi que alguns estafetas foram impedidos de ficar naquele sítio pelo grupo que domina a área, e esses estafetas que foram impedidos de ficar, não quiseram sair e gerou-se ali um episódio de agressões violentas, porque foram usadas facas, capacetes. No fundo, aquilo que a PSP nos descreveu foi tudo aquilo que tinham à mão, usaram para agredir os estafetas que estavam lá e quatro pessoas ainda tiveram de ser levadas para o hospital.

Porque o Vasco da Gama tem n restaurantes na zona da restauração e tem muitos hambúrgueres, pizzas, saladas, sopas, enfim, aqueles que todos conhecemos.

Sim, são provavelmente centenas de pedidos e, obviamente, que há muitos estafetas que querem trabalhar aí nesses sítios.

E foi esse caso que levou a abrir uma investigação?

Sim, foi precisamente este. Na altura, os agressores fugiram e a PSP nem sequer conseguiu identificá-los nesse momento, conseguiu identificar apenas as vítimas e o caso ficou na unidade de investigação da PSP, que conseguiu ao longo dos últimos meses ver as câmaras de vigilância, descobrir as matrículas das motas através das imagens e a partir daí a investigação chegou a vários nomes pelas matrículas. Depois de identificadas as pessoas, a PSP começou a ir para o terreno, começou a acompanhar as rotinas destas pessoas e conseguiu perceber também onde é que elas moravam. E foi por isso que conseguiram os mandatos de busca que fizeram na semana passada.

Já voltamos à conversa com a Rita Pereira Carvalho, jornalista do Observador. Este caso de luta territorial será apenas um caso ou a situação é mais grave? Estamos de regresso à conversa com a jornalista Rita Pereira Carvalho. Rita, sabemos, por exemplo, quantos estafetas destes de entregas de comida existem? Há dados sobre isso?

Sim, têm saído alguns dados. Nos últimos tempos vemos que existem cerca de 50 mil estafetas, mas estes dados também são do início do ano e o número, pelos últimos anos, tem aumentado. Portanto, é possível que neste momento existam mais de 50 mil pessoas que entregam comida.

50 mil. Isso em todo o país ou só em Lisboa?

Não, em todo o país. Porque estas contas são feitas com base nos registros nas aplicações e não em contratos de trabalho. Portanto, podem ser coisas temporárias. Uma pessoa pode registrar-se na aplicação durante dois meses e depois voltar meio ano depois.

Pode ser um biscate, no fundo, não é?

Exatamente, sim. Estas contas não são feitas pelos contratos de trabalho, até porque estes trabalhadores não têm contratos de trabalho e esta questão dos contratos é a grande luta destes trabalhadores, na verdade.

Mas 50 mil pessoas é realmente muita gente, é quase um Estádio de Alvalade cheio, não é? Vamos regressar à investigação. Que resultados é que teve essa investigação que partiu desse incidente a 31 de agosto no Vasta Gama?

Depois das buscas, a PSP conseguiu três coisas. Primeiro, identificou 14 pessoas suspeitas de estarem envolvidas nessas agressões. Depois, também graças a esta investigação, percebeu-se, e isto provavelmente ficará no radar da PSP, que existem episódios de violência relacionados com grupos que tentam dominar os pontos de recolha. E por último, conseguiram também perceber que estes suspeitos vivem em condições de sobrelotação. Ou seja, isto não tem a ver necessariamente com o caso da violência, mas a investigação também permitiu concluir isso. As condições de sobrelotação, que é uma realidade também associada a estes trabalhadores. Num quarto chegam a dormir, por exemplo, quatro, seis pessoas. E este caso específico foi enviado para as entidades competentes nestas áreas, que são as Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais. Portanto, com esta investigação, conseguiu-se perceber também a realidade em que vivem muitos trabalhadores.

E na nossa memória está aquela situação terrível do incêndio na Mouraria.

Exatamente.

Não sei, mas eram várias pessoas que viviam numa casa pequena e completamente sobrelotada. Mas, Rita, nós temos já dados suficientes para perceber se isto se trata de um caso de guerra territorial, vou chamar-lhe assim, relativo ao Parque das Nações, ou há outras situações suspeitas?

Os estafetas com quem falámos são muito claros em relação a este assunto. Todos já viveram ou assistiram a situações de ameaças e agressões. Um dos estafetas, enquanto falava conosco, disse mesmo que há uma máfia dos pontos de recolha.

Perfeito, porque isto parece a divisão da cidade como a máfia faz, não é?

Sim, eles falam muito nesta máfia. Só para dar exemplo, no McDonald's de Mem Martins, há um grupo que só permite a entrada de 18 estafetas naquele ponto de recolha e impedem todos os outros de ficar naquele lugar. E alguns estafetas que trabalham naquela zona dizem ter assistido a casos como pneus furados, motas partidas, por exemplo. E há relatos em muitos pontos da cidade de Lisboa, Oeiras, Cascais, Loures, e as descrições são sempre as mesmas. Alguém que é impedido de ficar no tal ponto de recolha, que não quer ir embora e a partir daí começam as ameaças ou agressões.

E perante essa situação, ou seja, perante essa informação que já existe, as autoridades estão a fazer alguma coisa?

As autoridades podem fazer alguma coisa em relação aos casos que estão em investigação e que têm conhecimento. Em relação ao caso do Parque das Nações, a investigação ainda continua, ainda não está concluída, até porque há um inquérito a decorrer por ofensas à integridade física. O que deverá acontecer agora é saber se estes suspeitos serão ou não constituídos arguidos, mas este é o único inquérito que existe relacionado com agressões.

Porque isto além da violência, pode haver aqui outro Tipo de criminalidade associada, como por exemplo, obrigar ao pagamento de qualquer coisa para poder estar naquele ponto. Sobre isso não há notícia?

Não. Os trabalhadores com quem falamos, nós estamos a basear o nosso trabalho com as experiências dos trabalhadores que entregam comida todos os dias, nunca nenhum falou em pagamento para entrar nos grupos.

Uma espécie de extorsão.

Sim, nunca nenhum falou sobre isso. E depois também há aqui um ponto importante que é: estes grupos não estão associados só a pessoas estrangeiras. Eles falam em grupos de portugueses, brasileiros. Não é uma questão de nacionalidade, é mesmo uma questão de organização no terreno.

Num determinado local.

Exatamente.

Pode ter pessoas de vários países, portugueses, brasileiros, Bangladesh, Índia. E sabemos, Rita, quanto é que ganham estas pessoas?

Dados oficiais não temos, porque não existem contratos de trabalho.

Essa ainda é outra questão.

Exatamente, eles não têm um salário. Eles ganham consoante as entregas que fazem.

Uma porcentagem da entrega. E quanto mais rápido conseguem fazer, mais entregas vão conseguir fazer. Isso também justifica a forma como muitos conduzem.

Sim, verdade. E se conseguem estar nos pontos ou não, também. E se estiverem nos pontos, acabam por ganhar mais, fazem mais entregas. Por exemplo, um dos estafetas com quem falámos disse que consegue fazer, em média, 60 € por dia. Obviamente, que depois temos de descontar a gasolina, por exemplo, mas não podemos tirar daqui uma média.

Uma ideia de um vencimento.

Sim.

Obrigado, Rita.

Obrigada.

Rita Pereira Carvalho é jornalista da seção de sociedade d'O Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Artur Costa, a música do genérico, do João Ribeiro. E na edição de amanhã, terça-feira, dia 24, da História do Dia, vamos ter um episódio super especial. É um especial de Natal para partilhar com todos os ouvintes da História do Dia. Boas festas a todos.

Já depois da transmissão desta História do Dia, a Uber esclareceu que não exige, em nenhuma situação, que estafetas estejam parados num determinado ponto para que lhes seja distribuído um pedido. Os pedidos são distribuídos segundo vários critérios, incluindo o da proximidade ao local da recolha.