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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Clima de tensão em Angola. Luanda pode rebentar?
Procedeu nesta sexta-feira, 08 de agosto, na cidade de Luanda, à detenção do cidadão nacional identificado por Francisco Paciente, presidente da ANATA, por fatos que se configuram na prática de crimes de associação criminosa, incitação à violência, atentado à segurança nos transportes e terrorismo.
Francisco Paciente é o presidente da ANATA, a Associação Nacional de Taxistas de Angola, e a notícia é avançada pela TPA, a televisão pública de Angola. Antes de ser detido, Francisco Paciente descrevia numa conversa com o Observador o que chamava de clima de medo, de prisões arbitrárias, e ele próprio viria pouco depois a ser detido. Luanda e outras cidades angolanas têm sido palco de tumultos que arrancaram depois de ter sido convocada uma greve de taxistas contra os aumentos dos preços dos combustíveis. O regime reagiu com e em força contra pilhagens, barricadas e a violência acabou por gerar violência. Agora, há quem dentro do próprio MPLA apele a uma mudança, a uma abertura democrática do regime. Nas ruas, a população queixa-se de fome e da miséria. É sobre a situação muito quente em Angola que vou conversar com Dulce Neto, editora-executiva do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 12 de agosto. Bem-vinda, Dulce.
Olá, Ricardo.
Dulce, estiveste aqui na história do dia, no final do mês de julho. Só para nos situarmos e para quem por acaso não ouviu esse episódio, o que aconteceu em Luanda recentemente?
Não foi só em Luanda, foi em várias províncias de Angola, mas claro, Luanda foi um dos locais mais emblemáticos. Houve uma paralisação dos taxistas, os chamados candongueiros, são as carrinhas azuis e brancas que fazem o transporte coletivo privado de cerca de 10 milhões de pessoas em Luanda, para protestar contra o preço da subida do gasóleo em 33%, com o fim gradual dos subsídios governamentais. Isto começou com piquetes de greve, resvalou para queima de pneus e de troncos de árvores, vias bloqueadas e depois veio o pior: pilhagens, saques de bens privados, vandalização, quer de bens particulares, quer de bens públicos.
E a repressão a esses tumultos foi violenta?
Sim, a polícia reagiu à violência dos saques com mais violência e extravasou a proporcionalidade da resposta. Usou balas reais. Houve pelo menos 30 pessoas mortas. O Bloco Democrático diz que foram quase 40. A UNITA diz que foram muitas mais, mas também houve dois polícias que morreram. Um terá sido linchado, o outro acho que não. E as organizações da sociedade civil, quatro delas falam mesmo em execuções sumárias.
E numa dessas cenas de violência morre uma mulher, uma mãe de seis filhos. Quem é esta mulher, Ana Mobiala Sílvia?
É uma senhora de 33 anos do bairro Caope, de Viana. Viana é um subúrbio de Luanda. Como tu dizias, ela tem seis filhos, que era ela que garantia o sustento da família. E ela morreu na mesma rua onde vendia pincho. Pincho são pedaços de carne de porco assada ao ar livre. E quando ela se apercebeu dos tumultos perto da zona para onde tinha mandado o filho à cantina, uma pequena mercearia de bairro, ela foi buscá-lo. Ficou com medo, ficou com receio do que pudesse acontecer e foi buscá-lo.
Foi à procura do filho, não é?
Foi à procura do filho. Nessa zona matam um ativista, um Gato Preto, e o caos sobe de tom.
Gato Preto é o nome do ativista que foi morto, é isso?
Sim. E há um vizinho dela que diz que aquilo era mesmo uma guerra, porque acho que as pessoas estavam a saquear ou a tentar saquear um supermercado dali da zona, mas o miúdo não estava envolvido em nada disso. A polícia fecha várias entradas do bairro e as pessoas começam a correr e esta mulher faz o mesmo, com o filho pela mão. Vê-se claramente no vídeo ela a correr com o filho pela mão. Há um vídeo em que o rapaz de 12 anos conta como é que eles vinham a fugir em busca de um quintal para se refugiarem, mas que as portas estavam todas fechadas. E quando finalmente viram uma aberta e corriam na sua direção, um carro da Polícia de Intervenção Rápida, e isso vê-se no vídeo, dispara a poucos metros nas costas deles. Atingiu a mãe numa perna, vê-se a senhora a cair e depois na cabeça. E estas imagens do desespero do filho a gritar e da mulher a cair e dele a tentar levantar a mãe, isto criou uma comoção geral. E esta senhora acabou por se tornar o símbolo das vítimas da repressão policial. A revolta ficou mais acesa quando a polícia veio dizer que a senhora era estrangeira, talvez em situação migratória irregular. Eles dizem que a senhora era do Uíge, que tinha emigrado na altura da guerra civil, dos confrontos entre o MPLA e a UNITA para o Congo. E que era angolana, mas mesmo que fosse estrangeira não significava nada, não se mata uma pessoa assim, desta forma, nestas circunstâncias. E depois a polícia também disse que os agentes tinham que salvaguardar a sua integridade física, ou seja, que teria sido em legítima defesa e vê-se claramente que não.
Porque vê-se isso nas imagens. Vê-se esta mulher a correr com a mão agarrada à mão do filho e ela é atingida pelas costas.
Exato. E não vês ali à volta nenhum supermercado, não vês nenhum elemento de saque e não vês nenhum polícia perto dela. Vês um carro da polícia atrás e a disparar por isso esta situação.
E ela, no fundo, transforma-se quase que numa mártir destes tumultos dos últimos dias, é isso?
Eu diria mais um símbolo das vítimas da repressão policial. Houve homenagens, em Portugal houve uma missa e uma manifestação, em Londres houve uma manifestação na sexta-feira, os partidos foram visitá-la. Visitá-la a ela não, claro, a casa da família, ao marido e aos filhos. Acabou por se tornar o rosto desta repressão policial. O rosto das vítimas, claro.
Já regressamos à conversa com Dulce Neto, editora-executiva do Observador. Poderá esta situação em Luanda e Angola obrigar a mudanças políticas? Estamos de regresso à conversa com Dulce Neto, editora-executiva do Observador. Dulce, a oposição tem aproveitado este clima também para se fazer ouvir e refere que a contestação é orgânica, é motivada pela fome, que há fome em Angola, há fome em Luanda, por prisões políticas, por violência. Podemos dizer que o povo está saturado? Podemos usar esta expressão?
Sim. Eles usam muito essa expressão. Dizem muitas vezes que estão cansados, que estão saturados, que estão cansados de 50 anos em que uma minoria tem tudo e uma maioria tem nada, saturados de não terem escolas, não terem saúde, não terem emprego e, sobretudo, não terem esperança. Olham pra frente e dizem que não têm esperança. Mas se em 2022, na altura das eleições, já se gritava muito por uma mudança, agora a fome saiu à rua, como diz uma ativista, Laura Macedo. É muito clara esta revolta, fala-se muito numa revolta popular grande.
E há ecos de insatisfação, Dulce, também no MPLA, no interior do partido, que no fundo, se confunde com o regime?
Sim, e isso foi muito surpreendente. Não é comum as discordâncias internas de um partido, que sempre existiram, mas não é comum chegarem ao conhecimento público. Mas agora são audíveis. E não foi nenhum leak, não foi nenhuma fuga de informação, não foi nenhuma declaração aos jornalistas sob anonimato. Não, nada disso. Houve três figuras que reagiram publicamente e duas delas são do Comitê Central do Partido, o que é ainda mais inédito. Dois são candidatos à liderança do partido, um deles é o histórico, é o general Higino Carneiro, um homem forte do anterior presidente José Eduardo dos Santos. O outro é muito mais jovem, deve ter metade da idade, Valdir Conego, que também quer ser presidente da República, além de líder do partido. E este meteu mesmo uma providência cautelar no Tribunal Constitucional para suspender João Lourenço da liderança do partido até o próximo congresso. Mas o que foi realmente significativo e se tornou viral, foi um texto violento de um deputado do MPLA, eu diria ferozmente educado, um sociólogo, presidente da Academia de Letras de Angola, super reputado, Paulo de Carvalho. Ele desfaz a forma atabalhoada como a medida impopular foi pensada, executada e comunicada. Contradiz Lourenço ao dizer que os protestos não são nada orquestrados por grupos antipatrióticos, nacionais ou estrangeiros, como o presidente da República tinha dito. Critica o despesismo, diz que o vandalismo não é culpa dos partidos da oposição, critica a polícia, diz que a polícia não pode continuar a matar, critica a imprensa estatal, diz que tem que deixar de fazer propaganda e contrapropaganda, que tem que ser imparcial. E chega mesmo a dizer: "Parem de fazer vídeos dessas festas de anos opulentos, quando no fundo da rua alguém está a ver esse vídeo e cheio de fome". E mais interessante, ele deixa um aviso, ele diz mesmo: "Ou o MPLA muda, ou perde o poder nas urnas ou à força".
E podemos dizer que, falava-se aí em propaganda, em repressão, podemos dizer que há um clima de medo instalado, sobretudo em Luanda, que é a grande área que concentra a maior população em Angola, mas há um clima de medo e que esse clima de medo, essa repressão, pode levar a que, vou usar uma expressão um pouco popularucha, mas a panela a arrebentar?
Essa expressão é usada, por sinal.
Ok.
Algumas pessoas falam mesmo nisso. Sim, todos falam muito no medo. Muito interessante é que o dirigente do Movimento de Estudantes de Angola, que é um dirigente temerário, disse-me uma coisa muito interessante. Ele dizia: "O medo tem duas vias. Sim, nós temos medo deles Mas sim, eles também têm medo de nós. Sim, nós não temos nada a perder e sim, eles têm muito a perder. Mas sim, há, de facto, ali um clima tenso, um clima de medo. Reginaldo Silva, que é um jornalista veterano angolano, fala num barril de pólvora. Se o governo não infletir na sua forma de governar e de se relacionar com o descontentamento, queixam-se muito de que o governo não ouve. Por exemplo, este líder do movimento de estudantes diz: "Eu ponho 20 mil pessoas na rua, 20 mil estudantes na rua, e nunca ninguém falou comigo". Se eles não olharem para esta revolta e para as causas desta revolta e continuarem a tratar tudo o que se passou como um caso de polícia, como um caso de vandalismo, e se eles não encontrarem um caminho correto para lidar com o que chamam a guerra digital, eles estão numa guerra com as redes sociais.
As redes sociais são muito importantes.
Eu acho que sim, que podemos ter aqui um cenário muito complicado. Mas eu não acredito que seja para já, Ricardo. Há demasiado medo agora.
É isso mesmo que te queria perguntar. Tu conheces bem a realidade angolana e acompanhas a atualidade angolana há muito tempo. Haverá alguma hipótese de uma democratização do regime, vamos supor, por meios pacíficos, por meios naturais, legais, sem ser pela força, isso poderá acontecer?
Sim, há sempre essa possibilidade. Se o MPLA mudar. Se o MPLA ouvir a lucidez corajosa de Paulo de Carvalho, por exemplo. Há 50 anos no poder, o partido dos camaradas não pode continuar a agir desta forma. Estes três dias foram um marco. Paulo de Carvalho dizia isso mesmo, que eles eram um marco, que era o fim da submissão popular. E isso é irreversível, isso não vai voltar ao passado e por isso o MPLA tem que se reinventar, tem que mudar de direção, escutar as ruas. Isto era o Higino Carneiro que dizia que eles tinham que escutar a voz das ruas, porque senão, de facto, está aqui com um grave problema.
Obrigado, Dulce.
Obrigada eu, Ricardo.
Dulce Neto é jornalista, editora executiva d'O Observador e acompanha a atualidade angolana. Ficam ainda algumas notas para esta terça-feira. O Benfica recebe o Nice no Estádio da Luz para a segunda mão da terceira eliminatória de acesso à Liga dos Campeões. O jogo é às 20h e o Benfica parte em vantagem. Ganhou 2 x 0 no jogo em França. No Santuário de Fátima, são esperados milhares de peregrinos, na sua maioria imigrantes, algo habitual nesta celebração do 13 de agosto. Esta noite haverá a procissão das velas e muitos imigrantes rumam a Fátima. E no que toca a festas e romarias, arrancam as festas de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, como cantava Amália, havemos de ir a Viana. E em Arruda dos Vinhos, à Festa de Nossa Senhora da Salvação, na noite deste dia 12, há concerto Remember os 80s e os 90s. E como todos os dias é dia de qualquer coisa, neste dia 12 é Dia do Filho do Meio. É verdade, é Dia do Filho do Meio. É também Dia do Elefante, o maior mamífero terrestre continua ameaçado. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do João Tição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e boas férias.