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Esta é a história do dia da Rádio Observador: como está Cristiano Ronaldo?

Estavam 20 jogadores sentados. Nunca ouvi alguma conversa deste tipo. Não é tema, não é assunto, nem do próprio. Agora, nas horas que estão no quarto sozinhos, se ligam para aqui, para ali, para acolá, isso já não sei. Mas os meus jogadores têm o seu tempo próprio para eles e para poderem fazer aquilo que querem. Uns ligam para a família, outros ligam para os amigos, outros não sei.

Fernando Santos, na conferência de imprensa de antevisão do jogo frente ao Gana, chuta a questão Ronaldo para canto. O selecionador nacional é confrontado menos de 24 horas depois de ser conhecida a notícia da rescisão por mútuo acordo com o Manchester United. Ao lado de Fernando Santos, na conferência de imprensa desta quarta-feira no Catar, está Bruno Fernandes, um dos capitães do United. Garante que as decisões de Ronaldo não afetam o grupo.

Não, obviamente, o Cris não falou comigo sobre a decisão dele. É uma decisão dele, obviamente uma decisão pessoal, algo que diz respeito somente a ele e à sua família. Não falamos sobre isso e é ponto assente que toda a gente aqui está focada naquilo que é a seleção, aquilo que é o mundial. Acho que toda a gente sabe o valor que, neste caso, o Cris e todos nós damos ao facto de representar o nosso país.

Cristiano Ronaldo é um jogador sem clube e que tenta recuperar da perda de um filho. Os holofotes estão apontados ao melhor do mundo num palco que continua a dividir com o Messi. No dia de estreia da seleção no Catar, frente ao Gana, podemos perguntar: como estará Ronaldo? Até que ponto os problemas que atravessa podem afetar ou não o desempenho do jogador e da equipa? Vou conversar com Bruno Roseiro, editor de desporto e enviado especial do Observador ao Catar. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vindo, Bruno.

Olá.

Aqui estamos de camisola e constipados. Onde é que tu estás nesta altura?

Eu estou no calor, só não estou no mais no calor porque estou à sombra, mas também arrisco ficar constipado. E por quê? Ando aqui fora com mais de 30° e entro em salas que devem estar 15°, 16°. Portanto, arrisco a estar constipado também, mas não é pelos mesmos motivos do que tu.

Mas é por causa do ar-condicionado do Catar.

É o ar-condicionado.

Temos de começar esta história, provavelmente no verão ou até antes disso, tu me dirás, antes do arranque da época de futebol. Ronaldo não queria ficar no Manchester United ou queria?

Não, o Ronaldo nunca, nessa altura, e contextualizando, Ronaldo nunca fez nenhuma declaração a dizer que queria sair do United. Inclusive, a única vez que fez alguma alusão a isso, foi para dizer que o gesto que ele tinha tido no último jogo em Old Trafford tinha sido mal interpretado e que aquele adeus era apenas e só um adeus para os adeptos, porque era o último jogo da temporada e não um adeus ao clube. Agora, aquilo que nós fomos vendo depois durante o verão, foi uma procura incessante de Jorge Mendes para tentar encontrar um outro clube para Ronaldo. Foi à Liga Espanhola, foi à própria Liga Inglesa, de acordo com o The Times, com a autorização do próprio clube, foi à Liga Francesa, foi à Liga Alemã, foi tentando várias ligas do top five. Acabou por ficar sem qualquer porta que se abriu. Também não houve qualquer janela de oportunidade, porque a proposta que chegou da Arábia Saudita foi recusada por questões meramente desportivas, porque financeiramente iria ganhar tanto como tinha ganho até agora. E de repente, vemos Ronaldo a não marcar presença na pré-temporada, com as justificações que ele agora conseguiu dar nesta entrevista, e foi a primeira vez que ele falou sobre isso, as questões pessoais que fizeram com que não marcasse presença na pré-temporada, e depois todos aqueles capítulos de uma novela, que eu diria que acabou da maneira que toda a gente já estava à espera.

E entre esses clubes, entre essas hipóteses, houve uma possibilidade também que era o City, o Manchester City, o grande rival do United. Mas aqui Ronaldo confessa que conversou com Alex Ferguson, disse isso na entrevista feita por Piers Morgan, e que Ferguson terá dito:

He said to me that It's impossible for you to come to Manchester City. And I say: ok, boss.

Nem pensar. As palavras de Ferguson continuam a ser muito importantes para Cristiano Ronaldo.

Sim, acaba por ser uma espécie de um pai para Cristiano Ronaldo. Ou seja, a grande mudança enquanto pessoa foi no United, a grande mudança enquanto jogador foi no Real Madrid. Isto é a vida do Ronaldo em termos desportivos. E Ferguson sempre foi essa figura parental para Ronaldo, até porque foi provavelmente o treinador e talvez a pessoa que melhor soube lidar com o Ronaldo ao longo dessas duas décadas. A maneira como o Ronaldo traz novamente o assunto City na entrevista, parece-me que é uma tentativa de chamar a atenção a todos os outros clubes para uma realidade que já não existe. Ou seja, no verão de 2021, Ronaldo ainda tinha uma possibilidade de escolha. Aquilo que aconteceu no verão de 2022 é que Ronaldo, pela primeira vez na sua carreira, deixou de ter uma opção de escolha. Ou melhor, a opção de escolha que existia era aceitar uma realidade que ele não queria, que era, por exemplo, seguir já para a Arábia Saudita. E eu diria que o propósito de recordar essa novela e essa possibilidade de ter reforçado o Manchester City, foi exatamente dizer aos clubes: "Atenção, há outros clubes que já estiveram interessados em mim há não tão pouco tempo." Agora, um ano, neste caso em específico, faz muita diferença. E aquilo que nós assistimos no último verão foi claramente um fechar de portas por uma série de razões, desde a parte desportiva, desde a parte financeira, desde a parte até mediática, que deixou Ronaldo numa situação que ele próprio, e não é a única, ele próprio não sabe como lidar. Ou seja, Ronaldo não sabe como lidar com essa possibilidade de nenhum dos grandes clubes estar interessado nele, da mesma maneira como também não sabe lidar com algo, que para mim está a ser o grande problema, que é o avançar do tempo. É normal que Ronaldo já não seja o mesmo Ronaldo que nós conhecemos, o que não faz com que Ronaldo continue a ser um dos melhores de todos os tempos.

Bruno Roseiro, o Ronaldo diz também que se sentiu humilhado pelo treinador. Aqui na Rádio Observador, no programa que está disponível, de resto, em podcast, o "Sei o Que Fizeste no Mundial Passado", é uma conversa que vale bem a pena ouvir. Paulo Futre, neste "Sei o Que Fizeste no Mundial Passado", dizia que não se trata um atleta cinco vezes Bola de Ouro como o treinador do United, Erik ten Hag, tratou Ronaldo.

Para mim, o grande culpado do que está a acontecer é o treinador. O Cristiano tem cinco Bolas de Ouro e um treinador não pode, nunca, porque não é uma falta de respeito o que ele fez, é uma humilhação. Quando ele diz: "Cristiano, faltam dois minutos, vais entrar agora." Dois minutos? A um jogador que tem cinco Bolas de Ouro, isto é a maior humilhação.

Afinal de contas, o que se passou nesta relação entre estas duas personagens deste verdadeiro drama?

Eu acho que foi uma relação que começou torta e nunca se endireitou. Eu consigo perceber as palavras do Paulo Futre, também pela figura que ele é e aquilo que ele era como jogador. E eu percebo o ponto de vista de Paulo Futre quando diz: não é normal um treinador agarrar num jogador como Ronaldo, com o currículo que ele tem, com o estatuto que ele tem, e colocá-lo a três minutos do final. A questão, e isso é uma parte importante também de recordar, é o que é que Erik ten Hag falou com Ronaldo no início da temporada. Ronaldo tinha alguma obrigatoriedade de manter o estatuto. Erik ten Hag explicou-lhe que seria apenas mais um entre todos os jogadores do plantel. E essa, para mim, é a chave de todo esse problema, porque aquilo que aconteceu foi o Manchester United acabou por ficar com Ronaldo no plantel e a partir do momento em que fica com um jogador como é Ronaldo, tinha de fazer uma duas opções: ou ele continuava a ser uma presença regular na equipa ou então iria ter problemas. É aí que entra a questão do Paulo Futre. Ronaldo, ao ficar no United, nunca lhe passaria pela cabeça que ele seria aquele tipo de jogador que entra a três minutos do final quando o jogo já está resolvido. E esse foi sempre o grande problema. A relação entre ten Hag e Ronaldo ficou sempre marcada por aquilo que nunca ficou definido de uma forma clara e depois acabou por redundar neste aspecto. Agora, há aqui também um outro ponto importante e eu diria até perigoso para o próprio Ronaldo. Quando um jogador, numa entrevista, publicamente admite: "Eu não quero um treinador que me coloque a três minutos do final", ele próprio está a condicionar o seu futuro, porque qualquer treinador de qualquer equipa que o possa receber, a partir desse momento, sabe que Ronaldo ou é para ser titular, mesmo que jogue mal, mesmo que não esteja propriamente na melhor forma, tem de ser titular, ou então não poderá jogar. E não jogando, será sempre um problema, porque entrar a três minutos do fim deixa de ser uma opção.

E agora, sem surpresa, surge esta notícia que o Manchester United e Ronaldo rescindem por mútuo acordo, com notas de agradecimento, notas públicas. Este era um desfecho inevitável, Bruno?

Sim, inevitável, previsível e mais uma vez, uma palavra que nós temos utilizado muito, a única coisa que para mim acaba por ser estranha é o timing do anúncio desta rescisão a 48 horas de Portugal fazer a estreia no Campeonato do Mundo. A entrevista vem no pior timing possível, o anúncio da rescisão também diria que vem no pior timing possível.

Já voltamos à conversa com o Bruno Roseiro. Como estará a cabeça do Ronaldo, o melhor do mundo, no dia em que entra em campo frente ao Gana

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Estamos de regresso à conversa com Bruno Roseiro, editor enviado especial do Observador ao Qatar. Bruno, Ronaldo perdeu um filho, falou disso abertamente na entrevista que deu a Piers Morgan. Olhamos para Ronaldo como um fora de série, é o que ele é, mas é também um homem de carne e osso e nada nos prepara para essa dor que é a perda de um filho. Este poderá ser um fator importante no desempenho desportivo no Qatar?

No Qatar, não acredito. Acredito cada vez mais, e percebi isso pela entrevista, que foi um fator muito importante para a erosão total da relação com o Manchester United, por haver da parte do Ronaldo, um acompanhamento de toda a situação que não era aquele que ele queria. Ou seja, ele achava que o clube teria de ter outras posições. Eu diria que até para o próprio United acaba por ser algo marcante quando um jogador, e neste caso a sua maior referência, diz que sentiu mais apoio por parte de adeptos do Liverpool, que cantaram o seu nome quando o Ronaldo defrontou o Liverpool, do que propriamente do próprio clube. E isso provavelmente até poderá merecer uma reflexão interna, numa altura onde os próprios donos também admitem já vender o clube. Por que eu diria que não tem relação com este mundial? Eu acho que não há muito essa noção, e as pessoas ficaram presas no tempo em relação à entrevista, mas Ronaldo está exatamente no contexto que mais desejava nesta altura da carreira. Eu dou um exemplo prático: de todas as pessoas não portuguesas, mas que apoiam a seleção e apoiam genuinamente, não são pagas para tal, são pessoas que são completamente apaixonadas por futebol, loucas por futebol, de todas as pessoas com quem nós temos falado, eu percebo muito mais que as pessoas são da equipa e da seleção de Ronaldo do que propriamente de Portugal. E isto pode parecer uma pequenina diferença, mas faz muita diferença, porque este é o contexto que Ronaldo andava há muito à procura. Há muito que Ronaldo não era visto assim pelos adeptos, há muito que Ronaldo não tinha este tipo de contexto. Pode até ser um fator motivacional para o próprio Ronaldo, que, e essa acaba por ser a grande surpresa também desta competição, vai entrar em campo contra o Gana como um jogador livre.

Do ponto de vista desportivo, o fato de não ter clube nesta altura e de, por certo, estarem a decorrer negociações com clubes, com essa capacidade para ter um dos atletas mais bem pagos do mundo, pode ou não ter também influência no desempenho de Cristiano Ronaldo?

Eu acho que era uma situação inevitável, ou seja, a rescisão, se não acontecesse agora, iria acontecer depois do mundial. Portanto, eu diria que é quase uma questão proforma. É um caso excepcional, mas não é único. Tivemos João Vieira Pinto em 2000, que tinha acabado de rescindir contrato com o Benfica e ainda não tinha contrato com o Sporting quando fez a fase final do Campeonato da Europa de 2000. E tivemos, curiosamente, no último mundial, Bruno Fernandes, William Carvalho e Gelson Martins a rescindirem contrato no primeiro dia em que chegaram à Rússia para o Campeonato do Mundo.

E portanto, apesar do ambiente ser igual ao que é hoje, o ambiente era o mesmo, o ambiente era muito bom, mas na realidade foi algo que desviou um bocadinho as atenções, porque era muita gente, era muito difícil. Tivemos jogadores a fazer contratos naquela altura, outros a renovar naquela altura, outros a saber que não ficavam. Portanto, foi na realidade difícil.

E eu não diria que essa situação tenha alterado o rendimento, antes pelo contrário. Qualquer clube está a olhar para aquele jogador e sabe automaticamente que aquilo que terá de pagar é salário e prêmio de assinatura, não tem de pagar nada a um qualquer clube. Portanto, não vejo que isso seja um problema. Há sempre aqui um risco, que é o risco de uma qualquer lesão para um jogador que não tem clube, diria que tem menos cobertura, digamos assim, mas em tudo o resto até pode ser um fator motivacional, porque é uma questão de jogar para o contrato e jogar para a última e derradeira oportunidade de poder ainda assinar por um grande clube europeu que lhe permita até poder entrar nos oitavos da Liga dos Campeões, que diria que era a hipótese que Ronaldo mais desejaria, embora seja nesta altura uma hipótese pouco provável.

E depois, em relação à seleção, repetem-se frases como "o grupo está blindado, o grupo está unido, as polêmicas não entram no grupo". Ora, estas frases parecem tiradas de um daqueles manuais de autoajuda ou podem ser ditas até por aqueles coaches mais ou menos famosos. Mas na prática, Bruno, e tu estás aí no Qatar, isto é mesmo assim? É possível blindar um grupo a todas estas polêmicas quando estamos a falar de Cristiano Ronaldo?

Sim, eu acho que tu resumiste muito bem essa questão. Isto faz parte de um dicionário e de um léxico de futebolês que entretanto foi sendo inventado durante todos os anos, estes últimos anos sobretudo. Faz parte também daquele dicionário onde falam do jogo a jogo, que também é outra expressão que vamos ouvir várias vezes nos próximos tempos. Acredito que o fato de Bruno Fernandes ser um dos capitães do Manchester United é uma situação que não pode passar ao lado.

"Estar minimamente preocupado com aquilo que será o futuro do clube, aquilo que serão as decisões do clube. O meu foco agora está no mundial, quero fazer o meu melhor a representar o meu país, porque sonhei muito com momentos como este."

Ou seja, uma coisa é defender-se e dizer: isto não afetou a relação e o ambiente que existe na seleção.

"Eu não reagi mal, eu ri-me. Agora, eu tive duas horas dentro de um avião, a minha boa disposição não estava tão boa como a dele. E ele acaba por explicar quando eu chego em Inglaterra, quando eu chego em Inglaterra para os treinos normais, também me costumo associar e estou sempre disponível para treinos."

Outra coisa é dizer: isto, pura e simplesmente, não mexeu nada. E isso terá sempre, obrigatoriamente, de mexer, porque o Bruno Fernandes é um dos capitães do Manchester United e tudo isto se passou entre um atual companheiro e capitão de seleção e também um seu antigo companheiro do Manchester United, que é o seu clube, e ele é um dos jogadores com maior responsabilidade. Também acredito que o Bruno Fernandes, antes de tudo isto acontecer, tivesse a percepção de que poderia acontecer ou que estava na iminência de acontecer, porque os jogadores também sentem isso, sabem como é a relação de um clube com o jogador, sabem como é que são as coisas no balneário e também se vão apercebendo. No meio disto tudo, há um paliativo que cura qualquer problema no futebol, que se chamam vitórias. Mas ao mesmo tempo, é o mesmo paliativo que se pode tornar uma doença ainda maior, caso essas vitórias não apareçam. E daqui a uma semana, provavelmente poderemos estar a falar de uma situação que está completamente arrumada, porque Portugal ganhou e está nos oitavos de final, conseguindo o primeiro lugar, ou de uma situação que propiciou um mau campeonato do mundo para Portugal. Isso é uma situação volátil, é normal do futebol. Agora, dizer que não mexeu em nada com o balneário, isso seria impossível, a não ser que os jogadores fossem completamente descomprometidos com os seus clubes, o que eu também não acredito.

E Bruno, Cristiano ainda é o capitão da seleção, ele é mesmo o pivô da equipa ou isto também já não é bem assim?

Não, em relação à seleção, ele é claramente o líder. Anda tudo em torno do Ronaldo, as conferências são em torno do Ronaldo. Eu diria que a própria abordagem das outras equipas ainda continua a ser muito à volta do Ronaldo, com essa nuance de haver cada vez mais armas da parte da seleção para conseguir ganhar jogos, e isso acaba por ser também um problema para os selecionadores contrários, que se têm de preocupar não só com o Ronaldo, mas também com toda uma equipa que tem cada vez mais qualidade e mais quantidade de opções. Eu diria que este plantel que o Fernando Santos traz até ao Qatar é provavelmente aquele que tem mais profundidade das últimas décadas. Não estou aqui a dizer se é melhor ou se é pior, mas que tem mais profundidade e um leque mais alargado de opções, é certamente. Mas Ronaldo continua no centro de tudo, seja em termos externos aquilo que nós vemos, seja também em termos internos. Agora, há também aqui um outro ponto que eu considero importante. Esta nova geração de jogadores que foi aparecendo é uma geração que cresceu de uma maneira diferente, que entrou no futebol ao mais alto nível com um contexto diferente. E, portanto, eles próprios, cada um também é um pouco um líder. Quando nós olhamos para um Bruno Fernandes, quando nós olhamos para um Bernardo Silva, quando nós olhamos para um Rúben Dias, cada um também tem o seu estilo de liderança. E, portanto, aquilo que faz é que a liderança do Ronaldo possa não ser tão importante como era, apenas e só pela característica e pela maneira de pensar desta nova geração de jogadores que foi chegando à seleção e que se foi consolidando, a maior parte deles, como titulares indiscutíveis. E essa, para mim, acaba por ser a única nuance, não beliscando o papel de liderança que o Ronaldo tem e vai continuar a ter enquanto estiver na seleção.

E a equipa também, o próprio torneio, o próprio mundial, precisam que Ronaldo ponha a cabeça a quase três metros do chão. Foi assim que fez ao serviço do Real Madrid quando marcou aquele gol contra o Manchester United, um daqueles gols mágicos do Ronaldo. Bruno, a cabeça de Ronaldo estará pronta para marcar gols a três metros acima do relvado ou não?

A cabeça do Ronaldo ainda está. O maior adversário que ele poderá enfrentar aqui é o mesmo adversário que lhe tem pregado algumas partidas nos últimos tempos, que se chama ansiedade. E diria que, mais uma vez, a importância do primeiro jogo e a importância de poder marcar poderia ser um paliativo para todos os eventuais fantasmas que pudessem aparecer. Há algo que, e estando aqui, toda a gente tem essa percepção. Ronaldo e Messi continuam a ser, de longe, os donos da bola e os senhores do futebol. Que ninguém tenha dúvidas disso. Não é por ter 37 anos, não é por estar a atravessar uma fase mais complicada na carreira, que a imagem que o Ronaldo tem junto dos adeptos do futebol saiu beliscada. Eu não sou um jornalista português no Qatar, eu sou um jornalista do país do Ronaldo no Qatar. Essa nuance Um exemplo prático muito rápido. Estando na zona mista do Polónia-México, que foi poucos minutos depois de ter saído o comunicado do United anunciando a rescisão, a preocupação dos jornalistas ingleses que estavam nessa zona mista, também à espera de alguns jogadores que jogam na Premier League, era saber quem é que vai à conferência de Portugal, quando é que o Ronaldo vai falar, quando é que é o jogo de Portugal. Automaticamente, tudo continua a girar à volta do Ronaldo, ainda para mais com esta notícia do acordo de rescisão com o United. Agora falta a parte desportiva e falta aquela parte, e agora recuo até ao primeiro campeonato do mundo que fiz em 2010, na África do Sul, quando ele diz: "Os gols são como o ketchup." É uma frase já antiga, que já vem desde o Bibota Fernando Gomes.

Os gols são como o ketchup. Quando aparece, aparece tudo de uma vez, por isso não estou preocupado.

E Ronaldo continua à procura desse primeiro gol para depois tudo o resto acontecer de uma forma natural e entroncar no contexto que ele tem aqui no Qatar, que é um contexto que ele há muito tempo não tinha.

Obrigado, Bruno, e cuidado com o ar-condicionado.

Obrigado. Eu venho prevenido para isso, porque a minha garganta já começa a dar sinais.

Bruno Roseira é o editor de desporto do Observador e enviado especial ao Qatar. Podemos ouvi-lo no Diário do Mundial, na Rádio Observador, também sempre disponível em podcast, e podemos também ler os textos que o Bruno assina nas reportagens e nas crônicas que estão publicadas no site do Observador. Destaque, por exemplo, para a entrevista a Carlos Queiroz, o selecionador do Irão. Vou ainda aproveitar este momento para reforçar uma ideia. Graças aos assinantes do Observador, é-nos possível estar no Qatar, onde podemos ver, ouvir e sentir o mundial. Assinar o Observador é muito importante para garantir um jornalismo independente e de qualidade. Esta foi a história do dia. A sonoplastia do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.