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Esta é a história do dia da Rádio Observador. As tecnológicas já não oferecem empregos de sonho?
"Let the bad times roll! What can I say? When Salesforce lays off 8,000 people or 10% of its staff, and the stock rockets higher."
Este é Jim Cramer num dos seus programas de televisão, Mad Money, emitido pela norte-americana CNBC ao final da tarde. É um apresentador histriónico que usa uma caixa de sons enlatados para dar ainda mais exuberância às análises que faz da economia e do mercado de capitais. Aqui fala do despedimento de 8 mil pessoas da empresa Salesforce. Jim Cramer está de gravata, mas de mangas arregaçadas. O apresentador especialista encarna a figura do protetor dos investidores e acusa as grandes empresas tecnológicas de excesso de contratações durante a pandemia.
"But at the end of the day, this market has become unforgiving to the fat, happy tech companies that hired too many people during the pandemic and are now seeing that they're not taking the tough actions needed to protect you, to protect you, the shareholder."
Já são mais de 50 mil os trabalhadores das chamadas big tech despedidos nos últimos meses. O número pode subir para 70 ou mesmo 80 mil, se alargarmos o universo das tecnológicas, como dizemos por cá. Estas empresas com escritórios modernos, coloridos, divertidos, foram, durante anos, o emprego de sonho para milhões de pessoas em todo o mundo. Afinal, o que está a acontecer? Vou conversar com Cátia Rocha, jornalista da seção de economia do Observador e especialista em tecnologia. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, Cátia.
Obrigada, Ricardo.
Cátia, quando o Observador se mudou do Bairro Alto para Alvalade, mudámo-nos de um edifício velho, com salas apertadas, para aqui, onde estamos agora. Este local foi uma garagem, hoje é um open space com salas de vidro, temos recantos acolchoados, pintados de azul forte. Temos sempre pessoas com um telemóvel ou um portátil na mão. Podemos sentar onde quisermos para trabalhar. Quando entrámos aqui, houve quem pensasse: "Isto é muito giro, parece aqueles escritórios tipo Google". Esta longa introdução serve para te perguntar, Cátia, esta ideia que temos das big tech corresponde à verdade? Escritórios divertidos, piscinas de bolas, matraquilhos. Isto é mesmo assim?
Em parte, sim. Depende um bocadinho do ponto do mundo em que estás a visitar os escritórios destas big tech. Mas também foi uma ideia que foi muito romantizada pelo cinema, pelas séries, por tudo isso. Quem já viu a Silicon Valley, a série, sabe que isto é verdade e que andaram ali a trabalhar sentados em cubinhos e tudo isso. Aliás, é uma ideia que levou muitas empresas do setor da tecnologia, que já existiam antes destas big tech apostarem nestes escritórios, que até começaram a imitar um bocadinho esta lógica. Portanto, sim, é uma ideia que temos desses escritórios mais divertidos.
"Down on the bottom level is really like the market. It's where we have our meeting rooms, cafés, where you can connect with your community and collaborate. And then up here, it's more quiet."
Aqui não temos nem piscina de bolas, nem matraquilhos, mas acho que devíamos tratar disso. Quando estamos a falar de big tech, estamos a falar de que empresas, Cátia?
Das mais conhecidas e também daquelas que têm maiores dimensões, tanto a nível de valor de mercado, como também de trabalhadores. A Apple, a Amazon, Alphabet, que é a dona da Google e de toda a outra panóplia de serviços, como o YouTube, por exemplo, o Facebook, que agora se chama Meta, e também a Microsoft.
Estamos sempre aqui a falar destas empresas como se fossem startups, novas tecnologias, mas estas big tech já não são startups. Já têm uns aninhos valentes, nalguns casos, como é o caso da Microsoft. Ou Microsoft, não sei como é que deves dizer.
Eu costumo dizer Microsoft, mas quem já trabalha na indústria há uns anos costuma dizer também Microsoft.
Estamos a dizer à portuguesa.
A Apple e a Microsoft são empresas que já vêm dos anos 70. A Microsoft é de 75 e a Apple nasceu em 76. Portanto, são empresas que já têm uma grande longevidade. Mesmo assim, pensando em casos como a Amazon, a Amazon é de 94, está prestes a fazer 29 anos em julho, e a Google é de 98. A Meta, mesmo assim, é a empresa que é mais recente deste grupo, nasceu em 2004, mas já vai a caminho dos
Dos 20 anos, quase.
Dos 20 anos. Já é uma empresa que não é de todo uma startup.
Estes gigantes começaram a despedir pessoas nos últimos meses. Quantas pessoas foram despedidas?
Contando só com os despedimentos destas quatro empresas, que são aquelas que estão a chamar mais a atenção, e aqui a Amazon domina, porque está a despedir 18 mil pessoas. Numa fase inicial, falava-se em 10 mil. Entretanto, o CEO andou a rever os planos e começou o ano a dizer que afinal não, eram 18 mil, muito mais. Estamos a falar aqui de pelo menos 51 mil pessoas que estão a ser despedidas ou que estão já a sair destas empresas.
Isso nos Estados Unidos ou um pouco por todo o mundo?
É um pouco difícil conseguirmos perceber o que está acontecendo, quais são os anúncios que essas empresas estão a fazer. Vamos despedir X pessoas, é mencionada uma porcentagem de quanto esse corte equivale na força total de trabalho, mas muitas vezes não estamos a falar de geografias específicas. Tanto que a cada vez que sai uma destas notícias, nós aqui no Observador tentamos apurar junto das subsidiárias em Portugal, se estes planos eventualmente afetam pessoas em Portugal ou não. E até agora ninguém conseguiu perceber.
Não conseguimos uma resposta cabal para isso.
É sempre remetido para o comunicado original, que raramente detalha mercados.
Satya Nadella, o CEO da Microsoft entrevistado pela CNBC, chuta para canto quando perguntado sobre novos despedimentos.
"We're very committed, as I said in our earnings call last time, we are very committed to making sure that our operating expenses and our revenue growth are compatible, because after all, we're a company that needs to be managed super well."
E sabemos que tipo de funcionários, que tipo de pessoas foram despedidas? Com esta pergunta, quer dizer, pessoas com menos experiência ou mais experiência, mais anos de casa, por exemplo.
Não conseguimos propriamente ter uma grande ideia sobre isso, porque os comunicados têm sido muito gerais. Explica-se normalmente a razão e diz-se que tem de haver um corte, porque as empresas têm de ser mais eficientes. Mas até agora só a Amazon, por exemplo, é que detalhou, e no comunicado de novembro, no primeiro das 10 mil pessoas, é que detalhou que estava a despedir mais nas áreas dos recursos humanos e também na investigação ligada à Alexa, a assistente digital. De resto, as restantes empresas não têm especificado se são pessoas seniors, se trabalhavam lá há muitos anos ou não. Está tudo um pouco ao sabor dos relatos que as pessoas vão escrevendo em redes sociais como o LinkedIn, para conseguirmos perceber o que está acontecendo.
Já voltamos à conversa com a Cátia Rocha, jornalista do Observador. Vamos tentar perceber as razões que levam estes gigantes das novas tecnologias a despedir milhares de pessoas em poucos meses. Vasco da Gama chegou à Índia em 1498. Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500. E Henrique Leitão chega à Academia Observador em 2023. Prepare-se para redescobrir os descobrimentos e a ciência portuguesa que os possibilitou. Suba a bordo para uma viagem fascinante. Inscreva-se em academia.observador.pt.
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Estamos de regresso à conversa com a Cátia Rocha, jornalista do Observador, especialista em tecnologia. Cátia, não falaste de despedimentos na Apple.
A Apple tem passado, pelo menos até agora, completamente ao lado de toda esta vaga. Também há aqui que perceber que é um gênero de negócio um pouco diferente, embora as restantes empresas também vendam equipamentos, tenham smartphone, como a Alphabet. A Alphabet tem os Pixel.
Que são os telemóveis da Google.
Exatamente, da Google, vende telemóveis. Para a Apple, a venda de equipamentos, principalmente do iPhone, é o chamado pão com manteiga da empresa, é o motor do negócio. E as outras têm modelos um pouco diferentes. A Google e a Meta estão muito assentes no modelo publicitário, na venda de anúncios, e a partir do momento em que tens empresas que começam a cortar nos orçamentos dessa área de anúncios, começas a ter também um efeito para estas gigantes um pouco diferentes. E há o outro fato que está a fazer com que a Apple se afaste desta ideia de despedimentos.
That means we're continuing to hire, but not everywhere in the company are we hiring. We believe strongly in investing for the long term.
Que é o fato de não ter contratado de forma muito significativa durante a pandemia. A Apple tem sido muito estável nas contratações que tem feito ao longo do tempo. A Apple, desde 2019, nunca contratou mais do que devia. Tem uma taxa de crescimento dos trabalhadores sempre de um dígito, que é algo que nunca aconteceu ao longo dos outros tempos com as restantes empresas do setor.
Quantos milhões de milhões faturaram estas big tech, por exemplo, no ano passado?
Disseste bem, é sempre na escala dos milhares de milhões. Continuam a ser empresas que têm um poder financeiro muito relevante. Mas a verdade é que as receitas e os lucros abrandaram para muitas empresas, tanto que a palavra mais usada pelos CEOs nos comentários das apresentações de resultados tem sido mesmo um contexto desafiante. Está aqui a inverter-se um pouco aquilo que vimos, principalmente durante a pandemia, em que estas empresas tiveram lucros e receitas astronômicos.
Então deixaram de ser máquinas inacreditáveis de fazer dinheiro, é isso? Abrandou?
Abrandou, sim. Continuam a ter lucros. Neste caso, no ano passado, a Amazon foi a única que teve prejuízos na ordem dos 2,7 mil milhões de dólares, que era algo que não acontecia para a Amazon desde 2015, mas as restantes continuam a ter lucros, mas há um abrandamento algo já significativo das receitas.
Vamos a esses pontos. Abrandamento das receitas, também porque houve um abrandamento no mercado publicitário e algumas dessas empresas, como já explicaste Como a Meta e o Facebook, por exemplo, vivem muito daquilo que vendem em termos de publicidade. Depois, muitas contratações, porque durante a pandemia, com as pessoas em casa, houve muita vida online. Esses são os dois grandes fatores que explicam estes despedimentos em massa?
Sim, muitos CEOs estão a dizer que têm de equilibrar os recursos humanos que têm àquilo que está a ser a procura do mercado. E são empresas, principalmente no caso da Amazon, que contrataram muitos na pandemia. E aqui na Amazon é importante fazer a ressalva de que todos estes números de empregados da Amazon são os empregados a tempo inteiro, não incluem as pessoas que trabalham a tempo parcial nos armazéns a tratar das encomendas, por exemplo. E alguns analistas dizem mesmo que estes recursos humanos que foram contratados durante a pandemia, foram contratados de forma excessiva pra responder àquela procura louca dos primeiros anos da pandemia, principalmente em 2020. No caso do Facebook, mesmo o Mark Zuckerberg disse que esperava que o comportamento da pandemia se mantivesse ao longo dos próximos anos e que estava a fazer planos de negócio tendo em conta isso. Mas há mais fatores, os custos também estão a aumentar. Estas empresas estão a ter subidas nos resultados que já são muito significativas na área dos custos, principalmente no caso da Amazon, como trabalha no negócio das entregas, ia ser muito prejudicada pela subida dos preços do combustível, da energia, tudo isso. Mas também há outro ponto, que é: estas empresas são empresas que são cotadas em bolsa e a partir do momento em que uma empresa dessas tem de prestar contas aos acionistas. Tivemos aqui também esta história da guerra da Ucrânia que não ajudou.
Claro.
E quando se presta contas aos acionistas, os acionistas começam a exigir um bocadinho mais. Por exemplo, no ano passado, foi conhecida uma carta de um acionista da Google que pedia ao CEO que despedisse pessoas, porque tinham demasiadas pessoas e achavam que a Google estava a contratar de forma excessiva e que não era um fenômeno que começou apenas na pandemia, já acontecia antes. Portanto, é uma junção de fatores.
Pode haver aqui um fenômeno de contágio, se a Amazon despede 18 mil, a Alphabet, que é a dona da Google, vai despedir-
12 mil.
12 mil.
Existe a teoria de que como as mensagens de justificação são um bocadinho semelhantes, que essas empresas possam estar a copiar um bocadinho.
E aproveitar o momento.
Aquilo que as outras estão a fazer. Mas também há outras mais pequenas que também estão a despedir. A Pinterest, por exemplo, é uma empresa que é relativamente conhecida, mas que a nível financeiro nunca chegou ao patamar destas big tech, vamos assim dizer, mas que também vai despedir 150 pessoas. E também há startups que estão a fazer anúncios do gênero, daí esta ideia do efeito de contágio.
Mas tudo isto é ainda um pouco estranho, porque continuam a faturar muitos milhões, já percebemos que não tanto como antigamente, mas numa altura em que estas empresas caminham a passos largos para a inteligência artificial. Falaste na Amazon, que tem a Alexa, que é aquele dispositivo, uma coluna, um smart speaker que temos em casa, com quem podemos conversar e a quem podemos pedir coisas e que funciona com inteligência artificial. Não é estranho estar a despedir nesta altura pessoas que se calhar têm capacidade pra desenvolver estas áreas?
No caso da Amazon, realmente, a primeira vaga de despedimentos que se falou estava ligada à área da Alexa. Mas a Amazon faz isto muitas vezes, realinha. Realinha, não. Direciona recursos humanos pra outras áreas, mas neste caso, a empresa realmente tem demasiados trabalhadores. A Amazon está acima da cifra de 1 milhão de trabalhadores, portanto, é algo que é muito considerável. Mas no caso da Microsoft, a Microsoft também está muito virada pra esta área da inteligência artificial. O CEO admite: "Ok, vamos despedir, mas isso não quer dizer que não vamos continuar a contratar pra áreas que sejam estratégicas". E no caso da Microsoft, a inteligência artificial é assumida como uma área estratégica.
De um lado pra pôr do outro?
Exatamente.
E o caso da Meta está a investir e muito também no Metaverso, não é?
Sim, mas a Meta este ano, ficou isso assente na apresentação de resultados. Mark Zuckerberg quer que este ano seja o ano da eficiência da Meta. Portanto, a empresa está muito empenhada em controlar custos. Mas, como é sabido, o Metaverso e tudo o que seja estas áreas da realidade virtual, neste momento são vistas por Mark Zuckerberg um bocadinho como o futuro da empresa. Eles já não querem ser só uma empresa de redes sociais. Querem conectar-nos e ligar-nos um bocadinho naquilo que eles acreditam ser o próximo passo da internet. Agora vamos ver se isso efetivamente acontece ou não.
Ainda temos que fazer um episódio sobre o Metaverso da Meta, que há muita coisa que podemos conversar.
Há muito pano pra mangas.
E há outro dado curioso no meio disto tudo, é que 56% dos trabalhadores dispensados são mulheres. Isto depois de um grande esforço pra vencer num mundo que era tradicionalmente de homens, e não se ofendam quando eu disser isto, por muitos geeks, muitos homens geeks que trabalham nesta área das tecnologias, e agora são despedidos 56% são mulheres.
É uma estatística que é muito relevante para se ter em conta. E já havia grandes questões nesta indústria com diferenças salariais, mas isso é algo que também, infelizmente, existe em muitas outras indústrias, não é exclusivo da tecnológica. Mas pode estar ligado às áreas específicas destes despedimentos. A Amazon despediu muitas pessoas, ou está a despedir muitas pessoas ligadas às áreas de Recursos Humanos, que é uma área que tradicionalmente é vista como tendo mais mulheres do que homens, o que pode explicar em parte este número.
Cátia, as grandes empresas de tecnologia estão a perder o encanto? Já não são aquele emprego de sonho supercriativo e onde se pode tomar banho numa piscina de bolas e jogar matraquilhos?
O emprego de sonho é sempre algo que é relativo, depende sempre da pessoa e também da indústria em que estás a trabalhar. Mas há que reconhecer que aqueles vídeos que víamos nas redes sociais de pessoas a contar o dia a dia na Google, por exemplo, e de como passavam o dia a comer e a jogar matraquilhos. Sim, tudo cheio de benefícios, iludiram efetivamente muita gente. Mas há que reconhecer que é um setor que na pandemia ganhou tanto, foi muito resiliente, até foi beneficiado, que agora está numa situação que é diferente, um bocadinho mais sensível. Agora, se o emprego de sonho nas tecnológicas acabou ou não, depende da área. Se for para a área de inteligência artificial, provavelmente continua a ser um emprego de sonho.
Obrigado, Cátia.
Obrigada, Ricardo.
Cátia Rocha é jornalista da secção de Economia do Observador e escreve sobre tecnologia. Ouvimos sons retirados das estações norte-americanas de televisão CNBC e CBS. Esta foi a história do dia. Este episódio contou com a colaboração do jornalista Rui Casanova, a sonoplastia do Artur Costa e a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.